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Dando continuidade ao projeto “Espaço dos Leitores”, temos o prazer de publicar um texto enviado do nosso irmão e grande colaborador Da Ilha. O texto está com sua fonte original devidamente identificada e mantida.

VOCÊ JÁ OUVIU FALAR EM ÈLA?
 ÈLA – O PRINCÍPIO: O que é ou quem é ÈLA?

O que é: o princípio da ordem; aquele que mantém o mundo acertado e em ordem. ÈLA veio para a terra no ODU de OBARA OYEKU. Tentaremos neste trabalho passar para todo o significado deste princípio primordial que se chama ÈLA e que, sem ele, nosso mundo seria um caos total. Vamos ver por que.
A tradição oral nos passa que ÈLA é um princípio espiritual que não teve espaço para se tornar conhecido, pois foi dominado historicamente pelo aumento do número de divindades e senhores da cultura Yoruba. Em função disso ÈLA não foi definido.
Na tradição oral existem muitos que dizem que ele “é um dos muitos nomes atribuídos à IFA (ORUNMILA), e é descrito como o principal entre eles” ou que ” é o seu empregado de confiança”. Essas afirmações têm um fundo de verdade e nós vamos ver por que.
Existe uma forte ligação entre ÈLA e ORUNMILA, pois se ÈLA é o princípio da ordem, da retificação de destinos infelizes, ORUNMILA precisa deste princípio para cumprir o seu papel de grande preservador da felicidade e retificador de destinos infelizes, uma vez que podemos dizer que ordem significa felicidade, harmonia, paz e desenvolvimento. ÈLA é chamado de “aquele que mantém o mundo acertado”. Assim, podemos até fazer uma reflexão no sentido de que ÈLA é um princípio primordial onde ORUNMILA tem a sua origem. Podemos afirmar, portanto, de forma inquestionável, que ÈLA é uma emanação direta de OLODUNMARE.
ÈLA é chamado pela tradição oral de ÈLA OMO OSIN – “ÈLA é o preferido de OSIN” – o que é OSIN? Para o Yoruba, OSIN É O LÍDER DOS LÍDERES, ou seja, OLODUNMARE.
Vamos à criação. De acordo com a tradição, ORUNMILA desceu a terra para colaborar com ORISA-NLA nos afazeres de organizar a terra e colocar todas as coisas nos seus devidos lugares (ordem), logo, ÈLA seguramente estava presente. Para ilustrar esse papel, vamos transcrever uma história do ODU ODI IWORI;

ÈLA Iwòri ni kì jéki aiyé ra ‘jú; Nigbati aiyé Oba-‘lufe darú, ÈLA Iwòrì l’ o bá a tún aiyé rè se; Nigbàti awon o-dà-‘lè ìlú Akilà ba aiyé ìlu won jé, ÈLA Iwòri l’ o ba won tún u se; Nigbati òsán d’ òrun ni ilù Okèrèkèsè, Ti aiyé     ìlú nã di rúdurùdu Ti awon awo ibè bà a tì, ÈLA Iwòri l’ o ba Olúyori Oba ibè tún u se; Nigbàti élègbára bá nfé s’ ori aiyé k’ odò, ÈLA Iwòri ni’ ma dùdú ònà rè; ÈLA Iwori kì’ gb’ owó, ÈLA Iwòri ki’ gb’ obi, On l’ ó sì ntún ori ti kò sunwòn se.
ÈLA IWORI é quem salva o mundo da ruína. Quando o mundo de OBA LUFE tornou-se confuso ÈLA IWORI é aquele que restaurou a ordem Quando os depredadores de AKILA deterioram a cidade ÈLA IWORI é aquele que acertou as coisas para o povo, Quando o dia virou noite na cidade de OKEREKESE (Egito) E os sábios do lugar foram desviados. ÈLA IWORI foi aquele que trouxe a ajuda de OLUYORI, seu rei, como remédio, Quando ELEGBARA planejou virar o mundo de cabeça para baixo, ÈLA IWORI foi quem o obstruiu, ÈLA IWORI não recebe dinheiro, ÈLA IWORI não recebe OBI Ainda é ele quem retifica destinos infelizes.

Se nós aceitarmos que ÈLA é um princípio primordial, que estava presente no início da criação, estando no mundo e preenchendo-o de bons trabalhos, estabelecendo a ordem e colocando as coisas em seus devidos lugares, poderemos dizer que em um determinado momento o homem de alguma forma acordou de seu estado de “letargia” em um mundo perfeito e sem atropelos e neste momento se rebelou contra ÈLA, creditando a ele a responsabilidade de ter retardado o crescimento do mundo e então o difamaram. Em função disso, conta à tradição que ÈLA se ofendeu e ascendeu aos céus através de uma corda esticada. Foi somente assim que os habitantes do mundo perceberam que era realmente impossível viver sem ÈLA e assim, desde então, se tem rezado por suas bênçãos.
Vamos a outro verso: ÈLA s‘ ogbó, s‘ ogbó ÈLA s‘ ató, s‘ ató O f’ òdúndún s’ Oba ewé O f’ Irosùn s’ o run rè; O f’ Okun sOba omi O f’ osa sosòrun rè; A-s‘ – èhin-wa a- s‘-èhin-bò Nwon ni ÈLA kò s’ aiyé re; ÈLA b’ inu, o ta’ kùn, o r’ òrun; Omo ar’-aiyé tún wá nkigbe: ÈLA dèdèrè I’ ó mã sòkalè wa gb’ ùre. ÈLA dèdèrè

ÈLA realmente fez a velhice ÈLA realmente fez a vida longa Ele fez de ODUNDUN o rei das folhas Ele fez de IROSUN o seu sacerdote. Ele fez do oceano o rei das águas. Depois de tudo, e ao final, Eles pronunciaram que ÈLA havia conduzido o mundo pelo caminho certo. ÈLA se ofendeu, ele estendeu uma corda e subiu ao céu. Os habitantes do mundo mudaram de opinião e passaram a chamá-lo. ÈLA volte a nos abençoar ÈLA, volte!

Nessa linha ÈLA é referenciado como um libertador. Neste papel aparece a sua ligação com ESU. É sabido que ESU é a dinâmica de todas as coisas, instaura a desorganização geradora de uma nova ordem, num processo contínuo de desenvolvimento do mundo, a dinâmica que faz o mundo andar. Se considerarmos que ÈLA é o princípio da ordem e ESU provoca a desordem e se em algum momento imaginássemos que a desordem provocada por ESU levasse ao caos, somente a interferência de ÈLA como princípio poderia garantir uma nova ordem. Desse modo, podemos dizer que ÈLA trabalha juntamente com ESU, especificamente na tarefa de restabelecimento do equilíbrio.
ÈLA como princípio é de suma importância na vida dos sacerdotes em nossa religião, pois o papel dos sacerdotes é manter e/ou instaurar a ordem. Portanto como isso poderia ser feito sem a interferência de ÈLA?
Vamos à outra consideração: Realizar ÈLA significa carregar ISI. O que vem a ser isso. Vamos contar duas histórias para depois tentarmos concluir essa afirmação.
Existia uma localidade onde os reis não duravam mais de três anos e então eram substituídos – o próximo morreria antes de três anos e assim sucessivamente. A família de onde esses reis eram oriundos era muito rica e o poder era algo extremamente cobiçado, mas o fato da morte prematura era um empecilho para que eles quisessem se tornar reis. Foram consultar ORUNMILA e no jogo apareceu o ODU OGUNDA OFUN, significando que todos os reis têm um ORISA ao qual devem saber cultuar antes que lhes seja entregue o OPA.
Outra história trata de um Rei que num determinado tempo teve suas esposas (6), seus filhos e servos (7) contra ele; suas esposas não queriam mais se relacionar com ele; seus filhos voltaram às costas para ele, bem como seus servos. O rei revoltou-se e, munido de seu Opa e de uma espada, saiu à procura deles, que haviam fugido. O rei então falou que eles deveriam carregar ISI, sem o que não seriam perdoados. Os filhos então pegaram 4 inhames e ofereceram para o Rei (que era o próprio ORUNMILA). Prepararam o inhame e o levaram para o Rei, carregando-o na cabeça. O rei então disse que precisaria matar um deles; os filhos responderam que eles haviam feito o que ele havia pedido. O rei perguntou se era ISI macho ou fêmea. Eles responderam que era ISI feminino. Ele ouviu e não soltou o Opa e a espada. Eles pediram três vezes que ele os soltasse. O rei então respondeu:
“Onde vocês ouviram que esposas, servos e filhos não fizessem o que o Rei quer?”
“Assim, antes que eu largue o Opa e a espada, vocês têm que prometer carregar ISI sempre. Só assim eu os perdôo.”
ISI significa carrego de submissão e homenagem. Ou seja, curvar-se diante do sagrado, do superior, do maior. Para se falar em ordem temos que falar em respeito e homenagem, em submissão a um princípio maior que nos proporcionará a felicidade. Aprender que antes de tudo devemos agradecer louvar e cultuar.
ÈLA, por fim, é sempre invocado durante os cultos para que venha e abençoe os oferecimentos, tornando-os aceitáveis. ÈLA também é denominado como o princípio que inspira a aceitação de alguns sacrifícios; que inspira o culto correto e é por ele que a vida tem sido oferecida.
Para finalizar vamos transcrever uma cantiga de ESU:

