Anúncios
Feeds:
Artigos
Comentários

Archive for the ‘Candomblé’ Category

Cabaça – Igbá

Resultado de imagem para fotos de cabaça

A cabaça é um fruto vegetal com larga utilização no Candomblé. É o fruto da cabaceira. Inteira, é denominada cabaça; cortada, é cuia ou Coité; e as maiorias são denominadas cumbucas. Nos ritos do Candomblé, sua utilização é ampla, tomando nomes diferentes de acordo com o seu uso, ou pela forma como é cortada. Os iorubás, como todos os outros povos, aproveitavam as igbá [cabaças] como vasilhas para uso doméstico e ritualístico. As cabaças, dependendo do seu uso, recebiam nomes diferentes:
A cabaça inteira é denominada Àkèrègbè, a cortada em forma de cuia toma o nome de Igbá. A cortada em forma de prato é o Ìgbájé , ou seja, o recipiente para a comida; a cortada acima do meio, forma uma vasilha com tampa, tomando o nome de Ìgbase ou cuia do Àse, e é utilizada para colocar os símbolos do poder após a obrigação de sete anos de uma Ìyàwó como a tesoura, navalha, búzios, contas, folhas, etc. que permitirão à pessoa ter o seu próprio Candomblé. Ado – cabaças minúsculas são colocadas no Sàsàrà de Omolu, como depósito de seus remédios. No Ógó de Èsù, uma representação do falo masculino, as cabaças representam os testículos.
Usa-se uma das partes da cabaça cortada ao meio, e colocada na cabeça das pessoas a serem iniciadas e que não podem ser raspadas por serem Àbìkú, para nela serem feitas as obrigações necessárias. Com o corte ao comprido, torna-se uma vasilha com um cabo, chamada de cuia do Ìpàdé e serve para colher o material de oferecimento ou para colher as águas do banho de folhas maceradas. Inteira e revestida de uma rede de malha será o Agbè, instrumento musical usado pelos Ogans, durante os toques e cânticos. Uma cabaça com o pescoço comprido em forma de chocalho é agitada com as suas sementes, fazendo assim o som do Séré, forma reduzida de Sèkèrè, instrumento por excelência de Sàngó.  A cabaça inteira em tamanho grande substitui nos ritos de Àsèsè, a cabeça de uma pessoa que morreu e que por alguns fatores não é possível realizar as obrigações de tirar o Òsu. Por fim, pode ser lembrado que a cabaça cortada em forma de vasilha com tampa é conhecida como Ìgbádu, a cabaça da existência e contém os símbolos dos quatro principais Odù: Éjì, Ogbè, Òyekú Méjì, Ìwòri Méjì e Òdí Méjì.

1 – Akèrègbè – cabaça de bom tamanho [30 a 50 cm], servindo como vasilha para líquidos;
2 – Igbá – cabaça cortada em forma de cuia. ÌGBÀ = assentamento de Orixá; panela onde se guardam os objetos sagrados dos deuses e se faz o sacrifício;
3 – Ibajé – cabaça cortada em forma de prato. Recipiente para a comida;
4 – ÌGBASE – Cabaça cortada acima do meio, formando uma vasilha com tampa;
5 – Ádo – pequena cabaça utilizada para armazenar pós ou remédios. É aquela que se vê nas figuras de Exu, Osaniyn e Obaluaiye;
6 – Cabaça cortada ao meio;
7 – Cabaça do Ipadê;
8 – Agbé – Inteira e revestida de uma rede;
Xequerê instrumento musical.
9 – Séré – cabaça com um longo e fino pescoço. Quando cortada ao meio, serve como uma concha. Quando inteira, serve como chocalho ritualístico para anunciar Xangô, sendo chamada então de SÉRÉ Sángo;
10 – Cabaça Inteira;
11 – Igbadu;
12 – Ahá – pequena cabaça servindo como copo ou xícara para tomar remédios e bebidas;
13 – Ató – cabaça pequena e comprida, utilizada para guardar remédios;
14 – Pòko – ou a metade superior ou a inferior de uma cabaça de forma oval;
15 – Igbá kòtò – cabaça larga e alta, usada para guardar ÈkO [um bolo de milho] quente. Tem uma tampa que pode ser usada como funil;
16 – Koto – cabaça grande e larga, semelhante a um cesto .

Texto Internet-Àṣẹ ÌyáOmi

Anúncios

Read Full Post »

COMPLETA 100 ANOS NO RIO O OGAN MAIS VELHO DO BRASIL!

 

Aos 100 anos, morando há 50 no Rio de Janeiro, Luiz Angelo da Silva, o Ogan Bangbala, foi diretor do Afoxé Filhos de Gandhi RJ.

Ogan Bangbala é uma entidade, um baiano, que acaba de completar 100 anos e vive em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. No Candomblé, ogan é quem toca os instrumentos musicais atabaque e agogô. Bangbala é o mais antigo ogan vivo no Brasil e em atividade. Ele não entra em transe, mas provoca. É através de seu toque que os orixás incorporados executam suas danças.

Para se tornar ogan a pessoa deve ser escolhida pelo orixá, a partir de um membro que o incorpora, normalmente, é integrante já muito ativo na comunidade de terreiro, consagrado um mestre.

Luiz Angelo da Silva, o Ogan Bangbala, estudou até o ensino primário, teve dezesseis irmãos, mas apenas três passaram dos primeiros anos de vida.

“Sou o último membro da minha geração na família, todos os outros já morreram”, afirma. “A mãe de santo mais próxima de mim Mãe Beata de Yemanjá – Ile Omiojuaro, minha melhor amiga, faleceu aos 86 anos. Eu fui o responsável pelo rito fúnebre dela, o axexê.” Inclusive, o próprio, há 61 anos, no terreiro de Olga do Alaketo, estava na iniciação de Mãe Beata.

#vilacruzeirorjoficial #ogan
#candomblé #axe #bangbala

A imagem pode conter: 1 pessoa, close-up

Read Full Post »

Obatalá Oseremagbo

Òrìşànlá Ọșẹrẹmágbo

O aprisionamento de Ợbatalá

 

Deixe a lebre aperfeiçoar sua raça

Deixe o javali ser esperto com sua cabaça

As dançarinas profissionais que esperam para dançar em Ootu Ifé devem vestir-se muito bem

A divinação de Ifá foi feita para Òrìşànlá Ọșẹrẹmágbo

No dia em que ele desejou fazer uma viajem para a cidade de Isolu

Antes que uma pessoa siga com um projeto importante ela deve procurar pelo conselho de Ifá

O deus Yorùbá da sabedoria

Ợbatalá consulta esses sacerdotes antes de fazer sua jornada a Isolu, e o sacerdote aconselhou-o a fazer um sacrifício para evitar embaraços

Ợbatalá não fez o sacrifico, e se aprontou para viajar.

Em Isolu há um grande rio próximo a entrada da cidade.

