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Ewé! A Força que vem das Folhas!

Por Bàbá Asògún Olúmo (Ulisses Manaia)

(Texto publicado na revista “Candomblés nº 1”,  – da Editora Minuano – Fevereiro de 2011)

KÒ SÍ EWÉ, KÒ SÍ ÒRÌSÀ! Expressão no idioma Yorùbá que quer dizer: “Se não há folhas, não há Òrìsà!” Esta expressão dá ao leitor o entendimento da importância das folhas dentro dos rituais de origem africana, no entanto, queremos aqui ampliar este conceito, traduzindo por folhas os vegetais de um modo geral, incluindo além de suas folhas, seus frutos, sementes, e até mesmo seu caule; e traduzindo por Òrìsà, os diversos usos “mágicos” desses vegetais.

Na caminhada evolutiva do homem, que hoje a maioria dos estudiosos acredita ter começado no continente africano, ele se valeu da observação da natureza para o desenvolvimento de habilidades que até então ele não possuía e, naquele continente onde “tudo começou”, sociedades ditas “animistas” ou “tradicionais” continuam até hoje vivendo em harmonia com a natureza, dela tirando ensinamentos para a sua vida social. Animistas porque acreditam que “toda manifestação viva pressupõe a presença de uma força vital, determinante do ideal de viver”, e que utilizando práticas específicas esta “força” poderá ser utilizada em seu favor! E dentro deste conceito os vegetais representam um grande potencial de possibilidades.

“Se para a medicina ocidental o conhecimento do nome científico das plantas usadas e suas características farmacológicas é o principal, para os Yorùbá o conhecimento dos ofò, encantações pronunciadas no momento da preparação das receitas e transmitidas oralmente, é o que é essencial. Neles encontramos a definição da ação esperada de cada uma das plantas que entram na receita.” (Ewé,Pierre Verger, 1995).

Bom, diante dessa referência concluímos que as plantas e seus derivados não são utilizados aleatoriamente, visam atender necessidades específicas, ou seja, qual o resultado esperado? Ou ainda: utilizar a folha certa no momento certo! Vimos também que a ação esperada dessas folhas está ligada ao que vai ser dito no momento de sua utilização, o ofò, que nada mais é do que a utilização da palavra enquanto transmissora de àse. Verger diz ainda que à primeira vista é difícil perceber nas diversas “receitas”, que tem como ingredientes elementos vegetais, qual é a parte “mágica”, ou seja, aquela que o efeito vai se dar pelo àse nela contido, e quais as virtudes testadas experimentalmente dessas plantas, ou seja, ele diz com isso que muitas dessas plantas já tiveram suas propriedades farmacológicas comprovadas.

Dentro desse contexto quero destacar o trecho de uma canção brasileira, interpretada pela célebre cantora baiana Maria Bethânia:
“Salve as folhas brasileiras! Salvem as folhas para mim! Se me der a folha certa, e eu cantar como aprendi, vou livrar a Terra inteira de tudo que é ruim! Eu sou o dono da terra, eu sou o caboclo daqui! Eu sou Tupinambá que vigia, eu sou o dono daqui!” (meu grifo).

O que me chamou atenção nessa composição, e que destaco para o leitor, é que ela ilustra o trecho acima de Verger, e mais ainda, a utilização das folhas está associada a um dos grupos indígenas brasileiros, sugerindo que esses nativos, primeiros habitantes do nosso País, também conheciam essa prática!

Ainda de Pierre Verger:
“Na língua Yorùbá, freqüentemente existe uma relação direta entre os nomes das plantas e suas qualidades, e seria importante saber se receberam tais nomes devido às suas virtudes ou se devido a seus
nomes, determinadas características foram a elas atribuídas.” (meu grifo).

Como ilustração, transcrevemos o trecho de uma preparação Yorùbá para obtenção de dinheiro:

PÈRÈGÚN NÍ Í PE IRÚNMOLÈ L’ÁT’ÒDE ÒRUN W’ÁYÉ!
Pèrègún que chama os espíritos do além para a terra!)

PÈRÈGÚN WÁ LO RÈÉ PE AJÉ TÈMI WÁ L’ÁT’ÒDE ÒRUN!

(Pèrègún, agora vá e chame minhas riquezas do além!)

Nesta preparação encontramos referência a uma folha, conhecida pela maioria de nós: o Pèrègún, cujo nome é a contração do verbo “PÈ”, que significa chamar, com a palavra “EGÚN”, que significa espírito, ancestral, etc. Percebe-se então que esta folha tem a finalidade de “chamar (invocar) espíritos”, e que a própria pronúncia de seu nome já funciona como um ofò! No caso da receita acima, a sabedoria daqueles nossos ancestrais yorubanos que a elaboraram fez esse trocadilho: se Pèrègún pode chamar espíritos, pode chamar a riqueza! Certa vez ouvi de meu “bàbá” que o negro yorubano tem sobre nós a vantagem do uso corrente do idioma, enquanto nós aqui no Brasil ficamos presos a textos prontos, que nos foram transmitidos ao longo do tempo.

