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Archive for Dezembro, 2012

Orixá regente

mae-stella-oxossiEste é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam umas as outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhas o que é preciso ser divinado. Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição inerente a todos apresentar-se de maneira muito mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.

Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que “há tempo para tudo”: para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida… Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não só melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora esta oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE, não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.

A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano e, sim, qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam as divindades e estão vinculadas à comunidade em que o jogo de búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso terreiro, o Ilê Axé Opô Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no jogo feito por mim, não esta comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a “Casa”), estão vinculadas a mim enquanto iyalorixá, ou ao terreiro em questão.

O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: “E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?” A resposta é: “Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita”. Um católico, ou um protestante será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: “E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão à toa?”. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.

Que Xangô – divindade da eloquência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigada, Ano Velho, pelas experiências passadas para o Ano Novo.

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá de Ilê Axé Opô Afonjá
Jornal A TARDE 04/01/2012

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Egun e Oku

Os povos de origem yorubá tem um nome especial de tratar seus antepassados,egun,esse termo identifica o antepassado masculino espíritos divinizados através de rituais específicos, aonde o morto passa a ser considerado de forma especial, ele recebe um novo nome e começa ser cultuado junto ao assentamento dos demais antepassados.

Os yorubas acreditam que o culto a egun serve para harmonizar a pessoa com o passado, mas principalmente para reverenciar aqueles que contribuíram para a nossa existência, pois como todos sabemos sem passado não existe presente e muito menos futuro.
Os espíritos dos mortos na cultura yoruba recebem o nome de oku, não é todo oku que se torna egun ,mas todo egun um dia foi um oku.
A diferença esta nos rituais próprios para tornar o oku um ser divinizado, esses rituais podem ser feitos somente para os espíritos de pessoas iniciadas no culto de orisa ou de egungun,é claro que existe outros pré requisitos para que esse processo de divinização seja efetuado o homem quando vivo deve ter um comportamento exemplar se pretender um dia ser cultuado como egun.
No Brasil existe uma diferença em relação ao que é feito no território yorubá, aqui se acredita que os eguns jamais devem ter contato direto com as pessoas, isso para a tradição yorubá não procede, os antepassados ficam felizes com esse contato,essa é uma das formas de harmonizar o espírito com seu descendentes. Não confundir contato com tocar no egun.
Quase todo espírito (oku) cria problema para os seu descendentes se não for cuidado de forma adequada,normalmente a falta de rituais fúnebres próprios e o despreparo das pessoas para cumprirem algumas exigências básicas nessa relação homem espírito terminam criando esse conflito.
Na cultura yorubá existe uma sociedade secreta que se encarrega dos rituais fúnebres, esses sacerdotes cultuam uma divindade chamada Oro, que no Brasil ainda é um pouco desconhecida.
No tocante aos espíritos dos antepassados femininos, é muito raro que seja cultuado de forma individualizado, normalmente é cultuado de forma genérica na sociedade secreta das Iya mi, exemplo iyami Osoronga,Iya mi Aiye,Iya mi Aje…
Exemplos de culto :
1-Egungun,culto de espíritos masculinos individualizados
2-Oro,culto de espíritos masculino generalizado.
3-Iya mi ,culto de espírito feminino generalizado.
Observação: Não confundir com o culto aos Orisas, espíritos divinizados,e com culto no Brasil relacionado as forças da natureza.
Para melhor entendimento,não confundir com caboclos cultuados na Umbanda religião de origem Brasileira.

Autor: Babalawo Ifagbayin Agboola

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Dos caminhos da tradição

Certo dia li um texto escrito pelo Leonardo Boff chamado “O caminho como arquétipo”. Como sempre, os textos do Boff me fazem refletir sobre a temática que ele aborda mesmo eu exercendo a espiritualidade sob a vivência do Candomblé e quase sempre relaciono uma coisa ou outra ao meu mundo religioso, especificamente. O trecho abaixo é exatamente o elo desta relação:

“No caminho de cada pessoa trabalham sempre milhões e milhões de experiências de caminhos passados e andados por infindáveis gerações. A tarefa de cada um é prolongar este caminho e fazer o seu caminho de tal forma que melhore e aprofunde o caminho recebido, endireite o torto e legue aos futuros caminhantes, um caminho enriquecido com sua pisada.” (O caminho como arquétipo, Leonardo Boff)

Eu poderia dizer que o caminho da nossa tradição religiosa é basicamente tudo isso contido neste trecho, e assim, continuar este caminho deveria ser uma obviedade, um acontecimento natural. Porém, a minha ingenuidade não é tanta ao ponto de reconhecer que isso acontece regularmente. Os tantos comentários que recebemos mostram que algué(ns) se perderam dos caminhos que os antecederam e vêm pondo os caminhos futuros dos descendentes a perder. E a religião também perde com isso.

Eu tenho algumas hipóteses sobre esses “desvios” e uma delas é o “auto-endeusamento” por parte de alguns zeladores. Explico: Candomblé é submissão, submissão ao orixá, é pelo orixá que oris de 1 ou de 100 anos encostam na terra como respeito e submissão. De certa forma, o respeito ao orixá iguala todo mundo da escala hierárquica, neste caso. A primeira e a última palavra vêm sempre do orixá. Mas alguns zeladores se dão tanta importância que passam a decidir por ele e descartam o caminho que veio antes dele, desconsideram a tradição em nome de uma assinatura “na minha casa é assim”, como se customizar o culto fosse algo saudável a religião como unidade.

A conseqüência disso a gente já sabe e já vê: filhos perdidos que olham para trás e veem tudo difuso, embaçado e sem certezas sobre os próprios caminhos. Não basta o preconceito que ainda sofremos e a intolerância, ainda temos esses graves problemas internos sem nenhuma perspectiva de realmente serem sanados.

Enquanto os caminhos não são respeitados, vemos filhos perdidos e amedrontados com concepções absurdas sobre os conceitos que pertencem ao Candomblé e zeladores com um rei na barriga deturpando à sua própria “marca” uma religião que tem caminhos longos trilhados em cima de muito sacrifício e tradição.

Logicamente há mais hipóteses e cada um de vocês pode enxergar alguma diferente da minha citada aqui. Restringi-me a esta somente, pois é a que mais me irrita de forma enfática (muito enfática) e tem me feito repensar o simples ato de visitar certas casas.

Axé.

Dayane

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