Os homens, as mulheres e crianças de Isolu pegam água desse rio para beber, ou tomar banho e ás vezes para lavar suas roupas com ela.

Os habitantes de Isolu sabem da existência de um homem louco que sempre vem ao rio para molestar as pessoas.

O homem louco é esperto também; ás vezes ele finge estar tomando banho e assim que as pessoas aproximam-se dele, ele as assedia.

Isso fez com que pessoas avisassem a todos de que da próxima vez que cruzarem com ele novamente, ele deve ser preso.

Como Ợbatalá estava chegando perto da cidade, ele teve vontade de tomar um banho.

Ele estava quase nu, usando apenas suas calças e começou a tomar banho.

Algumas mulheres vieram da cidade para pegar água. Elas viram Ợbatalá de costas e pensaram que fosse o louco novamente.

Elas correram de volta para avisar o povo da cidade e todos correram para o rio.

Ợbatalá foi confundido com o louco e foi aprisionado. Por dias Ợbatalá sofreu pelo crime que não cometera.

Ele ficou irritado e tocou Osu em sua cabeça. Toda a cidade de Isolu ficou inquieta.

A chuva recusou-se a cair. A desolação instalou-se visivelmente, os que estavam doentes ficaram impossibilitados de melhorar. Nenhuma comida – há uma grande estiagem e o rei mandou chamar seus conselheiros.

Eles chamaram um babalawo para aconselhá-los. Ele fez a divinação Anukunrin, mas não pode precisar o que era o real problema com a cidade, porque Ợbatalá não permitiu que ele soubesse.

Após algum tempo, eles convidaram outro sacerdote para vir aconselhá-los. Anu Kunrin, o sacerdote de Isolu. Foi a mesma coisa. E tudo ficou ainda pior para eles.

Foi um dos conselheiros do rei que o aconselhou a chamar Ogbigbi, um dos mais famosos babalawo. Quando o rei mandou chamá-lo, ele consultou seu próprio Ifá, de modo que pudesse ter sucesso na empreitada a qual o rei o chamara.

Foi dito a Ogbigbi que fizesse um sacrifício com água de igbin e que ele esfregasse os olhos com ela e limpasse antes de ir ao palácio – foi o que ele fez.

Por esse motivo foi que ele teve a capacidade de ver claramente o problema em particular que eles tinham na cidade de Isolu. Ele disse que foi por causa de um homem inocente que eles haviam aprisionado, e que a cidade precisava de uma limpeza especial com água para tornar tudo calmo.

Ợbatalá precisava ser acalmado com dezesseis igbin e uma toga branca. O rei ordenou que Ợbatalá fosse libertado e eles imploraram que ele os perdoasse. Eles deram uma bela toga para ele e fizeram um banquete com guisado de igbin. Tudo que Ợbatalá gosta foi dado a ele. E eles tocaram tambor e regozijaram-se com ele para agradá-lo e ele os abençoar. E então eles cantaram –

“Ợbatalá to to fun un!

Too!

Ợbarìşà to to fun un

Too!”

E Ợbatalá disse:

“Anukunrin é um sacerdote em Isolu. Ogbigbi porque revelaste isto, Ogbigbi?

Anukunrin é um sacerdote em Isolu. Ogbigbi porque revelaste isto, Ogbigbi?”

E o rei e os chefes convenceram-no a perdoá-los e a esquecer a ofensa  deles

“Ợbatalá to to fun un!

Too!

Ợbarìşà to to fun un

Too!”

 

Odù Idin Kanran

Epá Odù. Epá Òrìşà!

 

Do livro: As aventuras de Ợbatalá – Ifá e os deuses da criação

Araba Elebuibon

 

Tradução: Odé Olaigbo

Read Full Post »

Resultado de imagem para mãe stella de oxossi

Maria Stella de Azevedo SantosMãe Stella de OxóssiOdé Kayode, (Salvador2 de maio de 1925 – Santo Antônio de Jesus27 de dezembro de 2018) foi a quinta Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá em Salvador, Bahia.

Maria Stella de Azevedo SantosMãe Stella de OxóssiOdé Kayodê, nasceu no dia 2 de maio de 1925, em Salvador, Bahia. É a quarta filha de Esmeraldo Antigno dos Santos e Thomázia de Azevedo Santos. Seus irmãos, por ordem de nascimento são: Coryntha de Azevedo Santos (falecida), Bellanizia de Azevedo Santos (falecida), José de Azevedo Santos, Milta de Azevedo Santos e Adriano de Azevedo Santos (falecido).

Sua avó materna foi Theodora Cruz Fernandes, filha de Maria Konigbagbe, africana de etnia egbá.[nota 1] Aos nove anos de idade, Maria Konigbagbe estava na aldeia quando mandaram que ela entregasse uma encomenda em um navio, assim que chegou foi presa e trazida para o Brasil.

Sua tia, Dona Arcanja, também conhecida como Dona Menininha, tinha o posto de arobá no Gantois e de Sobalojú[nota 2] no Opô Afonjá nos tempos de Mãe Aninha, de quem era afilhada. Por volta dos treze anos de idade, Mãe Stella apresentou um comportamento não esperado, o que fez com que Dona Arcanja procurasse ajuda do oluô Pai Cosme de Oxum, que informou que mãe Stella deveria ser iniciada e que seu caminho era de iyalorixá. Com isso Dona Arcanja decidiu procurar Mãe Menininha do GantoisDona Joaninha, que era governanta da casa, foi que acompanhou Mãe Stella na consulta. Depois de esperar muito para ser atendida, uma filha do Gantois apareceu na sala e avisou que ninguém mais seria atendido naquele dia.[nota 3] Aborrecida, Dona Joaninha seguiu para casa, e relatou o ocorrido à Dona Arcanja, que resolveu levar Mãe Stella ao Ilê Axé Opô Afonjá no dia 25 de Dezembro de 1937, quando foi apresentada à Mãe Aninha. Esta entregou Mãe Stella aos cuidados de Maria Bibiana do Espírito SantoMãe Senhora.

Mãe Stella relatou:

“Voltei para casa com a imagem de tia Aninha, imponente e misteriosa, que com um gesto meio mágico tirou uma fruta – uma maçã vermelha – de uma grande gamela que estava no altar de Xangô, e me entregou. Achei ótimo, esnobei meus irmãos, ainda mais quando me disseram: – Só você ganhou a fruta do pé do santo… Não me saía da cabeça a imagem da ossi dagã. Só falava nela e, então, fui informada de que ossi dagã era o cargo que ela ocupava no axé. Um ano depois, voltei com minha tia Arcanja, a Sobalojú do Opô Afonjá, e Joaninha, companheira de todas as horas. Tia Aninha já tinha falecido e a ossi dagã reinava como iyalorixá do Axé Opô Afonjá.”

