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Archive for the ‘Candomblé’ Category

Todo cuidado é pouco quando se verifica o Orixá que rege uma pessoa, alguns nasceram para um Orixá, trazem até seu arquétipo, porém, se iniciam para outro, justamente aquele que se interpõe ao Orí, isso é fato. A curiosidade de todo abiyan é compreensível e também perigosa, pois podem até inconsequentemente se verem filhos do Orixá que mais lhe trás simpatia, criando assim um elo muitas vezes intransponível ao entendimento litúrgico, por isso, que sempre reforço que abiyan não tem Orixá definido. Os movimentos de odús nos levam a ter cautela, respirar duas vezes, consultar o Orunmilá através do Obi e confirmar quantas vezes forem necessárias, até mesmo em outra casa co-irmã, com seus egbomis. É respeitando o nosso Ifá intuitivo e psicológico, aliado a técnica do merindilogun e experiências vividas que podemos, sem sombras de duvidas, confirmar no caminho de iniciação, o Orixá de uma pessoa e seus enredos.

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Porque ser abian (abiyan)

Ser abian é viver a emoção de sentir a energia do seu orixá, de aprender a identificá-la e de, aos poucos, ir percebendo como ela vai se moldando a você e você a ela. É nesse período que o orixá inicia o seu processo de desenvolvimento junto ao abian e vai embutindo no mesmo muitas das suas características. É nesse momento também que o abian vai criando uma relação de afinidades com o seu orixá, que aprende a ouvi-lo de uma forma que ninguém mais consegue, pois o orixá não se comunica melhor com outra pessoa que não seja com o seu próprio filho, afinal é este quem carrega essa energia sublime e única.

Acredito que uma pessoa que antes de se iniciar na religião tenha passado por essa fase esteja mais preparada e consciente do que é a vida após a iniciação. Será uma nova vida, onde muitas vezes será necessário que se abdique de muitos momentos particulares em prol da vida religiosa, ou seja, em razão do que se acredita e do que um dia escolheu para viver, portanto, é indispensável que esteja convicta dessa escolha, pois ela mudará completamente a sua vida. Mas o que vale é que se a pessoa estiver feliz com a presença do orixá no seu cotidiano, as demais questões se ajustarão e será possível viver de forma harmoniosa em todos os aspectos.

Penso que neste momento muitos devem estar se perguntando qual é a importância de ser abian se em muitas Casas de Axé o que se vê são pessoas chegarem e pouco tempo depois serem iniciadas. Não direi que essa atitude esteja errada, mas o que vejo é que em muitos casos, após todo o ritual, surgem as dúvidas e arrependimentos, especialmente se o iniciado for uma pessoa que não conheça absolutamente nada sobre a religião antes da iniciação. Depois vêm a decepção, as desculpas para não estar presente no egbé (comunidade) nos dias de funções e tantas outras justificativas.

Uma situação muito comum são pessoas que não conhecem nada a respeito do Candomblé, mas que vão às festas e se encantam, ficando deslumbradas com as roupas, os fios de contas, com as cantigas, o som dos atabaques, as danças e, principalmente, a presença dos orixás entre nós, e nem sequer imaginam que tudo aquilo que veem não é um show folclórico ou algo parecido. Por isso pensam que a relação de um iniciado com a sua Casa seja apenas naqueles momentos de deslumbres e de encantamentos. Não têm noção que essa é uma relação que deve perdurar por toda uma vida, pois criam-se laços com o seu orixá e com todas as pessoas que fazem parte dessa Casa, ou seja, o iniciado terá uma nova família e dentro dela terá uma série de obrigações. Sendo assim, é indispensável que toda e qualquer pessoa que deseja se iniciar passe a frequentar uma Casa primeiramente como abian, porque será nesse período que ela aprenderá bastante sobre a religião, verá como funciona o dia a dia da Casa, além de ter a oportunidade de, durante esse tempo, refletir sobre o que de fato ela deseja.

É importante que todos que um dia pensem em fazer parte do Candomblé se informem, conheçam e entendam o que é a religião, que busquem Casas tradicionais e sacerdotes sérios e comprometidos para que não haja, posteriormente, dúvidas e decepções que poderiam ser evitadas se houvessem esses esclarecimentos prévios, pois o Candomblé é fé e amor aos Orixás, mas também é compromisso, disciplina e responsabilidade para com os mesmos e com toda a comunidade.