Para algumas pessoas, principalmente para aquelas que não estão ligadas aos cultos de matriz africana, pode parecer um tanto “primitivo” pensar dessa maneira, digo, esperar resultados a partir da utilização de certas plantas, de sementes, etc., enfim de elementos da natureza, aparentemente inanimados. No entanto, repetimos, existe por traz da utilização desses elementos uma questão cultural. Eles se utilizam desses elementos da natureza acreditando que eles expressam as suas necessidades perante o “Criador”, o destino final de seus pedidos:
“…Uma composição mágica parece ser considerada como uma coleção de coisas materiais, às quais é dado um valor simbólico; juntas constituem uma mensagem…” (Ewé, Pierre Verger, 1995)

Entre os Yorùbá, os ofò são frases curtas nas quais muito freqüentemente o “verbo” que define a acão esperada, chamado de “verbo atuante”, é uma das sílabas do nome da planta ou do ingrediente empregado. No entanto, o elo entre o nome da folha e a ação esperada, invocada através do ofò, não se limita apenas ao verbo, mas pode aparecer em uma frase curta ou longa, nesse caso estabelecendo uma relação simbólica entre algumas “características naturais” daquela planta a as “necessidades” do homem.
Vejamos alguns exemplos:

ÀT’ÒJÒ ÀTEÈRÙN KÌ Í RE TÈTÈ
(Tètè nunca está doente, nem na estação chuvosa nem na seca)

Este ofò faz referência a uma folha conhecida popularmente por Bredo ou Caruru de porco, e cujo nome Yorùbá é Tètè. É uma folha facilmente encontrada, tanto no meio urbano, nas margens de calçadas, como no meio rural, e confesso que antes de conhecer o seu valor ritual, passava-me despercebida, assim com muitas folhas que não conhecemos! Percebemos pela tradução que é uma planta resistente às variações da natureza, permanecendo sempre saudável, e não é este tipo de força que
queremos para nossa vida?

OJÚ ORÓ NI Ó N’LÉKÈ OMI, TÈMI Ó L’Á LÉ
(Ojú oró flutua na água, eu também ficarei por cima)

Ojú oró é conhecida popularmente por Erva de Santa Luzia, é uma planta aquática, encontrada em rios ou lagoas. Percebemos que nesse ofò evoca-se o poder dessa planta de conseguir manter-se sempre por cima da água!

Em território Yorùbá, na preparação dos trabalhos ligados à obtenção de todo tipo de sorte, ou para afastar algum mal, esses vegetais são pilados e misturados ao sabão africano Ose (oxé) Dudu, com o qual toma-se banho, ou então são torrados, até a obtenção de um pó, que poderá ser misturado à comida, a bebidas destiladas, ou até mesmo esfregado em incisões feitas no corpo, particularmente nos punhos.
Essas práticas quase não sobreviveram aqui no Brasil, por ocasião da reestruturação do culto aos Òrìsà, no entanto há uma prática viva entre nós: o Oro Asa Òsónyìn ou Sassanha, como é mais conhecido, um
ritual realizado nas casas de raízes Yorùbá, que significa basicamente: Ritual de proteção de Òsónyìn. Utilizamos o recurso dos “cânticos da folhas” para determinar que as oferendas sejam cobertas de realizações, uma vez que esses cânticos possuem “verbos atuantes” que facilitam a comunicação entre o povo e os Ancestrais Divinizados. No caso de uma Iniciação para Òrìsà ou “Feitura de Santo”, este ritual é realizado para preparar a “esteira”, onde ficará deitado o iniciado e o “banho” para lavar todos os seus objetos rituais, bem como para os seus banhos matinais diários.

Referências Bibliográficas:

– Monteiro, Marcelo dos Santos, 1960 – Curso Teórico e Prático de Folhas Sagradas – Oro Asa
Òsónyìn – Rio de Janeiro – 1999 – 59 p. (Biblioteca Nacional);

– Verger, Pierre Fatumbi – Ewé: o uso das plantas na sociedade ioruba – São Paulo: Companhia
das, Letras, 1995;

– CD “Dentro do mar tem rio”, Maria Bethânia – Gravadora Biscoito Fino.

Por: Ulisses Manaia

Caros leitores,

Está aqui publicado, no espaço mais de vocês do que nosso,  mais uma grande ideia de um dos nossos leitores – o Eurico –  que resgatou esse vídeo maravilhoso e nos deu a oportunidade de ouvir, ver ou rever o grande Pai Agenor Miranda e suas sábias palavras.

“Sou filha de Iansã, sou pintada, raspada, uso minhas contas onde passo e defendo meus orixás em todos os espaços que Deus deixou no mundo.” (Fonte da citação: bahianoticias.com.br)

O professor pediu o material de desenho, a custo o pai de Luislinda conseguiu comprar um, meio remendado. Pois bastou o professor ver o material para magoá-la para sempre. “Menina, deixe de estudar e vá aprender a fazer feijoada na casa dos brancos”. Ela chorou, ainda se emociona quando relembra, 58 anos depois. Mas tomou coragem e retrucou: “Vou é ser juíza e lhe prender”. A primeira parte, ela cumpriu. Em 1984, a baiana Luislinda Valois Santos tornou-se a primeira juíza negra do País. Não à toa, também foi quem proferiu a primeira sentença contra racismo no Brasil. Em 28 de setembro de 1993, condenou o supermercado Olhe Preço a indenizar a empregada doméstica Aíla de Jesus, acusada injustamente de furto. Aos 67 anos, lança em agosto seu primeiro livro, O negro no século XXI.

Como foi sua infância? Imagino que não tenha tido muitos recursos…

Faça uma pequena ideia (risos). Minha mãe era lavadeira e costureira e meu pai era motorneiro de bonde. Minha infância foi miserável, mas meus pais sempre primaram pela educação e pela nossa saúde. Quando eu tinha 9 anos, estava começando a estudar, um professor pediu um material de desenho e meu pai, coitado, não pôde comprar o que ele pediu, mas comprou outro. Quando cheguei à escola, feliz da vida, ele disse: “Menina, se seu pai não pode comprar o material, deixe de estudar e vá aprender a fazer feijoada na casa dos brancos”. Imagine como foi marcante pra mim (chora). Saí chorando. Mas sou muito impetuosa. Voltei, fui em cima dele e falei: “Não vou fazer feijoada para branco, não. Vou é ser juíza e lhe prender”. Em casa, ainda tomei uma baita surra do meu pai. Naquela época, não se podia desrespeitar professor.

