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Archive for Outubro, 2013

Afesu – A iniciação

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A iniciação é um rito de passagem, uma morte simbólica que transforma um homem comum em um instrumento do Òrìsà, em um “Elégun”, pessoa sujeita ao transe de possessão, a emprestar seu corpo para que Òrìsà viva entre nós mais uma vez, por um período de horas ou dias. O iniciando passa por ritos complexos, de isolamento e segregação, de silencio absoluto, de tonsura ritual, de sacrifícios de animais, de oferendas de alimentos, de pequenos cortes para inserção de pós-mágicos em seu corpo (cicatrizes sagradas que definem os futuros sacerdotes), simbolizando uma volta ao útero da Mãe Terra, de onde renascerá não um homem comum, mas o instrumento de um Òrìsà, que por sua boca e seu corpo falará e se manifestará, aumentando assim seu conhecimento e o de todos os outros crentes.

Sua apresentação, já com sua nova personalidade e seu novo nome, ao público do Templo e da cidade, transforma-se então em uma festa de cores e de beleza inenarrável, onde todos comparecem desejosos de compartilhar Àse (palavra que define nossa Religião: A/AWA: nós, se: realizar, Àse – nós realizamos).

Por várias vezes o neófito é apresentado ao povo, vestido e pintado com cores próprias do Òrìsà ao qual é consagrado, ao som dos tambores e de ritmos e cantigas tão antigas quanto à vida dos homens neste mundo. E a cada troca de roupas, mais o àse se espalha pelo Templo, culminando com a vinda dos Òrìsà, que vêm brincar e falar com seus filhos diletos, demonstrando sua satisfação por mais uma etapa cumprida.

Cada item tem seu significado nesta hora. A pena vermelha, chamada “ikodidè”, que o Elégun carrega em sua cabeça, simboliza realeza, honra, status adquirido pelo fato de ele ter se iniciado para ser um novo sacerdote dedicado ao culto daquele Òrìsà. As pinturas em cor branca, azul e vermelha, feitas a partir de substâncias vegetais e minerais, são os símbolos dos líquidos vitais de animais, plantas e do próprio ser humano, essenciais para a nova vida do iniciado.

A melhor roupa vestida por ele, por sua família, e por todos os presentes, demonstram o respeito e o apreço pelo Òrìsà. Como se fossem se apresentar frente a reis, nada menos que o melhor é permitido, uma vez que muitos reis são os representantes de nossos Òrìsà neste mundo, descendentes diretos que aqui ficaram para perpetuar sua força vital. Isto se estende aos alimentos e bebidas, cuja qualidade é severamente observada, aos animais oferecidos, às contas para a confecção de colares, e a todos os objetos que compõem este Ebó. O bom não é suficiente, só o melhor é dado para o Òrìsà.

Por muitos dias o neófito irá carregar consigo um colar especial de sagração no pescoço, simbolizando seu amor, devoção e sujeição ao Òrìsà. Neste período também cumprirá resguardo sexual, porque esta energia não pode ser desperdiçada, toda sua força energética deve estar centrada em Òrìsà. Comerá comidas especiais, dormirá no chão, em uma esteira, aprenderá com os mais velhos as orações e cânticos de seu Òrìsà. É um tempo de amor, dedicação e aprendizado, um reaprender a viver, uma inserção do sagrado no cotidiano, uma experiência que não pode ser descrita, mas sim vivida.

E a possessão faz parte de tudo isso, um ser dominado, um compartilhar corpo e espírito com Òrìsà, um ser o deus e voltar a ser o homem; sem a menor possibilidade de interferência, em que a perda de vontade própria e a submissão são aprendidas sem que se ensine ou aprenda, por instinto e memória ancestral. Algo de tribal, algo de divino, algo de humano, algo de fantástico. Ser para saber.

E, ao fim de tudo, o Elégun reaprende os atos do dia a dia, retoma sua vida diária, mas para ele estará em primeiro lugar e sempre o Òrìsà. E, conhecendo através do oráculo sagrado, o Ifá, suas interdições, as proibições que Òrìsà e ancestrais lhe deram durante sua iniciação, ele conhecerá seu lugar na rígida hierarquia tribal, familiar e religiosa e viverá melhor sendo um “omo áwo”, (filho do segredo), do que sendo tão somente um ser humano.