Por isso reitero que é sendo abian que se aprende muito sobre o seu orixá, sobre o sentido do que é o respeito à hierarquia, disciplina, humildade, dentre tantos outros conceitos, muitos deles já perdidos na nossa sociedade. Esse período é essencial para que a pessoa perceba se será nessa Casa que desejará continuar e um dia se iniciar para o seu orixá. É preciso que se tenham todos esses pontos esclarecidos e bem definidos porque a partir da iniciação as responsabilidades e o vínculo com a Casa mudarão completamente, o que até então não existiam com tanto rigor enquanto era apenas abian. Por esse motivo volto a frisar a importância de se entender a religião sobre o olhar de abian, porque nesse momento é possível desmistificar muitas questões, além de ter a possibilidade de conhecer a si mesmo mais intimamente.

O Candomblé é uma filosofia de vida, sendo assim, quando uma pessoa decide fazer parte dele de forma consciente e compromissada por amor aos orixás, ela naturalmente viverá bem e feliz. Mas deixo bem claro aqui que viver na religião e para a religião não será sempre um mar de rosas, pois ser do Candomblé requer que nós trabalhemos diariamente o respeito, a humildade e, especialmente, a paciência, pois em muitos momentos ouviremos e veremos o que não nos agradará e ainda assim teremos que seguir em frente, buscando a sabedoria para compreender o porquê de cada situação e/ou atitude de pessoas dentro da Casa de Axé tendo bem claro um ponto fundamental, qual seja, o caminho que nós pretendemos trilhar dentro da religião. Muitas vezes chego a pensar que para sermos do Axé é necessário que sejamos “casca grossa”, pois senão não suportaremos passar por certas situações que ocorrem no nosso dia a dia no egbé.

O que precisa ficar bem claro para todos é que vivenciar o cotidiano de uma Casa de Axé não é muito diferente do que vivenciamos nas nossas famílias biológicas. Nestas, nós temos pessoas com personalidades totalmente distintas e que com o passar do tempo vamos nos adaptando para que possa haver uma convivência pacífica. Uma grande diferença que existe entre a nossa família biológica com a do Axé é que na comunidade religiosa, além de ser necessário que você se adapte às diversas pessoas que ali estejam, é mais do que preciso que você não se esqueça da adaptação mais importante, ou seja, a sua à Casa em que você se encontra, às pessoas que façam parte dela e, principalmente ao seu orixá, afinal, sentir-se parte integrante da comunidade facilitará o seu caminhar nessa estrada que é longa e de um eterno aprendizado. Por isso costumo dizer que ser abian é enamorar-se pelo seu orixá, é conhecê-lo mais profundamente e criar laços cada dia mais íntimos. Acredito que esse seja o segredo para que você seja um bom abian hoje e futuramente um bom yawô e, posteriormente, um egbomi. Além disso não devemos esquecer o quão importante é a presença dos abians nas Casas de Axé, afinal é impossível pensarmos no Candomblé sem renovação, sem novas gerações para a manutenção do mesmo. Uma Casa sem abians é uma Casa sem perspectivas de futuro.

E para finalizar, deixo claro que ser do Candomblé é renascer para uma nova vida, esta que será privada de muitos momentos particulares, mas que te trará tantos outros importantes e inesquecíveis de alegrias, tristezas e, acima de tudo, de reflexões para que você seja um ser humano melhor.

Cátia Silva-Blog Ori

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Hoje é Dia de Índio!

Tamoio - EDUCADOR

Hoje se comemora em todo o Brasil o Dia do Índio. A comemoração faz homenagem a uma ampla diversidade de povos que tiveram papel fundamental na formação cultural e étnica da população brasileira. Eles já viviam aqui muito tempo antes dos colonizadores europeus e dos escravos africanos. A população indígena desenvolveu uma rica cultura formada por diversos costumes, línguas e saberes que ainda se mostram vivos no interior da sociedade brasileira.

Segundo algumas pesquisas, os primeiros grupos humanos que aqui chegaram eram provavelmente oriundos de regiões da Ásia e da Oceania. Com o passar dos séculos, essas populações pré-históricas se espalharam pela América e, consequentemente, deram origem a uma infinidade de civilizações e culturas. Somente no século XX, algumas políticas começaram a ser implantadas no sentido de promover a integração dos índios à sociedade brasileira.

Atualmente, vários dispositivos legais procuram garantir uma série de diretos aos povos indígenas do Brasil.

