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Archive for Maio, 2017

Todo cuidado é pouco quando se verifica o Orixá que rege uma pessoa, alguns nasceram para um Orixá, trazem até seu arquétipo, porém, se iniciam para outro, justamente aquele que se interpõe ao Orí, isso é fato. A curiosidade de todo abiyan é compreensível e também perigosa, pois podem até inconsequentemente se verem filhos do Orixá que mais lhe trás simpatia, criando assim um elo muitas vezes intransponível ao entendimento litúrgico, por isso, que sempre reforço que abiyan não tem Orixá definido. Os movimentos de odús nos levam a ter cautela, respirar duas vezes, consultar o Orunmilá através do Obi e confirmar quantas vezes forem necessárias, até mesmo em outra casa co-irmã, com seus egbomis. É respeitando o nosso Ifá intuitivo e psicológico, aliado a técnica do merindilogun e experiências vividas que podemos, sem sombras de duvidas, confirmar no caminho de iniciação, o Orixá de uma pessoa e seus enredos.

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mae stela 2

Porque ser abian (abiyan)

Ser abian é viver a emoção de sentir a energia do seu orixá, de aprender a identificá-la e de, aos poucos, ir percebendo como ela vai se moldando a você e você a ela. É nesse período que o orixá inicia o seu processo de desenvolvimento junto ao abian e vai embutindo no mesmo muitas das suas características. É nesse momento também que o abian vai criando uma relação de afinidades com o seu orixá, que aprende a ouvi-lo de uma forma que ninguém mais consegue, pois o orixá não se comunica melhor com outra pessoa que não seja com o seu próprio filho, afinal é este quem carrega essa energia sublime e única.

Acredito que uma pessoa que antes de se iniciar na religião tenha passado por essa fase esteja mais preparada e consciente do que é a vida após a iniciação. Será uma nova vida, onde muitas vezes será necessário que se abdique de muitos momentos particulares em prol da vida religiosa, ou seja, em razão do que se acredita e do que um dia escolheu para viver, portanto, é indispensável que esteja convicta dessa escolha, pois ela mudará completamente a sua vida. Mas o que vale é que se a pessoa estiver feliz com a presença do orixá no seu cotidiano, as demais questões se ajustarão e será possível viver de forma harmoniosa em todos os aspectos.

Penso que neste momento muitos devem estar se perguntando qual é a importância de ser abian se em muitas Casas de Axé o que se vê são pessoas chegarem e pouco tempo depois serem iniciadas. Não direi que essa atitude esteja errada, mas o que vejo é que em muitos casos, após todo o ritual, surgem as dúvidas e arrependimentos, especialmente se o iniciado for uma pessoa que não conheça absolutamente nada sobre a religião antes da iniciação. Depois vêm a decepção, as desculpas para não estar presente no egbé (comunidade) nos dias de funções e tantas outras justificativas.

Uma situação muito comum são pessoas que não conhecem nada a respeito do Candomblé, mas que vão às festas e se encantam, ficando deslumbradas com as roupas, os fios de contas, com as cantigas, o som dos atabaques, as danças e, principalmente, a presença dos orixás entre nós, e nem sequer imaginam que tudo aquilo que veem não é um show folclórico ou algo parecido. Por isso pensam que a relação de um iniciado com a sua Casa seja apenas naqueles momentos de deslumbres e de encantamentos. Não têm noção que essa é uma relação que deve perdurar por toda uma vida, pois criam-se laços com o seu orixá e com todas as pessoas que fazem parte dessa Casa, ou seja, o iniciado terá uma nova família e dentro dela terá uma série de obrigações. Sendo assim, é indispensável que toda e qualquer pessoa que deseja se iniciar passe a frequentar uma Casa primeiramente como abian, porque será nesse período que ela aprenderá bastante sobre a religião, verá como funciona o dia a dia da Casa, além de ter a oportunidade de, durante esse tempo, refletir sobre o que de fato ela deseja.