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Sàngó

edun ara

 Edun ará

Òrìsà Sàngó é o Senhor do Trovão e Relâmpago.  Relâmpago tem duas características que são indicativos do àse de Sàngó.  Relâmpago que pode iluminar imediatamente as trevas mais intensas.  No reino dos “buscadores de deus” essa iluminação tem a forma de realização imediata ou insight.  É frequente o caso em que, na escuridão, nossos olhos nos enganam ao ver o que não está lá ou perceber o que está lá, de forma incorreta.  Da mesma forma, nas trevas da ignorância, as nossas percepções intelectuais e reações emocionais são frequentemente enraizadas no medo (evidência falsa que parece real) e neste estado de ignorância e medo, estamos propensos a agir de formas que são estressantes na melhor das hipóteses e disfuncional na pior das hipóteses.

Ifá é uma forma de vida baseada no princípio de desenvolver o poder pessoal.  Do ponto de vista psicológico, aumenta o poder pessoal através do processo de superação do medo.

É o Ase de Sàngó que permite ao buscador de Deus distinguir entre a verdade e a mentira e enfrentar as consequências de fazer e agir de acordo com essa distinção.  Neste sentido, o relâmpago simboliza a língua de Sàngó, que nos revela a base do nosso medo e nos oferece a oportunidade de escolher se desejamos prosseguir com base na verdade ou com base na mentira/equívoco.  Quando esta situação ocorre, o seu brilho pode penetrar em nossas cortinas e olhos fechados.  Não é fácil negar a ocorrência do evento.

Da mesma forma, quando òrìsà Sàngó revela, a um candidato a Deus (pessoas que se acham estar acima dos poderes divinos), a falácia e a frágil realidade de suas percepções, não são fáceis negar a revelação.

E por esta razão, pode haver graves consequências por agir contrariamente aos presentes iluminados de Sàngó.

Ifá ensina que as bênçãos vêm para aqueles que querem fazer escolhas, que são consistentes com seu mais alto destino.  Dentro da cultura yorùbá entende-se que o melhor destino de um indivíduo está na base dessas escolhas que constroem Ìwá Pèlé, o que significa um bom caráter.

Apesar de Sàngó ser Ibinu Olórun (a ira de Deus), ele não funciona sem misericórdia e compaixão para com seus seguidores.  Conforme se encurta a distância do relâmpago, a voz de Sàngó pode ser ouvida cada vez mais alta. Òrìsà Sàngó oferece este aviso para que o seguidor acordado possa procurar abrigo adequado da ira de Olórun.  O Trovão é o grito de Sàngó e da mesma forma o trovão nos adverte do perigo iminente dos relâmpagos se aproximando, iluminação interior é sempre acompanhada de consciência, uma voz interior que nos chama, nos advertindo que as nossas atitudes e comportamentos estão nos levando a consequências terríveis se não forem ajustados de acordo com a realidade contextual.

Òrìsà Sàngó é um òrìsà “quente”, um dos três guerreiros e é a imagem do àse da masculinidade total.  Sàngó é o mestre em atacar, de ir contra os ventos da derrota, contra todas as probabilidades para alcançar seu objetivo.  Ele é comparado com o campo irregular (terreno acidentado), o corredor em linha reta cuja rota é determinada pelo número de obstáculos entre ele e seu objetivo.  Sàngó é a ideia do ataque estratégico.  Ele é a ideia de iluminar os desafios e atacar seus pontos mais fracos.  Sàngó respeita duas coisas: força e sabedoria.  Esta é a razão por que ele respeita Ògún e Obàtálá.  Com Ògún seu respeito é temperado com medo e com Obàtálá seu respeito é temperado com admiração.

Ele quer que seus devotos da mesma forma tenham as duas coisas: coragem e inteligência.

Òrìsà Sàngó é ao mesmo tempo uma divindade primordial e ancestral divinizada.  A função de Sàngó no reino de áwo òrìsà é fornecer a inspiração e a paixão pela transformação espiritual.

Neste sentido, é Sàngó, que representa o seu Eu motivacional, como seguidor, a aspirar aos mais altos ideais e possibilidades desta vida.  A filosofia do darwinismo social, a sobrevivência do mais apto, simplesmente não é suficiente para cumprir a determinação de Olódùmaré para experimentar o reino de possibilidades infinitas.

É destino de cada seguidor alcançar Ìwá Pèlé (bom caráter) embora possa não ser o seu destino.

Iba si Òrìsà Sàngó!

Trabalho sem autoria, traduzido por Da Ilha.

