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Archive for the ‘Candomblé’ Category

O Ritual do Ìpàdé

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Um importante ritual que está se perdendo Ipadê .


O ritual do Ipadê é praticado desde os primórdios pelo povo de Ketu. Por isso, com a constituição do Candomblé aqui no Brasil, este preceito não foi reproduzido nas Casas de origem Jêje.

É bom esclarecer desde logo que o ritual do Ipadê, e o padê de Exu são duas coisas diferentes.
O Ipadê é um fundamento da religião direcionado para saudar os ancestrais; e o padê é uma comida de Exu.

“Despachar Exu”, como se diz usualmente, também não se confunde com o Ipadê. O ato de despachar Exu, na verdade, atende ao princípio de que esta divindade deve ser a primeira a ser agradada. Assim, antes do início do xirê, ou mesmo antes dos demais Orixás serem reverenciados, Exu deve ser o primeiro a receber seus agrados. Caso contrário, os praticantes podem ser punidos com as artimanhas dele.
Feitas as distinções necessárias, vamos então falar diretamente sobre o Ipadê. Esse ritual é necessário em 3 situações: quando são sacrificados animais de 4 patas para Exu; nas Águas de Oxalá e no axexê.
O Ipadê só é realizado durante o dia, pois necessita da claridade natural. Portanto, seu melhor horário gira em torno de 14 às 16hs. Só é feito à noite, durante o axexê.
No Ipadê, são reverenciados Exu (o mensageiro), os ancestrais masculinos (eguns), femininos (iyá mi), os esás (ancestrais importantes daquele Egbé) e alguns Orixás (conforme a tradição de cada Axé).
Os elementos necessários ao Ipadê, são: uma cuia feita de cabaça (representando a cabeça de todos), a acaçá (simbolizando o corpo da comunidade), a cachaça (oti), omi (a água, capaz de acalmar e fertilizar), a farinha de mesa crua (iyefún, significando a fecundidade) e finalmente o dendê ou o limo da costa (conforme o caso).
Este ritual é essencialmente comandado pelas mulheres. No caso, a iyadagán e a iyámorô. A primeira prepara os ingredientes, sentada em frente ao Axé, enquanto a segunda dança em volta da cumeeira e despacha os elementos, acompanhada pelos Ogans que batem os atabaques e cantam as músicas especiais para esse momento. Tais músicas e rezas não são executadas em nenhum outro ritual, muito menos no xirê.
Quando o Ipadê é realizado nos trabalhos fúnebres de axexê, não são usados os atabaques, mas instrumentos especiais feitos de cabaça.
Todos aqueles que participarem do Ipadê devem ter as cabeças cobertas. Os mais velhos, ficam sentados, e os mais novos, ajoelhados em esteiras.
Ninguém fica parado durante o Ipadê. Todos devem balançar levemente o corpo, demonstrando que enfrentam vivos aqueles rituais.
A sequência das músicas é repetida durante o preparo e despacho das oferendas, sempre por três vezes. A ordem de reverência é: Exu, egun, esás (alguns fundadores dos primeiros Candomblés, como Obitikô, Oburô, Akesan, Adiro, Ajadi e Akayiodê); os Orixás afinizados (Exu,Ogu, Odé, Omolu, Oxum, Oya, Yemonja, Xangô, Lufan e Guian); as iyá mi oxorongá e finalmente os próprios membros da comunidade participantes.
É um ritual lindíssimo, mas que requer atenção total, meticulosa concentração e extremo respeito.
Pena que o Ipadê esteja sendo renegado ao esquecimento. O requinte desse preceito litúrgico exige que o egbé (a comunidade) possua elementos com tempo de Santo e preparo suficiente para esse ofício.
Em muitas Casas, os iyawôs nem podem estar presentes na cerimônia do Ipadê.
A riqueza dessa tradição, antes de mais nada, nos indica um ensinamento básico da matriz africana: respeito aos mais velhos. E reverenciar os mais velhos (ancestrais masculinos e femininos) consiste nisso! Agradecer, agradar, ofertar àqueles que vieram antes de nós, e que, por isso, construíram parte do caminho que hoje seguimos. Devemos a eles! Pedimos então sua proteção, sua licença para trabalhar.
O respeito aos mais velhos é tudo. É a razão de acatar à ordem hierárquica, o motivo de aprender a obedecer, nos talhando para posteriormente saber mandar.
Respeitar os mais velhos é aprender com a sabedoria e com a experiência dos que viveram mais do que nós. É também a garantia de que no futuro seremos nós próprios respeitados e prestigiados com carinho e solidariedade.
O Ipadê é um pouco isso tudo.