ESÙ fi ire bò wá o. ÈLA fi ire bò wà yà yà. ESÙ gbè ire ajè kò wá o. ÈLA fi ire bò wà yà yà. IYA-MÒGÚN fi ire bò wà o. ÈLA fi ire bò wá yà yà.

ESU, faça nossas vidas plenas de coisas boas. ÈLA ponha muita sorte em nossas vidas. ESU ponha sorte e progresso em nossas vidas. ÈLA ponha muita sorte em nossas vidas. IYA MOGUN faça nossas vidas plenas de coisas boas. ÈLA ponha muita sorte em nossas vidas.

1999 – Todos os direitos reservados para IOC – INSTITUTO ORUNMILA DE CULTURA
Artigo publicado no INFORMATIVO do ILE ASE MARABO, Número IV, São Paulo – SP.

Por: LEILA CRISTINA ALBAMONTE POMPEO FERRARA – EFURO LOGUNLOWO

Prezados leitores

Um tema tão complexo quanto misterioso, minha idéia é sintetizar um mínimo entendimento sobre um dos Orôs mais respeitados e tradicionais nas casas de candomblé Ketu/Nagô, o ritual das “Águas de Oxalá”.

Esse ritual anual de purificação, renovação, pode ser considerado um “rito de passagem”, o fim e o começo, um novo ciclo, reverencia a presença da água, fonte primordial da vida, que se apresenta em todos os rituais da Religião dos Orixás. A Água é enobrecida na abertura do calendário, com os ritos de Orixan’lá, como procedência de Orí no Ayê – Iyá Omí Olorí – mãe de Orí, uma antiga divindade das águas, a deusa que se assenta na fonte de origem, simbolicamente, um banco, cadeira de espelho no umbigo do mar, no seio das águas, lugar simbólico da transformação. Mãe Ancestral. A celebração do Orixá é precedida de uma meticulosa preparação, interação e durante 16 dias.

Oxalá representa a pureza, Obatalá, O rei do Imaculado ou O rei do Branco, não existirá outra cor durante os 16 dias na liturgia das Águas se não, o “Branco,” dentro do terreiro e a todos que lá chegarem, a retidão e o silêncio tomarão conta do Axé, tudo deverá estar limpo, a preocupação com as roupas que deverão estar alvas, engomadas e perfeitas. Do portão de entrada do terreiro até a porta do barracão e demais dependências, será estendido sobre nossas cabeças uma peça ou mais de morim branco, cobrindo como um teto os Orís de todos. Na maioria das casas, o ritual começa na madrugada da sexta-feira com a confecção do baluwê (pequena cabana feita com bambús e de folhagens de coqueiros, pitombas, etc) o ajubó do Oxalá mais velho será posicionado sobre uma enorme bacia, outros assentamentos de Oxalá podem ficar ao lado acompanhando o velho Orixá, permanecerão até o 2º domingo das águas quando então Oxalufan volta para sua casa. Começará então a procissão de ir no rio ou na fonte pegar água fresca, cada um com seu pote, jarro ou quartinha sobre seus Orís para depois levarem até a cabana de Oxalá e lá a Iyalorixá ou Babalorixá estará esperando todos e em ordem hierárquica, receberá as quartinhas com água e lavará o Orí de cada um, colocando um Obí no Orí cobrindo-o com um ojá. Esse ritual é feito em todos que se encontrarem na casa, abians, iniciados e visitantes, sem excessão, o Orí se renova. Retorna-se ao rio ou fonte mais algumas vêzes dando seguimento ao osé de Oxalá.

O ritual em algumas casas mais tradicionais é feito em quatro momentos e seguida de três domingos subsequentes com festas e grande orô. Os domingos de festa cumprem uma etapa fundamental das obrigações, o ciclo se realiza ao se reviverem durante os 16 dias o caminho mitológico do Orixá nos três domingos e tudo começa na saudação a Orixan’lá bem cedo em em frente ao seu Ojubó na cabana, todos prostados com o Orí sobre os punhos em formato de pilão, rezando e saudando o Orí ( Orí Aperê o).

1º Domingo-Festa de Oduduwá (ancestralidade- A Terra).
O caminho do Orixá, a paz silenciosa toma conta de tudo, as roupas alvas, a alimentação sem sal por 16 dias o ajeum funfun estará presente. O ciclo do primeiro domingo se fechará num orô somente com Orixás funfun em roda e os omolorixás da casa no toque tradicional do batá em celebração a Oduduwa ao mais antigo Orixá funfun.

2º Domingo- Festa de Oxalufan (ancestralidade- O Alá).
Continua o preceito e neste dia bem cedo antes do xirê, os assentamentos, cabaças e axés voltam para sua “Casa”, ao som de cantigas e revoadas de pombos brancos soltos por egbomis, um grande Alá acompanha o Orixá em seu retorno que passará para reverencias no Ilê Ibô Akú (casa de antigos ancestrais) e também na casa ou quarto de Yemanjá. Terminado a caminhada em sua casa ou quarto, o Grande Oxalufan descansará e as Iyás arrumarão seu ajubó entoando cantigas em tom baixo em respeito e devoção. Mais tarde na festa, o xirê se repetirá em roda, muito Ebô, o rítmo Igbí, Babá Daribô com seu Opaxorô nos brindará dançando ao som de cantigas toda sua odisséia.

3º Domingo- Festa de Oxaguian (Ancestralidade- O Pilão).
Orisagiyan é o Elemoaxó funfun, cantigas mais aceleradas e a dança do Guerreiro do universo, do Pai Senhor da Guerra à Paz. Aparecem as contas com seguí, símbolo que o dignifica como único Orixá funfun Ajagunan. A raiz de inhame é o elemento que se apresenta da cozinha direto para o barracão, como prato do preceito, em bolas de inhame pilado, alimento de expansão do Axé, o simbolismo da Tradição dos Orixás. . Cantigas lembraram os ritos do atorí e vários atoris são distribuidos pela Iyalorixá ou Babalorixá que dá início tocando em Oxaguian e depois vão tocando uns aos outros na roda de forma hierárquica em que do mais velho Oxalá ao mais novo iniciado da casa participam até que todos tenham sido tocados por Oxaguian. O ciclo e todas as festividades das Águas de Oxalá, de renovação da existência e expansão do Axé será encerrado formando novamente a roda e fazer o encerramento com a cantiga em reverencia Olodumare.

Axé.

Por Fernando D’Osogiyan

Pesquisa no livro de Maria das Graças de Santana Rofrigué- Orí Aperê – Mestre em Ciência da Religião PUC-SP. Pedagoga pela Universidade Católica de Salvador- Omolorixá do Asé Opo Afonjá-Bahia

Acervo cultural Asé Òsòlùfón-Íwìn-Guapimirim/RJ

Os caminhos de uma Abian

Dando continuidade e jus à categoria criada, nós temos o imenso orgulho de publicar no espaço dos leitores as palavras de puro coração de uma abian que, se seguir por estes caminhos que ela vem seguindo, será uma iyawô exemplar e uma religiosa bem necessária para o futuro da nossa religião.

Aline, parabéns pelo seu amor e sua benção, minha irmã.

abia

Eu sou uma abian e sou uma abian feliz. Estou começando a frequentar a casa de santo onde irei me inciar de uns meses pra cá e devo entrar pra fazer santo entre janeiro e fevereiro (aliás, Fernando e Nelson já sabem que foram “intimados”, assim como o resto do povo do RJ, para a saída de Logunede). Mas ó, eu me sinto tão feliz, tão contente por ser abian… Pelo menos na casa que frequento, uma casa de Ketu, eu sou quase paparicada (risos): tem sempre alguém ao meu lado me ajudando, me ensinando a fazer alguma coisa, me perguntando se está tudo bem comigo, se estou precisando de alguma coisa… Se assisto a um ebori, ou algo sem tanto fundamento, sempre um egbomi fica ao meu lado para me explicar o que está acontecendo, me dizendo o porquê, o motivo…

Em alguns momentos, sinto medo de fazer santo: ficar careca, ficar 3 meses de kele, não abraçar meu marido, sentar no baixo, dormir na esteira, não me depilar, usar leite de rosas no lugar do desodorante, ficar sem os meus creminhos antiidade diversos (povo de Logunede tem um medo tão grande de envelhecer… ), andar na rua com o kele escondidinho, enroladinho num pano branco, ou com uma echarpe branquinha o cobrindo… Nossa, chega a me dar PAVOR! Além disso, sou casada e o pior de tudo: meu marido não gosta de Candomblé, não entende nada, mas respeita profundamente a minha decisão.

Mas são nessas horas que eu penso em Logunede. Penso no amor por Ele, penso na relação maravilhosa que estou construindo com o meu Orixá e coloco algumas coisas na balança. Sabe, Orixá nenhum vai me matar, me aleijar ou me “cobrar” de forma alguma se eu não fizer santo. Mas eu sei que, em algum momento antes de nascer, lá no Órun (céu), eu firmei um pacto: eu disse a Logunede que eu queria atravessar as dificuldades da minha vida de mãos dadas com Ele, para que Ele me carregasse no colo quando eu não tivesse forças para andar com as minhas pernas. E nesse momento, minhas próprias idéias se clareiam, a mente “desanuvia” e eu vejo que não há sacrifício nenhum em ser uma Iyawo, em ter minha cabeça raspada e cumprir 3 meses de kele e 1 ano de resguardo para alguns preceitos.

Nesse momento eu lembro que as coisas das quais eu me resguardo durante o tempo de preceito, são energias que eu deixo de absorver. Sabe, tudo no mundo é troca de energias, e, quando eu me preservo de algumas coisas, quando eu me resguardo de algumas coisas, eu evito absorver uma energia menos positiva que a do meu Orixá, ou até mesmo uma energia realmente negativa, e acumulo dentro de mim, apenas a energia linda, positiva e fantástica que o meu Pai compartilhará comigo a partir do momento da iniciação. Também conversei de forma muito longa e profunda com o meu marido, e disse para ele que a iniciação e o resguardo que são pedidos são apenas para trazer coisas boas para a minha vida e, consequentemente, se eu estiver melhor, se a minha energia estiver melhor, a nossa vida em família, como um todo, também estará melhor. E Logunede, em Sua sabedoria, também arrumou diversas maneiras de mostrar ao meu marido que Ele só quer o melhor para mim e, consequentemente, o melhor para mim acaba sendo o melhor para nós dois.

Ser abian é fantástico para mim: estou aprendendo, estou fazendo um curso de Religiosidade Africana, que é pra me iniciar numa religião tendo total e completa certeza do que é Candomblé e do que eu quero. Estou curtindo a fase de “namoro” com o meu Orixá: não me interessa a qualidade dele, apenas que Ele é uma energia única, fantástica, soberana na minha vida. Estou O conhecendo. E estou sofrendo uma ansiedade gostosa, louca para me iniciar, tendo certeza que, não importa o caminho: o que importa é que a colheita dos frutos junto ao meu Pai será linda, será farta, será de enorme retorno para mim.

Acredito que ser abian é o momento de perguntar TUDO, de falar, de me informar, de ouvir até mesmo do Nelson um “nem sob tortura”, quanto às minhas perguntas q serão respondidas após a iniciação. Ser abian, pelo menos na casa que eu frequento, é ser um feto, se preparando para nascer, se preparando para BI (verbo nascer em Ioruba), e para nascer, se precisa aprender a viver depois disso. Se você não está à vontade, converse com o seu Babalorixá: ele é seu zelador, zelador do seu Orixá. Diga a ele que se sente de lado, que isso a magoa: se ele não puder resolver, você terá feito a sua parte. Não importam cargos nesse momento: o que importa é uma conversa franca e honesta sobre os seus sentimentos. A ausência dela pode causar um arrependimento depois da iniciação, por não ser tratada da maneira que se esperava e isso pode gerar uma frustração até mesmo com o próprio Orixá / Vodum / Nkise, mesmo quando sabemos q o nosso ancestral não tem nada a ver com os erros dos que nos cercam.

Ser abian para mim é o tempo de conhecer a religião e me apaixonar pelo meu Orixá.

Eu amo esse espaço enormemente e sei que vocês sabem disso. Obrigada por manterem o blog funcionando!! Vocês são incríveis!!

Que Logunede abençõe a todos nós!

Beijos no coração!!

Aline Leonardo.

Ilé Axé Oxumarê – Casa de Oxumarê, Sociedade Cultural, Religiosa e Beneficente São Salvador, localizada na Avenida Vasco da Gama, 343, bairro da Federação, antiga Mata Escura, Salvador, Bahia. Foi fundada inicialmente no Calundú do Obitedó, Cachoeira, Recôncavo baiano.

Tombado pelo IPAC – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia em 15/12/2004.[1]

História

Casa de Oxumarê, Associação Cultural e Religiosa São Salvador – Ilê Oxumarê Araká Axé Ogodô, fundada por Manoel Joaquim Ricardo, Babá Talabi, entre o final do século 18 e inicio do séc.19, tem suas origens ligadas no culto à Ajunsun, praticado no Calundu do Obitedó, em Cachoeira – Ba. É considerada uma das casas mais antigas de candomblé abertas em Salvador. Localizada, atualmente, no bairro da Federação, com acesso também pela Av. Vasco da Gama, a Casa de Oxumarê foi reconhecida como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC, em 15 de dezembro de 2004.
A Casa de Oxumarê já teve o seu axé fincando em diversos locais. Inicialmente, entre os séculos XVIII e XIX, Manoel José Ricardo, Babá Talabi realiza o culto a Ajunsun, no Calundu do Obitedó, na cidade de Cachoeira, Bahia. Este é o marco de fundação da Casa de Oxumarê. Em 1830, registros documentais comprovam que a Casa de Oxumarê já realizava as suas atividades religiosas no bairro da Cruz do Cosme (atual bairro do Pau Miúdo), em Salvador. Para fugir das constantes perseguições, Antônio de Oxumarê transfere o Axé da Casa para o, então distante, bairro da Mata Escura, atual bairro da Federação.

