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Archive for Dezembro, 2011

Sem Ebó não há Candomblé.

Ègbé, acho tão importante este tema que resolvi republicá-lo acrescentando mais informações e ratificando a importância de um Ebó em nossas vidas.

Será que todos sabem o que é um Ebó e suas inúmeras finalidades, e aí pergunto: para que serve o Ebó?

É importantíssimo esse entendimento para quem estuda, pratica e vive o Orixá.Tomar e restituir, propiciar redistribuindo, reequilibrar reestabelecendo uma sintonia com o Axé.

*”…Insistimos muitas vezes-diz Juana Elbein- que toda dinâmica do sistema Nagô está centrada em torno do ebó, da oferenda. O sacrifício em toda sua vasta gama de propósitos e modelidades… É a devolução que permite a multiplicação e o crescimento, Tudo aquilo que existe de forma individualizada deverá restituir tudo que o filho protótipo [Exú] devorou…Cada indivíduo está constituído, acompanhado por seu Exú individual, elemento que permitiu seu nascimento, desenvolvimento ulterior e multiplicação; para que ele possa cumprir seu ciclo de existência harmoniosamente, deverá imprescindivelmente restituir, através de oferendas, os “alimentos”, o Axé devorado real ou metaforicamente por seu princípio de vida individualizada. É como se um processo vital equilibrado, impulsionado e controlado por Exú, fosse baseado na absorção e na restituição constantes de matéria…”*

Respondemos inúmeras perguntas sobre qualidades de Orixás, fundamentos, lendas, feituras, borís, axés,sonhos, procuramos desmestificar e dar coragem ao leitor de interagir e familiarizar-se com essa cultura, porém, sem ebó não teremos religião e essa pergunta ninguém fez: Preciso fazer ebó para tomar um Obí? Eborí? Assentar um Oríxá? Iniciação? Como saber qual ebó devo fazer? Por que tenho que fazer ebó? Quando fazer o ebó?

Em primeiro lugar precisamos acreditar no Ebó e na Iyá ou Babálorixá que prescreveu o Ebó e, principalmente entende-lo, pelo menos ter um caminho de entendimento. Ter a prova concreta de ter feito o ebó e ter melhorado, ou ter se livrado de um perigo, amenizado um situação de queda geral, de acidente, de perigo, de perda, de injustiça, de doença, de mal agouro, de egun, de demanda, de negatividade, etc, etc.

Existem ebós positivos e negativos, aqueles que se dão caminho e os que não se dão caminho, ebós de odú, ebós de Folhas, ebós que são presenteados, èjè, opé àti ìdàpò, ètùtù, ebó Ojú kòríbi, Owaji, Osun, Efun, Yrosún, ebó ayè pínùm,ebó ìpilè,ebó catimbó,ebó ancestral, ebós de Exú, Ikú, Egun, ebós de carrego, ebós de Axexê, ebó Ajeum,kizilas/Ewós, ebó de Ori Ejó, ebós de Kamburukú, Fatolú, ebós de Osé, ebós de Abikú, ebó Omí, Ebó  Okè, ebós de prosperidade, ebó de troca de cabeça, ebós de lua, sol, chuva, tempo, ebós da madrugada, leiú, ebós de rua de todos os tipos, ebó de cachoeira, rio, mar,cemitério, hospital, banco, monte, grimpa, praça, delegacia,empresas, legumes, frutas, igreja,mato, dentro do buraco, na montanha, ebós contra vícios, roubo e ebós e tantos ebós de limpeza e preparação até para abrir um jogo de búzios, ebós para chegar e para sair, pra viver, pra morrer,para mil outras finalidades. Os efuns no iyawo é um ebó de proteção e importantíssimo.

O ebó não espera um dia ser feito, se foi prescrito tem que fazer o mais rápido ou não faça mais, pois ele se apresenta num caminho que pode ser transitório.

O ebó existe permanentemente dentro de um Ilê Axé, no momento que entramos na casa, saudamos a entrada com água para esfriar o caminho, isso é um Ebó.

O Ebó é místico, essa é minha visão, ele tem influências de Exú, Oyá, Orunmilá e Omolú. Na própria confecção do ebó tem a energia de quem está fazendo, arrumando, tem a energia de quem vai passar, de quem vai levar.

O banho de ervas é um ebó de pai Ossayin e, é de suma importãncia tomá-lo após um ebó, é o sangue verde das folhas, a essência viva da natureza.