Em 12 de setembro de 1939, aos quatorze anos, Mãe Stella foi iniciada por Mãe Senhora e recebeu orukó (nome) de Odé KayodêMãe Stella conta que quando foi realizada sua iniciação, ela “não pensava em nada”, “não tinha noção” do que estava acontecendo:

“É interessante o desígnio, a força dos orixás. Meu caminho era ser iyalorixá. Se tivesse ficado no Gantois, casa que guarda os santos de minha avó e meus tios, não poderia realizar meu caminho. Só em 1976, quando fui escolhida lá, entendi isso… é engraçado a força do odu, do destino. Era uma guerra de orixás. Minha herança era de Iansã – minha avó Theodora –, mas Odé me queria.”

Lizete Fernandes Copque, prima, companheira de infância de Mãe Stella e iniciada no Gantois para Iansã, relembra:

“Vi Stella voltar para casa de cabeça raspada, com 14 anos. De vez em quando ela caçava; mandava que eu e meus irmãos sentássemos e caçava, dançando; era igual ao que se vê hoje no barracão.”

Mãe Stella estudou no colégio Nossa Senhora Auxiliadora, dirigido pela professora D. Anfrísia Santiago. Formou-se pela Escola de Enfermagem e Saúde Pública, exercendo a função de Visitadora Sanitária por mais de trinta anos.

Em 29 de junho de 1964, foi designada ‘ Kolabá[2] por Mãe Senhora. Filha dileta de sua mãe-de-santo, pouco a pouco foi aprendendo os grandes mistérios e segredos do candomblé. Ainda em vida de Mãe Senhora fizera exercer a função de mãe de uma iaô – Celenita – que era filha de Ogum.

Em 19 de março de 1976, foi escolhida para ser a quinta iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá, conforme consta no livro de atas do conselho religioso do próprio terreiro, a seguir:

Transcrição da ata registrada no dia 19 de março de 1976 do livro de Atas do Conselho Religioso:

Aos dezenove dias do mês de março de 1976 (hum mil novecentos e setenta e seis), presentes 136 pessoas, todas com suas assinaturas gravadas no livro de Atas do Conselho Religioso deste Axé, às 10 horas e 45 minutos, no Barracão, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário da Sociedade Civil (Obá Xorun), dirigi-me a todos os presentes, solicitando que se aproximassem da mesa onde seria realizado o jogo para a escolha da futura Iyalorixá, uma vez que antes do jogo ser iniciado, o professor Agenor Miranda, Babalaô, considerado o único Oluô no Brasil, filho espiritual da falecida Eugênia Anna dos Santos (Mãe Aninha), irmão da também falecida Ondina Valéria Pimentel, vindo do Rio de Janeiro exclusivamente para esta cerimônia, irá fazer uma dissertação do que acontecerá em seguida. Com a segurança que lhe é peculiar, e a franqueza de sempre, ele se dirigiu aos presentes nos seguintes termos: “Não estou aqui para ser agradável a quem quer que seja, sei que muitos dos presentes já fizeram sua escolha, porém eu estou aqui para cumprir a determinação de Xangô, e advirto a todos os filhos e filhas, Obás e Ogãs, e a todos vinculados a este Axé, que vontade de Xangô é Lei, é sagrada, e sua escolha, sobre quem quer que caia, terá de ser por todos acatada e respeitada, e a filha deste Axé que for por ele escolhida não deverá se deixar levar pelo coração, e deverá, sim, agir com justiça e sabedoria, promovendo a união de todos, e acima de tudo ter pulso forte para manter a hierarquia, doa em quem doer”. A hierarquia, ele repetia que tinha de ser mantida acima de tudo. Sentou-se em seguida para dar início ao jogo. Ao seu lado direito estava sentada Eutrópia de Castro (Iyakêkêrê), aos eu lado esquerdo o Assobá Deoscóredes dos Santos, e em volta destes, representações do Engenho Velho, Gantois, Bate-Folha, e de diversas outras Casas da Bahia e do Rio de Janeiro, e ainda os membros do Conselho Religioso. O Professor Agenor Miranda segurou os búzios e concentrou-se. Todos os presentes conservaram um silêncio absoluto, atentos ao professor. Ele deu início à leitura, e falou EJIONILÊ, recolheu os búzios e, após uma pausa, jogou-os novamente e falou ODI, e novamente usados os búzios falou OXÉ, em seguida OSSÁ, após nova concentração usou novamente os búzios e falou EJILASEBORÁ, apresentando Oxossi, em seguida falou ÔFUN trazendo ORUKÓ de ODÉ KAIODÊ; novamente o professor usou os búzios e voltaram OSSÁ e OXÊ, os Odus de Odé Kayodê, filha do Axé a quem Xangô escolhia e determinava ser a nova Iyalorixá. O professor Agenor se dirigiu aos presentes, dizendo que se ali, naquele momento, houvesse algum Oluô, ou pessoa que sabe ler nos búzios, que se aproximasse e viesse ler e constatar o que ali estava determinado por Xangô. Em seguida, como é de praxe, o Assobá partiu um OROBÔ e pediu a Xangô confirmação do que disseram os búzios, e por duas vezes seguidas a palavra foi confirmada com ALAFIÁ. O Professor Agenor procurou saber quem atendia pelo nome de Odé Kayodê, e Stela Azevedo se apresentou e foi notificada pelo Professor Agenor ser ela a escolhida por Xangô para dirigir os destinos do Axé. Dirigindo-se a mim, solicitou que eu notificasse em voz alta o que Xangô acabara de determinar. Comuniquei aos presentes que, por determinação e vontade de Xangô, fora escolhida a filha do Axé de nome Stela Azevedo – Odé Kayodê – Kolabá, para ser a Iyalorixá a partir daquele instante. Todos os presentes acolheram minhas palavras de pé e com uma salva de palmas. Em seguida, um a um, os filhos deste Axé de Opô Afonjá, os representantes das diversas casas ali presentes, os visitantes, todos, enfim, foram cumprimentar a nova Iyalaxé, que se curvava à vontade de Xangô, e como mais nada atinente ao assunto tivesse de ser registrado, encerrei a ata feita no livro de Atas do Conselho Religioso, assinando a mesma, em Salvador, 19 de março de 1976, eu, Fernando José Pacheco Vasquez, Secretário (Obá Xorun), o Presidente Carybé, senhor Hector Bernabó (Otun Obá Onasokun) e os diretores presentes, Mario M. Bastos, Deoscóredes Maximiliano dos Santos.

Quando Mãe Stella foi escolhida iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá, Dona Milta explicou que não conseguia aceitar o peso da responsabilidade que caía sobre os ombros da irmã:

“Corri para dona Menininha do Gantois, implorando que ela desse um jeito, mas ela, Mãe Menininha, disse: ‘Isso não é comigo, isso é com os orixás, eles sabem que Stella tem força, eles a conhecem. Vi que era um poder maior e lembrei de Camões, ‘Cesse tudo o que a Musa antiga canta, que outro valor mais alto se alevanta…’ Vi que não podia fazer nada.”

