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“A cartilha OKU ABO é uma ferramenta educativa criada pelo projeto OKU ABO – Educação ambiental para Religiões Afro-brasileiras, com o objetivo de resgatar o saber tradicional das religiões afro-brasileiras e promover a preservação do meio ambiente a partir desse resgate.”

Segue o link da cartilha para download com conceitos importantes para o povo de terreiro e dicas extremamente fáceis de serem assimiladas e praticadas por todos religiosos dentro de suas casas.

Lembrem-se: nosso espaço sagrado não se resume apenas ao terreiro, temos uma natureza que dependemos para continuar a nossa religiosidade e fazemos parte de uma sociedade – isto implica, além de tantos outros fatores, conscientizar-se que os espaços públicos são públicos por serem de todos e não de um. Sendo assim, todos, independentemente de crença, têm direito de usá-los e o dever de não danificá-los.

Abaixo o link para a cartilha:

Click to access 173.pdf

Axé.

Dayane

 

Òsún e a Água.

ose-meji

Òsé méjì

Em todo o mundo, quando nos deparamos com a água, encontramos a personificação do feminino, da purificação e da fertilidade.

É a água que sustenta nossas vidas frágeis no ventre de nossas mães antes de chegarmos a cada encarnação.

É água é o agente pelo qual nós purificamos o corpo e a alma.

É a água que nos limpa de dentro para fora.

Em muitas culturas, a santidade da água é captada no arquétipo de uma divindade feminina, o que também é o caso da cultura iorubá da África Ocidental.

A importância primordial da água é ser reconhecida e venerada por meio da adoração dos ribeirinhos ao Òrìsá Òsún (divindade).

Òsún é o proprietário de todos os rios e de todas as águas doces do mundo, incluindo a água do corpo e da corrente sanguínea. Em geografia sagrada, a energia Òsún é encarnada em seu rio sagrado que leva seu nome. O rio Òsún que nasce no Estado de Ekiti, no leste da Nigéria e do fluxo para o oeste através de sua casa, Osogbo, onde a adoração é centradaem  Òsún. Esta é a casa de sua mais alta sacerdotisa, a Ìyá Òsún (Mãe Òsún).

É como o dono das águas santas que encontramos a divindade a quem muitas mulheres vão orar para ter uma criança. De fato, no santuário Òsún, o Atoaja (rei) do palácio de Osogbo, encontramos um pote de água que é considerada remédio para todas as doenças. É considerada especialmente eficaz em causar a gravidez. Muitos devotos fazem uma oferta de nozes de cola (Obí), que a Ìyá Òsún de bom grado oferece a ela, bem como uma oração para a mulher esperançosa de ser mãe.

Em uma sociedade tradicional, especialmente entre os yorùbás, a fertilidade é não só uma necessidade, mas uma bênção. Crianças e gravidez não são vistos como um fardo, mas como uma forma em que podemos voltar a esta terra. Acredita-se que uma vez que você passe para o outro mundo, você vai nascer de novo através de sua própria linhagem.

Em Òsún, a mulher estéril encontra um Òrìsá que se foi através do mesmo. Òsún ao mesmo tempo, de acordo com sua mitologia era uma mulher estéril. Foi apenas através da adivinhação apropriada, o sacrifício e o uso de suas de suas próprias águas que ela foi capaz de receber a sua fertilidade.

Òsún na diáspora iorubá manteve sua associação com o nascimento da criança, na verdade, ele disse que os seus devotos, especialmente as mulheres férteis, tem amor para ter um filho após o outro. Em sua poesia de elogios na Nigéria, Òsún é elogiada como a mãe que alimenta seus adoradores tratando-os como seus próprios filhos, amamentando-os em seu peito. Ela também é exaltada como a mãe que dá à luz com a freqüência e facilidade de animal.

É na estação das chuvas, quando o rio Òsún está cheio de águas, a sua cura e a fecundidade da terra está a sua altura, é quando é feito o festival anual para honrá-la é celebrada. É a sua sacerdotisa, a Ìyá Òsún e sua contra parte terrena / parceiro, o Atoaja, que tomam o centro do palco para se certificar de que ela é propiciada de forma correta, de modo que a cidade inteira, na verdade, todo o nigeriano e adorador mundo afora possa experimentar um ano próspero.