Se faz ebó com apenas um ovo, se faz ebó com apenas uma pedra de ofun ralado, com uma pimenta da costa, se faz ebó com a fé nas coisas simples que é a grande sabedoria Yorubá.

Os iniciados no Orixá tomam ebó sempre e para sempre, pois, manter-se limpo é estar em sintonia com seu Orixá, é concebe-lo numa suavidade preponderante em seu axé individual, é dar ao seu Orixá um corpo limpo pra uma manifestação pura.

Òrúnmìlá òjó iku dá.**
Somente Òrúnmìlá muda o dia de nossa morte. (com ebó ikú)

O ebó é fundamental para quem quer manter o equilíbrio vital na convivência religiosa, pois “Sem Ebó não há Candomblé”.

Ary Carvalho**
Juana Elbein*

Texto:Fernando D’Osogiyan

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A Lenda da Mukanda.

Esta lenda é originária do nordeste de Angola.

Essa é a lenda de como aconteceu a primeira Mukanda (circuncisão) de um Tchokwé, e como isso passou a ser um ritual obrigatório entre os homens desse povo, segundo o Soba Kaúka, da aldeia de Nakalumbo.

 

– Andava certo dia Safuanandenda Lunga, filho mais velho do Soba Variekelenwene, pescando no rio quando, ao passar descuidadamente e nu, junto a um capim grosso (Mwenkenene) a folha desse capim o circuncidou.

O jovem, envergonhado e temeroso, em vez de voltar para a aldeia, escondeu-se numas biçapas ( que se aglomeravam no caminho para o rio.

 

O tempo foi passando, os dias viram semanas, sem que o rapaz se decidisse a voltar para junto da família; e durante esse tempo, sobrevivia alimentando-se do que pescava e caçava na sua solidão.

Fez ele próprio arco, flechas e lança, improvisou anzóis e armadilhas, observou os bichos comendo frutas e tubérculo silvestres, dos quais também se serviu para se nutrir, quando falhava a caça e a pesca.

 

Passou-se muito tempo, e já a ferida estava cicatrizada, quando Safuanandenda, saturado do seu exílio voluntário, se decidiu a voltar ao convívio do Mussôco.

Ainda envergonhado, para que não o reconhecessem, talhou numa cabaça o formato de uma máscara, colocou-a na cabeça e entrou na aldeia.

 

O espanto que causou foi enorme, tinha deixado de ser um rapazinho de quem todos se lembravam; era agora um homem auto-suficiente e experiente, a quem todos passaram a respeitar. Com a sua máscara infundia respeito entre os homens. Quanto às mulheres, dada a sua originalidade anatômica, todas passaram a assediá-lo.

 

As provações e auto-aprendizado por que passara, além de lhe desenvolver o corpo, deram-lhe um autodomínio que magnetizava a todos que com ele conviviam.

Apesar da pouca idade passou a ter lugar de destaque entre os homens, e nada se decidia, sem que ele fosse consultado, e a sua opinião escutada.

Os homens o respeitavam, as mulheres o desejavam, e todos o admiravam; admiravam a sua astúcia, a sua calma, o seu bom senso e a sua agilidade.

 

O fenômeno tomou proporções que levou o conselho dos velhos a reunir-se, e a chegar à conclusão que a Mukanda (circuncisão) só podia ser benéfica a púberes da tribo, deveriam a partir dessa data, submeter-se às mesmas coisas, e na mesma seqüência em que haviam acontecido com Safuanandenda.

Chamaram o Sobeta, e o convidaram para mestre de cerimônia e operador, orientando a par e passo todos os atos dos jovens púberes.

E assim teve início o ritual da Mukanda Kandongo

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O que é Ifá?

Muito se fala de Ifá e poucos sabem o que de fato é Ifá.  Somente os devotos de Orunmilá, que é genericamente conhecido por Orixá do destino, e, que, ao se tornarem Oluwos ou Babalawos, depois de um longo aprendizado, alguns afirmam levar 21 anos, e provas perante a sua confraria, é que podem fazer divinações, leituras e suas histórias, exemplificando, sempre com clareza aquilo que se quer saber e sendo recompensado por isso.

Ifá era um Sistema de Divinação, originário da cultura africana Yorubá.

