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Archive for Setembro, 2010

Por Fernando D’Osogiyan

Entre os Yorubás, religião é um problema complexo. Um estrageiro que se interessasse pelo assunto encontra múltiplos objetos de culto. Trata-se da representação dos famosos Orixás.

Todos os Orixás são visualizados como seres humanos e possuem uma origem terrestre. Exú, por exemplo, é originário da cidade de  Igbeti; O Orixá Okô descende da cidade de Irawò; Ogun vem da cidade de Ilá; assim por diante.

Após a sua morte, um homem pode se tornar um Orixá para seus filhos, que passam a cultuar sua memória. O fundador de cada família, por exemplo, sempre se transforma num objeto de culto para seus descendentes. Alguns homens por ser valor pessoal, tornan-se Orixás cultuados por toda nação. De heróis locais passam a heróis nacionais.

A maioria dos cultos a Orixá são circunscritos a comunidade local, sendo muito pouco de importância nacional. Os Orixás locais são considerados heróis do grupo que os venera e são identificados por sua natureza, característica do território em que são cultuados. As classes principais dos objetos de culto são os rios e os montes. Um exemplo de monte cultuado a nível local é Oke Ibadan, cujas cerimônias se realizam atualmente na cidade Ibadan, um dos maiores centros do país, situado ao norte de Lagos. No dia do culto, não se acendem fogos.

Um exemplo do herói elevado a categoria de Orixá e cultuado pelo povo de Ijesá é Oba Logun, que, segundo a tradição, salvou aquele povo dessa cidade contra inimigos de Nupê.

Há, entretanto, alguns Orixás cultuados por toda a terra dos Yorubás, sendo os seis mais importantes: Ifá, Exú, Obatalá, Ossanyn, Ogun e Xangô., que também são venerados em outros países pelo mundo.

A religião da família constitui-se de vários cultos. Uma vez por ano cultuan-se os espíritos mortos. Às vezes,  por sugestão onírica, realizan-se sacrifícios. O sentimento de um antepasado é formado por vários objetos usados por ele e se localiza onde está enterrado. Este local se denomina “Oju ibo” (local de culto). As famílias costumam venerar os genitores, fazendo-lhes sacrifícios sobre suas sepulturas.

Além do culto aos antepasados, as fanílias veneram outros Orixás, como Exú, Ifá, etc. Muitas famílias veneram um Orixá particular, chamando de Orixá da família. Pode-se adorar, por exemplo, irmãos gemeos falecidos. Quando a morte de um gêmeo, sucede-se uma doença ou estado de mal humor, faz-se necessário construir a imagem do morte e oferecer-lhes sacrifícios. O local para sacrifícios chama-se “Ibùmu”. Segundo a tradição, após a morte de gêmeos a mãe deve evitar a procriação por um bom tempo.

A veneração de um Orixá particular por uma família é muitas vezes circunstancial. Quando, por exemplo, um raio mata alguémde uma família na qual exista um sacerdote de Xangô, é costume os outros sacerdotes do mesmo Orixá realizarem alguns rituais  na casa do morto. Outro membro daquela família, então, é imediatamente iniciado no sacerdócio de Xangô.

Ser de Orixá significa ter sido escolhido entre os antepassados para objeto de culto, dessa forma, é muito improvável que algum Yorubá não cultue Orixá. A maioria das pessoas veneram, pelo menos, Ifá-Orunmilá, Orixá universal pelo menos a cada 5 dias. As mulheres tem o hábito de cultuar o Orixá Orí, que é o orixá da sorte. Quando a noiva deixa a sua casa para dirigir-se ao marido, reverencia o Orixá Orí, de forma a ter sorte no casamento. Os símbolos desse Orixá, entre os quais 41 búzios agulhados conjuntamente, são mantidos em seu santuário.

É importante ressaltar que uma mesma pessoa pode cultuar mais de um Orixá, dentre os cerca de 400 existentes. Alguem que cultue o Orixá da selva, por exemplo, pode igualmente venerar Oxóssi ou Ogun. Considera-se que eles liguem uns aos outros.

Por fim, pode-se dizer que a associação de alguns orixás a elementos da natureza não implica em que os crentes se identifiquem com estes no momento do culto. Na prática veneram a memória desses Orixás enquanto homens que viveram sobre a Terra em tempos remotos. A associação desses Orixás à natureza foi portanto ocidental. Quando Oyá é cultuada, por exemplo, pensa-se em suas habilidades,  enquanto mulher, de emitir fogo pela boca; ao cultuar Oxun, não se rende homenagem a rio que leva seu nome, mas a mulher que um dia transformou-se em Orixá. Assim, os cultuadores de Xangô o invocam menos com o propósitpo de venerar o raio ou trovão do que honrá-lo pelo homem que fora, capaz de empregar esses recursos naturais.