Começou a trabalhar cedo?

Com 7 anos, quis aprender datilografia e, para pagar o curso, minha mãe sugeriu que eu lavasse aquelas fraldas de pano que se usava na época. Aí fiz isso. Mas, trabalhar realmente, comecei com 14 anos, como datilógrafa. Comecei na Companhia Docas da Bahia e, logo em seguida, minha mãe tinha acabado de morrer, me arrumaram um trabalho no DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, hoje Dnit). Fui crescendo lá: trabalhei como escrevente, escriturária, chefe de orçamento. Estudei filosofia, não concluí, depois comecei teatro, mas meu pai não me deixou cursar, disse que era coisa de prostituta. Aí, um dia, decidi fazer direito. Já tinha uns 34, 35 anos. Me inscrevi e passei na Universidade Católica. Me formei aos 39 anos, no dia 8 de dezembro e, no dia 9, começaram as inscrições para o concurso de procurador do DNER. Passei em primeiro lugar no Brasil. Mas não pude assumir aqui.

Por que não?

A pessoa que passou em último também era daqui da Bahia. Como eu não tinha padrinho político, algumas autoridades me puseram numa sala e falaram: “Doutora, precisamos da sua vaga aqui. Vamos lhe oferecer Sergipe ou Paraná”. Aí falei: como vocês estão me mandando embora, vou logo para longe. Fui para o Paraná. Com 90 dias, o chefe da procuradoria de lá se aposentou e fui designada para a vaga dele. Morei lá quase 8 anos.

Li que, antes de estudar direito, a senhora participou de um concurso de beleza. Como foi isso?

Trabalhava no DNER, tinha uns 20 anos, e um dia me chamaram na diretoria e falaram: “estão abrindo um concurso da Mais Bela Mulata e você vai ser a nossa miss” (risos). Aí eles foram falar com meu pai. Era de maiô e tudo, imagine… Meu pai ficou bastante reticente, mas por fim pediu a seu Rangel, que era o chefe do administrativo, para assinar um documento se responsabilizando pela minha integridade física (risos). A integridade física da época era a tal da virgindade, a preocupação era essa. Teve várias etapas. As mais importantes foram no Forte de São Marcelo e na Rua Chile, que era o point. Ganhei como Miss Simpatia.

E como se tornou juíza?

Estava em Curitiba e vim de férias para cá, soube do concurso pelo jornal A TARDE, que meu pai comprou. Falei: pronto, é agora. No dia seguinte, fiz a inscrição e as provas. Aí, uma noite, o telefone tocou e a menina disse que eu tinha sido aprovada. Acordei meia Curitiba, né? (risos). O fato de ser a primeira juíza negra do Brasil só me dá responsabilidade. Até hoje só temos dois ministros negros nos tribunais superiores. Por que isso? A inteligência não é privacidade de nenhuma raça. Até porque só existe uma raça, a humana. Ser juíza não é difícil. É só ter bom senso, estudar de manhã, meio-dia, de tarde e de noite e gostar de lidar com gente. Não pode pensar que, só porque o cidadão é marginal, ele já merece estar enclausurado. Primeiro se vai ver por que aquele sujeito virou marginal. A sociedade é quem escolhe quem vai delinquir. E te digo mais: nesse momento, a sociedade escolheu que é o negro, pobre, jovem, da periferia. Na hora que se tem de condenar, se não tiver a quem condenar, se condena o negro, mesmo que ele ainda esteja no ventre da mãe.

A senhora falou que não é “porque o cidadão é marginal que já merece estar enclausurado”. A sociedade espera uma resposta, de todo modo.

A sociedade não colabora para que as pessoas não cheguem a delinquir. O que é que se tem de dar? Oportunidades. Primeiro, educação de qualidade e continuada. Imagine uma pessoa que tem oito, dez filhos, se depara uma manhã sem ter o pão para alimentar seus filhos. Se não tiver muito equilíbrio, faz bobagem.

Já se viu diante de um caso desse? Como a senhora agiu?

Já, no interior. Resolvi da seguinte forma: fui até o prefeito e consegui um serviço de jardinagem para ele. A pena que dei foi que, com o primeiro salário, ele pagasse o que tinha pego. Nunca mais ouvi falar que esse rapaz fizesse nada de ilegal. Digo sempre o seguinte: se tiver eu e uma loira juntas, o que sumir primeiro, fui eu que peguei. É sempre o negro que é o delinquente de hoje.

No seu trabalho como juíza, ainda sofre muito preconceito?

Sou a sétima juíza mais antiga do Estado e nunca consegui ser convocada para o Tribunal. Me sinto preterida. Tenho certeza de que já era para eu ser desembargadora há muito tempo, preencho todos os requisitos. Para se saber o que é racismo, é só ficar negro por 48h. Certa vez, no juizado de Piatã, aproveitei o tempo para arrumar uns processos. Chegou uma advogada e falou: ‘O juiz vem hoje?’. Eu aí fiz um sinal para a moça não dizer que era eu. A advogada ficou lá, reclamando que juiz nunca chegava na hora, coisa e tal. Na hora da audiência, subi, pus a toga e, quando ela me viu, não acertou fazer nada. Tive de adiar a audiência. Falei: ‘Tenha paciência, a senhora toma um chazinho de erva-cidreira e, amanhã, nós continuamos’. Precisa maior racismo do que esse?