É importante que todos que um dia pensem em fazer parte do Candomblé se informem, conheçam e entendam o que é a religião, que busquem Casas tradicionais e sacerdotes sérios e comprometidos para que não haja, posteriormente, dúvidas e decepções que poderiam ser evitadas se houvessem esses esclarecimentos prévios, pois o Candomblé é fé e amor aos Orixás, mas também é compromisso, disciplina e responsabilidade para com os mesmos e com toda a comunidade.

Por isso reitero que é sendo abian que se aprende muito sobre o seu orixá, sobre o sentido do que é o respeito à hierarquia, disciplina, humildade, dentre tantos outros conceitos, muitos deles já perdidos na nossa sociedade. Esse período é essencial para que a pessoa perceba se será nessa Casa que desejará continuar e um dia se iniciar para o seu orixá. É preciso que se tenham todos esses pontos esclarecidos e bem definidos porque a partir da iniciação as responsabilidades e o vínculo com a Casa mudarão completamente, o que até então não existiam com tanto rigor enquanto era apenas abian. Por esse motivo volto a frisar a importância de se entender a religião sobre o olhar de abian, porque nesse momento é possível desmistificar muitas questões, além de ter a possibilidade de conhecer a si mesmo mais intimamente.

O Candomblé é uma filosofia de vida, sendo assim, quando uma pessoa decide fazer parte dele de forma consciente e compromissada por amor aos orixás, ela naturalmente viverá bem e feliz. Mas deixo bem claro aqui que viver na religião e para a religião não será sempre um mar de rosas, pois ser do Candomblé requer que nós trabalhemos diariamente o respeito, a humildade e, especialmente, a paciência, pois em muitos momentos ouviremos e veremos o que não nos agradará e ainda assim teremos que seguir em frente, buscando a sabedoria para compreender o porquê de cada situação e/ou atitude de pessoas dentro da Casa de Axé tendo bem claro um ponto fundamental, qual seja, o caminho que nós pretendemos trilhar dentro da religião. Muitas vezes chego a pensar que para sermos do Axé é necessário que sejamos “casca grossa”, pois senão não suportaremos passar por certas situações que ocorrem no nosso dia a dia no egbé.

O que precisa ficar bem claro para todos é que vivenciar o cotidiano de uma Casa de Axé não é muito diferente do que vivenciamos nas nossas famílias biológicas. Nestas, nós temos pessoas com personalidades totalmente distintas e que com o passar do tempo vamos nos adaptando para que possa haver uma convivência pacífica. Uma grande diferença que existe entre a nossa família biológica com a do Axé é que na comunidade religiosa, além de ser necessário que você se adapte às diversas pessoas que ali estejam, é mais do que preciso que você não se esqueça da adaptação mais importante, ou seja, a sua à Casa em que você se encontra, às pessoas que façam parte dela e, principalmente ao seu orixá, afinal, sentir-se parte integrante da comunidade facilitará o seu caminhar nessa estrada que é longa e de um eterno aprendizado. Por isso costumo dizer que ser abian é enamorar-se pelo seu orixá, é conhecê-lo mais profundamente e criar laços cada dia mais íntimos. Acredito que esse seja o segredo para que você seja um bom abian hoje e futuramente um bom yawô e, posteriormente, um egbomi. Além disso não devemos esquecer o quão importante é a presença dos abians nas Casas de Axé, afinal é impossível pensarmos no Candomblé sem renovação, sem novas gerações para a manutenção do mesmo. Uma Casa sem abians é uma Casa sem perspectivas de futuro.

E para finalizar, deixo claro que ser do Candomblé é renascer para uma nova vida, esta que será privada de muitos momentos particulares, mas que te trará tantos outros importantes e inesquecíveis de alegrias, tristezas e, acima de tudo, de reflexões para que você seja um ser humano melhor.

Cátia Silva-Blog Ori

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