Em 1981, Mãe Stella visitou templos e casas de orixás em Oshogbo na Nigéria. Ela cumprimentava as pessoas, era recebida por todos e, uma vez, ao entoar um canto para Oxum, à sua voz incorporaram-se outras. Houve total entendimento e todos se emocionaram. O mesmo se deu nas cidades de Ile-Ifé e Ede. Apesar das barreiras linguísticas, fez amigos e foi homenageada. Em 1983 o professor Wande Abimbola, à época reitor da Universidade de Ile-Ifé, fez questão de realizar em Salvador, na Bahia, a II Conferência da Tradição dos Orixá e Cultura, porque sabia haver em Salvador raízes profundas da cultura yoruba.

O primeiro pronunciamento público de Mãe Stella foi na II Conferência Mundial de Tradição dos Orixá e Cultura, de 17 a 23 de Julho de 1983, em Salvador, quando lançou ideias originais sobre o sincretismo. Ela também participou da III Conferência Mundial de Tradição dos Orixás e Cultura, em 1986, em Nova IorqueEstados Unidos.

Em 1987, Mãe Stella integrou a comitiva organizada por Pierre Verger para a comemoração da Semana Brasileira na República do Benin, na África. Sua presença mereceu destaque e ela foi recebida com honras de líder religiosa.

Em 1999, Mãe Stella conseguiu o tombamento do Ilê Axé Opô Afonjá pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), órgão ligado ao Ministério da Cultura.

Morte e sucessão.

Faleceu na cidade de Santo Antônio de Jesus, no Hospital Incar, onde se internara no dia 14 de dezembro de 2018 para tratar de uma infecção; ela havia se mudado da capital do estado para a cidade do RecôncavoNazaré das Farinhas, após ter sofrido um AVC que a deixara sem visão e com os movimentos limitados.[3]

A mudança de Mãe Stella para Nazaré se deu de forma traumática; ela fora levada por sua companheira, a filha-de-santo e psicóloga Graziela Dhomini, que foi acusada pelos integrantes do Terreiro Ilê Axé Opó Ofonjá de impossibilitar que pudessem visitar a Ialorixá, processando-a por isto; esta por sua vez havia denunciado à polícia a forma violenta com que fora expulsa do templo, fato que teria sido filmado e divulgado na internet.[3]

Mãe Stella não indicou um sucessor, o que abriu a disputa entre ao menos cinco grupos para ocupar o cargo máximo do Ilê Axé Opó Ofunjá.[3]

Prêmios.

Livros

  • “E Dai Aconteceu o Encanto”, Maria Stella de Azevedo Santos e Cléo Martins, Salvador, 1988.
  • “Meu Tempo é Agora “, Maria Stella de Azevedo Santos. 1a Edição: Editora Oduduwa, São Paulo, 1991. 2a Edição: Vol.1. Salvador, BA: Assembleia Legislativa da Bahia, 2010.
  • “Lineamentos da Religião dos Orixás – Memória de ternura”- Cléo Martins, 2004; participação especial de Mâe Stella – Alaiandê Xirê- ISBN 8590467813.
  • “Òsòósi – O Caçador de Alegrias”, Mãe Stella de Òsòósi, Secretaria da Cultura e Turismo, Salvador, 2006
  • “Owé – Provérbios” – Salvador – 2007.
  • “Epé Laiyé- terra viva”, conta a história de uma árvore que ganha pernas e vai lutar pela construção de um mundo que respeita o meio ambiente. Em sua trajetória o personagem ganha ajuda do orixá Ossain, divindade que domina o conhecimento sobre o mundo vegetal. Salvador – 2009.
  • “Opinião – Maria Stella de Azevedo Santos – Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá – Um presente de A TARDE para a história”, reunião de textos publicados no jornal A TARDE na coluna “Opinião”.

Referências

  1.  Mãe Stella de Oxóssi
  2.  Título relacionado ao culto de Xangô.
  3. ↑ Ir para:a b c Roy Rogeres (27 de dezembro de 2018). «Mãe Stella de Oxóssi: o adeus a uma imortal». A Tarde. Consultado em 28 de dezembro de 2018Cópia arquivada em 28 de dezembro de 2018
  4.  Título Doutor Honoris Causa – Mãe Stella de Oxossi
  5.  «Mãe Stella de Oxóssi é eleita membro da Academia de Letras da Bahia». Política livre. 25 de abril de 2013. Consultado em 7 de fevereiro de 2014

Notas

  1.  O Egba é um subgrupo étnico dos yorubas da Nigéria, formado ainda pelas subdivisões: Ake, Owu, Oke Ona, Gbagura e Ibara. Cada subdivisão tem seu próprio rei. O termo Egba refere-se a boa parte dos nativos da cidade de Abeokuta, a capital do estado de Ogun. Localiza-se no sudoeste da Nigéria. Tem cerca de 751 mil habitantes. Durante o período colonial britânico, o colonizador apontou o rei de Ake como o principal governante e portanto este é conhecido como o rei da terra do Egba. Os títulos dos reis das subdivisões são: Alake da terra dos Egba, o Olowu de Owu, o Agura de Gbagura, o Oshile de Oke Ona, e o Olubara de Ibara. Vale notar que que a cidade original dos Egba se encontrava em torno da pedra Olumo, que hoje se chama Oke Ona Egba.
  2.  O olheiro de Xangô.
  3.  Sobre esse episódio, Mãe Menininha falaria mais tarde que “Stella era para ser daqui, mas não foi por causa de um recado mal dado.” 

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

Read Full Post »

A imagem pode conter: uma ou mais pessoas, pessoas em pé e atividades ao ar livre

ÒRI MALÚ.
Festa da cabeça do boi.

Ori Malu é um ritual realizado em algumas Casas de Candomblé da Tradição Nago Ketu. Muito embora, o ritual seja de grande importância, o mesmo está se perdendo ao longo dos anos, sendo que a grande maioria das Casas de àse, estão localizadas no perímetro urbano das grandes cidades.
O Ritual do Ori Malu, inicia-se na verdade, com a programação da compra do Boi, escolhido pelo Òrìsà, por intermédio do jogo de búzios realizado pelo Sacerdote. Esse Boi, é encomendado à um sitiante das proximidades da Casa de Candomblé, sendo combinando com o mesmo, o dia e hora do sacrifício.
Em uma quarta-feira anterior a festa de Ode, todos os filhos de santo deve pousar no àse, passando por algumas obrigações realizadas pelo Sacerdote. Na aurora da quinta-feira, a Alvorada (conjunto de toques específicos) é realizada pelo corpo de Alagbés da Casa.
A Iyabase e Iyasinjé, preparam uma farta mesa em homenagem aos Òrìsàs da Caça, nela haverá muitas frutas, bolos, mandioca, fruta-pão, batata doce, banana da terra, inhame e tantos outros pratos da tradicional culinária do Candomblé.