Além de ser o Òrìsá da fertilidade corporal, Òsún é uma divindade da fertilidade monetária. Òsún é associada à riqueza e pode provavelmente transmitir a riqueza como ela faz com as crianças. Novamente, podemos olhar para a sua poesia de louvor e compreender sua associação com a riqueza. Em seus poemas vemos muitos elogios, encontramos a altura da beleza, a luz delgada de sua pele que é adornada com o bronze, metal precioso, e carrega um pente de contas.

É no rio Òsún que encontramos os meios de troca monetária, o búzio, que é usado pelos yorùbá. Tão forte é sua associação com a riqueza, que na diáspora, ela é freqüentemente invocada a trazer estabilidade financeira e sorte. Freqüentemente, o devoto em busca de riqueza irá encontrar um rio e as ofertas de um dos alimentos especiais Òsún, o mel, juntamente com cinco moedas de cobre. Em Osogbo, não seria incomum para uma pessoa que precisa de dinheiro trazer seus presentes ao bosque sagrado e oferecê-los diretamente ao rio para pedir favores.

Enquanto o búzio é um meio de troca, ele também pode ser usado para adivinhação. Òsún é também um adivinho através de sua associação com búzios e sua associação com a òrìsá da Adivinhação Òrúnmìlá (vis-à-vis o casamento). Nos deparamos com mais uma faceta deste Òrìsá muito importante, nos deparamos com uma mulher de conhecimento. Òsún é dito ser o Òrìsá que aprendeu o sistema de adivinhação com dezesseis búzios. De fato, em algumas das mitologias, é Òsún que executa adivinhação na casa de Òrúnmìlá quando ele está longe.

Embora para nós Òsún seja o máximo em feminilidade, ela como todos os òrìsá é um poder divino que incorpora a feminilidade.

Foi Òsún, que desceu a Terra com os 16 òrìsá para deixar o mundo pronto para a humanidade. Entre os Òrìsá que desceram, Òsún foi à única do sexo feminino e, como ilustrado pelo poema abaixo, Òsún não estava para brincadeiras:

Ifá diz:

Ifá foi adivinhado para os 400 Irùnmolé no lado direito

Ifá foi adivinhado para os 200 igbá imolé do lado esquerdo.

Foram eles que construíram a estrada para o bosque sagrado de Opá.

Foram eles que construíram a estrada no sagrado bosque para o ojugbó de Orò

Eles não foram consultar Òsún.

Eles chamaram o espírito de Egun, Egun não veio.

Eles chamaram o espírito de Orò, Orò não veio.

Fizeram uma estrada para Ilé Ifè, mas ninguém iria utilizá-la.

Eles fizeram inhame moído, que ficou cheio de caroços.

Eles fizeram amala, mas ficou muito aguado.

Ifá adivinhava para Òsún, proprietária do pente muito bonito de madeira.

Que usou seus poderes para confundir os esforços dos Irùnmolé.

Eles foram a Olodumarè

Disseram que foram incapazes de concluir suas tarefas.

Olodumaré perguntou:

“Quem é a única mulher entre vocês?”

Ele perguntou:

“Será que vocês a respeitaram?”

Disseram-lhe que não a consultaram.

Olodumaré avisou ​​de que deveria retornar e incluir Òsún em sua decisão

Eles voltaram e mostraram o devido respeito a Òsún

Eles chamaram o espírito de Egun, Egun veio.

Eles chamaram o espírito de Orò, Orò veio.

As pessoas usaram o caminho para a Ilé Ifè.

Eles fizeram inhame moído, ficou bom.

Eles fizeram amala, ficou bom.

Damos nossa reverência a Òsún.

A mãe invisível estava em todas as reuniões.

É aqui que ficamos sabendo que uma mulher solteira estava confundindo os esforços de todos os Irunmole (Òrìsá). Quando desceu a Terra, Òsún foi tratada como uma escrava, mantida na cozinha. Em outras palavras, tratou-se de chauvinismo e se recusaram a tratá-la como uma igual. Quando todos os seus esforços foram em vão, eles voltaram para o òrun e falaram com o alto Deus, Olodumarè. Em um exame minucioso, Olodumarè viu que sem o consentimento de Òsún nada seria realizado. Na verdade, não era para ela ser somente consultada, era para ser iniciada em nos mistérios.