Embora a Divinação Sagrada de Ifá não fosse o único sistema divinatório praticado em África, ela era de longe a mais completa e confiável, tendo sido fonte e modelo para vários outros “jogos de adivinhação” que dela foram derivados por simplificação, simbiose e ou, interpretação.
Em contraste com todos os outros tipos de Adivinhação, onde ninguém ousa ou tem meios de contradizer aquilo que o Adivinho assegura “ver”, a Divinação Sagrada de Ifá que denominamos como “Sistema Ifá”, seguia um conjunto regular de normas que enquadrava o Adivinho praticante e, além disso, os seus consulentes conheciam técnicas que pderiam impedir que ele se utilizasse de conhecimentos pessoais sobre eles ou sobre assuntos de suas intimidades, não precisando os consulentes sequer revelar-lhe a natureza do problema ou anseio que os levava a buscar aconselhamento.
O Adivinho que manipulava Ifá era denominado por Babaláwo de Baba ( o pai) + Li (que tem) + Áwo ( o segredo) era a Autoridade Máxima no Central do sistema religioso Yorubá.
Entende-se assim a importância do Ifá para massa de fiéis Yorubá e porque qualquer desvio de seu sistema regular de normas, intentado por qualquer Babaláwo, era criticado por seus consulentes e condenado por seus colegas de confraria.
Técnicamente, o Sistema Ifá baseava-se na manipulação dos Ikins/Coquinhos de Dendê, para a obtenção, ao acaso, de um número Par ou Ímpar de Dendês que, na dita manipulação, restassem na mão esquerda do babaláwo.Os Ikins quando batidos pelo Babalawo é marcado de forma alternada.
Um batida marca na direita, outra batida marca na esquerda. Assim sucessivamente até termos as oito marcas formando o omó Odu ou Olodu. O termo Ikin era designação especial para o EKURO/Caroço do EYIN/fruto da AWPE/palmeira Oleaginosa, conhecida no Brasil como Dendezeiro ou Dendê.

Esta qualidade par ou ímpar era traduzida por sinais gráficos diferentes no Ìyérosún/Pó Branco Consagrado, que era especialmente espargido sobre o Opón Ifá/Tabuleiro de Ifá.
Estes sinais eram conhecidos, genericamente, por Ojú Opón/Olhos do tabuleiro e, individualmente, por Ofú e Òsa.
Os resultados de uma sequência inicial de quatro manipulações eram marcados sobre o Ìyerosún, no lado direito do Tabuleiro, verticalmente, a segunda marca sob a primeira e, sucessivamente, a terceira sob a segunda, a quarta sob a terceira, sempre cada uma delas ao acaso de sua manipulação. Obtinha-se assim a Onã Ifá/caminho de Ifá de um dos dezesseis Odú/Fundamentos de Tradição que, associados aos Esé Itan/ Versos dos contos de Ifá, se constituíam nos Signos-Respostas Básicas do Sistema Ifá.
Estes dezesseis Odù Babá ou Básicos possuíam, cada um deles, denominações, a saber.
“Odús”
1-Ogbé Méjì
2-Òyèkú Méjì
3-Ìwòri Méjì
4-Òdi Méjì
5-Ìròsùn Méjì
6-Òwónrín Méjì
7-Òbàrà Méjì
8-Òkàràn Méjì
9-Ògundá Méjì
10-Òsá Méjì
11-Ìká Méjì
12-Òtùrùkpòn Méjì
13-Òtúrá Méjì
14-Ìretè Méjì
15-Òsé Méjì
16-Òfún MéjÌ

Essas denominações e ordenação correspondiam às mais usadas ancestralmente em Ilè Ifé, ou seja, na Cidade Sagrada dos Yorubás.
A repetição de uma outra sequência manipular igual, sendo as suas marcas Ofú ou Òsa registrados no Pó Consagrado do Tabuleiro, mas à esquerda das marcas do primeiro Odù Básico já lá registrado, possibilita a obtenção de um dos outros duzentos e cinquenta e seis (256) Odùs combinados, passíveis de existir e denominados por Omo Odù (filho de Odù), significando que a nova Oní Ifá é composta pela combinação de dois Odù Baba ou Básico.