As Ayabas de Oya, preparam os animais que serão ofertados no Ojubó, dentro do Ile Òrìsà. Um grupo de Omo Òrìsà, fica no Ilé Òrìsà, aguardando a chegada da procissão do Ori Malu, enquanto outros Filhos de Santo, escolhidos em função de seus títulos e seus Òrìsàs, vestidos à caráter e de branco, perfilam-se rumo ao sítio no qual foi realizado o sacrifício do Boi, pelo Magarefe.

Ao chegar no sítio, o Ori Malu e algumas partes específicas do Boi, são depositados em um grande balaio, no qual consta um dos grandes segredos do ritual. Nesse balaio, há um conjunto de elementos e uma determinada folha, utilizada para receber o Ori Malu. Esse balaio será carregado por Ayabas de determinados Òrìsàs, ligados ao ritual. Outro elemento de fundamental importância, consiste na moringa que será carregada por Yemoja. Nesta moringa, há um grande segredo do ritual do Ori Malu, que não cabe ser compartilhado nesse texto. Os “Eran Peteré”, serão cuidadosamente arrumados em um balaio, que também foi preparado com elementos sacralizadores. Após tudo devidamente arrumado, inicia-se a procissão rumo de volta à Casa de Candomblé.

Na Casa de Candomblé, ao somo do Agere (Toque de Evocação dos Deuses da Caça), os Alagbés, Egbon-mi e Ekejis, aguardam a chegada da procissão. Nesse momento, a chegada da procissão é enunciada por um cântico Yoruba, que elucida a importância do Ori, no ritual dos Caçadores. Com fogos, feijão fradinho torrado e muitas saudações à Ode, finalmente os “preparados” adentram a Casa de Candomblé.

Os filhos de santo, já manifestados pelos seus Òrìsàs, dançam com a obrigação envolta do Asè central do Barracão. A Grande Procissão do Rei da Nação dos Candomblés do Brasil, está sendo realizada à contento. Novamente, cânticos em louvor aos Deuses da Caça são entoados. Após dançarem envolta ao àse, uma nova cantiga é entoada, para apresentar à Ode, no Agbo de Òsóòsì o Ori Malu. Feito isso, o oro é uma vez mais, realizado, nesta ocasião no Agbo de Òsóòsì.
Realizadas todas as obrigações dos Òrìsàs, o farto café da manhã é ofertado em regozijo à todos presentes que, comungam com o Deus da Fartura.

Òkè Àró!

Texto.
Bàbálòrìsà José Carlos de Ibùalámo
Foto.
Baianas do ibece alaketu em procissão do Òri Malú

Apoio: Bàbálòrìsà Luiz de Ayrá.

A imagem pode conter: 4 pessoas, pessoas em pé, pessoas no palco, céu e atividades ao ar livre

Read Full Post »

SAKPATA & ṢỌPỌNNÁ

Sakpata vs Saponá, e os mistérios perdidos no tempo.
Teria Sakpata imigrado para a antiga Nigéria 
ou 
Ṣọpònná imigrado para o antigo Dahomé?
 
Sakpata entre os Ewe Fon e
 
Ṣọpònná entre os Iorubas.
 
Divindades distintas ou a mesma divindade cultuada de formas diferentes?
Visando e primando pela perpetuação do culto as divindades de Panteão Ioruba, exponho neste tópico algumas informações acerca de Sakpata, Ọbalùàiyé, Ọmọlu e Jagun Agbaba, para darmos inicio a um intercâmbio maior sobre o conhecimento desta família da qual a denomino de Iji Jẹpẹtẹwu ou mais conhecida pelo povo de santo como A Família Ji.
SAKPATA
 
Para um melhor entendimento, deveremos saber que no antigo Dahomé, existe uma divindade no Panteão Ewe Fon, denominada de Sakpata, o Vodun da Varíola... A etnia Ewe Fon e conhecida popularmente no Brasil pelo término Jeje e em Cuba por Arara… Da mesma forma que Ṣọpònná seu nome não pode ser pronunciado, seus adeptos o preferem chamá-lo de Ayinon “O dono da terra”… Sakpata pertence a primeira linhagem da família de Nyohwe Ananu uma Vodun que possui característica idênticas as de NàNá Burúkú… Os nomes mais conhecidos de Sakpata no Novo Mundo são Azontunu e Avimage… Segundo reza a tradição, um grupo expedicionário da região de Savalou que estavam ao norte do antigo Dahomé, encontrou os Kadjanu (nagôs vindos da região de Badagris) em Damé, as margens do rio Wèmé, os quais o seguiram até Savalou, levando com eles sua divindade protetora dos quais denominaram em língua Fon de Sakpata Agbosu… Em Savé, afirma-se que Ṣọpònná teria vindo do reino de Ọ́yọ́… Essa remota origem nagô-iorubá é sublinhada pelo fato de que os Vodunsi (iniciados) de Sakpata são denominados Anagonu, que significa forasteiro de onde se originou a corruptela nagô… Em Dassa Zoumé, Ṣọpònná é conhecido por Sakpata… Os Sakpatanon grã-sacerdotes do Culto à Sakpata tinham uma grande influência sobre a realeza, porém, os reis jamais tiveram muita estima pelos sacerdotes desse culto. O mesmo culto passou por momentos de aceitação e reprovação; foi restabelecido por várias vezes e em seguida proscrito formalmente, pelos soberanos do reino do Dahomé, da mesma forma que os Oluwo Ipopo, os Sakpatanon foram mortos e muitos expulsos do território do Benim.
ṢỌPỌNNÁ
 