Texto: Portal do Candomblé
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É com profundo pesar que notificamos que Bajigan Ailton , umas das mais antigos Ogans do Rio de Janeiro partiu para o Orun.

No dicionário da língua portuguesa a palavra chefe significa: comandante, autoridade, diretor, líder e mestre. Já na língua fon a palavra agbájígán significa chefe.

Nos Candomblés da Nação jeje, Agbájígán ou Bajigan é o responsável pelo agbasá (salão) pelos cânticos e pelo terreno onde estão as árvores sagradas dos Voduns.

 Além de promover a tranquilidade e a segurança para todo o Xwe Vodun (Casa do Vodun), O Bajigan é essencial na organização e andamento das cerimônias religiosas, pois a sua sabedoria e conhecimento ajudam no sucesso de todos. É isso, o Bajigan é um mestre inteiramente dedicado aos Voduns.

Essa aplicação é nata no carioca do Bairro do Sampaio, Ailton Benedito, que tinha um avô por parte de pai Sacerdote de Vodun. Foi esse avô que ainda criança que fez suas primeiras obrigações.

O tempo passou e em 1972 foi confirmado Bajigan para o Ọbalúwáiyé de João Carlos, filho de santo do Senhor Jorge de Yemọja.

Bajigan Ailton foi casado por 50 anos com a saudosa Ìyálórìṣà Yara de Ọ̀ṣun, e juntos dirigiam o Terreiro, Casa Branca de Ọ̀ṣun no Parque São Bernardo em Belford-Roxo.

Atualmente Bajigan Ailton estava casado com Denise Sabadi de Ọ̀ṣọ́ọ̀sí e assessorava o Bàbálórìṣà Serginho de Ògún, que ficou na direção da Casa Branca de Ọ̀ṣun.

Mawu Na Nu Vodun Sem! (Que Deus abençoe os Sacerdotes de Vodun!)

Axé!

Texto: Paulo de Oxalá

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Cabaça – Igbá

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A cabaça é um fruto vegetal com larga utilização no Candomblé. É o fruto da cabaceira. Inteira, é denominada cabaça; cortada, é cuia ou Coité; e as maiorias são denominadas cumbucas. Nos ritos do Candomblé, sua utilização é ampla, tomando nomes diferentes de acordo com o seu uso, ou pela forma como é cortada. Os iorubás, como todos os outros povos, aproveitavam as igbá [cabaças] como vasilhas para uso doméstico e ritualístico. As cabaças, dependendo do seu uso, recebiam nomes diferentes:
A cabaça inteira é denominada Àkèrègbè, a cortada em forma de cuia toma o nome de Igbá. A cortada em forma de prato é o Ìgbájé , ou seja, o recipiente para a comida; a cortada acima do meio, forma uma vasilha com tampa, tomando o nome de Ìgbase ou cuia do Àse, e é utilizada para colocar os símbolos do poder após a obrigação de sete anos de uma Ìyàwó como a tesoura, navalha, búzios, contas, folhas, etc. que permitirão à pessoa ter o seu próprio Candomblé. Ado – cabaças minúsculas são colocadas no Sàsàrà de Omolu, como depósito de seus remédios. No Ógó de Èsù, uma representação do falo masculino, as cabaças representam os testículos.
Usa-se uma das partes da cabaça cortada ao meio, e colocada na cabeça das pessoas a serem iniciadas e que não podem ser raspadas por serem Àbìkú, para nela serem feitas as obrigações necessárias. Com o corte ao comprido, torna-se uma vasilha com um cabo, chamada de cuia do Ìpàdé e serve para colher o material de oferecimento ou para colher as águas do banho de folhas maceradas. Inteira e revestida de uma rede de malha será o Agbè, instrumento musical usado pelos Ogans, durante os toques e cânticos. Uma cabaça com o pescoço comprido em forma de chocalho é agitada com as suas sementes, fazendo assim o som do Séré, forma reduzida de Sèkèrè, instrumento por excelência de Sàngó.  A cabaça inteira em tamanho grande substitui nos ritos de Àsèsè, a cabeça de uma pessoa que morreu e que por alguns fatores não é possível realizar as obrigações de tirar o Òsu. Por fim, pode ser lembrado que a cabaça cortada em forma de vasilha com tampa é conhecida como Ìgbádu, a cabaça da existência e contém os símbolos dos quatro principais Odù: Éjì, Ogbè, Òyekú Méjì, Ìwòri Méjì e Òdí Méjì.