Existem 240 Omo Odù também possuíam nomes específicos, formados pelos nomes dos dois Odù Babá ou Básicos de que se compôe, prevalecendo a designação do Odù Babá da Direita como se fora o seu Nome e a designação do Odù Babá da esquerda como se fosse seu sobrenome.
Aiyé atí Okán náa ni -“Vida e morte: Ambas são identicas”
(Máxima da Sabedoria Ancestral dos Yorubás)

Pesquisas dos autores: Willian Bascon e Ivan H. Costa

Babá Fernando D’Osogiyan

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Muito se é dito e contado em forma de “ouvi dizer” sobre os orixás e sua relação com seus filhos. Infelizmente essas estórias buscam dar uma justificativa divina para atos que são de escolhas completamente nossas e terrenas.
Acredito que usar do orixá pra justificar uma escolha ou um ato seja ainda falta de coragem para mostrar quem se é verdadeiramente e um subterfúgio de quem ainda vive sob o julgamento e opiniões negativas dos outros.
Nós da equipe do blog apoiamos tanto a liberdade de escolha e de formas de viver a vida, quanto apoiamos a defesa da nossa religião, sobretudo, dos nossos orixás pelos quais passamos anos de nossas vidas tentando seguir suas liturgias e seus preceitos afim de estarmos cada vez mais próximos de suas divinas essências.

Equipe do blog Candomblé: O mundo dos orixás

Existem algumas lendas e podemos chamar também de brincadeira de mau gosto, referente a alguns òrìsás.

Logun Edé é um òrìsá por diversas vezes descritos por nós, como uma divindade masculina, guerreiro, herbalista, caçador e etc.

Não cabe em nosso entendimento pessoas serem manipuladas ou envolvidas em comentários jocosos sobre esta deidade. Logun nunca manifestou em seus filhos qualquer tipo de facilitação para homossexualidade de qualquer sexo. Queremos deixar bem claro e expressamos nossa repudia a qualquer ato homo fóbico, devemos nos ater a energia deste maravilhoso òrìsá, que tem seus encantos e fundamentos muito pouco difundidos. Creio que a inveja e o egoísmo levam algumas pessoas a tentarem manipular as mentes destes filhos diletos de Logun. Òrúnmìlá não nos permite tripudiar de nossos semelhantes, não devemos induzir pessoas a erros, não devemos enganar, não devemos mentir, as 16 Leis de Ifá são claras.

São pessoas que passam anos de sua vida pensando que não podem ter filhos porque são de Iansã, pessoas pensam que não tem sorte no amor por causa de seu òrìsá e tudo isto é uma grande trapalhada que as lendas urbanas vão levando em sua maré de mentiras e enganação.

Mesmo os mais velhos que foram levados por este engodo, ludibriados em sua boa fé e acabaram passando este ensinamento como se fosse um awo (segredo) do òrìsá.

Não há dentro do culto de òrìsá, qualquer contato físico obsceno, as casas mais pudicas em sua maioria colocam Ekeji para dar banhos em mulheres e Ogans para dar banho em homens. Primamos pela boa convivência social, os bons costumes, ao absoluto respeito ao corpo físico de qualquer iniciado ou não, senhoras, senhores, adolescentes, crianças e independente de sua sexualidade têm o mesmo respeito e tratamento.

Não há espaço para promiscuidade ou qualquer tipo de indução a convívio libidinoso, se você receber qualquer tipo de insinuação a este respeito, você tem a obrigação de chamar a autoridade pública e denunciar, nunca em qualquer vertente do culto de deidades chamadas òrìsá, vodun ou nkise se faz tal apelo ou indução. Nunca se permitam serem induzidos a este tipo de provocação. Não aceitem este argumento de que filhos de Logun, Òsúnmarè e outros òrìsás transformam seus filhos, obrigatoriamente, em Gays, Lesbicas ou Bi-sexuais. A escolha por exercer sua sexualidade é sua, apenas a você ela interessa e sua individualidade tem que ser respeitada como um direito constitucional.

Esta opinião está em conformidade com o pensamento e a opinião de todos os moderadores deste blog.

Àse.

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O pecado e o Candomblé

Certo dia, a Jady (uma leitora do blog) perguntou-me como nós, “seres falhos”, temos o merecimento de receber a energia do orixá em manifestação.
Conversando com ela e mais tarde com outras pessoas percebi o quanto este assunto assola em seus pensamentos: a ideia cristã do pecado.

Antes de escrever eu gosto de observar e, principalmente, ouvir as pessoas; seus conceitos, suas opiniões, suas dúvidas, suas histórias… Daí vem a vontade de passar para o papel minha conclusão sobre o assunto.

Não vou falar, hoje, especificamente de Candomblé, de um assunto de Candomblé, mas de ideias que habitam as cabecinhas dos nossos adeptos por motivos de educação cultural e que quase nunca paramos pra pensar nelas.

Vamos falar um pouco sobre pecado. O pecado esteve, religiosamente, presente já nos “primeiros habitantes da terra”, Adão e Eva, segundo a história dos cristãos relatada na bíblia, e a ideia de pecado vem de ordem, uma ordem que deve ser seguida e não deveria ser quebrada. A partir daí surgiram os mandamentos que se desrespeitados, são transformados em pecados e se estes forem cometidos, virá a punição. É praticamente um ciclo.

Então, chega em terras brasileiras um povo, provindo de várias aldeias, várias etnias e nos traz um modo diferente de ver a vida, de vivê-la, de sentí-la… Representantes de sociedades de parâmetros excêntricos, peculiares e estranhos aos olhos da cultura, da visão ocidental estão presentes na nossa terra e refletirão para sempre suas marcar nos nossos rostos, nos nossos sorrisos, na nossa ginga e na nossa maneira de olhar.

Diante disso, temos a nossa religião, herança da mãe África, que dá-nos a oportunidade de viver estes novos conceitos, novos valores e estas novas visões a serem enxergadas e posteriormente aplicadas às nossas vidas, se assim quisermos, mostrando que a palavra “Liberdade” é ordem. No seu sentido literal e metafórico: Candomblé também é liberdade.

A sociedade nos estabelece modelos a serem seguidos, pensamentos a serem defendidos, desejos a serem guardados e praticamente oprimidos. Muitas vezes, nos perdemos nesse mundo de ideias, ideais, novas informações que nos chegam e que mudam a todo instante, obrigando-nos a nos ajustarmos a tudo isso. Tudo isso com qual finalidade? Para nos tornarmos aceitáveis perante os olhos de todos. Temos que nos moldar em estereótipos para participar, e nestes estereótipos estão incluídas maneiras de como se vestir, até maneiras de como pensar.

O mundo não está mais preocupado com a essência, e sim com a massificação, infelizmente. E é justamente essa essência que a nossa religião se importa, é com a essência que nos faz diferentes de qualquer outro ser, é essa essência que define nossos desejos, nossas vontades, nossa maneira de rir… Nossa maneira de amar… É ela que define toda a visão que temos sobre a vida e paralelamente não define o certo e o errado, o jeito bonito e o jeito feio, o que gera a culpa e o que não gera. Ela nos faz sermos nós mesmos, transparecermos no olhar quem somos, o que sonhamos e o que queremos de todo nosso âmago.

Chegar num estado de felicidade sem culpa, de se mostrar sem culpa é transcendental, tão transcendental quanto difícil. Difícil, pois somos seres adaptáveis, mas toda adaptação pede mudança, e às vezes mudar é tão difícil… Se livrar de amarras é um processo bem doloroso, pois nos acostumamos com tudo, até com a dor insistente e latejante. Cabe a nós querer prosseguir nesse processo de liberdade ou continuar nos martirizando com a ideia do pecado, da boa moça que tenta apagar suas idéias avessas ao restante do mundo.

Nós somos livres, fomos criados para isso e é assim que o orixá nos reconhece. Não somos falhos, imperfeitos. Apenas somos humanos, uma mistura de vícios e virtudes que anda pelas ruas, trabalha, estuda, ama, deseja, busca, ri, chora, vive… Às vezes por sonhos possíveis, às vezes por sonhos impossíveis para aquele momento presente.

Assim fomos criados, assim habita a essência que Olodumare plantou em cada um no momento da nossa vinda ao Aiyê. E acertar e errar são possibilidades esperadas de nós. Eu odeio errar, errar com os outros e principalmente comigo mesma, mas ainda assim, acontece e não me puno por isso. Às vezes um erro nos ensina mais do que um acerto e eu tenho certeza que Oyá reconhece isso em mim e está presente, sempre presente.

Pois liberdade é vivermos em prol de nossos pensamentos, de nossos sentimentos, de nossas determinações.

Minha liberdade determina sempre minha felicidade, meu sorriso. E a sua?

“Tudo vale a pena se a alma não é pequena” Já diria nosso saudoso poeta das terras lusitanas Fernando Pessoa.

Axé!