Entre os iorubas Ṣọpònná é temível e perigoso, divindade das epidemias, sobretudo a varíola, sua maior arma de punição aos malfeitores e aqueles que o desrespeitam. As altas temperaturas corpórea, seguidas de delírios causados pela infecção de doenças contagiosas, não são mais do que sintomas da ira de Ṣọpònná contra sua vitima. Quando temos alguma razão para pensar que um enfermo esteja sob a manifestação maléfica de Ṣọpònná é descrito de Ilẹ̀gbóná – Varíola; Ìgbóná – Febre ou até mesmoIlẹ̀ gbígbóná – Terra quente, ou seja, “a terra aonde o enfermo encontrasse está demasiadamente quente” é a presença do Deus da Varíola e precisa ser apaziguado. Neste caso os iorubas não pronunciam mais o nome Ilẹ̀ gbígbóná e sim empregam um eufemismo e dizem exatamente o contrário Ilẹ̀ Tútù – O solo está frio, vertendo água de dentro para fora da casa. Terrivelmente temido, seu nome não deve ser pronunciado, sobre tudo perante aos enfermos, quando invocado é mais indicado usar nomes com expressões adulatórias, como: Ọbalùàiyé – Rei e Senhor da terra;Olùàiyé – Senhor da terra ou Oloòde – Senhor dos espaços abertos. Quando um enfermo padece de qualquer doença contagiosa e se crê que a causa seja Ṣọpònnáos iorubás descrevem a situação em términos de profundo respeito a divindade. Eles dizem Ó n sin Ọba – Ele está sob a vontade do Rei; Ilẹ̀ gbígbóná n bá a jà – A terra quente há posto sua mão sobre ele ou a terra quente o está afetando; Ó gb’ ofá ouOfá bà á – Ele atinge sua vítima como uma flecha ou Ele foi atingido por uma flecha.Ṣọpònná é descrito como Alápó – Alguém que maneja o temor e quando um enfermo morre como resultado de sua aflições, usualmente não se diz Ó kú – Ele morreu, se diz Ọba mú nlọ́ – O rei o o levou ou ainda Ilẹ̀ gbígbóná gbé e lọ́ – A terra quente o levou. Os mitos relatam que em dia de sol escaldante, em especial ao meio-dia,Ṣọpònná está vagando por todos os lugares e comumente se alerta a não usar o vermelho ao “sol a pino” correndo o risco de insultá-lo, do qual teriam sérias conseqüências. Deve-se ter cuidado, especialmente durante a temporada de seca, de não fazer nada que o ofenda, A sòroó pè léèrùn – Alguém cujo nome não é propicio se chamar durante a época de seca. Os antigos entendem desta forma porque as maiorias das epidemias de varíola foram constatadas em épocas de seca, além de que os iorubas crêem que Ṣọpònná esteja nessa época particularmente ativo.Ṣọpònná é considerado feroz e muitas vezes implacável, então não insultá-lo é a melhor prevenção de não ser molestado por uma divindade tão perigosa.
Ṣọpònná é a única divindade de que sua vontade, qualquer que seja sua manifestação, deve ser aceita, não somente com resignação senão com uma manifestação de prazer e gratidão. Por exemplo, os parentes de alguém que morre de varíola não deve se lamentar o mostrar que choram pela morte de um ente querido. Em vez disto eles devem estar alegres e felizes e mostrar que estão amplamente agradecidos pela atitude do Rei da Terra. Assim, Ṣọpònná é conhecido por Alápadúpé– Alguém que mata e se agradece por isso.
Sob seu absoluto domínio está a crosta terrestre; o solo onde o homem habita, constrói, cultiva e deposita seu cadáver após a morte; ele nutre os homens dando-lhes o milho e outros grãos do solo, mas também os pune fazendo com que, através de suas peles, saiam os “grãos” que eles comeram. Filho primogênito de Nà Bùkùú ou mais conhecida no Panteão Ioruba de NàNá Burúkú. Seu maior companheiro, um ancestral denominado de Ãle que habita o lado de fora de sua casa; nada o faz sem antes prestar reverencia a ele; seu nome não deve ser pronunciado após o pôr do sol. Na crença ioruba Ṣọpònná é a “Destruição que surgiu em uma noite”.
A escassez de informações sobre a origem do culto o mantém na obscuridade. Isso ocorreu devido ao fato deste culto ser de caráter reservado e em épocas remotas era proibido falar sobre o assunto. Acreditasse que se trata de uma divindade estrangeira, agregada ao Panteão dos Iorubas ou do retorno de origem ioruba longínqua, levadas por uma das inúmeras migrações em direção ao oeste da Nigéria e imigrações ao país vizinho a Republica Federal do Benim, antigo Dahomé. Ao pouco que se sabem, os antigos iorubas citam que Ṣọpònná teria vindo do território Fon e outros que tenha retornado a suas terras de origem, o território Iorubá… Na Cidade de Ketou há divergência de opiniões quanto a origem de Ṣọpònná… Alguns acreditam que tenha vindo a Ketou de Dassa Zoumé, segundo alguns, de Adja Popo, segundo outros, deAise e uma terceira opinião de Holi… Para um melhor esclarecimento, as maiorias dos estudiosos afirmam que o Culto ao Deus da Varíola, tenha sido oriundo do Leste Ioruba.
A Medicina Tradicional de se curar a varíola denominado de Ẹ̀rọ ou Oògùn Ṣọpònnáera conhecido, entre os iorubas, unicamente pelos sacerdotes de Ṣọpònná, que fizeram dele grande comércio e elevaram a varíola à posição de uma divindade temível. Na qualidade de representantes do “senhor e rei da terra”, os corpos e os bens das vítimas pertenciam de direito aos sacerdotes de Ṣọpònná. Esses sacerdotes mantinham em suas casas, cabaças com parte dos cadáveres da vítima da varíola, tais como um braço ou pé; potes contendo um líquido escuro, feito com a água extraída do cadáver ou da água que serviu para lavar o corpo, enquanto a pessoa estava viva; recipientes com um pó escuro, proveniente das escamações secas, deixadas pela varíola. Essa água ou esse pó eram jogados, durante a noite, na frente da casa das pessoas a quem se quer infectar. Os moradores ao saírem de casa, entravam em contato com os germes. Assim que uma ou mais pessoas da família se contaminasse, a erupção da pele aparece e um sacerdote de Ṣọpònná é convocado. Durante o tratamento Ẹ̀bẹ̀ – súplicas, preces eram constantemente recitadas com a finalidade de propiciar e apaziguar a fúria de Ṣọpònná.
De dez sacerdotes do culto, nove ajudam mais a desenvolver a doença do que interrompê-la. Era de seu interesse agir assim, além de grandes somas que recebem, eles reivindica todos os bens do doente, caso esse venha a falecer. Esses sacerdotes inescrupulosos retiravam os cadáveres da casa, mas não o enterravam no bosque com de costume, a não ser jogá-los no mato, onde os porcos os comiam e, algumas vezes, os pedaços do corpo eram levados para as aldeias vizinhas, contribuindo para espalhar o mal. Assim os sacerdotes faziam negócios muito lucrativos. Os sacerdotes que procediam de maneira correta conduziam o enfermo ao templo deṢọpònná e lá os sacerdotes os lavam com areia de praia quente e remédios secretos.
A História dos Iorubas em meados do século XVIII relata que um surto de epidemia da varíola dizimou a população de Abeokuta. Centenas de pessoas morriam todos os dias, metade da população fora atingida. Os governantes locais realizam uma sessão e certo número de adeptos de Ṣọpònná foram executados e outros expulsos, e suas casas incendiadas.
MLULU RGBO
 