Ponto de vista: Nelson Freire

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Nota de Falecimento

Morre, em Salvador, a egbomi ‘Tieta de Iemanjá’, do Terreiro Casa Branca

Morreu no sábado (8), em Salvador, Antonieta da Anunciação Matos, a “Egbomi Tieta de Iemanjá”, como era conhecida, do Terreiro de Candomblé Ilê Axé Iyá Nassô, a Casa Branca. O templo é considerado um dos mais antigos terreiros do país e berço de vários outros tradicionais da capital baiana. O sepultamento da religiosa foi realizado na tarde deste domingo (9), no Cemitério Campo Santo.

Segundo informações de pessoas ligadas ao terreiro, a idosa esteve internada com quadro de saúde debilitado, mas a causa da morte não foi confirmada. Tieta de Iemanjá atualmente liderava a Casa Branca devido ao afastamento da Yalorixá Mãe Tatá, por problemas de saúde.

O Terreiro da Casa Branca é considerado um dos mais antigos do país, conforme explica o antropólogo baiano Ordep Serra. “Ele é uma grande matriz de centenas espalhados pelo Brasil inteiro”. De acordo com o professor, religiosos iniciados na Casa Branca foram as pessoas que deram origem a terreiros famosos e tradicionais de Salvador, como o Ilê Axé Opô Afonjá e o Gantois.

O primeiro terreiro do Brasil tombado pelo Iphan foi o da Casa Branca, em 1984. Situado em uma área de aproximadamente 6.800 metros quadrados, com edificações, árvores e objetos sagrados, o templo fica na Avenida Vasco da Gama, em Salvador.

O Ilê Axé Iyá Nassô Oká é uma instituição religiosa de culto ao Orixá que tem como principal objetivo a preservação das tradições nagô deixadas pelos africanos que a fundaram. O nome da casa é uma referência à sacerdotisa da corte do Alafin de Oyó.

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 Será que nós, povo do candomblé, entendemos  o conceito básico e temos o discernimento sobre as duas faces da Tolerância e Intolerância ? Podemos refletir melhor lendo e observando as entre linhas, comparar com o nosso comportamento perante as questões mais simples dentro de uma casa de Candomblé. O texto abaixo nos coloca para pensar e repensar.

Tolerância significa ter a capacidade de aceitar as exigências de algo diferente em nossas crenças e opiniões, justamente ao contrario de Intolerância. Tolerância e Intolerância são termos antônimos, oposto um ao outro.


As duas faces de uma mesma moeda: tolerância e intolerância
Por: Ivone Gebara

Sabemos bem que no cotidiano de nossa vida a palavra tolerância e sua contrária, a intolerância, são palavras acompanhadas de uma carga emocional muitas vezes negativa. É como se ao afirmarmos a palavra tolerância já sentíssemos uma emoção negativa invadindo nosso próprio corpo. É como se um peso ou uma carga se impusesse a nós e modificasse até o nosso equilíbrio psíquico e o nosso humor. E, nessa dinâmica, pode ocorrer que busquemos aliados às nossas emoções e que passemos a ter emoções coletivas em relação a este ou aquele grupo de pessoas. Somos capazes de abandonar qualquer reflexão ou qualquer racionalidade e cometer crimes de intolerância. Tudo se passa como se a irritação provocada pelo outro ou pelos outros fosse capaz de excitar em nós zonas de violência de certa forma desconhecidas, a ponto de fugirmos ao controle do bom senso e ao respeito devido a uma vida em sociedade. Já não é mais a humanidade solidária que vive em nós, mas a violência irracional capaz de tirar a vida daqueles que se tornaram de certa forma objetos de nossa intolerância. Já não reconhecemos o próximo como nosso semelhante e passamos a odiá-lo a partir das diferenças que apontamos nele. Os jornais e os noticiários abundam em fatos ou em delitos de intolerância dos mais diferentes tipos.

Para tentar apaziguar a irrupção das diversas formas de violência em nós tentamos falar da necessidade da tolerância. A partir dessa situação seu sentido toma uma forma particular em nós. Assim, tolerar alguém ou um grupo requer um esforço emocional para além do habitual. Tolerar significa aqui ter que agüentar o outro diferente, o outro com suas crenças, sua linguagem, seus costumes, seu tom de voz, sua sexualidade, suas exigências que no fundo me ameaçam ou agridem. Tolero para não eliminar o outro, para não riscá-lo de minha existência. Tolero porque acredito que é necessária certa civilidade para a convivência humana e porque nossa fragilidade e limitação comum assim o exigem. Mas, espontaneamente o que vem à tona é a vontade de eliminar o outro ou ao menos de calar-lhe a voz ou submetê-lo à minha vontade ou ameaçá-lo com uma punição que julgo merecida ou simplesmente busco sair do círculo da convivência comum. Não tenho nenhuma atitude positiva em relação a ele. Não quero conhecê-lo, nem saber de sua história, nem de seus sofrimentos e nem de seus sonhos e buscas.

Tolero para não eliminar os outros ou o outro que me molesta por sua maneira de existir ou simplesmente por sua existência em minha circunstância. Tolero porque o outro se apresenta talvez como aquele que eu não gostaria que estivesse em minha história e tenho que conviver com ele apesar dos pesares. Tolero porque intuo às vezes que o outro do qual me afasto é em parte minha sombra, meu rosto oculto, a expressão negada de meu próprio eu. A tolerância nesse sentido já nutre as raízes da intolerância.

No processo de intolerância/tolerância o centro é sempre o eu individual e coletivo ou aquilo que julgamos talvez impropriamente como sendo o nosso eu. É o eu que tolera um outro eu ou o eu que é intolerante com outro eu e com tudo o que ele significa. Há uma relação íntima entre pessoas que se toleram e pessoas que são toleradas. No fundo um é o outro. Desta forma, a intolerância não é apenas um processo que se passa no interior da subjetividade humana, mas se manifesta em comportamentos públicos pessoais e grupais de uns para com os outros. Há uma irracionalidade, uma razão sem razão em todos os processos de tolerância e intolerância.

Uma frase do Evangelho de Jesus me vem à memória: “Por que vês a palha no olho de teu irmão e não vês a trave em teu próprio olho?” (Mateus 7,3) Ou, em outros termos, por que somos capazes de apontar o limite do outro e de certa forma desculpar-nos de nosso próprio limite? Por que mantemos hierarquias de diferentes tipos entre nós e os outros?

Criamos um mar de discórdias entre nós e pouco a pouco vamos desacreditando de nossas possibilidades de respeito e solidariedade. Instauramos o inferno das guerras étnicas, das guerras entre os sexos, das guerras religiosas!

Para muitos de nós a descrença na capacidade humana de desenvolver relações de justiça e igualdade está se tornando moeda corrente. “O homem lobo para o homem” tem se tornado uma conduta comum de vida. Fechamo-nos, defendemo-nos e nos atacamos mutuamente num acirramento de identidades étnicas, sexuais, religiosas cada uma tentando afirmar algo de nós, mas nenhuma suficiente para dar razão à nossa desumanidade.

A tolerância e a intolerância são na realidade duas faces da mesma moeda. Mas, qual é a moeda?  É a moeda da mentira, a moeda falsa, enferrujada por dentro e pintada de ouro por fora. É a moeda enganosa que cria ilusões sobre o poder humano e sua capacidade de dominar a terra e seus habitantes. É a moeda que se tornou mediação das relações humanas cada vez mais sem alma, isto é, sem a honestidade da verdade da interdependência que nos permite existir. Moeda que nada mais é do que uma ilusão passageira, ilusão altamente destrutiva de todas as vidas.

A partir de nossos sonhos queremos restaurar a moeda das trocas diretas, a moeda capaz de ser farinha e pão, água e vinho, cuidado com a terra e todos os seus habitantes. A moeda da ecologia da terra e da ecologia humana capaz de apostar na força de nossa diversidade e no respeito a ela como único caminho para manter a vida viva.
As palavras tolerância e intolerância poderiam ter assim gradativamente seu significado original restaurado. Poderiam ser convite cotidiano para que sejamos apoio para os outros, paciência e perdão. E quando o vírus da intolerância se  manifestar de novo, sermos capazes de lembrar que palhas e traves existem em todos os olhos, mas que além delas existe a beleza do olhar ou existe simplesmente a misteriosa e frágil chama da vida em cada um de nós.

Ivone Gebara
Para Tempo e Presença – Outubro de 2008.

Espontaneamente cada um de nós sabe o que é ser tolerante ou intolerante. Usamos esta palavra quer como verbo, substantivo ou adjetivo em diferentes situações de nosso dia a dia. Porém, poucas vezes paramos para refletir sobre ela e, sobretudo refletir sobre nossa capacidade pessoal de produzirmos comportamentos intolerantes. As palavras são expressões de nossa própria realidade humana, de suas contradições e de sua beleza.

A origem da palavra tolerância vem do latim – tolerare – que significa acolher alguém, ser suporte, ser indulgente para com os outros. Mas, este significado aparentemente positivo não se manteve tal e qual. Percorreu uma longa história marcada por diferentes situações históricas e culturais que foram introduzindo nuances e conteúdos diferentes ao conteúdo inicial. Por exemplo, no século XIII, Tomás de Aquino identificou a palavra tolerância com a virtude da paciência, visto que, dada a nossa imperfeição comum, temos que nos esforçar em ser tolerantes ou pacientes uns com os outros. Nos séculos XVI e XVII, com a Reforma Protestante começou-se a falar de tolerância religiosa como atitude necessária para a convivência entre católicos e protestantes. No século XIX, na França e depois em outros países do mundo, se falava das “casas de tolerância”, que eram casas de prostituição em que comportamentos sexuais que fugiam aos comportamentos admitidos pela sociedade eram tolerados.

As palavras tolerância e intolerância são igualmente usadas na medicina para indicar a aptidão que um organismo tem para tolerar ou não um medicamento ou um alimento. A química pode ser tolerável ou intolerável podendo levar o paciente a morte ou a cura de seus males.
Poderíamos continuar buscando os diferentes significados, usos e costumes em torno das palavras tolerância e intolerância. Entretanto, depois desta breve introdução mostrando a multiplicidade de seus significados, julgo importante tentar trazê-las para nossa vida pessoal para entender alguns dos mecanismos que nós mesmos criamos em relação às outras pessoas ou a certas situações. Tolerantes e intolerantes não são apenas os outros que julgamos assim, mas somos nós mesmos. A tolerância e a intolerância são relações que se estabelecem entre pessoas na linha de uma reciprocidade negativa. E não são apenas frutos do momento, mas são construídas ao largo de nossa história cultural. Por isso se pode fazer a história da intolerância religiosa ou a história da intolerância étnica e assim por diante.

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A minha infância foi marcada por um ritual que muitas vezes eu achava tedioso, mas pela obrigatoriedade fazia sem reclamar: pedir bênção a todos e todas parentes mais velhas assim que eu chegava num lugar. Cansei de chegar da escola ou de qualquer lugar e estar reunida em frente a casa de vovó uma roda de pessoas que ia da minha bisavó à irmã mais nova da minha mãe (minha tia), e da ponta mais velha até a mais nova algumas tias-avós também. Lá íamos nós pedir bênção de uma a uma para então entrarmos e matarmos a fome.

Eu sei que, apesar de ser nova, as coisas hoje acontecem de uma forma um tanto diferente. Com o tempo os comportamentos vão mudando de acordo com as demandas, os estilos de vida etc. As famílias estão “menores”, os parentes costumam morar mais distantes e a ligação torna-se diferente: a famosa família nuclear está a se formar.

Quem acostumou a viver desta segunda formar ao começar a frequentar uma casa de Candomblé logo nota a diferença porque vai ter que começar a fazer o que eu fazia aos 7 e dessa vez de forma mais aprumada e ainda tendo que ter a educação que muitas vezes não é exigida pela espontaneidade da criança: abraçar, perguntar se tá tudo bem, falar qualquer amenidade. Isso com 10, 20, 30 pessoas a depender do dia e do tipo de função… Sim, isso pode ser bem cansativo, mas a gente não pode reclamar.

Ao ser iniciada e passar por todos os procedimentos rituais a gente aprende de forma muito enfática que agora fazemos parte de uma família: aquelas 10, 20, 30 pessoas são nossa família, escolhemos e aceitamos o elo, aceitamos a eternidade desse elo. Há quem vá dizer agora “Mas elo eterno é com o Orixá!”, sim, está subentendido e exatamente pelo elo eterno ser com o Orixá nele vem “omitido” todas as pessoas que estavam vinculadas ao lugar e a família na qual você foi iniciada ou iniciado, queridx omorixá. Uma energia não surge do nada, você nasceu em alguma casa de axé, em alguma família de axé, foram necessárias mãos para que tudo ocorresse, então tudo isso estará contido na tua história com o teu Orixá. Do mesmo modo que Orixá sabe de onde está vindo aquele sacrifício que ele está a receber ele também sabe quem participou do grande momento de concepção do seu filho ou filha para ele. Estamos falando de energia que se materializa, mas que está presente em toda parte. Não sejamos ingênuas ao ponto de pensar Orixá tão limitado como somos nós…

Por causa do pertencimento, do berço, da família que ganhamos, é exigido de nós postura, respeito, bom comportamento. A partir de agora eu represento a mim, o caminho de Ori, o meu Orixá, represento a minha ascendência. A gente pode considerar isso um peso ou então perceber o quanto isso pode trazer benefícios pra vida em âmbitos fora desse mundo religioso.

Há quem goste de separar “no barracão devo me comportar de tal forma, fora dele, salve-se quem puder”. Isso me confunde. A gente percebe que realmente internalizou um aprendizado quando usamos dele aonde nem imaginaríamos. Por exemplo, eu gosto um pouco de uma afronta. Às vezes ela é pode ser bem-vinda para a situação. Mas eu posso pensar antes de engolir a corda que estão me dando: isso vai me beneficiar? Vai melhorar o ambiente de alguma forma ou só vai criar mais um aperreio? Isso é realmente da minha alçada? Quando o sangue esquenta os “olhos” (leia-se juízo) costumam cegar mesmo, mas sempre há aqueles 5 segundos em que dá pra gente ponderar as coisas.

Em Yorùbá as palavras casa, terra e o planeta Terra vêm de palavras incrivelmente semelhantes: Ilé, Ilè (há um ponto embaixo do e) e Ilé Ayé. Percebam que somente o som das vogais que mudam o sentido entre elas. Enquanto na língua portuguesa as palavras soam tão diferentes, no yorùbá é tudo bem parecido. Isso não é coincidência. Se é tudo tão semelhante é porque nossa conduta deveria ser semelhante também nos diferentes ambientes. O que nós queremos de bom na nossa casa, no chão em que pisamos, no planeta que habitamos? Acredito que não queremos coisas tão diferentes para cada um: desejamos o mínimo de harmonia, que a dor não exista, que a fertilidade esteja presente… Então o que é ser Ìyàwó? Eu responderia: viver nestes três “mundos” como o único mundo que ele de fato é. Não somos Ìyàwós pro barracão, somos Ìyàwós pro mundo.

Egbon Dayane Oyakole

 

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O Jogo de Búzios

No Candomblé utilizamos o jogo de Búzios (Merindilogun)como Oráculo para as consultas espirituais, não utilizamos o Opelé de Ifá; por isso e errado o que muitos Babalorixás fazem, de jogar para ver o Odu de Nascimento da pessoa, pois Odu de nascimento só se vê através do Opelé.
Mais ao contrário, muitos Babalawos andam difamando, o nosso precioso jogo de Búzios, que não é intuitivo, pelo contrário, nós temos que estudar muito, pois cada queda do jogo tem um significado e tradução, Ex: 1 búzio aberto e 15 fechados significa que Exú está respondendo, Tradução: o consulente está correndo perigo de furto, ou de ser enganado pelo sócio, ou traído pelo(a) esposo(a), e perseguição de inimigos. No nosso jogo de Búzios que responde e Exú o Orixá da Comunicação, pois é ele o único Orixá que se comunica com os Outros Orixás e com os humanos, nenhum outro Orixá tem esse poder de andar no Aiyé e Orun, nem mesmo Orunmila.

Ifá é um culto, uma filosofia, um sistema de Oraculo deixado por Orunmila (Divindade), para que assim pudéssemos desvendar seu versos, os Odus.

Ifá não e uma divindade e os Odus são um conjunto de versos que são interpretados pelos Babalawos através do jogo do Opele; Odu não é divindade, não se assenta Odu, não se cultua Odu, não se alimenta Odu, o que se faz é interpretar o que um determinado Odu traz de mensagem e a qual Orixá tem que se agradar ou apaziguar para reequilibrar a vida do consulente.


Só através do nosso jogo de Búzios pode-se definir a qual Orixá se inicia um futuro Omo Orixá, pois quem nos mostra qual Orixá é o guardião do Ori do iniciado e Ori através de Exú, de forma alguma pode-se definir Orixá através do Opele ou Odu, esse e o maior engano que muitos Babalorixás estão cometendo, pois, para definir o Orixá de um iniciado, primeiro se faz um grande número de rituais e não apenas um único jogo de búzios, iniciar uma pessoa no Candomblé é muito complexo, não é brincadeira e nem pode ser por intuição.
Axé !

Texto: Ricardo De Laalu Oliveira

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