1 – Akèrègbè – cabaça de bom tamanho [30 a 50 cm], servindo como vasilha para líquidos;
2 – Igbá – cabaça cortada em forma de cuia. ÌGBÀ = assentamento de Orixá; panela onde se guardam os objetos sagrados dos deuses e se faz o sacrifício;
3 – Ibajé – cabaça cortada em forma de prato. Recipiente para a comida;
4 – ÌGBASE – Cabaça cortada acima do meio, formando uma vasilha com tampa;
5 – Ádo – pequena cabaça utilizada para armazenar pós ou remédios. É aquela que se vê nas figuras de Exu, Osaniyn e Obaluaiye;
6 – Cabaça cortada ao meio;
7 – Cabaça do Ipadê;
8 – Agbé – Inteira e revestida de uma rede;
Xequerê instrumento musical.
9 – Séré – cabaça com um longo e fino pescoço. Quando cortada ao meio, serve como uma concha. Quando inteira, serve como chocalho ritualístico para anunciar Xangô, sendo chamada então de SÉRÉ Sángo;
10 – Cabaça Inteira;
11 – Igbadu;
12 – Ahá – pequena cabaça servindo como copo ou xícara para tomar remédios e bebidas;
13 – Ató – cabaça pequena e comprida, utilizada para guardar remédios;
14 – Pòko – ou a metade superior ou a inferior de uma cabaça de forma oval;
15 – Igbá kòtò – cabaça larga e alta, usada para guardar ÈkO [um bolo de milho] quente. Tem uma tampa que pode ser usada como funil;
16 – Koto – cabaça grande e larga, semelhante a um cesto .

Texto Internet-Àṣẹ ÌyáOmi

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COMPLETA 100 ANOS NO RIO O OGAN MAIS VELHO DO BRASIL!

 

Aos 100 anos, morando há 50 no Rio de Janeiro, Luiz Angelo da Silva, o Ogan Bangbala, foi diretor do Afoxé Filhos de Gandhi RJ.

Ogan Bangbala é uma entidade, um baiano, que acaba de completar 100 anos e vive em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. No Candomblé, ogan é quem toca os instrumentos musicais atabaque e agogô. Bangbala é o mais antigo ogan vivo no Brasil e em atividade. Ele não entra em transe, mas provoca. É através de seu toque que os orixás incorporados executam suas danças.

Para se tornar ogan a pessoa deve ser escolhida pelo orixá, a partir de um membro que o incorpora, normalmente, é integrante já muito ativo na comunidade de terreiro, consagrado um mestre.

Luiz Angelo da Silva, o Ogan Bangbala, estudou até o ensino primário, teve dezesseis irmãos, mas apenas três passaram dos primeiros anos de vida.

“Sou o último membro da minha geração na família, todos os outros já morreram”, afirma. “A mãe de santo mais próxima de mim Mãe Beata de Yemanjá – Ile Omiojuaro, minha melhor amiga, faleceu aos 86 anos. Eu fui o responsável pelo rito fúnebre dela, o axexê.” Inclusive, o próprio, há 61 anos, no terreiro de Olga do Alaketo, estava na iniciação de Mãe Beata.