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É contrário à tardição Yorubá não se casar quando é chegada a idade para tal. Atingida a idade considerada ideal, isto é, 30 anos para o homem e 25 para a mulher, a maioria das pessaoas se casam, ainda que muitas vezes com o intento de salvaguardar a dignidade da família ou, no caso dos homens de encontrar alguém que se ocupa do lar. Produtos da vida moderna, entretanto, existem homens que, apesar de prontos para o matrimônio, evitam compromissos duradouros.
Antes da aproximação das famílias dos noivos, é sempre costume o pretendente investigar o estado de saúde dos pais da moça, a fim de assegurar de que eles não sofrem de males como a lepra, a elpilepsia, o alcolismo ou a insanidade.Essas incursões na intimidade dos parentes da mulher visam garantir a paz da vida do casal.
A família do rapaz em princípio escolhe a moça com quem ele vai se casar, mas, aquela só se aproxima da família desta ao se satisfazer com os antecedentes da moça. A aproximação pode ser realizada direta ou indiretamente. A família da moça não tem prazo para responder se aceita ou não o pedido da família do pretendente. Nesse ínterim, os parentes da moça são consultados sobre a pertinência do casamento. Caso não haja anuência para a união, a família responde que a consulta a Ifá Oráculo, foi negativa. Caso contrário, a família da moça dá a conhecer sua aquiescência através de um mensageiro.
A formalização do casamento só dá após o anúncio de ” Ifá fo re” (= Ifá consentiu) cerimônia conhecida por “Ijòhun) (= resposta à voz) ou “Iyinfá (= elogios de Ifá).
Em teoria, o casal não tem direito de mater relações sexuais pré-nupciais, além disso, a moça não deve se encontrar com seu noivo nem com a família deste por nove dias após o início do noivado.
Como em qualquer sociedade, entre os Yorubás existem comportamentos considerados anormais. Homens e mulheres que não se casam na idade adequada e vivem de relações extra-conjugais não são considerados pelo chefe da comunidade.
Com o início do noivado,o pretendente assume algumas obrigações para com os sogros.Em primeiro lugar, obriga-se a dar-lhes uma pequena parcela da produção em geral em época de colheita, além disso, deve servi-lhes como mão de obra para serviços gerais numa necessidade. Por últim, o noivo deve presentear os sogros com dinheiro e bens material e prestar auxilio no caso de morte de paretnte da moça. Ao morrer um idoso, fala-se em “morte alegre”.
O casamnento em si simboliza a conclusão de um contrato entre duas famílias através do qual se confere uma mulher a um homem. Para tanto, afamília do rapaz paga certa quantia em dinheiro que, por exemplo, era de 5 libras até 1918 na cidade de Abeokutá.
Ao se casar, o homem se torna o “oko” (=marido) e a mulher a iyawo (=esposa), designação esta, aliás, que os parentes do rapaz doravante também empregarão.
Na noite em que a esposa se muda para casa do marido, as duas famílias se reúnem. A primeira obrigação da moça na ocasião é pedir ao pai aconselhamento e bânção. Ajoelhada, a noiva ouve do pai os conselhos de como obedecer ao marido e a sua família. Isso feito, o pai lhe augura proteção divina e fecundidade.
Uma vez instalada a esposa, o marido pode passar a primeira noite com ela. Se,entretanto, a mulher não for mais virgem, o marido pode denunciá-la a seus pais e ela poderá ser devolvida pelo marido.
Passados 8 dias na casa do marido, a esposa realiza um trabalho simbólico a fim de demonstrar sua lealdade ao esposo: faz a limpeza dos arredores da casa e trás água para família do marido.
Em princípio, o casamento pressupõe uma união vitalícia, para cuja estabilidade contribui, além do sentimento envolvido, a existência dos filhos. No entanto, a mulher pode se divorciar do marido em situações específicas: se ele se envolver com criminosos, tornar-se viciado ou preguiçoso, contrair uma doença grave.
Se o marido morrer antes da mulher, o irmão daquele é obrigado, se solteiro, a esposá-la e adotar seus filhos, passando a prover sua subsistência. Antes da reunião do casal são feitos sacrifícios pela boa sorte na nova vida.
Desde a ocupação britânica, a instituição do casamento sofreu mudanças. A pesar de ainda não existirem resistências às mudanças, já se instauraram diversas novidades em relação ao matrimônio tradicional. Em 1937 ocorreu a primeira conferência de chefes de comunidade sobre a necessidade de se iniformizar a prática matrimonial entre os diferentes grupos étnicos.Entre outros, fixaram o valor que o noivo devereia pagar para obter o direito de se casar.
Basicamente, introduziram-se 3 mudanças na instituição do casamento entre os Yorubás: a primeira foi a possobilidade de duas pessoas se casarem sem a nuência da família, sem pagamento de dote e sem qualquer formalidade matrimonial; a segunda foi o abandno do casamento forçado de moças em idade infantil, por fim a terceira foi a popularização do divórcio.

Nigéria- Histórias e Costumes de Michel Ademola Adesoji

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