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Archive for Agosto, 2020

Ègbé Òrun

Orixá Egbé – A Comunidade Aráagbó.

Pouquíssimo conhecido no Brasil, os Egbés são divindades cultuados pelos iorubás para que o homem possa ter progresso, desobstruir o que estiver obstruído na vida, ter satisfação e bem estar.

Significa a Sociedade dos Espíritos Amigos, onde temos o Egbé Òrun (elemere), a Sociedade de amigos do mundo invisível ou Amigos Espirituais  e o Egbé Aiyé (terra) que é a Sociedade de amigos do mundo visível, Amigos do mundo visível.

 

Aráagbó é o  Habitante da Floresta ou Habitante do Além, é a comunidade espiritual que protege e acalma o devoto de sofrimentos espirituais, físicos e materiais (Salami e Ribeiro, 2011) à qual pertencem os àbíkús – nascidos para morrer. Constituído pela Egbé Aiyé e pela Egbé Òrun de modo que os dois mundos são entrelaçados e intimamente ligados, exercendo  influência mútua entre si.

 

Árvore Egbé Osogbo Nigéria

Foto: Floresta sagrada. Árvore Egbé. Osogbo, Nigéria.

 

Àbíkús – a bi o ku – o parimos e ele morreu, são crianças ou jovens que antes de chegar à fase adulta morrem antes de completar o ciclo natural da vida. Segundo Salami, “há dois tipos de àbíkú: os ábíkú-omode que morrem ainda na infância e os àbíkú-àgbà que morrem jovens ou adultos. Considera-se que os àbíkú estabelecem ójó orí com a Sociedade Abiku, ou seja, o pacto de retornarem ao orun ao atingir determinada idade.”

 

O natural são os pais e avós morreram antes dos filhos e não o inverso. Há casos mais severos onde o ori àbíkú permanece renascendo várias vezes numa mesma família para trazer constante sofrimento. É possível reconhecer o espírito àbíkú através de consulta ao Ifá.

 

Tudo nesta vida há um universo paralelo. Temos um duplo, uma cópia nossa no òrun que se não for tratado começa a trazer sofrimento para muitas pessoas, impedindo que se viva satisfatoriamente, por exemplo, pessoas com sintomas (nem sempre todos juntos) de depressão, suicídas, sonambulismo, infertilidade, abortos, não conseguem relacionamento sério ou casamento, não páram em emprego, estão sempre doentes fisicamente, tristes, insônia, abusam de drogas e têm vícios, arriscando- se em situações sem necessidade, entre outros.

 

Os pactos realizados no òrun refletem no aiyé, visto muitas vezes mulheres  atraentes que não conseguem estabelecer compromisso de relacionamento amoroso por ainda estarem ligadas aos seus “esposos” no òrun; ou pessoas saudáveis que ficam impossibilitadas de gerarem filhos. Para que uma pessoa possa viver feliz no aiyé, é preciso que esteja em harmonia com seus amigos espirituais no òrun.

 

Processos iniciáticos no Ifá e neste orixá Egbé cortam esse pacto e permitem que o àbíkú permaneça no aiyé tendo uma vida saudável, mas em constante manutenção e vigilância. É comum também o culto ao Ibejis (vide post Ancestrais Veneráveis: Ibeji), Kori e Iroko para maior estabilidade física e emocional do devoto, fortalecendo mais os laços com a terra. Para cultuar Ibeji é necessário o culto a Egbé.

Algumas situações importantes na vida de um devoto devem ser sinais de alerta para riscos de vida como aniversários, casamentos, mudanças ou conquistas; são momentos em que o Égbé òrun pode desejar fortemente o seu retorno e atuar para conseguir isso. Vésperas de aniversários o àbíkú poderá adoecer, mesmo já tendo sido tratado espiritualmente.

Não importa se o homem já é iniciado em outro orixá. Somente Egbé é capaz de salvar e afastar as tendências àbíkú.

 

babás

Foto:  Bàbáláwo Awodiran Sówùnmí, Bàbáláwo Arê e Welemu Babá Egbé

 

Um sacerdote pode diagnosticar o caso e a necessidade de cuidar desse Orixá e afastar o sofrimento.

 

“Alguns recursos para evitar a morte de um filho abiku e para retirar seu espírito da sociedade à qual pertence podem ser utilizados. Através de rituais é estabelecido um jogo de forças entre Egbé Aragbô e Egbé Abiku: forças de retenção do ser no aiye e forças de resgate deste mesmo ser no orun. Cultos e oferendas são realizados tanto para uns quanto para outros: para esta desistir de retomar seus membros e para aquela protegê-los de serem reconduzidos à companhia de seus pares no orun. Egbé Aragbô atua com Exu pela necessidade de manter o equilíbrio entre o aiye e o orun; age com o auxilio também de Oxum, pela influência dela sobre a fertilidade”. (Oduduwa – Templo Egbe)

 

Realizamos o ritual do Sàra, onde alimentamos às pessoas e familiares do devoto regularmente com comidas e bebidas para que o òrun perceba o bem-estar que está sendo proporcionado nesse momento alegre e que Egbé possa conceder benefícios materiais e espirituais.

 

Iyas Egbe Abeokuta Nigeria

Foto: Iyalorixás Egbé, Abeokutá, Nigéria

Um àbíkú “tratado” destaca-se consideravelmente na vida, tem grande liderança e consegue bens materiais razoavelmente rápido e status social. Passa a ter satisfação, pois seu espírito está sendo alimentado e isso reflete na sua vida naturalmente. Além de protetores das crianças, os Egbés agem impedindo a morte prematura, curam doenças e são facilitadores de conquistas nas diversas áreas da vida.

 

Outra forma de cultuar Egbé e que muitos devotos esquecem é através do relacionamento com o outro, e com a família. É preciso a compreensão de que ninguém é sozinho e que faz parte estar em comunidade e sociedade, sendo necessário a boa conduta nas relações interpessoais.

 

Eleguns Egbe Abeokuta Nigeria

Foto: Jagun o guerreiro e Iyalode a mãe. Eleguns Egbé Abeokutá, Nigéria (2019).

Ikú yè. Ó lo o Òyèlè!

Àrùn yé. Ó lo o Òyèlè!

A morte se desviou! Foi embora. Vitória!

A morte se desviou! Foi embora. Vitória!

 

(Salami e Ribeiro 2019)

Por: Iyalorixá Vanessa Osuntayo (Orixás & Caminhos)

 

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