#vilacruzeirorjoficial #ogan
#candomblé #axe #bangbala

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Obatalá Oseremagbo

Òrìşànlá Ọșẹrẹmágbo

O aprisionamento de Ợbatalá

 

Deixe a lebre aperfeiçoar sua raça

Deixe o javali ser esperto com sua cabaça

As dançarinas profissionais que esperam para dançar em Ootu Ifé devem vestir-se muito bem

A divinação de Ifá foi feita para Òrìşànlá Ọșẹrẹmágbo

No dia em que ele desejou fazer uma viajem para a cidade de Isolu

Antes que uma pessoa siga com um projeto importante ela deve procurar pelo conselho de Ifá

O deus Yorùbá da sabedoria

Ợbatalá consulta esses sacerdotes antes de fazer sua jornada a Isolu, e o sacerdote aconselhou-o a fazer um sacrifício para evitar embaraços

Ợbatalá não fez o sacrifico, e se aprontou para viajar.

Em Isolu há um grande rio próximo a entrada da cidade.

Os homens, as mulheres e crianças de Isolu pegam água desse rio para beber, ou tomar banho e ás vezes para lavar suas roupas com ela.

Os habitantes de Isolu sabem da existência de um homem louco que sempre vem ao rio para molestar as pessoas.

O homem louco é esperto também; ás vezes ele finge estar tomando banho e assim que as pessoas aproximam-se dele, ele as assedia.

Isso fez com que pessoas avisassem a todos de que da próxima vez que cruzarem com ele novamente, ele deve ser preso.

Como Ợbatalá estava chegando perto da cidade, ele teve vontade de tomar um banho.

Ele estava quase nu, usando apenas suas calças e começou a tomar banho.

Algumas mulheres vieram da cidade para pegar água. Elas viram Ợbatalá de costas e pensaram que fosse o louco novamente.

Elas correram de volta para avisar o povo da cidade e todos correram para o rio.

Ợbatalá foi confundido com o louco e foi aprisionado. Por dias Ợbatalá sofreu pelo crime que não cometera.

Ele ficou irritado e tocou Osu em sua cabeça. Toda a cidade de Isolu ficou inquieta.

A chuva recusou-se a cair. A desolação instalou-se visivelmente, os que estavam doentes ficaram impossibilitados de melhorar. Nenhuma comida – há uma grande estiagem e o rei mandou chamar seus conselheiros.

Eles chamaram um babalawo para aconselhá-los. Ele fez a divinação Anukunrin, mas não pode precisar o que era o real problema com a cidade, porque Ợbatalá não permitiu que ele soubesse.

Após algum tempo, eles convidaram outro sacerdote para vir aconselhá-los. Anu Kunrin, o sacerdote de Isolu. Foi a mesma coisa. E tudo ficou ainda pior para eles.

Foi um dos conselheiros do rei que o aconselhou a chamar Ogbigbi, um dos mais famosos babalawo. Quando o rei mandou chamá-lo, ele consultou seu próprio Ifá, de modo que pudesse ter sucesso na empreitada a qual o rei o chamara.

Foi dito a Ogbigbi que fizesse um sacrifício com água de igbin e que ele esfregasse os olhos com ela e limpasse antes de ir ao palácio – foi o que ele fez.

Por esse motivo foi que ele teve a capacidade de ver claramente o problema em particular que eles tinham na cidade de Isolu. Ele disse que foi por causa de um homem inocente que eles haviam aprisionado, e que a cidade precisava de uma limpeza especial com água para tornar tudo calmo.

Ợbatalá precisava ser acalmado com dezesseis igbin e uma toga branca. O rei ordenou que Ợbatalá fosse libertado e eles imploraram que ele os perdoasse. Eles deram uma bela toga para ele e fizeram um banquete com guisado de igbin. Tudo que Ợbatalá gosta foi dado a ele. E eles tocaram tambor e regozijaram-se com ele para agradá-lo e ele os abençoar. E então eles cantaram –

“Ợbatalá to to fun un!

Too!

Ợbarìşà to to fun un

Too!”

E Ợbatalá disse:

“Anukunrin é um sacerdote em Isolu. Ogbigbi porque revelaste isto, Ogbigbi?

Anukunrin é um sacerdote em Isolu. Ogbigbi porque revelaste isto, Ogbigbi?”