Em Òsún temos a personificação da riqueza, prosperidade, amor, beleza, elegância, sexualidade e sensualidade e uma feminista divinamente sancionada.

Mo ke mogba lodo omi.

Eu choro por libertação através da água!

Ire o.

Orìkì Òsún

 

Òsun aládé òkín

Òoní ‘mole odò

Ògùdù gbàdà

Ògbàdà gbaramù

Obìnrin gb’ònà okùnrin sá

Gbàdàmù gbàdàmú ti kò se é gbá légbèé mú

Yèyé ò, a fi ide re omo

Ò yèyé ni’mò eni ide kìí sùn

E gbé’nú ìmò fi ohun t’ore

Ota wéré wéré ni ti Òsun

Òsún k’e k’ówó t’èmi fún mi o

E má ri owó t’èmi mó yanrìn

Ore Yèyé o!

Tradução:

Òsun, deusa com a coroa da plumagem fantástica do pavão

Deusa do rio

Retumbante onda do mar

Esmagadora e grande

Homens são executados quando Òsun os leva ao longo da estrada.

Poderoso mar que não pode ser realizado

Oh! Querida mãe, você que mima as crianças com bronze.

Sábia dona do bronze que nunca dorme.

Você vive com sabedoria e livremente.

Òsun, por favor, me dê o meu próprio dinheiro.

Não enterre o meu dinheiro na areia.

Oh! Obrigado querida mãe!

Àse.

Texto garimpado na web sem autoria, ficaríamos felizes em identificar o autor.

 

 

A Nação Xambá está ainda bem viva e ativa em Olinda, Pernambuco. Apesar de alguns autores afirmarem que o culto Xambá no Brasil está praticamente extinto. O Xambá de Pernambuco ainda permanecerá vivo por muitas gerações, mantendo seus ritos, mitos e tradição.

Com o falecimento da grande Iyalorixá do Xambá, Severina Paraíso da Silva “Mãe Biu”, como era mais conhecida em 1993, o herdeiro do trono do Xambá é o Babalorixá Adeildo Paraíso. Conhecido popularmente e pelos que fazem parte daquele terreiro como Ivo do Xambá, que convocou seus filhos de santo: professores Antonio Albino, Hildo Leal e João Monteiro, para elaborarem um projeto arrojado e inovador para o terreiro do Portão do Gelo, que seria o memorial do Xambá, onde seriam reunidos e preservados documentos fotográficos e objetos ligados a vida e a atuação da grande líder religiosa, bem como da memória do “Terreiro Santa Bárbara Nação Xambá”.

Fugindo de Maceió, capital de Alagoas, no início da década de 20 do século XX, o babalorixá Artur Rosendo Pereira, de acordo com a “Cartilha da Nação Xambá” (Hildo Leal Rosa,2000), devido à perseguição política às religiões afro-brasileiras da época, se estabelece no Recife, mais exatamente na rua da Regeneração, no bairro de Água Fria. Antes mesmo de fugir da repressão política e ainda residindo em Maceió, o babalorixá Artur Resende viaja à Costa da África onde permanece por quatro anos e com o tio Antonio, que trabalhava no mercado de Dakar, no Senegal vendendo panelas, segundo René Ribeiro. E por volta de 1923, seguindo as tradições da Nação Xambá, e já em Recife, reinicia suas atividades de zelador de Orixás.

O Babalorixá Artur Rosendo iniciou muitos filhos de santo, tendo muitos deles aberto terreiro. Uma de suas filhas mais notáveis foi Maria das Dores da Silva, “Maria Oyá” iniciada em 1928. A saída de iyawô de Maria de Oyá foi realizada sem toques de tambores e cantada em voz baixa por cauda da perseguição. Logo após a iniciação de Maria de Oyá, Artur volta para Maceió.

Em 1930, Maria de Oyá inaugura seu terreiro na rua da Mangueira no bairro de Campo Grande em Recife. Com a conclusão de sua iniciação em 13 de dezembro de 1932, recebe então as folhas, a faca e a espada das mãos de seu Babalorixá que realizou ao meio dia o ritual de coroação de Oyá no trono. Cerimônia belíssima que até hoje é repetida mantendo a tradição Xambá de Pernambuco.

Em 1932 Maria de Oyá tira seu primeiro barco de três iyawôs. Ainda em 1932 ela inicia seu segundo barco de iyawôs, este maior e iniciando principalmente Donatila Paraíso do Nascimento que em 1933 assume o cargo de Mãe Pequena do terreiro, vindo a falecer em 2003 aos 92 anos e passando 60 anos de sua vida no cargo, sendo mais conhecida por Tia Tila, uma outra filha ilustre foi Lídia Alves da Silva (Talabi).

Daí em diante a sucessão de iniciações crescem, O Xambá passa a brilhar ainda mais. Quando em junho de 1935, Maria Oyá inicia nos ritos a sua mais primorosa filha, a que lhe sucederá, Severina Paraíso da Silva, “Mãe Biu”.

Com o passar dos anos e com a violência policial do Estado Novo cada vez mais rígida, em 1938, Maria de Oyá é obrigada a fechar seunterreiro. Terreiro esse que não abriria mais suas portas guiada por aquela que pelas mãoes dr Artur Rosendo Pereira troxe o Xambá para Pernambuco. Pois em 1939 Maria Oyá se despede de sua vida terrena, deixando o Xambá órfão. É ainda nesse duro periodo de perseguições que juntamente com outras nações de candomblé cultuadas em Pernambuco que todos os terreiros são fechados e seus fiéis tolhidos, durante 12 longos anos até 1950, daquilo que lhes é mais precioso, do culto de seus Orixás, Inkísses e Voduns.

Porém.como depois de uma guerreira de Oyá há de vir uma outra guerreira para continuar a luta por seus ideais, pela conservação dos ritos e mitos de uma tradição, Mãe Biu de Oyá Megué reabre o terreiro Xambá em 1950 na estrada do Cumbe, 1012 no bairro de Santa Clara na cidade do Recife, tendo como seu Babalorixá o senhor Manuel Mariano da Silva, como Iyalorixá Dona Eudoxia, como padrinho o senhor Luiz da Guia e madrinha Dona Severina. Permanceu nesse endereço por apenas 10 meses, no dia 7 de abril de 1951 o terreiro se muda para o atual endereço na Antiga rua Albino Neves de Andrade, hoje rua Severina Paraíso da Silva, 65 na localidade do portão do Gelo, bairro de São Benedito-Olinda-Pernambuco.

Com o falecimento de Mãe Biu, que durante 24 anos dirigiu o terreiro Xambá, auxiliada por sua fiel e inseparável irmã e amiga Tia Tila que então assume o cargo de Iyalorixá por um periodo de 10 anos, tendo como Babalorixá seu sobrinho carnal Adeildo Paraíso, filho carnal de Mãe Biu. Hoje com o falecimento de Tia Tila, assume o trono do Xambá a Iyalorixá Maria de Lourdes da Silva de Yemonjá, iniciada por MãeBil em 18 de maio de 1958.

A jovem guarda do Xambá de Pernambuco orgulha-se de seu terreiro, do seu povo, de sua simplicidade sem invenções modernas, sem se quer mudar uma linha do que lhes deixou seu propulsor e suas grandes e humildes Mães de santo.

O Terreiro do Xambá está lá no Portão do Gelo, preservado, conservado e servindo de exemplo para muitos terreiros tradicionais. O Memorial do Xambá foi criado de acordo com a solicitação de seu Babalorixá aos seus filhos, para contar a história de um povo aguerrido e ordeiro.

WWw.nacaoxamba.com.br
Matéria da revista: Candomblé Mitos e Lendas
Editora: Minuano

Divulgação presente yemanja

 

 

 Oxaguian no Brasil ou simplesmente Òrìsà Òsògìyán como ele mais gosta de ser chamado, Ewúléèjìbò “Senhor de Ejigbô” onde é tratado por Kábiyèsi, é um dos Orixás mais emblemáticos do candomblé. Sobre ele também recai uma série de segredos rituais guardados pelos terreiros, embora muitas coisas já se tenham escrito. Acredito sim nessa complexidade em se cultuar o maior dos Orixás, pois sua energia é tão suave, tão magnífica, magnânima e tão sutil que nem todo mundo tá preparado para se harmonizar e poder interagir de seu Axé.

Conta um itãn que Oxun Aiyan’lá, de acordo com uma de suas histórias, ela teria dançado pela primeira vez na presença de Òsògìyán e fez todo o mercado lhe acompanhar. É por este motivo que filhas de Oxun Aìyan’lá, a fim de agradar Òsògìyán envia clarins para homenagear o Orixá, ato que se pode observar em alguns terreiros antigos.
Os mitos afro-brasileiros sobre este ancestral nos permitem perceber que Oxaguian liga-se a comida: Òrìsà jẹ iyán kile. A sua festa é o ponto culminante do chamado Ciclo das Águas, representado pelos inhames novos presenteados pela terra após um período de dificuldades. Òsògìyán, assim, o dono do inhame. É ele quem garante o nosso sustento de cada dia representado pelas raízes, conhecido por Orixá comedor de inhame pilado (Oxaguian), pois inventou o Pilão para melhor preparar seu prato favorito.

O Grande Òsògìyán em momentos de crise representa a estabilidade; em ocasiões de guerras, a estratégia; na tristeza é a alegria, no fim é o recomeço, é o Orixá de todos os momentos, promove a guerra para estabelecer o equilíbrio e a justiça entre os Homens. Orixá do dinamismo e movimento construtivo, da cultura material. Seu domínio são as lutas diárias por sustento e trabalho e a paz. Oxaguian incentiva o trabalho e a superação. Oxaguian é o provedor, é o guerreiro da paz. Nunca entra numa batalha para perder, sempre ganhando suas lutas e superando quaisquer obstáculos.

É sempre retratado como um guerreiro forte, astuto e conquistador, Oxaguian rege as inovações, a busca pelo aprimoramento, o inconformismo. É um Orixá relacionado com o sustento do dia a dia, gostando de mesa farta. Seu sustento vem do fundo da terra ou da floresta. Ele detém todas as armas e as usa para alcançar seus objetivos, que são: dar para quem tem fome e até tomar de quem tem muito e não tem fome.  De acordo com suas histórias, ele teria passado em Irê, a terra de Ògún, e graças à sua inteligência idealizou armas forjadas pelo grande ferreiro. A amizade entre o povo de Ejigbô foi tanta que Ògún, certa ocasião, se ofereceu para ir à frente de uma batalha lutar pelo povo de Ògìyán que na volta foi aclamado Senhor vestindo-se de branco.
Diz-se também que o Orixá que adora inhames é amigo inseparável de Oyá e dela ganhou os Atoris, com quem anda sem pisar no chão levado pelo vento que lhe conduz a todos os lugares. Por isso, filhos dessa Orixá se sentem plenamente atraídas por estarem perto dos filhos deste Orixá. Osogiyan põe um ponto final no fim e inaugura aquilo que é infinito, pois diante dele tudo é recomeço.
Òsògìyán é o Orixá do renascimento, tudo que forma um ciclo se mantém graças a ele. Este é o motivo pelo qual no dia a ele consagrado se realiza uma pequena procissão. Ele representa a volta para a casa, a estabilidade dos grupos que até então vagavam sem destino. O terceiro Domingo do ciclo das Águas de Oxalá é representado pelo ” Ojó Odò” (dia do Pilão) de Òsògìyán, pois fecha o ciclo de renovação da existência.
Com o Orixá Sàngó, coluna central do culto reorganizado no Brasil pelos Yorubas e seus descendentes, Ògìyán se relaciona como outrora os reinos de Ejigbô e Ifon estavam ligados à Oyó, fato relembrado pelo pilão, instrumento de vital importância para a fixação dos grupos na terra. Se o pilão é o centro do mercado, a mão de pilão é o instrumento que repete o movimento que liga o céu à terra, garantindo a nossa permanência através da comida, do inhame dado em forma de presente por Osogiyan. O pilão como o ferro ilustra uma nova etapa da história da humanidade. A partir dele, pode-se falar em comidas mais elaboradas, preparar a farinha e conservar melhor os alimentos. O Pilão representa a justiça, o equilibrio provocado pelas duas bocas do pilão, seus Ìsáns representam o poder ligado a Irôko ancestralidade, vida e morte, a espada representa a luta diária pela paz social.
Òsun é verdadeiramente o coração de Osogiyan, dizem os antigos que “Òsun é sua menina dos olhos”. Ela dança também para ele. É Òsun quem vai a frente das mulheres da terra de Ijexá que inventaram um tipo de tambor apenas tocado por elas. Instrumento na sua origem feminino como as cabaças, cujo som remete ao mesmo produzido na vida uterina. Oxun teria ensinado estes sons para a humanidade, escutando a sua própria barriga. Mantém relações também com Ewá, ilustrada através de uma das passagens míticas mais emblemáticas. Ewá, aquela que tem o poder de transformar-se em qualquer coisa, lhe teria salvo da morte, garantindo assim a continuidade do ciclo da vida. Osogiyan como já falamos, relaciona-se também com os Orixás caçadores e caçadoras. Daí a sua relação com Òsóòsì, considerado líder e cabeça da grande caçada. Com Osanyìn interage estrategicamente com o pássaro, as magias e todo tipo de feitiçaria “Òsò”, prefixo de seu nome estabelece a parceria, o sumo da folha, etc. Com Obà divide a essência guerreira feminina/masculina, a guerra através dos sentimentos do coração, do amor e da paz.
Osogiyan anda através de passos mais rápidos, determinados. Em guerra constante, a prontidão, o alerta nunca lhe precedem, pois ele é a própria luta, relembrada num de seus títulos de pronúncia mais evitada: “Baba O’Lorogun”, literalmente “pai da guerra”. O Orixá que carrega todas as armas, ora caçador, ora rei, ora a guerra, mantém relações também com Yemanjá, pois ela é responsável pelo equilíbrio, o principio ancestral, o mundo só é inteligível, graças àquela que mantém as nossas cabeças (ìyá Orí) que suaviza a sua chegada. Com Jagun forma talvez a parceria mais intrigante, caminham juntos e às vezes se confundem entre si, guerreiros inseparáveis. Com Airá, o conhecimento da impulsividade, dando a este exatamente o oposto, os dois lados da moeda, julgar pela razão e não pela emoção. Com Nàná a grande Iyabá se confraterniza, a grande metáfora vida e morte. Com Exú é a comemoração, juntos sintonizam a articulação, a discórdia proposital, o movimento.
Òsògìyán representam o começo da humanidade, o sol nascente, a vida que chega no primeiro raio de sol, o Pai do dia.
Quando entramos em contato com os elementos, entramos em conexão com o mundo divino e seus respectivos senhores através de seu axé. Alguns se conectam a nós através da musica, outros através das águas, do Fogo, da Terra, dos metais, minerais, do vento ou simplesmente do silêncio. Ele também se revela no silêncio na quietude e mansidão. Ele está em todos os níveis!
Com Odùduá, Orixá matéria que é responsável pela abertura no primeiro Domingo das “Águas de Oxalá”, a grande mãe progenitora feminina que representa a Terra, e com Olúfón (Oxalufan) Orixá cujo o templo é em Ifón, responsável pelo segundo domingo das “Águas de Oxalá”, a procissão de Obatalá,o Ebô repartido entre todos os presentes. Orunmilá testemunha através de Ifá.
Senhor do Igí Opè Íwìn, Akinjolè, Babá Ikíre, Babá Epè, Babá Eléèjìgbò, Ajagúna, Ògìyán, Òsáàlá,  com tantos nomes que pode ser conhecido e reverenciado.

“E mo rí ó, e mo rí Ifá ó.” – “Eu vi, eu através de Ifá”.  (Somente Ifá pode propiciar) “Òòsààlà ki àwa àwúre”,  “Oxalá nos dá boa sorte”

Babá mí Òsògìyán, mò jùbá, mutun’bá, Àwúre!

Texto/pesquisa:Fernando D’Òsògìyán.