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orunmila1

Òrúnmìlá, como todos sabem veio a este mundo em forma de homem (quem sabe?), pelejou pelas terras africanas em missão dada por Olódùmarè.

Em sua vida, teve esposa e filhos e sentia-se velho, não tinha fartura, trabalho, enfim, vivia desgostoso. Olórun ouvindo as suplicas de Òrúnmìlá, deu sinais para ele procurar um Babalawo, que ao consultar Ifá, lhe indicou um ebó.

O ebó consistia em 5 cabaças abertas e sacrifício de um galo.

Cada dia uma cabaça e um galo, completando 5 dias.

Ao depositar a oferenda nas encruzilhadas, uma entidade se apossava e se alimentava da oferenda. A cada dia fortificava seu corpo espiritual até que no quinto dia, tornou-se um ser humano. As 5 cabaças fecharam e ele as carregava com ele, pois era um enviado de Olórun para cumprir a missão de oferecer-lhe as 5 cabaças citadas, Paciência, Longevidade, Fertilidade, Riqueza e Sabedoria.

No quinto dia, este homem seguiu Òrúnmìlá até sua casa. Batendo à porta, ofereceu-lhe as cabaças pedindo para que escolhesse apenas uma.

Òrúnmìlá em dúvida chamou a esposa que lhe aconselhara escolher a Fertilidade, assim poderia ter vários filhos, além dos 3 que já tinha. Não contente, chamou os filhos, que aconselharam escolher a Longevidade, assim poderia conhecer os filhos dos seus netos. Não feliz, chamou os irmãos, que lhe deram o conselho de escolher a Riqueza, assim ficaria rico e não passaria mais necessidades. Òrúnmìlá mesmo escolheria a cabaça da Sabedoria, mas mesmo assim ficou na dúvida e chamou seu melhor amigo, Èsù.

Èsù quis saber o que sua família havia escolhido e disse que a única cabaça que ninguém se interessou seria a mais importante. Então Òrúnmìlá obedeceu aos conselhos de seu amigo Èsù e disse que quem escolhesse a Cabaça da Paciência, com o tempo teria as demais cabaças juntas.

Òrúnmìlá então ficou com a Paciência.

O homem cumpriu sua tarefa e voltou para rua indo em direção ao Céu. A cada passo seu corpo físico desfazia e no caminho ao Céu uma cabaça acordou.

A primeira que acordou foi a Sabedoria.

Onde está a Paciência?

Perguntou.

Ficou na casa de Òrúnmìlá, disse ele.

Sem ela eu não volto pro Òrun.

De repente a Cabaça da Sabedoria sumiu das suas mãos.

Mais adiante, a Fertilidade acordou fazendo a mesma pergunta.

Até que todas iam acordando e sumindo, indo em direção à casa de Òrúnmìlá.

Quando chegou à porta do Òrun, a entidade estava chorando de medo, pois tinha que trazer as Cabaças de volta.

Ao entrar no Palácio de Olódùmarè, todos o esperavam, até Olódùmarè pedir para que entrasse e disse:

“Você cumpriu sua missão?”.

Sim senhor, mas todas as Cabaças sumiram das minhas mãos e voltaram para a Casa de Òrúnmìlá.

Disse Olódùmarè acalmando-o:

Sim, quem escolher a Cabaça da Paciência, terá juntado dela toda a riqueza do mundo, vida longa, fertilidade e sabedoria. Não se preocupe que sua missão foi cumprida. Agora Òrúnmìlá continuará vigiando e pondo ordem na Terra.

Esta é uma itan da qual podemos passar aos desesperados, pois com fé, com certeza Olódùmarè olhará por nós, dando-nos tudo que precisamos se tivermos conosco não a Cabaça em si, mas a paciência que morava dentro dela.

Só para enfatizar – As amigas inseparáveis.

A Paciência é a única sobrevivente e companheira da Esperança.

É necessário quase que casamento entre as duas.

Até que a morte as separe.

Lembre-se que a Dona Esperança tem vida longa.

Paciência não.

Como nós mesmos dizemos:

“A Esperança é a última que morre”.

A Paciência não.

Espero que vocês tenham a Dona Paciência como amiga e aliada, pois sem ela, muitas coisas ficarão perdidas na vida e se a dona Paciência morrer antes corremos o risco de a Esperança ir junto.

Evite que isso aconteça com você.

Literatura de domínio publico.

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