As mudanças de locais de funcionamento da Casa de Oxumarê são fruto da sua resistência e a busca de assegurar a integridade dos seus filhos e filhas de santo. Contabilizando o seu nascimento no Calundu do Obitedó, a passagem pela Cruz do Cosme, e sua permanência na Mata Escura, atual bairro da Federação, a Casa de Oxumarê tem mais de 200 anos de existência.
[editar] Babalorixás e Iyalorixás

* 1 – Manoel Joaquim Ricardo – Babá Talábi de Ajunsun – Africano da Costa, funda o Ilê Oxumarê ainda em Cachoeira, no final do século XVIII. Morre em 20 de junho de 1865;
* 2 – Antônio Maria Belchior – Babá Salakó de Sangò – Conhecido como Antônio das Cobras – Nasce em 1839, é iniciado aos 6 anos, em 1845. Em 1863 assume a casa de Oxumarê, aos 24 anos. Falece, aos 65 anos, em 14 de janeiro de 1904, depois de administrar a Casa por 41 anos;
* 3 – Antônio Manuel Bonfim – Babá Antônio de Oxumarê – Conhecido como Cobra Encantada, em alguns momentos também denominado de Antônio das Cobras – Nasce em 1879, aos 7 anos, em 1886 é iniciado por Babá Salakó. Em 1904, aos 25 anos, assume a casa. Aos 45 anos, em 16 de junho de 1926, falece. Administra a casa por 22 anos;

* 4 – Maria das Merces dos Santos – Yá cotinha de Yewá – Nasce em 1886, aos 19 anos, em 1905 é iniciada. Aos 41 anos, em 1927 assume a casa e administra por 21 anos. Falece em 22 de junho de 1948, aos 68 anos;

* Mãe Francelina de Ogun

* 5 – Simplícia Brasiliana da Encarnação – Yá Simplicia de Ogum – Nasce em 2 de março de 1916, é iniciada aos 21 anos, em março de 1937. EM 1953, aos 37 anos, assume a Casa. Falece ao 51 anos, em 18 de outubro 1967. Dirigiu a Casa por 14 Anos;

* No período de 1967-1974 a casa ficou sem atividades.

* 6 – Nilzete Austricliano da Encarnação – Yá Nilzete de Yemanjá – Nasce em 28 de fevereiro de 1937. Aos 28 anos, em 14 de dezembro de 1965 é iniciada. Aos 37 anos, em 1974, assume a liderança da Casa. Falece aos 53 anos, em 30 de março 1990, após 16 anos de gestão;

* 7 – Sivanilton Encarnação da Mata – Babá Pecê de Oxumarê – Nasce, em 30 de agosto de 1964 e é iniciado com menos de 2 anos, em 14 de dezembro de 1965. Em 1991, assume a casa com 27 anos. Mais de 20 depois, ainda é a maior liderança da Casa.

Recentemente a Lei Estadual 8.297 de 30 / 07 / 2002 declara de Utilidade Pública a Casa de Oxumare, lei esta promulgada pela Presidência da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia.

Apoios oferecidos pela Prefeitura Municipal de Salvador:

Reforma do telhado do barracão – gestão da Prefeita Lidice da Mata;
Escadarias e contenções – gestão do Prefeito Fernando Wilson Magalhães;

Informações do site da Casa do Oxumare.

OS PRIMEIROS TERREIROS DE CANDOMBLÉ
por: Pierre Fatumbi Verger

A instituição de confrarias religiosas, sob a égide da Igreja Católica, separava as etnias africanas. Os pretos de Angola formavam a Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo, fundada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho. Os daomeanos (gêges) reuniam-se sob a devoção de Nosso Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos, na Capela do Corpo Santo, na Cidade Baixa. Os nagôs, cuja maioria pertencia à nação Kêto, formavam duas irmandades: uma de mulheres, a de Nossa Senhora da Boa Morte; outra reservada aos homens, a de Nosso Senhor dos Martírios.
Essa separação por etnias completava o que já havia esboçado a instituição dos batuques do século precedente e permitia aos escravos, libertos ou não, assim reagrupados, praticar juntos novamente, em locais situados fora das igrejas, o culto de seus deuses africanos.
Várias mulheres enérgicas e voluntariosas, originárias de Kêto, antigas escravas libertas, pertencentes à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha, teriam tomado a iniciativa de criar um terreiro de candomblé chamado Iyá Omi Àse Aira Intilè, numa casa situada na Ladeira do Berquo, hoje Rua Visconde de Itaparica, próxima à Igreja da Barroquinha.
As versões sobre o assunto são numerosas e variam bastante quando relatam as diversas peripécias que acompanharam essa realização. Os nomes dessas mulheres são eles mesmos controversos. Duas delas chamadas Iyalussô Danadana e Iyanassô Akalá, segundo uns, e Iyanassô Oká, segundo outros, auxiliadas por um certo Babá Assiká, saudado como Essá Assiká no padê do qual falaremos mais tarde, teriam sido as fundadoras do terreiro de Ase Aira Intilè. Iyalussô Danadana, segundo consta, regressou à África e lá morreu. Iyanassô teria, pelo seu lado viajado a Kêto, acompanhada por Marcelina da Silva. Não se sabe exatamente se esta era sua filha de sangue, ou filha espiritual, isto é, iniciada por ela no culto dos orixás, ou ainda, se se tratava de uma prima sua. As opiniões sobre o assunto são controversas e tornamse obejto de eruditas discussões, estando porém todos de acordo em declarar que seu nome de iniciada era Obatossí.
Marcelina-Obatossí fez-se acompanhar nessa viagem por sua filha Madalena. Após sete anos de permanência em Kêto, o pequeno grupo voltou acrescido de duas crianças que Madalena tivera na África, e grávida de uma terceira, Claudiana, que será por sua vez mãe de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Miua, da qual tive a insigne honra de tornar-me filho espiritual.
Ianassô e Obatossí trouxeram de Kêto, além dessas filhas e netas, um africano chamado Bangboxé, que recebeu na Bahia o nome de Rodolfo Martins de Andrade, e, no padê ao qual me referi acima, é saudado como Essá Obitikô.
O terreiro situado, quando de sua fundação, por trás da Barroquinha mudou-se por diversas vezes e, após haver passado pelo Calabar na Baixa de São Lourenço, instalou-se sob o nome de Ilê Iyanassô na Avenida Vasco da Gama, onde ainda hoje se encontra, sendo familiarmente chamado de Casa Branca do Engenho Velho, e no qual Marcelina-Obatossí tornou-se a mãe-de-santo após a morte de Iyanassô.
Verifica-se ligeira divergência na versão dada por Dona Menininha relativa às origens dos terreiros provenientes da Barroquinha. O nome de Iyalussô Danadana não é mencionado. A primeira mãe-de-santo teria sido Iyá Akalá (distinta de Iyanassô), que, tendo regressado à África, aí mesmo veio a falecer. A segunda mãe-de-santo teria sido Iyanassô Oká (e não Akalá).
Não se sabe com precisão a data de todos esses acontecimentos, pois, no início do século XIX, a religião católica era ainda a única autorizada. As reuniões de protestantes eram toleradas só para os estrangeiros; o islamismo, que provocara uma série de revoltas de escravos entre 1808 e 1835, era formalmente proibido e perseguido com extremo rigor; os cultos aos deuses africanos eram ignorados e passavam por práticas supersticiosas. Tais cultos tinham um caráter clandestino e as pessoas que neles tomavam parte eram perseguidas pelas autoridades.
Por volta de 1826, a polícia da Bahia havia, no decorrer de buscas efetuadas com o objetivo de prevenir possíveis levantes de africanos, escravos ou livres, na cidade ou nas redondezas, recolhido atabaques, espanta-moscas e outros objetos que pareciam mais adequados ao candomblé do que a uma sangrenta revolução. Nina Rodrigues refere-se a certo quilombo, existente nas matas do Urubu, em Pirajá, “o qual se mantinha com o auxílio de uma casa de fetiche da vizinhança, chamada a Casa de Candomblé”.
Um artigo do Jornal da Bahia, de 3 de maio de 1855, faz alusão a uma reunião na casa Ilê Iyanassô: “Foram presos e colocados à disposição da polícia Cristovão Francisco Tavares, africano emancipado, Maria salomé, Joana Francisca, Leopoldina Maria da Conceição, Escolástica Maria da Conceição, crioulos livres; os escravos Rodolfo Araújo Sá Barreto, mulato; Melônio, crioulo, e as africanas Maria Tereza, Benedita, Silvana… que estavam no local chamado Engenho Velho, numa reunião que chamavam de candomblé”. É curioso encontrar nesse documento o nome, pouco comum, de Escolástica maria da Conceição, o mesmo com o qual seia batizada, trinta e cinco anos mais tarde, Dona Menininha, a famosa mãe-de-santo do Gantois, cujos pais, a essa época, sem dúvida, frequentavam ou faziam parte do terreiro de Ilê Iyanassô, onde houve essa ação policial.
Com a morte de Marcelina-Obatossí, foi Maria Júlia Figueiredo, Omonike, Iyálódé, também chamada Erelu na sociedade dos geledé, que se tornou a nova mãe-de-santo. Isso provocou serias discussões entre os membros mais antigos do terreiro de Ilê Iyanassô, tendo como consequência a criação de dois novos terreiros, originários do primeiro; Júlia Maria da Conceição Nazaré, cujo orixá era Dàda Báayànì Àjàkú, fundou um terreiro chamado Iyá Omi Àse Ìyámase, no Alto do Gantois, cuja mãe-de-santo atual, e quarta a ocupar este lugar, é Dona Escolástica Maria da Conceição nazaré, “Menininha”, a última das famosas mães-de-santo da antiga geração. Segundo Menininha, Júlia da Conceição Nazaré, fundadora do Terreiro do Gantois, teria sido a irmã-de-santo, e não filha-de-santo, de Marcelina-Obatossí. Uma personagem importante nos meios do candomblé, chamada Babá Adetá Okanledê, consagrada a Oxóssi e originária de Kêto, teria tido um papel importante quando foi criado o Terreiro do Gantois, Iyá Omi Àse Ìyámase.
Eugênia Ana Santos, Aninha Obabiyi, cujo orixá era Xangô, auxiliada por Joaquim Vieira da Silva, Obasanya, um africano vindo do Recife e saudado Essá Oburô, no Padê ao qual já fizemos alusão, fundaram outro terreiro saído do Illé Iavanassô e chamado “Centro Cruz Santa do Axê de Opô Afonjá”, que foi instalado, em 1910, em São Gonçalo do Retiro, depois do Axê ter funcionado provisoriamente no lugar denominado Camarão, no bairro do Rio Vermelho.
Sob o impulso desta grande Mãe de Santo, o novo terreiro rapidamente igualou – e talvez, mesmo, tenha ultrapassado – em reputação os outros candomblés Kétu.
Maria da Purificação Lopz, Tia Bada Olufandeí, sucedeu, em 1938, a Aninha e deixou, em 1941, o encargo do terreiro a Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora Oxunmiwá, filha espiritual de Aninha Obabiyi.
Pelo jogo complicado das filiações, Senhora era bisneta de Obatossí por laços de sangue e sua neta somente por laços espirituais da iniciação. Em outros termos, Iyanassô Akalá (ou Oká) foi, na geração anterior, ao mesmo tempo, a bisavó e a trisavó de Senhora. As coisas tornaram-se mais complicadas ainda quando Senhora recebeu, em 1952, o título honorífico de Iyanassô, dado pelo Alafin Oyó da Nigéria, por intermédio de uma carta de que tive a honra de ser o portador. Senhora, abolindo o tempo passado, graças a esta distinção, tornou-se espiritualmente a fundadora desta família de terreiros de candomblé da nação de Kétu, na Bahia, confirmando tão elevada posição em 1962, quando foi presidir, seguida de seus Ogans (onde figuravam os colaboradores desta obra, Carybé, Jorge Amado, Waldeloir Rêgo e eu mesmo), o Axexê ou cerimônia mortuária da saudosa, e mais que centenária, Mãe de Santo do Ilê Iyanassô da Casa Branca do Engenho Velho, Maximiana Maria da Conceição, Tia Massi Oinfunké.
Esta dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os “fuxicos”que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a este pequeno mundo, cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos fundamentados sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; neste mundo onde o beija-mão, as curvaturas, as respeitosas inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na Corte do Rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras do bom tom reinam ainda soberanamente.
Após o desaparecimento da saudosa Mãe Senhora, em 1967, duas novas Mães de Santo lhe sucederam à frente do Axê Opô Afonjá. A atual Maria Estella de Azevedo Santos, Odé Kayodê, retornando a tradição de Iyanassô e de Obatossí, foi fazer uma viagem às fontes, na Nigéria e no ex-Daomé.
Após a morte de Senhora, outros terreiros foram criados, originários todos do Axê Opô Afonjá formando uma terceira geração desta família de candomblés que nasceu na Barroquinha. Citemos o Axê Opô Aganju, de Balbino Daniel de Paula, Obaraim, que viajou para África e aí participou das festas para Xangô, com perfeita naturalidade, como se sua família não houvesse deixado aquele país há várias gerações.
Existem numerosos outros terreiros que seguem o ritual Kétu, como o do Illé Mariolajê no Matatu, mais conhecido sob o nome de Alaketu, cuja Mãe de santo atual, Olga de Alaketu, já foi várias vezes à África. Citemos, ainda, o terreiro de Ilé Ogunjá, também no Matatu, do falecido Pai de Santo Procópio Xavier de Souza, Ogunjobí.
Ao lado dos terreiros Nagô-Kétu, há na Bahia os da nação Igexa. O mais digno dentre eles é o de Eduardo Igexa, ou Eduardo Antônio Mangabeira, meio-irmão de Otávio Mangabeira, que foi governador do Estado da Bahia. Durante a década de 50 ele enviou cartas redigidas em perfeito Yorubá a seu distante parente, o Rei de Igexá, que as recebeu de minhas mãos bastante emocionado. Os terreiros Gegê, onde se praticava o culto dos Voduns do Daomé, eram mais raros. O mais conhecido era o do Bogum, da falecida Emiliana Piedade dos Reis, à qual sucedeu a falecida Valentina Maria dos Anjos, Mãe Runhó.
Os cultos Gegê e Nagô se fundiam em terreiros como o de Oxumaré, na Rua Vasco da Gama, dos falecidos Antônio de Oxumaré, Cotinha e Simpliciana.
O ritual dos cultos de origem Bantu era inicialmente diferente das cerimônias Nagôs e Gegês. Misturaram-se, depois, tornando-se bastante próprios. A originalidade destes cultos Bantus é difícil de definir. Não se sabe se os rituais Gegê e Nagô foram ou não influenciados por escravos do Congo e de Angola, já presentes no Brasil em grande quantidade, no final do século XVII. Relações mais constantes estabeleceram-se nos séculos posteriores, entre Bahia e Pernambuco e a Costa dita dos Escravos; a maioria dos cativos desembarcados nestas duas províncias era constituída, então, pelos Gegês e Nagôs (Daomeanos e Yorubás).
Expusemos, em outras obras, as razões comerciais criadas pela presença do fumo na Bahia e em Pernambuco, razões que determinaram a afluência dos Gegês e dos Nagôs a estas duas regiões, a partir do século XVIII, e não às outras partes do Brasil, onde os Congos e Angolas continuaram a ser importados em grande proporção.
A palavra candomblé, que serve para designar, na Bahia, as religiões africanas em geral, parece ser de origem Bantu. É possível que as influências das religiões vindas destas regiões não se restringissem, apenas, ao nome dado às cerimônias, mas tivessem dado aos cultos Gegê e Nagô na Bahia uma forma diferente, em certos detalhes, destas mesmas manifestações na África.
Um estudo em separado do ritual Bantu é tarefa bastante difícil, pois seria necessário fazê-lo em diversos pontos do Brasil, em lugares onde esta influência Gegê-Nagô não se tivesse feito sentir. Na Bahia, temos que nos contentar com a presença de alguns cantos e rítmos de tambores. Seria necessário, também, localizar os termos Bantus ainda conhecidos, termos estes que os participantes de terreiros Bantus têm tendência a exprimir no seu equivalente Nagô, seja por espírito de discriminação, seja para falar numa língua compreensível aos seus interlocutores.
Existem na Bahia o terreiro Congo do falecido Manoel Bernardino da Paixão, o Bate Folha, no bairro de Beiru; o terreiro Angola da falecida Maria Neném do Tumbeuci, também no Beiru, e o de seu Filho de Santo, o falecido Manoel Ciríaco de Jesus, o Tumba Juçara, no Alto do Corrupio, hoje sob a direção da Mãe de Santo Dere.
Destaquemos, finalmente, o caso do falecido Pai de Santo João Alves de Torres, mais conhecido como Joãozinho da Goméa, que deve seu renome ao Caboclo Pedra Preta, e cujo culto, realizado à maneira africana, era dedicado aos ancestrais indígenas, Senhores desta Terra do Brasil. Iniciado no ritual Angola por Jubiabá, Joãozinho for herdeiro de uma Yansã e se orientou, cada vez mais, em direção ao ritual Nagô. Este caso nos parece típico da ascendência exercida pelo ritual Nagô sobre as religiões de etnias diferentes.
Na própria África, as religiões Bantus parecem centradas sobre uma série de devoções aos ancestrais de um grupo familiar reduzido e não sobre o culto de deuses ligados às forças da natureza. É possível que existissem estes tipos de cultos, mas, na Bahia, eles tomaram uma forma bem próxima da concepção Yorubá.

Texto adpatado

Entrevistado por Bruno Hoffmann para revista Almanaque Brasil, Zulú Araújo, despertou para importância da luta contra o racismo ao ouvir do seu pai, semianalfabeto: “Preto só é gente se estudar”. Mesmo tendo sido sempre o melhor aluno por onde passou, esse baiano não conseguiu escapar da discriminação racial. Logo percebeu que para que a situação do negro pudesse mudar, o País teria também que se transformar. Formado em arquitetura, decidiu fazer do combate ao racismo o seu principal objetivo de vida. Hoje é presidente da Fundação Palmares, entidade governamental que trabalha para incluir o negro de fato na sociedade brasileira. Zulu comemora os avanços das políticas afirmativas, principalmente das polêmicas cotas raciais que, em sete anos, colocaram mais negros em universidades públicas do que em toda a história do Brasil. Mas sabe queo trabalho é árduo, pois, como diz,” nenhuma elite do mundo, branca ou preta, quer perder privilégios”. Diante da urgência em corrigir distorções históricas, conclui: “A sociedade precisa entender que a inclusão dos negros é boa para todos”.

Qual é a gênese do racismo brasileiro? Elê é fruto de um processo complexo. A colonização feita pelos portugueses foi distinta da empreendida por espanhóis e anglo-saxões. A colononização portuguesa se deu, entre aspas, ” dentro da promiscuidade”. Aqui ocorreu o período de escravidão mais longo do mundo: dos nossos 510 anos, 4/5 foram de escravidão. O mesmo que 385 anos, quase 400 anos. É evidente que há uma sociedade conformada dentro do processo escravizador. O Olhar direcionado ao negro sempre o projetou como menor. Primeiro pela cor da pele, de origem africana, e também porque era ele quem trabalhava. A elite portuguesa sempre raciocinou que ser rico e poderoso estava relacionado com o não trabalho, com o ócio, diferentemente do pensamento de outras elites. O racismo foi naturalizado ao extremo. Sempre foi comum o negro ouvir: ” Se comprenda, rapaz. Procure o seu lugar”. nem se davam ao luxo de dizer qual era o nosso lugar. Não era preciso ser dito: era na senzala, na cozinha, como lixeiro, como pedreiro. Esse era o lugar próprio, de subserviência e subalternidade. Quais são os reflexos dessa cultura? No Brasil sempre houve uma escala cromática para se livrar de ser negro. Quando fui tirar minha carteira de identidade, aos 12 anos, e disse queera preto, a moça se recusou a registrar a informação: ” Pelo amor de Deus, você não é preto, não faça uma coisa dessa com você”. No Brasil há essa escala cromática: o branco, o preto, o pardo, o escurinho, o moreninho, o cor de jambo… Nosso racismo não tem nada a ver com a nossa ascendência. É um racismo fenotípico. Quando mais próximo da cor escura, mais excluído. Mas branco é branco. Porque ser branco, no Brasil, é se aproximar do sucesso, da civilidade, da beleza. Tanto que a mulher negra bonita deixou de ser negra e se tornou mulata. É um tipo de racismo muito próprio, então? Sim. E ao enfrentar o racismo, é preciso entender a complexidade do racismo brasileiro. Não podemos responsabilizar os brancos de hoje, mas também não podemos esquecer o passado. É preciso de medidas corretivas capazes de tornar as oportunidades iguais. Aí a condição do negro tem de prevalecer. Nenhum outro pobre foi escravizado no Brasil que não o negro. Italianos, alemães, japoneses…Nenhum.

A escravidão no Brasil foi um processo extremamente inteligente sob o ponto de vista do colonizador. Para enfraquecer a resistência., comoçou-se desagregando a estrutura familiar. Ao chegar ao Brasil, o pai ia para Bahia, a mãe para São Paulo, o filho para o Rio Grande do Sul. Além disso, misturavan-se negros de várias etnias, com estruturas linguísticas totalmente diferentes. Também havia a eliminação do sobrenome, além de uma enorme violência. Diante de tentativas de lutar contra a escravidão, houve processos violentíssimos, como no quilombo de Palmares. Lá 20 mil negros e alguns brancos foram assssinados em 1685 por lutarem bravamente pela liberdade. sabe qual é a dimensão desse número de mortos hoje? Um milhão de pessoas. É o mesmo que entrar numa cidade e matar um milhão de pessoas. Zumbi dos Palmares recebe o mesmo tratamento de heróis nacionais como Tiradentes? Zumbi está na galeria dos heróis nacionais., mas, depois de muita luta. Por muito tempo foi tratado como marginal. Até hoje é celebrado muito mais pelos negros. Defendemos que o dia de Zumbi seja considerado um feriado nacional, coisa que ainda não é, diferentemente de Tiradentes. Uma pessoa que morre por 20 mil pessoas, que fazemde tudo para esconder sua presença na nossa história e continua com toda essa importância 300 anos depois…Sem dúvida se trata de um herói nacional. Falta torná-lo um herói de todos. O Processo de abolição no Brasil foi diferente do de outros países? No Brasil deu-se um processo planejado de exclusão. Depois da abolição houve um incentivo de um movimento maciço de imigração de europeus e asiáticos, apoiados por intelectuais como Nina Rodrigues, que dizia quera fundamental embraquecer o País, pois a majoritária presença negra era vista como responsável pelo apobrecimento da nossa sociedade. Não houve nenhum processo de inclusão do negro após a abolição. nenhum.

Na Bahia, em 1920,havia ádido para negro não ir a escola, porque diziam que os negros promoviam badernas e intranquilidades. isso ocorreu muito recentemente, há menos de 100 anos. Há dados do IBGE e do IPEA que atestam que as assimetrias entre negros e brancos continuaram com a mesma distância, paralelas, de 1888 a 1988. As primeiras mudanças só ocorreram com a entrada do sistema de cotas iniversitárias em 2003. As cotas estão sendo bem-sucedidas? Sem dúvida. A presença dos negros nas faculdades brasileiras sempre foi ínfima. Com as cotas raciais e o ProUni, que existem desde 2003, houve a entrada de mais negros no ensinio superior de que no período entre 1808 e 2002. Por que persiste alguma resistência a esse sistema? Não acho que a população seja contra. Numa pesquisa, 68% das pessoas se declararam favoráveis às cotas. sabe o que um articulista da Folha de São Paulo disse ao comentar a pesquisa? ” Ainda temos tempo de mudar essa situação”.

Apesar de haver um bombardeio nos últimos cinco anos de todos os grandes órgãos de imprensa contra cotas, neste ano a pesquisa deu 66,5% das pessoas continuam favoráveis a elas. Isso não é divulgado. A população não é contra as cotas. Quem é contra é uma classe média alta que se consideram herdeiras divinas dos privilégios e da melhor parte da sociedade. Como está o atual momento de discussão? O debate sobre a inclusão racial é fundamental. As provas são contundentes nesse aspecto. O que ocorreu no leste europeu sobre a questão étnica? Sérvios, Montenegrinos, Croatas e Albaneses se mataram devido a uma questão étina que não foi resolvida. Em Ruanda, Hutus e Tutsis também se mataram. Tudo preto no Branco. Ou a questão étnica é resolvida do ponto de vista cultural e social ou ela explode de maneira trágica e cruel. O que vivemos hoje é um processo de discussão de reflexão e de avanço para superarmos a tragédia de quase 400 anos de escravidão no Brasil. Desfizeram-se alguns mitos? Há dados maravilhosos. Primeiro:destruiu-se o mito de que elas iriam reduzir a meritocracia na universidade. As pesquisas comprovam que a maioria absoluta dos alunos cotistas é superior ou igual à média dos outros alunos. A evasão escolar é menor, mesmo vindo de base mais frágil do que a dos não cotistas.

Praticamente não houve casos de tensão racial nas faculdades. Nada daquilo que se disse que iria acontecer com a entrada dos negros cotistas aconteceu. Todos os medos caíram, além de haver dados excepcionais. Hoje há aproximadamente 400 mil jovens negros no ensino superior, ou seja: daqui a quatro anos teremos esse pessoal disputando o mercado de trabalho com igualdade de condições. Essa é uma norma eficaz de combater o racismo? Sem dúvida alguma. As cotas promovem a ascenção social, fazem a iniversidade refletir sobre a questão. Etambém é muito importante colocar negros em postos de comando da sociedade, fazendo com que esses postos espelhem a nossa composição social. É preciso ter negros médicos, advogados, engenheiros, desembargadores, professores. Eu sou arquiteto, e na minha prifissão 1,8% são negros. Quando estudei em Salvador, há masi de 30 anos, havia dois negros na minha turma. Sabe quantos entraram este ano? 40%. É uma diferença enorme. É evidente que essa inclusão vai alterar as relações sociais, as relações econômicas e as relações políticas. Os brasileiros ainda têm dificuldade de encarar e discutir o racismo? A questão racial no Brasil é um trauma estrutural na sociedade brasileira. O número de negros aumentou de 10 anos pra cá, subiu 52%, mesmo sem aumento vegetativo da população negra. A partir do momento em que se deram condições das pessoas se assumirem como cidadãs, elas foram se assumindo de forma plena como negras. Mas há um preço alto a ser pago com a discussão do racismo para determinada parcela da sociedade. É bom que o Brasil seja considerado com poucos negros, para que a universidade continue com 90% de eurodescendentes. É bom que não se fale muito de negros, para que a faculdade de medicina tenha 98% de brancos. De 200 vagas, 198 são de um público que representa uma minoria no Brasil. Há interesses em torno disso. Se há negros no Brasil, é preciso assumir que seus ancentrais foram vítimas do processo de escravidão dos mais longos da história da humanidade. Aí serão necessárias políticas públicas para superar essa questão.

Com políticas públicas se conclui. Com a inclusão, se estabelece competitividade, processos democráticos de escolha, distribuição das riquezas da sociedade. E nenhuma elite do mundo, branca ou preta, quer perder previlégios. No caso brasileiro, essa elite se confunde com os brancos: a maioria absoluta é formada por brancos que dominam e se apropriam da coisa pública há 500 anos.

Demover esse processo é complicado. Quais são as suas expectativas para os próximos anos acerca das questões raciais? Eu vejo com muito otimismo. Estamos construindo um espaço necessário para reduzir a discriminação no Brasil. É claro que 400 anos não se apagam de uma hora para outra. Mas estamos criando condições de disputar de igual para igual o direito de sermos tratados como cidadãos. Evidentemente, teremos muitos embates, mas também sei que teremos uma oportunidade muito maior de alcançar o que está na constituição: que somos todos iguais, independentemente da cor, raça, religião e origem social. Isso é fundamental.

Eu não desejo que todos no país se considerem iguais. Somos didtintos mesmo. Temos culturas, origens, religiões e pensamentos diferentes. Isso é bom. Não queremos ser melhor ou pior do que qualquer outro grupo brasileiro. Queremos ser respeitdos nessa diferença. O futuro dos negros no Brasil é o futuro da sociedade brasileira. É impossível fazer uma sociedade verdadeiramente democrática sem que haja a superação do racismo e sem inclusão plena do negro na sociedade brasileira. É bom para a sociedade que sejamos incluídos o mais rápidamente possível, para garantir uma sociedade plural, segura, democrática, aberta, diversa. Não será bom, só para os negros, mas para todos.

A Corte Constitucional do Brasil – STF deve enfrentar no ano de 2009 a arguiição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) nº54.

O tema é polêmico e não encontra consenso religioso, político, filosófico, médico e jurídico. Em que pese o STF decidir a favor ou em desfavor à interrupção da gravidez teremos atores sociais satisfeitos e insatisfeitos com a respeitável decisão.

Recentemente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviou em 26/02/2008, para ministra Carmem Lúcia a sua discordância quanto a aprovação da legalização do aborto, baseado no Código Canônico.

Antes de uma abordagem religiosa como sacerdote no candomblé sobre qual posição a ser adotada, far-se-á uma breve e rápida apresentação jurídica dos casos em que se admite no Brasil a licitude do aborto.

Prefacilmente a definição de aborto no Brasil é entendida coma a interrupção da gravidez com a morte do produto da concepção, que pode ser o ovo, o embrião ou o feto conforme a sua evolução. Podemos classificar o aborto de acordo com a sua forma de interrupção, como o aborto espontâneo, natural, com consentimento da gestante, sem consentimento da gestante, ou o aborto provocado, sendo este último crime.

O Código penal admite e torna lícita a conduta em dois casos: 1 – quando não há outro meio para salvar a vida da gestante; 2 – se a gravidez é fruto de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante, ou quando incapaz do consentimento do representante legal.

Grifo. Ainda que pela legislação infraconstitucional o aborto seja legal é contrário as regras da lei cristã cito o Código Canônico.

Para ilustra a questão concretamente, reporta-se a um lamentável caso no estado de Pernambuco na cidade de Alagoinha, uma criança de apenas nove (9) anos de idade foi submetida à interrupção da gravidez, em razão de um estupro realizado pelo próprio padastro, logo fora internada e recebeu alta no dia 06/02/2009. No caso em tela o argumento utilizado para intervenção médica se baseou no artigo 128 do CP, inciso I e II e com o consentimento da mãe, tendo em vista, que a criança é incapaz.
Imediatamente a igreja católica de Pernambuco apoiada pelo Vaticano excomungou a equipe médica e a mãe da gestante. Para o Arcebispo Dom José o aborto um crime mais grave que o estupro. Para esquentar o confronto o pai da criança que é evangélico, também se pronunciou contrário a intervenção médica.
Contudo, alguns fiéis da igreja como o movimento feminista católico e o Presidente da República Federal do Brasil o Excelentíssimo Senhor Lula, criticaram a conduta do Arcebispo Dom José e apóiaram os médicos.

É importante esclarecer o posicionamento cristão, tendo em vista o senso IBGE 2000, que atribui o seguinte dado, 89,25% da população brasileira é cristã e isso repercute no meio social e político.

Em que pese à força do cristianismo no Brasil, o Candomblé como religião da minoria deve igualmente se manifestar em favor da vida humana e protegendo a dignidade de seus com pares. Explico!

O candomblé possui como um dos seus objetivos fundamentais a proteção da vida. Ao passo que o princípio norteador é da continuidade da vida pelos seus descendentes como perpetuação da espécie humana. Diante de uma questão difícil como o aborto o sacerdote do candomblé deve recorrer ao início de tudo, antes mesmo do nascimento com vida e antes do natimorto. Para isso devemos responder em que momento surge à vida. Prefacimente nascimento com vida é diferente do surgimento da vida.

Podemos afirmar que neste ponto o candomblé guarda semelhança com as religiões cristã. Para o candomblé a vida começa no momento da concepção, logo assumimos a teoria da concepção como fato gerador da vida humana, e a partir daqui os elementos da natureza (orixás) atua em favor do novo ori. A vida é o bem mais precioso e importante que existe, a vida movimenta o mundo, se excluírem a vida não sobra nada, falta continuidade é inóspito o ciclo vital, alias não há ciclo.

O candomblé preceitua mais do que a vida, devemos acresccer que a vida deve ser somada a dignidade humana.

Diante da questão posta temos que a interrupção da gravidez – considerando a inteligência dos princípios funda o candomblé – é permitido somente na ocorrência do plano espiritual que se materializa concretamente na gestante, daí em escrever que os abortos naturais e espontâneos possuem conformação religiosa.

Destarte, o aborto provocado e o aborto consentido não guardam identidade com o nosso axé.
Todos nós temos um destino a cumprir e devemos realizar nosso odú. Eu como sacerdote não posso apoiar a interrupção da gravidez, vige no candomblé também o princípio da lealdade da liturgia e da solidariedade humana, temos sempre que nos recordar que (…) à religião, o ori e os orixá nos concedem axé para vencer as dificuldades humanas e espirituais.

Seguimos no candomblé a vontade sagrada e antes de decidir o que fazer, como fazer e por que fazer, o iniciado ou sacerdote deve buscar sustentáculo com seu Babalorixá e verificar se deve ou não realizar a interrupção através do jogo de búzios. Entretanto, o consulente não pode violar a lei positiva do Estado.

Reclamam os movimentos a favor do aborto a autonomia da vontade em detrimento da vontade do ovo, embrião ou feto. Esquecem que uma vez interrompida a gravidez, não podemos reparar futuras lamentações. Digo futuras lamentações em razão de uma recente pesquisa apontar que as mães que foram submetidas a interrupção da gravidez ficaram arrependidas.

Atos como matar alguém, cometimento de suicídio é desmerecer a vida e afrontar nossos princípios. Ao homem não é dada a faculdade de decidir quando e como ele vai morrer, vamos mais longe, os órgãos pós-morte também não pertence ao morto e sim ao acervo sagrado espiritual. Desse modo indago “se você não possui autonomia sobre seus órgãos e quiçá a vida que é irrenunciável, indisponível, inviolável e indispensável, o que leva você a concluir a determinar-se sobre a vida e morte de outrem?”

Devemos separar as decisões técnicas legiferante das religiosas – todavia o império da norma estatal deve ser seguida, sob pena de praticar crime. O Brasil é um país laico não possuímos uma religião oficial e admite qualquer manifestação religiosa ou filosófica – art. 5, VI, VIII da Constituição Federal – Desse modo o legislador pátrio deve legislar conforme os ditames constitucionais.

Nota: observamos que a temática nos candomblés é controvertida, subsiste correntes a favor e contra a interrupção da gravidez.

CONCLUSÃO.

O candomblé é uma religião pautada na origem e repudia qualquer conduta que vise ameaçar ou delapidar vidas. No caso vivênciado na última semana, no qual um menina fora sujeita a interrupção da gravidez, temos o choque de dois bens: a vida da gestante (considerando o risco da gravidez) e o material humano já concebido. Neste caso para encontrarmos uma solução é necessária muita ponderação, qualquer que seja a decisão (repito neste caso) é aceitável, seja conservar a vida do embrião ou a vida da mãe precoce. No caso em tela a opção foi a da mãe não encontrar óbice em apoiar a decisão, porquanto houve a decisão de preservar a vida nascida em detrimento do fruto da concepção. A fundamentação desta conclusão esta baseada no embate entre duas vidas viáveis.

Por fim o candomblé possui raízes no velho continente Africano emanado de sabedoria sagrada e que durante séculos fora aperfeiçoado vislumbrando a perfeição humana.

Um Omo orixá pede a benção ao seu ori proferindo o itan:

– “(…) TÁ-A FI NLÓKO RE, TÁ-A FI NLÁYA RE (…)”.
Relacionamentos, filhos e todas as coisas boas da vida.

Egbon OmoOde.

Fonte: http://egbonomoode.blogspot.com/2009/03/candomble-vida-e-interrupcao-da.html

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A benção aos meus mais velhos.

Obedecendo ao pedido do Fernando, começo a desenvolver a discussão sobre este polêmico tema que aborda tanto a sociedade, como a nossa religião: o aborto.

Que responsabilidade o senhor me indicou, hein Babazinho?

Mas vamos lá: queridos, o aborto, como tema a ser discutido, é deveras polêmico e sempre puxa para mais de um viés a ser analisado e considerado.
Não falamos apenas de conceitos religiosos, mas também de conceitos sociais que devem ser diretamente internalizados neste assunto.

O Candomblé, por um lado, defende o direito à vida, por outro, o livre-arbítrio; livre-arbítrio este que não manuseia apenas a nossa liberdade de escolha, mas um conceito muito mais forte: o de sermos MORALMENTE RESPONSÁVEIS pelas nossas atitudes e ações. É a própria ética que pede espaço neste conceito também.

Eu não tenho cunho radicalista (mesmo que eu tente). A priori, sou a favor da legalização do aborto sim. Sei que a minha religião é contra este ato, sei que ele fere a continuidade de toda uma ancestralidade. Só que eu sei também, que, por outro lado, mesmo com todo este aprendizado que nós temos, Olorun deu-nos a capacidade de refletirmos e raciocinarmos sobre o que “poderia” ou o que “poderá” ser melhor para nós. São as escolhas. Por mais que o caminho já esteja traçado, podemos fazer as nossas modificações, caso assim desejemos, não é isso? Sendo assim, outras pessoas, de outros ou sem nenhum credo, podem pensar diferente e querer agir diferente. Por mais que eu não aprove, eu respeito.

Só que este meu conceito é um conceito, uma opinião “local” e não “global”.

Globalmente falando, o país, a constituição… “Não é café pequeno”, como diria minha avó sem se importar com a concordância. O tema deve considerar classes sociais, responsabilidades sociais, educação (não em sentido de escola, mas em sentido de ética, de pensar), saúde pública, etc.

O que mais temo, quanto a uma futura legalização, é a banalização do ato. Esta banalização mexe não apenas com o aborto em si, mas o possível aumento no índice de doenças transmissíveis, por ausência da camisinha, principalmente entre os jovens, que vos digo, somos imensamente irresponsáveis. Afirmo isso por que vejo o cotidiano e as estatísticas também comprovam.
A questão do aborto é um problema de saúde pública e creio que a sociedade, as classes sociais como um todo, não têm, ainda, princípios éticos para encarar esta possível legalização de frente.

Não gosto de cabrestos, maneiras únicas de pensar ou de verdades absolutas. Nossa religião, nas nossas casas, barracões, em meio à nossa juventude (os mais cabeças ocas quanto a este assunto), aos nossos mais velhos, egbé em geral, devem abordar – restringido-me à este tema – assuntos que priorizem a saúde sexual. Não é mostrar apenas que a nossa religião é contra a interrupção da gravidez, como fazem as outras religiões que impõem conceitos com o dever de serem seguidos cegamente pelos seus adeptos.
A nossa religião, com todo este conceito lindo de respeito à essência de cada indivíduo, deveria (atrevo-me a pontuar):

  • Mostrar os riscos do aborto, pois este ato não deixa de ser uma intervenção no nosso organismo tão perfeito quanto ao seu funcionamento;
  • Mostrar o quanto a preservação, o constituir da família é importante e sagrado (além de ser saudável!);
  • Mostrar que se deve ter responsabilidade. Responsabilidade consigo e com o próximo. Deveríamos aprender mais sobre o que seria ética, né? 🙂 E também sobre consequência;
  • Mostrar que doença transmissível é ruim, mata, aleija, amputa, diminui auto-estima, intervém nas nossas relações sociais e podem ser pegas justamente no ato que resultou no embrião lá no útero da criatura.

São muitas as situações, queridos. Não sei se viajei na questão, voei mais alto que deveria, mas creio que o caminho é por aí.

Penso, como jovem nascida nessa era da correria, nesse caos chamado modernização e ao mesmo tempo envolvida (apaixonada) com uma religião que apela pelo tempo da natureza, da ancestralidade, pelo respeito às tradições, que a modernização está aí pra isso: lutarmos pelo mantimento das nossas tradições, da nossa liturgia, e por outro lado, refletirmos sobre os atos e assuntos desta sociedade moderna que nos cerca e que também não deixa de nos integrar, sem deixá-los influenciar negativamente (mais do que já influenciou) na manutenção da essência do Candomblé.
Nosso papel é muito mais difícil hoje do que ontem, meus irmãos.

A benção,

Dayane