Colaboração: Suami D’Òsún

 

A iniciação em si já é um marco por se tratar de uma transição, de um renascimento do iniciado como uma nova pessoa.  Eu mesma tive noção de quem eu realmente sou, de como eu realmente sou após a feitura. Recordo-me exatamente da sensação após eu ter saído do preceito, de encarar o mundo com uma roupa de cor, com os cabelos curtinhos e a nova sensação no peito. Lembro até da primeira coisa que eu fiz assim que tirei o branco e do quanto me enxerguei diferente no espelho. As pessoas me notavam diferente e eu me notava diferente também. Eram meus recém 18 anos, eu nem sabia o que era o mundo ainda, tinha acabado de sair da escola, entrado na faculdade e a minha entrada de vez num mundo muito maior coincidiu com a entrada definitiva de Iansã na minha vida. Tudo mudou. Talvez tenha sido proposital da parte dela. Acho que sim. E essas lembranças vivem voltando à tona cada vez que vejo mais um iniciado nascendo, mais uma irmã ou irmão passando pelo preceito e relatando as situações vivenciadas neste período.

De lá pra cá se vão quatro movimentados e inesperados anos aonde eu venho aprendendo a sentir e entender os sinais dela – que algumas vezes são silenciosos e noutras tão gritantes. Acho que com o tempo os iniciados desenvolvem uma relação pessoal com o próprio Orixá. Chega a ser íntima. Falo por mim, falo pelo que eu sinto com Oyá, falo pela segurança que ela me dá quando eu estou no meio de uma tempestade e da segurança que eu lhe dou ao afirmar que sempre irei por ela, custe o que custar.

Eu tenho vivido o meu tempo de iniciada com o maior cuidado e delicadeza possíveis, gradativamente tentando entender todos os acontecimentos, mesmo quando eles surgem de forma totalmente inesperada. Já errei o caminho para onde ela apontou, às vezes entendi errado o que ela falava… Coisas que qualquer filha criança como eu faz.

Acho que eu e Oyá estamos um pouco misturadas. Não falo isso nem pra demonstrar alguma soberba ou algum orgulho. Tenho orgulho do meu Orixá sim, tenho a minha essência individual sim, tenho muito ainda a aprender com ela e sobre ela sim, mas tenho-a muito em mim e isso eu não preciso explicar porque o sentir nem sempre consegue ser traduzido.

Muitas vezes falamos de assuntos sobre a religião muito necessários e que precisam com urgência serem relatados e ensinados. Eu tenho a dimensão do quanto o nosso blog, por exemplo, é importante neste meio virtual no tocante a estas informações e o quão ávidos são os nossos leitores por aprendizados, conselhos e explicações. Porém, eu acho necessária também essa pausa pra falar sobre o sentir, acho necessário eu parar pra pensar no meu Orixá como energia que me acompanha diariamente e não só como um Orixá dos ventos e das tempestades. Cada um precisa sentir o Orixá que há dentro de si. Pensar nisso, refletir isso e observar isso. Mais aqui dentro, menos lá fora, gente. Às vezes alguns iniciados procuram tantas informações externas sobre o orixá ou saem tão alvoroçados atrás de respostas para as agonias momentâneas que chega a parecer que esquecem-se que o Orixá está neles, que eles tiveram Ori e corpo sacralizados para o Orixá fazer dali também sua morada. Parece que esquecem que o Orixá ouve.

Eu, passado o ritmo turbulento que só as mudanças trazem, tenho pensando e sentido muito essa interação. Além de aprender mais, faço meus “feedbacks” e me sinto alegre e confiante na forma como tenho caminhado.

E como canta Maria Bethânia:

“O mais importante do bordado
É o avesso, é o avesso
O mais importante em mim
É o que eu não conheço

O que de mim aparece  
É o que dentro de mim Deus tece

Dayane

Orixá regente

mae-stella-oxossiEste é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam umas as outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhas o que é preciso ser divinado. Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição inerente a todos apresentar-se de maneira muito mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.

Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que “há tempo para tudo”: para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida… Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não só melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora esta oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE, não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.

A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano e, sim, qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam as divindades e estão vinculadas à comunidade em que o jogo de búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso terreiro, o Ilê Axé Opô Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no jogo feito por mim, não esta comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a “Casa”), estão vinculadas a mim enquanto iyalorixá, ou ao terreiro em questão.

O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: “E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?” A resposta é: “Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita”. Um católico, ou um protestante será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: “E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão à toa?”. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.

Que Xangô – divindade da eloquência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigada, Ano Velho, pelas experiências passadas para o Ano Novo.

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá de Ilê Axé Opô Afonjá
Jornal A TARDE 04/01/2012

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