Pesquisa do texto de Ademolà Adesojí- Do livro Nigéria História-Costumes- Cultura do povo de língua Yorubá e a origem dos seus Orixás.

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ODÍDE: O papagaio cinza africano de cauda vermelha

Por Bàbá Olúmo (Ulisses Manaia da Silva)

(Texto registrado no EDA/FBN: nº 450.599 – Livro 846 – Folha 259)

Quem de nós, adeptos do culto de Òrìsà, não conhece a pena de cor vermelha denominada ìkóòdíde? Amplamente utilizada em nossos rituais? O que muitos não sabem, como eu também não sabia, é que essas belíssimas penas estão presentes somente na cauda de um papagaio africano que tem o restante das penas acinzentadas.

Quero fazer um convite ao amigo leitor para conhecermos um pouco sobre este papagaio africano, e assim entender a simbologia de ìkóòdíde dentro do culto de Òrìsà, pois como nos ensina Juana Elbein dos Santos: “…desvendar as correspondências dos símbolos e os interpretar nos permite explicar os conteúdos do acontecer ritual.” (2002, p. 24;25)

Denominado Odíde entre os Yorùbá, o papagaio cinza africano ou papagaio do Congo, pertence a espécie Psittacus erithacus, é exclusivamente africano e originário da África ocidental e central, desde a Costa do Marfim até o Congo. É uma ave de porte médio que mede de 35 à 40 centímetros, a cor base de suas penas é o cinza, mas escuro na parte superior do corpo que no peito e ventre, terminando na cauda curta e quadrada de cor vermelho carmim, a região em torno dos olhos é branca e desprovida de penas. Não existe diferença na aparência entre machos e fêmeas e pode-se calcular que uma ave desta espécie viva até aos 70 anos.

Vivem aos pares, e em grandes bandos, ocupando as floretas de planícies, savanas com árvores e ocasionalmente plantações, particularmente de palmeiras, pois sua comida preferida são as “nozes” das palmeiras ricas em óleo. Apresentam quase que constantemente um comportamento monogâmico, podendo levar ao óbito do companheiro a ausência do outro. Na época do acasalamento o par abandona o bando e ambos se revezam no choco.

A sua cor cinzenta em “degrade”, terminando na cauda de cor vermelho carmim, são características únicas, no entanto, as particularidades que o caracterizam no mundo inteiro, mesmo para as pessoas que têm poucos conhecimentos sobre papagaios, são a sua habilidade de repetir palavras e a sua inteligência. É comum entre os papagaios a reprodução de determinadas frases ou sons, mas o papagaio cinza africano distingue-se dos seus parentes por ser considerada uma das espécies de pássaros mais inteligentes do mundo, já tendo sido comparado com golfinhos e chipanzés.

Essas habilidades do papagaio cinza já eram mencionadas em antigos documentos gregos e romanos, ao ponto de ser citado por Plínio, um naturalista romano, na sua “História Natural”.

Infelizmente este papagaio tem vindo a desaparecer dos seus hábitats naturais devido ao desflorestamento e à sua captura para o mercado de animais de estimação.

Os portugueses, primeiros europeus a explorar a costa ocidental da África a partir do século XV, qualificaram os negros de origem Yorúbá, assim como outros de origem africana, de “animista”, por considerarem todos os seres da natureza dotados de vida. Na verdade ele concebe que toda manifestação viva, seja ela, animal, mineral, ou vegetal, é dotada de uma “força vital”, denominada ìpònrí, que pode ser usada a seu favor.

A partir desse olhar passamos a compreender que cada elemento utilizado nos diversos rituais possui uma força específica, em outras palavras, um àse específico, e conhecê-lo torna-se fundamental a fim de que possamos direcioná-lo para o objetivo que queremos alcançar.

Ora, vimos que esses elementos têm um significado simbólico, sendo assim a pena ìkóòdíde representa o próprio papagaio cinza com todo o seu potencial, e utilizá-la significa trazer para nós todo este poder.

Entre os Yorùbá tradicionais, as diversas formas de ebo funcionam como “mensagens codificadas”, ou seja, cada elemento que o compõe reflete uma necessidade do indivíduo a ser entendida e atendida por Olóòrun, o criador de todas as coisas, logo, utilizar a pena ìkóòdíde significa buscar atributos como a longevidade, pois vimos que Odíde pode chegar aos 70 anos de vida; inteligência, pois vimos também que é um dos pássaros mais inteligentes do mundo e estabelecer uma relação familiar com nossa ancestralidade, pois vimos o quanto são fortes as relações familiares dessa ave, tanto no nível conjugal, como no nível grupal.

Ìkóòdíde está presente também no igbá orí. Dentro do culto de Orí, na cultura Yorùbá, mantém-se organizado o igbá orí, uma kabasa redonda que representa simbolicamente a nossa cabeça interior ou espiritual – orí inú. Nela estão contidos vários outros elementos, respeitando a individualidade de cada cabeça, e de acordo com as características e propriedades de cada um deles.

Verificamos também que ìkóòdíde está presente nas “representações materiais” de Èsù, aquele que “é o princípio da comunicação;… o mensageiro no sentido mais amplo possível: que estabelece relação do àiyé com o òrun, dos òrìsà entre si, destes com os seres humanos e vice versa. É o intérprete e o lingüista do sistema.” (Juana Elbein dos Santos, 2002, p. 165). Èsù, tem ainda o título de enúgbáríjo – boca coletiva – por representar os òrìsà e nós, humanos, diante de Olóòrun.

Fica claro que a pena de ìkóòdíde entra na representação material de Èsù, a fim de simbolizar a sua capacidade de comunicação, inerente também ao papagaio odíde.

Há um ìtan entre os Yorùbá tradicionais que conta que Odíde não foi sempre cinzento e nem tinha as penas da cauda vermelhas:

Olóòrun decidiu promover uma competição para ver qual pássaro tinha as penas mais bonitas, assim todos os pássaros do mundo começaram a se preparar, melhorando a sua beleza. Naquele tempo, Odíde tinha a plumagem toda branca e, ao contrário dos outros pássaros, não fazia nenhum tipo de preparação. Os outros pássaros começaram a ficar preocupados e queriam saber por que, enquanto eles se preparavam tanto, Odíde não estava fazendo nada. Eles se uniram e resolveram estragar a beleza natural de Odíde jogando cinzas em cima dele, só que não teve o efeito esperado, pois as cinzas se dispersaram com o vento. Procuraram então um feiticeiro, que lhes deu um preparado mágico que transformaria as penas da cauda dele em vermelhas. Os outros pássaros ficaram bastante confiantes que Odíde, agora, não participaria da competição.

Só que, ao contrário do que eles pensavam, Odíde não só participou da competição como ganhou, Olóòrun o premiou dizendo que ‘Odíde era realmente o pássaro mais bonito, porque a verdadeira beleza está do lado de dentro do ser’.”

Em território Yorùbá, quando reis são coroados, ou quando pessoas ingressam no sacerdócio religioso, trazem sobre a cabeça uma pena vermelha da cauda de Odíde, para os lembrar que a verdadeira beleza é a interior. Ritual este que foi mantido no Candomblé brasileiro.

Um certo papagaio chamado “Alex”: Destaque de programas de TV e de artigos científicos, “Alex”, um papagaio cinza africano, ganhou fama pelos EUA e pelo mundo por sua capacidade de comunicação.

A ave foi comprada pela psicóloga americana Irene Pepperberg, pesquisadora das Universidades americanas Brandeis e Havard, em 1977 em uma loja de animais de estimação, quando tinha 1 ano de vida. As pesquisas dela com este papagaio renderam avanços científicos significativos sobre cognição das aves. Foi a partir desses estudos que se descobriu que papagaios não apenas repetem sons, mas são capazes de entender conceitos.

Usando novos métodos de ensino, Pepperberg estimulou Alex a aprender grupos de palavras e a contar pequenas quantidades, além de fazer o reconhecimento de cores e formas. Alex chegou a chamar uma maça de “banereja”, porque a fruta é vermelha por fora (como a cereja) e branca por dentro (como a banana).

De acordo com os pesquisadores da equipe de Irene, o raciocínio de Alex para resolver problemas era similar ao de uma criança de 5 anos e sua capacidade lingüística correspondente à de uma criança de 2 anos.

Após 30 anos ajudando os cientistas a entender o cérebro das aves, o papagaio Alex morreu no dia 6 de setembro de 2007, aos 31 anos, em sua gaiola, aparentemente de causas naturais. Ganhou o tratamento conferido a celebridades e Jornais do mundo inteiro lhe dedicaram obituário.

Irene Pepperberg mantém no ar o site da Fundação “The Alex Foundation” –www.alexfoundation.org – dedicada ao papagaio africano Alex. No site é possível conhecer melhor os trabalhos e pesquisas mantidas e se informar sobre a continuidade dos estudos após a morte do papagaio. Também está disponível no “YouTube” uma série de vídeos surpreendentes sobre Alex.

             

Referências Bibliográficas:

– Santos, Juana Elbein dos. “Os Nagô e a morte: Pàde, Àsèsè e o culto Égun na Bahia”, Vozes, 1986;

– Monteiro, Marcelo dos Santos, 1960 – Curso Teórico e Prático de Orí/Cabeça e Borí/Oferenda a cabeça – Rio de Janeiro – 1995 – 39 p. (Biblioteca Nacional);

– Site: www.alexfoundation.org.

Referências do autor:

            Ulisses Manaia da Silva – Bàbá Olúmolà – é Asògún e Asogbá do Ilé Àse Ìdàsílè Ode (Olaria – Rio de Janeiro – RJ) e integra o “Grupo de Pesquisas das Religiões”, coordenador.


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