E o rei e os chefes convenceram-no a perdoá-los e a esquecer a ofensa  deles

“Ợbatalá to to fun un!

Too!

Ợbarìşà to to fun un

Too!”

 

Odù Idin Kanran

Epá Odù. Epá Òrìşà!

 

Do livro: As aventuras de Ợbatalá – Ifá e os deuses da criação

Araba Elebuibon

 

Tradução: Odé Olaigbo

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Maria Stella de Azevedo SantosMãe Stella de OxóssiOdé Kayode, (Salvador2 de maio de 1925 – Santo Antônio de Jesus27 de dezembro de 2018) foi a quinta Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá em Salvador, Bahia.

Maria Stella de Azevedo SantosMãe Stella de OxóssiOdé Kayodê, nasceu no dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de Azevedo Santos (falecido).

Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha de Maria Konigbagbe, africana de etnia egbá.[nota 1] Aos nove anos de idade, Maria Konigbagbe estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil.

Sua tia, Dona Arcanja, também conhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no Gantois e de Sobalojú[nota 2] no Opô Afonjá nos tempos de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por volta dos treze anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento não esperado, o que fez com que Dona Arcanja procurasse ajuda do oluô Pai Cosme de Oxum, que informou que mãe Stella deveria ser iniciada e que seu caminho era de iyalorixá. Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha do GantoisDona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia.[nota 3] Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de Dezembro de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito SantoMãe Senhora.

Mãe Stella relatou:

“Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: – Só você ganhou a fruta do pé do santo… Não me saía da cabeça a imagem da ossi dagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossi dagã era o cargo que ela ocupava no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobalojú do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossi dagã reinava como iyalorixá do Axé Opô Afonjá.”

Em 12 de setembro de 1939, aos quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orukó (nome) de Odé KayodêMãe Stella conta que quando foi realizada sua iniciação, ela “não pensava em nada”, “não tinha noção” do que estava acontecendo:

“É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser iyalorixá. Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida lá, entendi isso… é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria.”

Lizete Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no Gantois para Iansã, relembra:

“Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada, com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão.”

Mãe Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de trinta anos.

Em 29 de junho de 1964, foi designada ‘ Kolabá[2] por Mãe Senhora. Filha dileta de sua mãe-de-santo, pouco a pouco foi aprendendo os grandes mistérios e segredos do candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma iaô – Celenita – que era filha de Ogum.

Em 19 de março de 1976, foi escolhida para ser a quinta iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, conforme consta no livro de atas do conselho religioso do próprio terreiro, a seguir:

Transcrição da ata registrada no dia 19 de março de 1976 do livro de Atas do Conselho Religioso:

Aos dezenove dias do mês de março de 1976 (hum mil novecentos e setenta e seis), presentes 136 pessoas, todas com suas assinaturas gravadas no livro de Atas do Conselho Religioso deste Axé, às 10 horas e 45 minutos, no Barracão, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário da Sociedade Civil (Obá Xorun), dirigi-me a todos os presentes, solicitando que se aproximassem da mesa onde seria realizado o jogo para a escolha da futura Iyalorixá, uma vez que antes do jogo ser iniciado, o professor Agenor Miranda, Babalaô, considerado o único Oluô no Brasil, filho espiritual da falecida Eugênia Anna dos Santos (Mãe Aninha), irmão da também falecida Ondina Valéria Pimentel, vindo do Rio de Janeiro exclusivamente para esta cerimônia, irá fazer uma dissertação do que acontecerá em seguida. Com a segurança que lhe é peculiar, e a franqueza de sempre, ele se dirigiu aos presentes nos seguintes termos: “Não estou aqui para ser agradável a quem quer que seja, sei que muitos dos presentes já fizeram sua escolha, porém eu estou aqui para cumprir a determinação de Xangô, e advirto a todos os filhos e filhas, Obás e Ogãs, e a todos vinculados a este Axé, que vontade de Xangô é Lei, é sagrada, e sua escolha, sobre quem quer que caia, terá de ser por todos acatada e respeitada, e a filha deste Axé que for por ele escolhida não deverá se deixar levar pelo coração, e deverá, sim, agir com justiça e sabedoria, promovendo a união de todos, e acima de tudo ter pulso forte para manter a hierarquia, doa em quem doer”. A hierarquia, ele repetia que tinha de ser mantida acima de tudo. Sentou-se em seguida para dar início ao jogo. Ao seu lado direito estava sentada Eutrópia de Castro (Iyakêkêrê), aos eu lado esquerdo o Assobá Deoscóredes dos Santos, e em volta destes, representações do Engenho Velho, Gantois, Bate-Folha, e de diversas outras Casas da Bahia e do Rio de Janeiro, e ainda os membros do Conselho Religioso. O Professor Agenor Miranda segurou os búzios e concentrou-se. Todos os presentes conservaram um silêncio absoluto, atentos ao professor. Ele deu início à leitura, e falou EJIONILÊ, recolheu os búzios e, após uma pausa, jogou-os novamente e falou ODI, e novamente usados os búzios falou OXÉ, em seguida OSSÁ, após nova concentração usou novamente os búzios e falou EJILASEBORÁ, apresentando Oxossi, em seguida falou ÔFUN trazendo ORUKÓ de ODÉ KAIODÊ; novamente o professor usou os búzios e voltaram OSSÁ e OXÊ, os Odus de Odé Kayodê, filha do Axé a quem Xangô escolhia e determinava ser a nova Iyalorixá. O professor Agenor se dirigiu aos presentes, dizendo que se ali, naquele momento, houvesse algum Oluô, ou pessoa que sabe ler nos búzios, que se aproximasse e viesse ler e constatar o que ali estava determinado por Xangô. Em seguida, como é de praxe, o Assobá partiu um OROBÔ e pediu a Xangô confirmação do que disseram os búzios, e por duas vezes seguidas a palavra foi confirmada com ALAFIÁ. O Professor Agenor procurou saber quem atendia pelo nome de Odé Kayodê, e Stela Azevedo se apresentou e foi notificada pelo Professor Agenor ser ela a escolhida por Xangô para dirigir os destinos do Axé. Dirigindo-se a mim, solicitou que eu notificasse em voz alta o que Xangô acabara de determinar. Comuniquei aos presentes que, por determinação e vontade de Xangô, fora escolhida a filha do Axé de nome Stela Azevedo – Odé Kayodê – Kolabá, para ser a Iyalorixá a partir daquele instante. Todos os presentes acolheram minhas palavras de pé e com uma salva de palmas. Em seguida, um a um, os filhos deste Axé de Opô Afonjá, os representantes das diversas casas ali presentes, os visitantes, todos, enfim, foram cumprimentar a nova Iyalaxé, que se curvava à vontade de Xangô, e como mais nada atinente ao assunto tivesse de ser registrado, encerrei a ata feita no livro de Atas do Conselho Religioso, assinando a mesma, em Salvador, 19 de março de 1976, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário (Obá Xorun), o Presidente Carybé, senhor Hector Bernabó (Otun Obá Onasokun) e os diretores presentes, Mario M. Bastos, Deoscóredes Maximiliano dos Santos.

Quando Mãe Stella foi escolhida iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Dona Milta explicou que não conseguia aceitar o peso da responsabilidade que caía sobre os ombros da irmã:

“Corri para dona Menininha do Gantois, implorando que ela desse um jeito, mas ela, Mãe Menininha, disse: ‘Isso não é comigo, isso é com os orixás, eles sabem que Stella tem força, eles a conhecem. Vi que era um poder maior e lembrei de Camões, ‘Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta…’ Vi que não podia fazer nada.”

Em 1981, Mãe Stella visitou templos e casas de orixás em Oshogbo na Nigéria. Ela cumprimentava as pessoas, era recebida por todos e, uma vez, ao entoar um canto para Oxum, à sua voz incorporaram-se outras. Houve total entendimento e todos se emocionaram. O mesmo se deu nas cidades de Ile-Ifé e Ede. Apesar das barreiras linguísticas, fez amigos e foi homenageada. Em 1983 o professor Wande Abimbola, à época reitor da Universidade de Ile-Ifé, fez questão de realizar em Salvador, na Bahia, a II Conferência da Tradição dos Orixá e Cultura, porque sabia haver em Salvador raízes profundas da cultura yoruba.

O primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de Julho de 1983, em Salvador, quando lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova IorqueEstados Unidos.

Em 1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder religiosa.

Em 1999, Mãe Stella conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura.

Morte e sucessão.

Faleceu na cidade de Santo Antônio de Jesus, no Hospital Incar, onde se internara no dia 14 de dezembro de 2018 para tratar de uma infecção; ela havia se mudado da capital do estado para a cidade do RecôncavoNazaré das Farinhas, após ter sofrido um AVC que a deixara sem visão e com os movimentos limitados.[3]

A mudança de Mãe Stella para Nazaré se deu de forma traumática; ela fora levada por sua companheira, a filha-de-santo e psicóloga Graziela Dhomini, que foi acusada pelos integrantes do Terreiro Ilê Axé Opó Ofonjá de impossibilitar que pudessem visitar a Ialorixá, processando-a por isto; esta por sua vez havia denunciado à polícia a forma violenta com que fora expulsa do templo, fato que teria sido filmado e divulgado na internet.[3]

Mãe Stella não indicou um sucessor, o que abriu a disputa entre ao menos cinco grupos para ocupar o cargo máximo do Ilê Axé Opó Ofunjá.[3]

Prêmios.

Livros

  • “E Dai Aconteceu o Encanto”, Maria Stella de Azevedo Santos e Cléo Martins, Salvador, 1988.
  • “Meu Tempo é Agora “, Maria Stella de Azevedo Santos. 1a Edição: Editora Oduduwa, São Paulo, 1991. 2a Edição: Vol.1. Salvador, BA: Assembleia Legislativa da Bahia, 2010.
  • “Lineamentos da Religião dos Orixás – Memória de ternura”- Cléo Martins, 2004; participação especial de Mâe Stella – Alaiandê Xirê- ISBN 8590467813.
  • “Òsòósi – O Caçador de Alegrias”, Mãe Stella de Òsòósi, Secretaria da Cultura e Turismo, Salvador, 2006
  • “Owé – Provérbios” – Salvador – 2007.
  • “Epé Laiyé- terra viva”, conta a história de uma árvore que ganha pernas e vai lutar pela construção de um mundo que respeita o meio ambiente. Em sua trajetória o personagem ganha ajuda do orixá Ossain, divindade que domina o conhecimento sobre o mundo vegetal. Salvador – 2009.
  • “Opinião – Maria Stella de Azevedo Santos – Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá – Um presente de A TARDE para a história”, reunião de textos publicados no jornal A TARDE na coluna “Opinião”.

Referências

  1.  Mãe Stella de Oxóssi
  2.  Título relacionado ao culto de Xangô.
  3. ↑ Ir para:a b c Roy Rogeres (27 de dezembro de 2018). «Mãe Stella de Oxóssi: o adeus a uma imortal». A Tarde. Consultado em 28 de dezembro de 2018Cópia arquivada em 28 de dezembro de 2018
  4.  Título Doutor Honoris Causa – Mãe Stella de Oxossi
  5.  «Mãe Stella de Oxóssi é eleita membro da Academia de Letras da Bahia». Política livre. 25 de abril de 2013. Consultado em 7 de fevereiro de 2014

Notas

  1.  O Egba é um subgrupo étnico dos yorubas da Nigéria, formado ainda pelas subdivisões: Ake, Owu, Oke Ona, Gbagura e Ibara. Cada subdivisão tem seu próprio rei. O termo Egba refere-se a boa parte dos nativos da cidade de Abeokuta, a capital do estado de Ogun. Localiza-se no sudoeste da Nigéria. Tem cerca de 751 mil habitantes. Durante o período colonial britânico, o colonizador apontou o rei de Ake como o principal governante e portanto este é conhecido como o rei da terra do Egba. Os títulos dos reis das subdivisões são: Alake da terra dos Egba, o Olowu de Owu, o Agura de Gbagura, o Oshile de Oke Ona, e o Olubara de Ibara. Vale notar que que a cidade original dos Egba se encontrava em torno da pedra Olumo, que hoje se chama Oke Ona Egba.
  2.  O olheiro de Xangô.
  3.  Sobre esse episódio, Mãe Menininha falaria mais tarde que “Stella era para ser daqui, mas não foi por causa de um recado mal dado.” 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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cabeca do boi festa

Ori Malu é um ritual realizado em algumas Casas de Candomblé da Tradição Nago Ketu. Muito embora, o ritual seja de grande importância, o mesmo está se perdendo ao longo dos anos, sendo que a grande maioria das Casas de àse, estão localizadas no perímetro urbano das grandes cidades.
O Ritual do Ori Malu, inicia-se na verdade, com a programação da compra do Boi, escolhido pelo Òrìsà, por intermédio do jogo de búzios realizado pelo Sacerdote. Esse Boi, é encomendado à um sitiante das proximidades da Casa de Candomblé, sendo combinando com o mesmo, o dia e hora do sacrifício.
Em uma quarta-feira anterior a festa de Ode, todos os filhos de santo deve pousar no àse, passando por algumas obrigações realizadas pelo Sacerdote. Na aurora da quinta-feira, a Alvorada (conjunto de toques específicos) é realizada pelo corpo de Alagbés da Casa.
A Iyabase e Iyasinjé, preparam uma farta mesa em homenagem aos Òrìsàs da Caça, nela haverá muitas frutas, bolos, mandioca, fruta-pão, batata doce, banana da terra, inhame e tantos outros pratos da tradicional culinária do Candomblé.

As Ayabas de Oya, preparam os animais que serão ofertados no Ojubó, dentro do Ile Òrìsà. Um grupo de Omo Òrìsà, fica no Ilé Òrìsà, aguardando a chegada da procissão do Ori Malu, enquanto outros Filhos de Santo, escolhidos em função de seus títulos e seus Òrìsàs, vestidos à caráter e de branco, perfilam-se rumo ao sítio no qual foi realizado o sacrifício do Boi, pelo Magarefe.

Ao chegar no sítio, o Ori Malu e algumas partes específicas do Boi, são depositados em um grande balaio, no qual consta um dos grandes segredos do ritual. Nesse balaio, há um conjunto de elementos e uma determinada folha, utilizada para receber o Ori Malu. Esse balaio será carregado por Ayabas de determinados Òrìsàs, ligados ao ritual. Outro elemento de fundamental importância, consiste na moringa que será carregada por Yemoja. Nesta moringa, há um grande segredo do ritual do Ori Malu, que não cabe ser compartilhado nesse texto. Os “Eran Peteré”, serão cuidadosamente arrumados em um balaio, que também foi preparado com elementos sacralizadores. Após tudo devidamente arrumado, inicia-se a procissão rumo de volta à Casa de Candomblé.

Na Casa de Candomblé, ao somo do Agere (Toque de Evocação dos Deuses da Caça), os Alagbés, Egbon-mi e Ekejis, aguardam a chegada da procissão. Nesse momento, a chegada da procissão é enunciada por um cântico Yoruba, que elucida a importância do Ori, no ritual dos Caçadores. Com fogos, feijão fradinho torrado e muitas saudações à Ode, finalmente os “preparados” adentram a Casa de Candomblé.

Os filhos de santo, já manifestados pelos seus Òrìsàs, dançam com a obrigação envolta do Asè central do Barracão. A Grande Procissão do Rei da Nação dos Candomblés do Brasil, está sendo realizada à contento. Novamente, cânticos em louvor aos Deuses da Caça são entoados. Após dançarem envolta ao àse, uma nova cantiga é entoada, para apresentar à Ode, no Agbo de Òsóòsì o Ori Malu. Feito isso, o oro é uma vez mais, realizado, nesta ocasião no Agbo de Òsóòsì.
Realizadas todas as obrigações dos Òrìsàs, o farto café da manhã é ofertado em regozijo à todos presentes que, comungam com o Deus da Fartura.

Òkè Àró!

Texto.
Bàbálòrìsà José Carlos de Ibùalámo
Foto.
Baianas do ibece alaketu em procissão do Òri Malú

Apoio: Bàbálòrìsà Luiz de Ayrá.

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