A senhora proferiu a primeira sentença contra racismo no Brasil. Como foi a repercussão do caso?

Me lembro bem. Aíla Maria de Jesus foi a um supermercado e quando estava saindo, o segurança a humilhou, disse que ela tinha posto na bolsa um frango congelado e dois sabonetes. Ela falou que, se ele chamasse a polícia, ela abriria a bolsa. Aí, a polícia chegou e viu que não tinha nada. Na época, a repercussão foi que o feitiço virou contra o feiticeiro (risos). Comecei a receber ameaças, o pessoal ligava para a minha casa dizendo: “Onde é que essa negra faz supermercado?” Fiquei com medo e pedi afastamento, resolvi voltar para Curitiba. Aí fui ao banco com meu filho, me sentei e ele foi resolver as coisas para mim. Passou um tempo o segurança ficou me olhando, depois veio outro, depois veio o gerente. E eu lá sem saber o que fazer. Pensei: se eu me mexer para pegar minha carteira de juíza, eles podem pensar que eu estou armada e me matar. Quando meu filho voltou, criei alma nova. Ele falou: “O que é isso com minha mãe?”. E o gerente respondeu: “Ela ficou muito tempo aí sentada”. Chorei a tarde inteira.

No livro O negro no século XXI, a senhora diz que “a Justiça é inacessível ao negro pobre”. A senhora é uma das idealizadoras do Balcão de Justiça e Cidadania, que atende moradores das periferias. Isso vem melhorando?

Sim. Criei o Balcão de Justiça e Cidadania, o Justiça Bairro a Bairro, Justiça Itinerante da Bahia de Todos-os-Santos e o programa Justiça, Escola e Cidadania, para levar a Justiça às escolas públicas. Recebi em Brasília, em 2006, o Primeiro Prêmio de Acesso à Justiça, pelo trabalho desenvolvido pelo Balcão. A ideia é resolver conflitos pela mediação, inclusive divórcios, separações, pensão alimentícia, que são os casos mais frequentes. As pessoas acham que, para ir até a Justiça, têm de estar com uma roupa muito arrumada, mas não precisa nada disso. Hoje, trabalho no juizado da Unijorge, que eu implantei.

Por que a Justiça na Bahia é uma das mais lentas no Brasil?

Primeiro, temos um número pequeno de magistrados e um número inaceitável de desembargadores. No Paraná, que é bem menor que a Bahia, são 120 desembargadores. Aqui, são apenas 35. É humanamente impossível. E a falta de recursos colabora bastante negativamente.

O movimento negro muitas vezes pleiteia políticas específicas, como as cotas. Isso não fere a Constituição, que diz que “todos são iguais perante a lei”?

Não se pode igualar os desiguais. Tudo que é inferior é encaminhado ao negro. As cotas são importantes, mas não permanentemente, porque senão parece esmola. É enquanto se equipara o ensino público e privado. O problema é que a qualidade da escola pública não melhora.

A maioria das vítimas de homicídio em Salvador são jovens negros. Qual é a parcela de responsabilidade da Justiça? Há apenas duas varas do júri para julgar esses casos.

Depois da visita a presídios, resolvi criar um projeto: Inclua no trabalho e na educação e exclua da prisão, para ocupar os jovens da periferia. A televisão fica com aquele ‘compre, compre, compre’. O adolescente vê um tênis e quer adquirir, seja como for. Pai e mãe também não têm condições, saem para trabalhar, deixam o menino sozinho. O que acontece? O traficante vai e coopta. O poder público é culpado por não dar condições para as famílias terem uma vida mais digna. Isso tudo vai desaguar no Judiciário, e falta estrutura.

No livro, a senhora também fala sobre aborto. É a favor da descriminalização?

Acho que se trata o assunto olhando somente a mulher pobre. A mulher rica faz aborto a todo instante, mas isso não vem a público, ela não morre, nem é presa. Acho que tem de deixar de ser crime, sim. Ninguém aborta porque quer.

A senhora é de santo, e o pastor Márcio Marinho, da Igreja Universal, assina a contracapa do seu livro. Como é a relação de vocês?

Me criei no candomblé, sou filha de Iansã. Acho que, primeiro, não se deve olhar a religião da pessoa, mas sim quem ela é. Já fiz parcerias com a Igreja Universal, e eles sempre cumpriram o papel deles.

Texto Tatiana Mendonça tmendonca@grupoatarde.com.br

Fotos Rejane Carneiro rcarneiro@grupoatarde.com.br

Fonte: Revista Muito #69 (26 de julho de 2009)

Entrevista extraída do blog: rogerioalcazar.wordpress.com

Fonte do vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=bAhGu8utIkc

Caboclo

A idéia com esse post é falarmos de Caboclos e que todos participem com informações e nos ajudem a formar um entendimento coeso, independente, sério.

Os  Caboclos de Pena são genuinamente brasileiros, os verdadeiros donos dessa terra chamada Brasil. Relendo um livro sobre cantigas de Umbanda e candomblé, me dei conta de como é rica a liturgia aos caboclos em geral, a miscigenação cultural/litúrgica/culto entre o Indio, Negro e o Branco.  Seus espíritos e rituais estão espalhados em várias nações do candomblé, fortemente na Umbanda e até de cultos próprios pois não dependem de ninguém.

Os Caboclos se dividem em diversas nações: Aimorés, Tupis, Tamoios, Guaranís, etc. Cada uma caracterizada por uma combinação de cores em geral. Interessante são as legiões de Caboclos oriundos de várias linhas e cada linha é constituída de  sete legiões, cada uma com seu chefe. A linhas de Xangô que inclui as legiões de: Iansã, caboclo Cachoeira, Pedra Branca, Caboclo do Sol, da Lua, Treme-Terra e caboclo do Vento. Na limha de Oxóssi estão as legiões de: Araribóia, Guaranís (chefiada por Araúna) Cabocla Jurema, cabocla das Sete encruzilhadas, Pele vermelhas (chefiada por Águia Branca, Tamaios e Urubatão. A linha de Ogun inclui as legiões de: Ogun Beira Mar (praias), Ogun Delei (linha de Malei da Quimbanda) Ogun Iára (rios), Ogun Matinata (campos), Ogun Megê ( linha das almas na Umbanda), Ogun Naruê (linha das almas Quimbanda), e Ogun Rompe-Mato (matas). Na linha de Yemanjá estão as legiões de: cabocla Iansã (chuvas/raios) , cabocla Iára (rios/mares), cabocla Indaiá (lagos), Cabocla Janaína (mar), cabocla Nanã (fontes), cabocla Oxun (cachoeiras), e Sereia (mar). Existem ainda uma infinidades de caboclos ligados a essas linhas, falangeiros da Jurema, capanguinhas, etc

Os Caboclos conhecem todos os segredos das forças da natureza, por isso sabem como descarregar um ambiente cheio de energias negativas, nocivas e como curar uma pessoa atingida por males físicos ou espirituais, usando as energias benéficas que nos cercam e o seu próprio poder esperitual.

Os Caboclos começaram a se manifestar nos candomblés de caboclo e nas mesas de Jurema do Catimbó, mais tarde tornaram-se um dos mais importantes grupos de de entidades da Umbanda. Em uma sessão de Umbanda, os Caboclos atendem aos fiéis fazendo passes e defumações, além de ensinar os remédios e dar os conselhos adequados a cada caso.

Por ser genuinamente brasileiro, os pontos são cantandos e compostos em portugues, daí a participação cultural do Branco.   Há um ponto que ratifica sua condição de sobrerano:

“Brasileiro, brasileiro (bis)

sou brasileiro Imperador, mais eu sou filho do Brasil!

se meu pai é brasileiro, minha mãe é brasileira

brasileiro o que é que eu sou?

sou brasileiro Imperador!”

Iyá Gisèle Omindarewá,  em seu livro “Awô o mistério dos Orixás”, faz uma pequena e excelente aluzão aos  Caboclos e seus ritos: Os caboclos possuem características muito diferentes dos Orixás, e não passam por um aprendizado definido. Eles se comportam de maneira mais violenta e primitiva, e o estado de transe é muito agitado. Como sua conduta não está rigorosamente codificada, é posspível que ajam de modo bastante imprevisível…As suas personalidades refletem fielmente a imagem tradicional do Índio do Brasil…Ao se observar certas cantigas percebem-se a influência cultural do Negro e em especial do povo da costa de Angola, a misceginação Índio/Negro em vários pontos:

“O Luandê, o Lunda, Luanda é terra de caboclo o Luanda”

“Pedrinha miudinha da arunda ê, lagedo tão grande da aruanda ê”

Muitas casas de candomblé cultuam caboclos, porém, não dão crédito algum, fazem de portas fechadas, desconsiderando uma cultura brasileira enraizada no nosso cotidiano. É difícil entender esse comportamento das nações africanas e seus zeladores, afinal a terra é do Índio brasileiro, com seus ritos, mistérios e soberania, tem que pedir licença (agô) para pisar na terra, um alguidá com frutas, um cuité com vinho, um charuto acesso, tem até Orixá que gosta. Okê Caboclo! É só um carinho com o sultão das Matas, no pé do juremeira.

Alguns pontos de caboclos mais conhecidos.

Cabocla Jandira

“Seu cocar é de pena branca

ela é quem segura a gira (bis)

Saravá sua linda banda,

Saravá a cabocla Jandira” (bis)

Cabocla Jurema

Minha senhora lá das matas,

me diga quem mada aí (bís)

Venha pra perto ver, Dona Jurema é do arirí (bis)

Caboclo Arranca Tôco

Oi saravá Seu Arranca Tôco,

saravá seu bambi Odé,

oi que bamba o clime,

Oi que bambi Odé (bis)

Caboclo Cobra Coral

“Todos caboclos quando vem da mata

trazem na sinta uma cobra coral (bis)

É do seu cobra coral

oi era uma cobra coral.”

Caboclo Pena Branca

“Com sua flexa de ouro, com seu bodoque de prata,

Ele é seu Pena Branca, caninana não lhe mata”.

Caboclo Pena Verde

“Ele veio da sua mata, veio saravá o gongá,

Suassuna é pena Verde, aqui em qualquer lugar”.

Cabocla Jacira

“Na fonte da água cristalina,

uma bela cabocla se mira,

Dos cabelos correm pérolas doradas,

Tá na gira a cabocla Jacira”.

Um outro segmento de caboclos, são os Caboclos Boiadeiros e suas variantes, com a sua saudação: Xetro marrumbaxetro! Intruduzido dentro das casas de Angola, dentro dos sambas nas rodas de caboclo(sambangola), eles vem na linda da Jurema (relacionada ao catimbó) suas cantigas apresentam muitas referências aos reinos míticos do mundo encantado do Juremal, como Aldeia Nova, Hungria, Águas  Claras, Lajedo, Jequiriçá, Junssara, etc).  Exemplos:

Caboclo Boiadeiro

-” Lá na Hungria, lá na Hungria,

Lá na Hungria seu palácio é real,

Lá na Hungria,  lá na Hungria,

Na Hungria Boiadeiro é real”. (bis)

-“Lá na Vila Nova, Lá na Vila Nova,

Na Vila Nova do seu Boiadeiro,

Lá na Vila Nova” . (bis)

Ponto de chamada de seu Boiadeiro

“Seu Boiadeiro sou quem lhe chama

vem atender meu chamado,

seu Boiadeiro sou eu que quem lhe chama,

tu és meu advogado”.

Ponto barravento

A minha boiada é de 31 (bis)

já contei trinta ainda me falta um.”

Ponto de louvação final

-“Deus lhe salve essa casa santa (bis)

Aonde Deus fez sua morada.

Aonde mora o cálice bento.

E a hóstia consagrada”

Temos aí a nesse ponto a catequese católica, interessante que não é sincretismo, é miscigenação cultural de sobrevivência e de amor  aos caboclos cultuados no Brasil.

Bibliografia e pesquisa: Eneida Gaspar do livro Cantigas de Umbanda e candomblé. Awô o Mistério dos Orixás de Gisèle Omindarewá e acervo cultural do Axé Osolufon-Íwìn.

Meus irmãos, dando continuidade ao projeto Espaço dos Leitores, trazemos mais um texto gentilmente cedido pelo Da Ilha (Ary).

Òrúnmìlá é a incorporação da sabedoria (Ògbón), da paciência (suurú), do conhecimento, e da mistificação divinatória no sentido mais puro. Òrúnmìlá é a testemunho a todos os destinos (Èlèri ípìn), o senhor do dia (Olójó). Ifá é a arte da adivinhação, aquilo que está além da nossa imaginação e do sub-incosciente.

Isso mostra que Ifá e Òrúnmìlá são quase os mesmo, mas o ponto que diferencia, é que Òrúnmìlá foi um grande sacerdote e Ifá o sistema de adivinhação criado por Ele.

Òrúnmìlá é a divindade e Ifá é o sistema onde esta divindade se manifesta. Não há Ifá sem Òrúnmìlá e nem Òrúnmìlá sem Ifá. Estes dois conceitos são tão intimamente relacionados que muitas vezes referimo-nos a Òrúnmìlá como Ifá.

Òrúnmìlá é a divindade da sabedoria e do conhecimento, responsável pela transmissão das orientações das “divindades” e de nossos ancestrais, de maneira a permitir a cada um de nós a possibilidade de uma escolha acertada para uma vida feliz.

Òrúnmìlá é aquele que estava presente, ao lado de Olódùmarè, quando a Vida, o Mundo e o Homem foram criados. Òrúnmìlá tudo vê, tudo sabe e tudo conhece. Não há nada que tenha sido criado ou que virá a ser criado que Òrúnmìlá não saiba antes. Òrúnmìlá conhece a vida e conhece a morte, ele conhece a existência: o antes e o depois. Por isso ele pode ajudar.

Ijùb

Ìbà Ògéré afòkó yerí
Ìbà atí yò ọjọ
Ìbà atí wò run
Ìbà Olójó Oní
Ìbà Égun ilé
Ìbà àgbà
Ìbà Bàbálòrìsà (Ìyàlòrìsà)
Ìbà ómó òrìsà
Ìbà ómódé
Awà egbé odò Òrúnmìlá jùbá ô, ki ìbà wà se
T’ómódé ba jùbá bàbá re, àgbélé ayè n pè
Àdá se nìí hun ọmọ
Ìbà kìí hun ọmọ ènìyàn
Akóògba kìí hun Olóko
Àtípá kìí hun Ò
Asợ fúnfún kìí hun Olórìsà
K’ayè oyé wà ô
Ka ríba tí ÿe
Ka ma r’ìjà ọmọ arayè ó
Ka’ ma r’ìjà Eléye ô
Mo jùbá ô! Mo jùbá o! Mo jùbá o!

Àse.

Eu saúdo Olódùmarè
Eu saúdo Òrúnmìlá
Eu saúdo o senhor dos mares, o dono da casa.

Eu saúdo Èsù
Saúdo os Irùnmolè, os òrìsà
Saúdo a terra e que ela não me recuse
Saúdo o dia que amanhece

Saúdo a noite que vem
Saúdo o dono do dia
E saúdo o Égun da casa, nosso ancestral
Saúdo os velhos sábios
Saúdo o Oló/Ìyàlòrìsà
Saúdo os iniciados da casa.
Saúdo as crianças
Nós, que cremos em Òrúnmìlá,

Saudamos e esperamos que Òrúnmìlá ouça nossa saudação

Pai da sorte, eu o chamo para seivar a terra
O filho que reverencia seu pai terá longa vida e por nada sofrerá
Que a nossa saudação, a nós poupe sofrimentos
Que as plantas boas não falhem ao agricultor
Que aos mortos não falte sepultura
Que a Orisa’nlá não falte o pano branco
Para que o mundo nos seja bom
Que nossos caminhos se abram
Que não vejamos a discórdia dos povos sobre a terra
 Nem a obra das feiticeiras, Ìyàámí Osorongà
Nós saudamos, saudamos, saudamos
 Àse o!

A Magia Negra

No Brasil, por mais que  este termo tenha um caráter pejorativo, nefasto, nebuloso, assustador, na África a magia negra tem seus fins, a prática da Magia Negra entre os Yorubás envolve a crença em cura medicinal, envenenamentos, bruxarias, curanderismo, etc. A Magia era empregada com diversos fins tais como: feitiços para ganhar dinheiro, ter sucesso no amor, induzir pessoas ao erro, detectar veneno na comida na bebida, defesas contra armas, assaltantes, maldições, fazer chover e tantos outras magias.
Recorre-se a Magia Negra em casa de doença do filho cujo pai se encontra distante. Busca-se alguém para alcançar o pai e para trazê-lo a tempo, emprega-se uma magia negra denominada “Ka nako” (encurtamento de caminho). Assim, não há distinção nítida entre a medicina e a magia.
Qualquer pessoa pode praticar medicina entre os Yorubás. Os medicamentos preparados por médicos nativos são purgativos e, quase sempre, eficazes. Conhecem-se incluisve muitos métodos de tratamento da blenorragia…
Toda “oogun” (magia Negra) se baseia na botânica, como indica seu nome alternativo “egbogi” (raiz árvore) e na zoologia, devido às difilculdades de tradução, seria despropositado citar os diferentes tipos de doenças curadas através de Magia Negra e os ingredientes empregados com valor medicinal, entretanto, pode-se dizer que quando praticam como propósito de curar, a magia não pressupõe conhecimento exato de seus processos. Um indivíduo que prescreva alguns ingredientes pode não saber realmente seu mecanismo de atuaçãono organismo.
Segundo  o professor Michel Ademola Adesoji, pode-se afirmar que muitas pessoas são testemunhas dos efeitos da Magia Negra, inclusive ele próprio foi vítima. Ele conta que em Ilexá, teve a oportunidade de assistir ao culto nacional a Ogun, ao qual comparessem pessoas de todos os lugares, longínquos e próximos. Ele diz que foi nessa ocasião que presenciou os efeitos da Magia Negra, já que, neste dia, praticaran-na uns sobreo os outros.
Dize-se que Sìjìdì, uma imagem feita de barro, pode executar tarefas para o mestre que o construiu, à noite, a imagem mata inimigos de seu mestre, por outro lado, este deve permanecer acordado até de manhã, senão corre o risco de ser morto por sua própria criação quando retornar.

ÒRUNMILÀ / IFÁ

ÒRUNMÌLÁ / IFÁ

A filosofia de Ifá é uma das mais antigas formas de conhecimento revelada a humanidade. Infelizmente as revelações de Ọrúnmìlá, têm desde o início dos tempos, sido escondidas no mais completo sigilo e aqueles que poderiam dispor de tempo e possuir horas de folga para adquiri-los, não tinham recursos de ir atrás deles. Tudo o que sabemos hoje de Ifá, tem sido passado de geração em geração. Muito do que o povo conhece sobre Ifá é também revelado: até mesmo hoje em dia, pelo próprio Ọrúnmìlá, porque ele regularmente surge para seus seguidores em sonhos, para ensiná-los o que é necessário saber sobre sua obra. O conhecimento de Ifá tem sobrevivido essencialmente pela tradição oral de um sacerdote de Ifá para outro. Nenhum esforço consciente tem sido feito para publicar a obra de Ọrúnmìlá completa para o público consumidor. Até os sacerdotes de Ifá entre eles, são freqüentemente relutantes em compartilhar conhecimento por temor que se o mesmo se tornar de domínio público, a fachada mística oculta a qual eles operam será destruída. Isto não é totalmente sua falta, porque levaram pelo menos 21 anos de aprendizado para produzir um sacerdote eficiente.

Mas pelo fato que este trabalho era diretamente inspirado pelo próprio Ọrúnmìlá, não seria fácil para ninguém dispor de tempo, esforços e dinheiro, para iniciar desta maneira numa aventura interminável. Aquilo é dizer que a sociedade de Ifá chamada conhecimento é interminável, imutável e imortal. Ver-se-á de suas revelações que Ọrúnmìlá, embora a mais nova de todas as divindades criadas por Deus, era verdadeiramente a própria testemunha de Deus quando começou a criar outras substâncias orgânicas e inorgânicas. Este é o porque de ser consultado como o Ẹlẹri Upin. Somente ele conhece a verdadeira natureza e Orígem de todos os objetos animados ou inanimados criados por Deus.

Este conhecimento tem lhe dado desta maneira incomparáveis poderes que fazem-no o mais eficiente de todos os adivinhos, que eram as primeiras criaturas de Deus.

Seus seguidores que são capazes de alcançar algo do conhecimento conseqüentemente controlam enorme poder o qual tem muitas vezes confundido muito em chamando na magia ou fetiche.

Por outro lado à expressão “IFÁ” encerra as revelações, estilos devida, e religião ensinada por Ọrúnmìlá. Este é o porque de ser freqüentemente dito que Ọrúnmìlá é a divindade mas Ifá é sua palavra.

O sacerdote de Ifá é o pedaço da boca de Ọrúnmìlá e até comparativamente recentemente, ele era o eixo em torno do qual a vida diária da comunidade girava. Naqueles dias era respeitável ir abertamente até ele para buscar solução para os problemas da vida. Atualmente tem se tornado moda consultar um sacerdote de Ifá em segredo absoluto e furtivamente.

Três fatores têm sido os responsáveis por esta espetacular mudança de atitude.

O primeiro é a chegada da civilização moderna e a educação trazida desta forma. A segunda é a despótica influência das religiões modernas as quais eram usadas pela espécie humana como armas para conquistas não apenas das mentes mortais, mas também para manifestamente ambições de território.

O terceiro é o impacto agregado das duas primeiras forças. As crianças dos sacerdotes de Ifá, não mais desejam ser associadas com a religião e ao modo de vida de seus pais, aos quais eles rejeitam como superstições pagãs.

Muitos sacerdotes de Ifá dotados de brilhante conhecimento teórico e prático do oráculo, têm morrido não restando nada gravado de suas riquezas de conhecimento e experiência. O volume de livros os quais eu estou prestes a me lançar são uma tentativa para deixar um relato histórico da grande obra de Ọrúnmìlá.

Eles se destinam a provocar debates para o enriquecimento do conhecimento de modo que as gerações vindouras conhecerão sobre Ọrúnmìlá e seu acesso para religião, em tempo, ser orgulhoso por estar associado com ela. Este trabalho se designa também para assistir a estudantes da filosofia de Ifá na obtenção mais profunda do conhecimento o Ifismo, tão bem quanto gerar interesse nele.

Também irá prover assistência para aqueles que foram iniciados na religião , mas que continuam a duvidar da veracidade da concepção inteira de Ọrúnmìlá.

Freqüentemente quando uma pessoa vai a um sacerdote, ele conta para seu cliente os encantamentos do Ọdu específico que se apresentou para ele. Depois disso ele prescreve os sacrifícios a serem feitos sem preocupar-se em narrar ao questionador a história fundamental do sacrifício que ele está pedindo para fazer. Eles o fazem por que acreditam que a mente não iniciada não irá entendê-los.

O cliente começa a questionar se o sacrifício é ou não relevante.

Se ele faz ou não o sacrifício, torna a reputação do sacerdote de Ifá incerta e não as suas convicções da necessidade disto. Mais importante é uma tentativa para fazer a religião se classificar como muitas religiões novas, como o judaísmo, cristianismo, budismo e islamismo. Estas outras religiões tinham a vantagem da documentação anterior. Quanto ao mais, nós veremos que Ifá é muito mais rico e mais antigo corpo de conhecimentos.

È importante notar que todavia este trabalho não coloca reivindicações quaisquer que sejam por conta completa da religião de Ifá. É dito que ninguém pode saber no total a Obra completa de Ọrúnmìlá. Este trabalho é portanto o início, e a pesquisa continuará durante toda a vida do autor. Espera-se que ela será atualizada de tempos em tempos tendo em vista a ausência de pesquisas e revelações adicionais.

Por outro lado, o escritor espera com esses volumes de dezessete livros no todo, desmistificar a filosofia da Religião de Ifá. Contrário a todas as aparências externas, não há nada mágico sobre Ifá. A arte é análoga ao trabalho de astrologia. Um astrólogo conta o futuro de um homem lendo o comportamento das estrelas que estavam no céu na época em que a pessoa nasceu. Do mesmo jeito quando uma criança nasce, os instrumentos principais de divinação de Ifá são usados para sensibilizar sua cabeça e escutá-la. O instrumento irá declarar o nome do Ọdu que é sua estrela guia. O sacerdote de Ifá irá então revelar a história da vida do Ọdu que surgiu para ele e pode proclamar com cem por cento de certeza que a vida da criança irá tomar alguns caminhos que aparecem no Ọdu. É uma coisa que acontece quando o Ọdu particular surge no jogo quando uma pessoa é iniciada na religião de Ifá e na sociedade secreta (Ogbodu).

Por exemplo, se a cerimônia do nome ou durante a iniciação em ifá , Ejiogbe é o Ọdu que surgir , a pessoa pode convenientemente ser informada de que sua história de vida seguirá o caminha da vida de Ejiogbe.
Se por exemplo o iniciado é negro e de estatura média, ele pode ser informado que se ele é capaz de seguir os èto e ewọ de Ejiogbe ele certamente prosperará na vida e dispensará sua vida em serviços humanitários. Se por outro lado à pessoa é clara ou baixa, ele pode ser informado que ele não será provavelmente muito próspero a menos que consulte seu Ifá e execute sacrifícios especiais para remover os obstáculos que Ejiogbe tinha em circunstâncias similares. Neste caso Ejiogbe tinha retornado para o céu para se recuperar antes da fortuna lhe sorrir na terra.

No mesmo jeito, se algum Ọdu particular surgir no jogo , o sacerdote vai recomendar a perguntar se é para realizar algum sacrifício executado pelo Ọdu em tais circunstâncias. Se o jogo revelar que a morte da pessoa é iminente, o sacerdote simplesmente informará a pessoa para fazer um sacrifício que Ọrúnmìlá foi informado a fazer , e o qual ele recomendou a outros fazerem a fim de evitar o perigo da morte prematura em circunstâncias similares.

É razoável imaginar pela análise anterior que longe de uma vida de mágico, o sacerdote de Ifá é simplesmente um hábil intérprete. Contanto ele pode desenvolver uma memória retentiva, desde que a maiOría não pode ler e escrever, ele tem somente que relatar os problemas de um cliente com uma situação correspondente ao que ocorreu a milhares ou milhões de anos atrás, para revelar problemas constantes em uma informação de hoje e colocá-los na forma apropriada. Estas considerações da obra de Ọrúnmìlá são uma tentativa de auxiliar os não iniciados, bem como os neófitos, a serem capazes de interpretar as revelações de Ifá por eles mesmos, a fim de perceber que o sacerdote tenta fazer no discurso de sua prática a arte de Ifá.

È importante observar do início que Ọrúnmìlá não procura pela conversão dos fiéis. Esta é uma religião do indivíduo, o qual não confia na importância dos números para sobrevivência. No início Ọrúnmìlá ensina que a melhor maneira de compreensão é prezando seus conhecimentos, o que é completamente eficaz para seu trabalho e para a melodia de sua música.

Por: Cromwell Osamoro