Divindade que se funde ao culto de Ṣọpònná, mas em muitas localidades não se confunde. A região de Kétou, cidade fronteira entre a Nigéria e o Benim, é a única região em todo o território ioruba onde Ọbalùàiyé Ọmọlu são considerados, ao que parece, como uma única divindade… Seu templo é separado de sua mãe mítica NàNá Burúkú… Com essa mesma característica ele é conhecido no Brasil, onde a influênciaKétou é muito grande entre os descendentes de escravos que para lá foram levados. Em Ile Ife não existe culto à Ọmọlu e muitos ali o desconhecem. Contrário na regiãoMahi, onde seu culto se destinge totalmente de Ọbalùàiyé. Ao que se sabe, seu culto se originou do Oeste Iorubá.
A tradição local da Cidade de Topli, no TogoỌmọlulu Ọrọgbo é considerado uma divindade feminina, que saiu das águas segurando um ṣaṣara  emblema ritualístico e em uma das mãos e um gbada – facão na outra. Este facão é uma representação do crocodilo, animal sagrado entre as divindades dos rios… Em Abeokuta Ọmọlu é considerado um Òrìṣà feminino, onde o Culto à Ṣọpònná esta proibido desde 1884, divide seu templo com NàNá Burúkú e a ambas as divindade, quando se oferece sacrifícios de animais não se utilizam de facas… É possível que existam duas divindades com o mesmo nome, um de cada sexo, conforme se verá… Na cidade deAbeokutaỌmọlu é chamado de Olù Odò – Senhor do riacho (água) e Ọmọlu Òrìṣà omi ni – Ọmọlu é uma divindade das águas… Esse riacho é conhecido com Odomọlu o riacho de Ọmọlu e esta localizada em direção ao poente.
De suma importância mencionar, que o Templo de NàNá Burúkú esta voltado em direção ao poente e neste são realizados as oferendas somente ao por do sol, da mesma forma que se pratica nos Terreiros Tradicionais da Bahia.
 Na Cidade de Aise, existe em seu templo uma grande lança esculpida, denominada de Ọkọ Ọmọlu, na qual são representados por três personagens superpostos, representando Òṣumare, o próprio Ọmọlu e Iroko… Em Dassa Zoumé Ọmọlu é duplo, masculino segurando um facão e feminino segurando um abẹ́bẹ̀ – leque e umirùkẹ̀rẹ̀ – ornamento de cauda de bovino. Seu culto foi trazido de Aja Aguna e agregado em Dassa Zoumé na época do Rei Onigbo – quarto soberano de Dassa Zoumé
Nas proximidades de Atakpamé, cidade do Togo onde existe um dos principais templos de NàNá Burúkú, em uma aldeia igualmente chamada de Adja Agouna, existe um templo dedicado à Ọmọlu Arawe uma divindade masculina… em outra aldeia da região, conhecida por Gbekon, encontra-se um templo de sua contrapartida feminina, denominada de Ọmọlu Idji Aguna… Nesta região ambos os Ọmọlu são divindades totalmente distintas de Ṣọpònná e o sacrifícios de animais à Ọmọlu Arawe Ọmọlu Idji Aguna são realizados sem que se utilize uma faca para imolar o animal. Seus interditos são o vinho de palmeira no que se diferencia de Ọbalùàiyé onde é ofertado este tipo de vinho…
AJAGUN AGBAGBA
 
Ajagun ou simplesmente Jagun é uma divindade guerreira, originário de Ekiti Ifòn,pois acreditasse que sejam filhos de um dos Òrìṣà Funfun. Ao que se sabe é considerado um Guerreiro Branco… Considerado invencíveis, por sua bravura e coragem, nunca perdeu uma batalha, o que lhe deu o título de Keledjegbe – O Guerreiro Invencível. Ajagun se refugiou na Cidade de Ijena, terras do temívelṢọpònná, onde passa a ser agregado à família de Ọbalùàiyé tornando-se um dos Guardiões do Culto do Deus da Varíola.
Importante mencionar que a cidade ioruba Ijena ou Jena foi fronteira com o antigoDahomé e outrora um dos grandes centros de contacto e aculturação entre duas das maiorias etnias da África os Ewe-Fon e os Yorubá.
Em território ioruba o descrevem segurando uma lança – Ọkọ̀ em uma das mãos e um facão – gbada na outra. Sua cor predominante é o branco e seus interditos são o vinho de palmeira, cabe ressaltar que o vinho de palma é tabu para todas as divindades da família de Òrìṣà-Nlá.
CONCLUSÕES
 
Não poderia nos tempos de hoje chegar a uma conclusão definitiva a não ser a maiores questionamentos, sobre esses diversos aspectos de Ọbalùàiyé, Ọmọlu e Jagun Agbaba:
Duas divindades de origem diferente e pertencentes a antigos grupos culturais diferentes, divindades essas que vieram uma do leste (Ṣọpònná) e outro do Oeste (Ọmọlu), unindo e assumindo um caráter único em Ketou ?
 
Trata-se de uma divindade única, de origem ioruba e de origem Tapa (Nupe) mais longínqua, trazida para o oeste por uma das numerosas e antigas migrações que as tradições mencionam, e do retorno, em seguida, dessa divindade para seu ponto de partida, trazendo um novo nome, que originalmente, não passava de simples epíteto ?
 
Seria Ọmọlu Idji Aguna divindade feminina que saiu das águas a conhecida Yyógbáyin já que a ambos não se realizam sacrifícios com faca?
 
E quanto a Jagun, seria este Ọmọlu Arawe divindade masculina, baseando-se pelo fato de ambos portarem um facão em uma de suas mãos?
 
A grande lança na entrada do Templo de Ọmọlu Arawe na Cidade de Aisenão poderia ser a lança de Jagun?
Existem muitos mistérios em nossa sagrada religião que jamais serão revelados. Sem ser pretensioso, às vezes penso que nossa religião precisasse das “Areias do Tempo”a mítica ampulheta que permitia viajar pelo tempo. Mas isso está longe de nós pobres mortais.
Texto/Pesquisa: Baba Guido Olo Ajagùnà

Read Full Post »

Joãozinho da Goméia,

 

A imagem pode conter: 1 pessoa, close-up

João Alves de Torres Filho, Joãozinho da Goméia, Tata Ria Inkice (Babalorixá) do Candomblé Bantu de Nação Congo-Angola, que nasceu em Inhambupe, Bahia, no dia 27 de Março de 1914 e faleceu em São Paulo, no dia 19 de Março de 1971.
Existem muitas histórias sobre Joãozinho da Goméia.
De família católica, mas Joãozinho da Goméia foi “feito”, no dia 21 de dezembro de 1931, no Terreiro de Severiano Manoel de Abreu, conhecido como Jubiabá, nome do seu Caboclo.
Joãozinho da Goméia, recebia como porta voz do Inkice (Orixá), o Caboclo Pedra Preta. Caboclos são espíritos encantados, originários das religiões indígenas, que incorporam para dar mensagens pelos Inkices (Orixás).
Com a morte do seu Zelador de Santo, o Tata Ria Inkice Severiano Manoel de Abreu, Jubiabá, “refez o santo” em 1966, no Terreiro do Gantois com Mãe Menininha, passando da Nação Angola para Nação Ketu.

O certo é que Joãozinho da Goméia foi um homem não só adiante de seu tempo como também dono de um projeto particular de ascensão social e religiosa, buscando a diferença como dado de divulgação de si mesmo e sua “roça”: mulato que alisava os cabelos por vaidade, sem se preocupar com a polêmica de poder ou não colocar ferro quente na cabeça de um iniciado no santo; homem que não se envergonhava de ser homossexual na homofóbica Bahia do início do
século XX; babalorixá que afrontava os princípios de que homens não podiam “receber” o Orixá em público, tornando-se famoso pela sua dança; incorporava ao Candomblé a entidade indígena do Caboclo Pedra Preta; adepto de Angola, numa cidade dominada pela cultura jeje-nagô; babalorixá
jovem, numa cultura dominada por ialorixás mais velhas o que, segundo seus filhos-de-santo, ativou o despeito das mães-de-santo tradicionais da Bahia.

Também sua ascensão precoce era mal-vista no mundo do candomblé, onde a idade avançada é considerada um atributo importante para a escolha dos sacerdotes e a própria Menininha do Gantois sofreu resistências por causa disso, quando assumiu a chefia do seu terreiro aos 26 anos de idade.
Lendas à parte, o caso é que as ialorixás mais tradicionais não sabiam como encarar as novidades trazidas por Joãozinho.
Joãozinho da Goméia era muito autoritário e enérgico com seus “filhos de santo”.

Seu primeiro terreiro foi num bairro chamado Ladeira de Pedra, mas logo foi para o local que o tornou famoso, a ponto de incorporar o endereço ao próprio nome: Rua da Goméia.
Lá, tocava indiferentemente Angola e Keto, o que contribuía para aumentar o escândalo em torno de seu nome.
Em 1948, despediu-se de Salvador com uma festa no Teatro Jandaia, apresentando ao público pagante danças típicas do Candomblé, escândalo final para adeptos baianos, e mudou-se para o Rio de Janeiro, onde abriu casa na Rua General Rondon, nº 360, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense.
Nesse endereço a lenda em torno de Joãozinho da Goméia só fez aumentar, atendia políticos, embaixadores, consules, o próprio Getulio Vargas e a sogra de Juscelino Kubitschek, além de artistas como Ângela Maria, na época a “Rainha do Rádio”; tudo isso fez com que passasse a freqüentar a imprensa.
O próprio João nunca revelou os nomes de seus filhos ou clientes; seus filhos-de-santo que espalharam essas notícias, orgulhosos do status da casa de seu pai.
“Costas quentes” ou não, o caso é que Joãozinho nunca teve seu terreiro invadido pela polícia, nem jamais foi preso, ao contrário de Mãe Menininha, que teve registradas duas passagens pela polícia, acusada de “tocar Candomblé”.
Diz a lenda que Joãozinho até mesmo chegou a fazer despacho para Exu em plena Praça XV.
O caso é que tornou-se o primeiro “pai-de-santo” realmente conhecido no Brasil.
Sabia do poder da imprensa e manteve relações com publicações importantes como a revista O Cruzeiro, deixando-se fotografar com os trajes dos Orixás.
Em 1956, João participou do carnaval vestido de mulher.
O assunto rendeu uma polêmica terrível com outros babalorixás e chefes de terreiros da Umbanda.
João defendeu-se através d’O Cruzeiro, reivindicando seu direito ao livre-arbítrio e
declarando que jamais permitiria que qualquer outro pai ou mãe-de-santo se intrometesse em sua vida.
Participou de shows no Cassino da Urca, apresentando as danças dos Orixás, sempre unanimemente considerado um bailarino de raras qualidades.
Chegou a participar do filme “Copacabana moun amour”, de Rogério Sganzerla, no papel de um “pai-de-santo” que faz um ebó na atriz Helena Ignez.
Teve inúmeros “filhos-de-santo”, principalmente no eixo Rio- Santos, inclusive em Casas de Candomblé em Ilhabela..
Chegou a fazer um barco com 19 iaôs, façanha lembrada por todos, dada sua extrema dificuldade de realização.
Apesar das brigas com as alas mais conservadoras da religião, eis porque Joãozinho da Goméia é considerado um dos maiores divulgadores da religião dos Orixás no Brasil.
Em 1966, outro momento repleto de contradições: João voltou à Bahia e deu “obrigação” com Mãe Menininha do Gantois.
Segundo a Iyalorixá Mãe Tolokê de Logunedé, “foi fazer a obrigação dele; tirar a mão de Vumbi e fazer bodas de prata … Depois, ele fez a festa no Rio de Janeiro, para os filhos-de-santo que não puderam ir à Bahia.”
Ainda segundo seus filhos-de-santo, Joãozinho da Goméia não apenas fez sua obrigação com Mãe Menininha como foi o primeiro homem que ela permitiu que vestisse o Orixá e dançasse em público “virado” no santo.
Para entender a importância desse ato (mesmo que apenas mais um aspecto da lenda) é preciso ler em Ruth as restrições que Mãe Menininha fazia quanto à apresentação pública de homens em transe.
Porém, é fato que, embora o próprio Joãozinho da Goméia até o fim da vida continuasse tocando tanto Angola quanto Keto, a partir desse momento passou a insistir com seus filhos-de-santo para que seguissem uma orientação única, optando entre o Candomblé Keto ou o Candomblé de Angola.

Joãozinho da Goméia morreu em São Paulo, dia 19 de março de 1971, no Hospital das Clínicas (Vila Clementino), durante uma cirurgia para retirada de um tumor cerebral, e após uma parada cardíaca.
Foi sepultado em um cemitério de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, num dia em que uma chuva de proporções míticas caiu sobre o Rio de Janeiro, exatamente na hora em que seu ataúde baixava à sepultura.
Para os adeptos, uma manifestação de Iansã recebendo seu filho, que culminou com muita gente “virando no santo” em pleno cemitério, a passagem foi relatada na revista O Cruzeiro.
O Terreiro da Goméia do Rio foi vendido para uma incorporadora, que no local construiu um prédio.
Os assentamentos de Joãozinho da Goméia foram transferidos para uma nova Goméia, em Franco da Rocha, São Paulo, onde os ibás de seu Oxossi e de sua Iansã estão sendo devidamente cuidados e “alimentados”, e podem ser visitados pelos adeptos que fazem parte da “família de santo”.

Referências:
História de Joãozinho da Gomeia por Andréa Nascimento.
Michel Dion. Omindarewa Uma francesa no candomblé, Editora Pallas
Cossard, Giselle Omindarewá, Awô, O mistério dos Orixás. Editora Pallas.
Foto: Joãozinho da Goméia, capa da revista “O Cruzeiro”.

Facebook: Lavinia Pagh

Read Full Post »

Older Posts »

%d bloggers like this: