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Archive for the ‘Candomblé’ Category

Rosário para Orunmilá

 

Na busca da disseminação do conhecimento não classificado como “Awo” (o mistério que só pode ser revelado aos iniciados), a razão de confeccionarmos aquilo que muitos chamam de o “Terço ou Rosário dos Òrìsà. Elaborado a partir de Ikó e de determinadas partes dos Eranko ofertados aos Orixás, surgiu por conta da prova de amor de Ejiogbe pelo seu Pai Orunmilá.

Uma antiga história Nàgó conta que Orunmilá estava em dúvidas de qual filho ele escolheria para ser o primeiro a lhe representar no seu oráculo sagrado. Orunmilá chamou todos os seus filhos e disse: “Vocês irão me representar em uma festa que haverá no palácio do Oni (Rei de Ifé). Cada um de vocês terá que provar que durante a festa estavam se lembrando de mim, mostrando que são meus filhos e que me amam verdadeiramente”.

Todos os irmãos caminharam durante 7 dias rumo à Ifé, para a grande festa. Ejiogbe era o mais desprezado dos irmãos e logo no inicio foi deixado de lado. Todos os demais irmãos caminharam rapidamente para chegar brevemente a Ifé.

No dia da grande festa, os irmãos de Ejiogbe já estavam lá, comendo e bebendo de um tudo, do bom e do melhor, sem sequer lembrar do seu Pai. Ejiogbe chegou ao final da festa, muito cansado e com fome por conta da viagem longa que fez.

Quando seus irmãos viram que ele estava lá, trataram de lhe dar às costas, ignorando-o. Ejiogbe se apresentou ao Oni, dizendo que era o filho de Orunmilá e que estava ali para lhe representar. O Oni disse que era um prazer receber o filho do Testemunha do Destino. Faminto, Ejiogbe foi à mesa para comer algo, no entanto, por ser o final da festa, só encontrou ossos, patas, asas e cabeça.

Ejiogbe comeu um pouco e pegou o restante, colocando em um saco de pano que trazia consigo. No caminho de volta à casa de Orunmilá, todos os irmãos começaram a maltratar Ejiogbe, dizendo que ele era vergonha de Orunmilá e que ainda por cima, estava carregando um saco com restos de comidas. Ao longo dois dias, o cheiro provindo do saco ficava mais forte e, novamente, os irmãos de Ejiogbe largou ele sozinho.

Quando os irmãos de Ejiogbe chegaram à Casa de Orunmilá eles foram logo dizendo que a festa estava muito boa. Ejioko disse que havia mostrado a todos suas habilidades, Ogundameji também, Osá, Okanran e todos seguidamente falaram suas histórias, todas enaltecendo a si mesmo.

Orunmilá então disse como vocês me provam que se lembraram de mim? Todos se entreolharam e ficaram mudos. Nesse tempo, chegou Ejiogbe que foi logo indagado por Orunmilá. E você Ejiogbe, o que fez na festa?

Ejiogbe ajoelhou-se diante de Orunmilá e lhe disse: Meu Pai, o grande senhor do destino, aquele que senta ao lado de Olodunmare, a sua bênção. A primeira pessoa com quem eu falei foi com o Oni, dizendo que estava lá pra representar o grande Orunmilá. Quando fui comer, a comida já havia acabado, mas mesmo assim, lhe trouxe esses ossos, para provar ao senhor que, mesmo quando estava com fome, jamais deixei de pensar no senhor. Quando Ejiogbe abriu o saco, estavam alguns ossos selecionados por Ejiogbe, cuidadosamente amarrados com o Iko (a palha da costa).

Orunmilá pegou aquela espécie de terço e pendurou em uma árvore na frente de sua Casa e disse: Todos que passarem por aqui, saberão que Ejiogbe foi o único que se lembrou do seu Pai, mesmo quando estava com fome. A partir de hoje, quando as pessoas desejarem saber aquilo que eu tenho para falar, louvaram primeiramente Ejiogbe e, a partir de hoje, sempre que haver uma oferenda dos Eranko que Ejiogbe me trouxe os ossos, os iniciados na religião dos Òrìsàs deverão pegar esses mesmos ossos e confeccioná-los da mesma forma que Ejiogbe o fez, lembrando dessa passagem.
As casas tradicionais Ketu/nagô mantém esse ritual, que comumente chamamos de terço ou rosário dos Orixás, deixando-os pendurados no tempo no terreiro em lugar seguro em respeito a Orunmilá, mantendo a tradição litúrgica.

Copilação de texto: Casa de Oxumare
Formatação e texto: Fernando D’Osogiyan

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Homenagem

 

Parabéns aos tricolores de plantão!!!!!

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O Voo do Igun (Abutre)

Nos primeiros dias do mundo em Ilé Ifé os òrìsà se cansaram de servir a Òlódùmarè.

Eles começaram a resistir aos decretos do Senhor do òrun e até mesmo chegaram a tramar a deposição de Òlódùmarè no òrun e no ayé.

Eles achavam que não precisavam de Òlódùmarè e que, como o Senhor do òrun estava tão distante, eles poderiam simplesmente dividir a dor ou os poderes entre si e as coisas seriam muito melhor assim.

Quando Òlódùmarè travou o vento desta atitude, o Senhor do òrun agiu de forma simples e decisiva:

Ele simplesmente reteve a chuva do ayé.

Logo, o mundo ficou possuído por um projeto surpreendente, o solo tornou-se seco e rachado, as plantas secaram e morreram sem água.

E não demorou muito para que todos no Ayé, os òrìsà e seus filhos começassem a morrer de fome.  Depois de um curto período de tempo, as barrigas roncando e os rostos pálidos começaram a falar mais alto do que o orgulho e rebeldia.

Eles decidiram por unanimidade ir a Òlódùmarè e pedir perdão na esperança de que isso traria a chuva de volta ao mundo.

Mas eles tinham um problema: nenhum deles teria como alcançar a distante casa de Òlódùmarè.

Eles mandaram todos os pássaros um por um tentar a viagem, mas todos falharam, ficaram cansados muito antes de chegar ao palácio do Senhor do Òrun.  Começou a parecer que toda a esperança estava perdida.

Então, um dia, o pavão, que era na realidade Òsún, veio a oferecer seus serviços para salvar o mundo da seca.

Mais uma vez houve revolta geral e risos com os òrìsà contemplando a ideia deste pássaro vaidoso e mimado empreender tal viagem.

“Você pode quebrar uma unha”, disse um deles.

Mas o pavão persistiu e como eles não tinham nada a perder, eles concordaram em deixá-la tentar.

Assim, o pavão voou na direção do oòrun (sol) e do palácio de Òlódùmarè.  Ela cansou da viagem, mas ela continuou a voar cada vez mais elevado, determinada a alcançar o Senhor do órun e salvar o mundo.  Indo ainda mais alto, suas penas começaram a se tornar desgrenhadas e pretas a partir do calor  fulminante do sol e todas as penas de sua cabeça se queimaram, mas ela continuou voando.

Finalmente, através da vontade e da determinação, ela chegou às portas do palácio de Òlódùmarè.  Quando Òlódùmarè veio sobre ela, teve uma visão patética, ela havia perdido muito de suas penas e as que permaneceram eram negras e desgrenhadas.  Sua forma outrora bela, agora era corcunda e sua cabeça era careca e coberta com queimaduras por voar tão perto do oòrun (sol).

O Senhor do òrun teve pena dela e trouxe-a para o palácio onde ele tinha comida e água e suas feridas foram tratadas.  Ele perguntou por que ele tinha feito uma viagem tão perigosa.  Ela explicou o estado do planeta e passou a dizer a Òlódùmarè que ele tinha vindo em risco de sua própria vida para que seus filhos (a humanidade) pudessem viver.

Quando Òlódùmarè olhou para o mundo e viu o olhar melancólico de Òsún, era óbvio que tudo o que ela tinha dito era verdade.  O Senhor do órun, em seguida, virou-se para o pavão, que agora era o que chamamos de abutre, e disse que seus filhos seriam poupados desta dor e ordenou que a chuva começasse a cair de novo.

Então Òlódùmarè olhou profundamente nos olhos de Òsún e em seu coração, então anunciou que por toda a eternidade, ela seria o Mensageiro da Casa de Òlódùmarè e que todos teriam que respeitá-la como tal.

Daquele dia em diante neste caminho, ela se tornou conhecida como Ikolè Òsún, o mensageiro da casa de Òlódùmarè.

E a partir daquele dia o caminho de Òsún conhecido como Ibù Ikolé foi reverenciado e se tornou associado com seu pássaro, o abutre (urubu).  O abutre, em seguida, retornou ao ayé, trazendo com ele a chuva, onde se encontrou em grande regozijo.  Como convém a uma rainha ou Ìyálodè, ela graciosamente absteve-se de lembrá-los de suas piadas e abusos como ela, podia se ver a vergonha em seus rostos.  É por isso que, sempre que uma pessoa tornar-se iniciada como um sacerdote em nossa religião, não importa em qual òrìsà ela foi iniciada, ela deve primeiramente ir ao rio e dar conta do que está fazendo a Òsún, A Mensageira de Òlódùmarè.

Maferefún Òsún

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“Se acharmos que uma grande desgraça nos espera, certamente veremos o que vier a ocorrer como uma desgraça. Se estivermos aguardando por um momento de iluminação, de expansão da consciência, provavelmente é isso que provaremos. Se acharmos que tudo é história da carochinha e que nada mudará, provavelmente nossos olhos não conseguirão enxergar nenhuma mudança verdadeira.

Em qualquer circunstância, pode-se dizer que o nosso padrão de pensamento cria a nossa realidade. Tudo o que vivenciamos é interpretado e decodificado a partir das crenças e ideias que alimentamos a respeito. Por exemplo, diante da mesma afirmação da Bíblia, em questões extremamente controvertidas em que católicos, protestantes e espíritas pensam de forma diametralmente oposta, todos eles defendem, com total honestidade, a ideia de que no que está dito em determinada passagem (a mesma para todos) está precisamente a prova de que eles estão certos e os outros errados. E cada um deles acredita piamente nisso.

Assim, é possível que talvez não exista “realidade” e “verdade” como algo absoluto. No nosso mundo físico, material, toda e qualquer realidade é relativa, e não há como dissociá-la do referencial a partir do qual ela é vista. Hoje sabemos que a matéria como algo sólido não existe, no entanto ela é absolutamente real aos nosso sentidos.
A nossa verdade, por exemplo, é que para nós o mundo é colorido, a verdade do cachorro é que o mundo é preto e branco, a verdade do inseto é que o mundo é quadriculado. Animais que enxergam cores fora do nosso espectro veem um mundo em cores para nós inexistentes. É duvidosa a existência de um mundo “absoluto” e, como seres humanos, jamais saberemos se existe e, em caso positivo, como seria, pois vivemos no mundo que podemos e que acreditamos conhecer.

Durante o sonho, o sonho não é real? E muitas vezes, não mudamos os contextos, no sonho, ao nosso bel prazer? Do mesmo modo, durante a nossa vida, a vida é real para nós, e dela fazemos o que queremos, já que não temos como contrastá-la simultaneamente com qualquer “outra realidade”. Isso se estende muito além do mundo captado pelos sentidos físicos. Estende-se ao mundo do conhecimento, das ideias, das crenças e da imaginação. Estende-se à totalidade do nosso ser, daquilo que ele pensa que é, e do mundo em que ele pensa que está.

Em sentido absoluto, nada sabemos. Como dizia Sócrates, “o meu único saber é que sei que nada sei”. Admitir isso significa fazer o que a fìsica quântica hoje está fazendo: abrir-se para toda e qualquer possibilidade, sem excluir nenhuma, já que tudo aquilo que nossa mente excluir, excluído estará, ipso facto, do nosso universo pessoal de possibilidades. Por que e para que nos limitarmos? Alguns dirão: para não enlouquecermos. Mas não seria uma loucura maior fecharmos tantas portas mentais, a priori, impedindo que uma série de “realidades” possa ocorrer conosco, já que as expurgamos desde logo do campo dos pensamentos das “possibilidades possíveis”? Acaso é possível, fora do universo físico que conhecemos, afirmar a existência de “possibilidades impossíveis”?

Claro que essa visão constitui abominação para qualquer religião, já que toda religião tem a pretensão de nos oferecer um pacote de “verdades absolutas”. E nem poderia ser diferente, já que toda religião foi criada e organizada por homens, embora estes sempre se atribuam a condição de arautos do próprio Criador.

Se o ser humano se levasse menos a sério e fosse menos obcecado pela “verdade”, talvez ele conseguisse experienciar um campo de “realidade” muito maior, se permitindo tangenciar “realidades” bem mais interessantes e criativas das que ele se permite “conhecer”.

Assim como os budistas dizem que a única coisa permanente é a impermanência, parece fazer todo sentido dizer que a única coisa absoluta, para o ser humano, é a total relativização ou, se se preferir, que a única verdade, para o ser humano, é a ilusão. Já Orixalistas não creem em reencarnação, creem no retorno contínuo da nossa energia advinda de uma energia matriz.

Ao me perguntar sobre a reencarnação, eu disse que, provavelmente, os que acreditassem nela reencarnariam, ou achariam que reencarnariam, e os que não acreditassem, não reencarnariam, ou assim achariam. Concordo que parece um discurso totalmente absurdo, Mas talvez não necessariamente o seja.

O verdadeiro alcance e a magnitude da célebre advertência: “Assim como creres, assim será”, talvez seja bem mais literal e infinitamente mais amplo do que se possa supor.”

Façam uma reflexão gradativa e sem apegos e sem documentos superiores, com idoneidade,  pois é muito mais fácil saber o que vamos fazer amanhã.

Parte do texto copilado da Internet, adaptado e organizado.
Por: Fernando D’Osogiyan

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Eu escolhi ficar.

Podem muitas pessoas discordar, mas viver Candomblé não é igual a viver outras religiões. Eu não tenho muito respaldo pra falar sobre viver outras religiões porque somente me dediquei ao Candomblé quando o orixá me disse “venha”. E aí eu já noto a diferença básica: o nascer para. Candomblé não é uma religião de multidão, não é uma religião disposta a atrair fiéis na esquina, pois é vivida no seu ambiente muito particular, no seu mundo muito diferente desse mundo aqui de fora. Uma roça é praticamente um mundo paralelo, pois lá dentro o tempo é diferente, as sensações são diferentes, as personalidades são diferentes, os laços, assim como os conflitos, também. Aprendemos lá dentro como nos portar aqui fora.

Muitas coisas não têm explicação, muitos acontecimentos fogem das nossas rédeas, o orixá se faz presente de uma maneira que surpreende os desacostumados, apontam caminhos, criam laços, dão conselhos, nos freiam, nos dão a sacudida necessária, limpam as mágoas e abrem os nossos olhos para vermos além. E tudo isso vai acontecendo de uma maneira que quando vamos ver, já estamos envolvidas e cobertas de amor e fé (e eu penso que amor sozinho ainda é amor, fé sozinha ainda é fé, mas fé e amor é orixá).

Lembro-me de forma super clara os primeiros sinais que os orixás me deram, e me lembro também o quanto eu fiquei assustada e o quanto eu tentei correr desses sinais por ignorância, imaturidade, por ver o orixá fora e ainda não senti-lo cá dentro. Como toda adolescente, tive dúvidas, fiquei confusa e tentei buscar respostas em outros meios religiosos: fui para centro kardecista e recebi uma carta psicografada sobre os caminhos que eu tinha com “a religião da minha família” (o Candomblé); fui para igreja católica e recebi um “seu lugar não é aqui, minha filha” de uma senhora que eu recepcionei na porta da igreja. Depois destes sinais captei as mensagens e me abri para os orixás. De lá para cá muitas águas passaram por este rio e a mão que eu dei pra segurar a mão que orixá me estendeu é a que me segura até hoje e com a outra ele vai tecendo meus caminhos, criando os laços, fazendo meu coração estalar a cada abraço que ele diz “esse vale a pena”.

O que me faz permanecer não foi o que me fez entrar, pois existe “algo” que eu tento por em palavras para escrever aqui e nunca consigo. Eu sempre chamo de “terceiro olho”. Como se um “terceiro olho” aparecesse e fosse se abrindo aos poucos, respeitando o tempo e a maturidade que tenho. Cada visão, cada percepção chega quando é visto o meu preparo para tal. Conseguir enxergar paulatinamente pode parecer lento demais para alguns, mas para mim tem sido crucial. Cada imagem nova tem-me dado mais firmeza, cada imagem nova expande meu raio de certeza. E a sensação de sentir o meu Orixá feliz nada paga, ninguém consegue diminuir.

Sempre há um motivo forte para se entrar para a religião e um motivo mais forte ainda para permanecer nela. Ninguém fica de verdade por causa de axó, por causa de vaidade, por brincadeira, por laço afetivo ou somente por obrigação. Fica quem é disposto a soltar as rédeas, fica quem é disposto a por o ego abaixo do orixá, fica quem se permite sentir o orixá de verdade. E isso? É aprendido com o tempo, com humildade e com todos estes aprendizados que tanto são mostrados numa roça e falados um pouco aqui no blog. Fica quem é chamado.

Dayane Silva

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Leitores,

Sempre estamos postando também textos que não são de nossa autoria por vermos que as ideias que eles querem passar se assemelham com as ideias que fazem deste blog uma unidade. No decorrer destes anos me parece que este caminhar tem dado certo, pois já atingimos dez milhões de leitores (isto mesmo: 10.000.000,00).

Recebi este texto por e-mail enviado pelo Pai Fernando dizendo que foi adaptado pela Iyalorixá Suami Portinhal para que fosse publicado aqui no blog e ainda por cima ele me incumbiu de fazer algum prefácio. Não sou editora e nada além para fazer um prefácio. Só posso dizer que a Iyalorixá Suami Portinhal é uma figura que eu “conheço de vista”, virtualmente, nunca falei e nem vi, mas sempre li algumas coisas dela pela internet, sempre gostei muito e hoje ela está aqui nos presenteando com uma indicação de um texto ótimo, coerente, elucidativo e, o melhor, real, pois retrata o que muito vem acontecendo na nossa comunidade quanto às questões comportamentais e aos valores que realmente pertencem ao Candomblé e aos valores que vêm sendo enxertados, confundindo nossos conceitos.

Só posso dizer uma coisa: que a Iyalorixá Suami Portinhal nos brinde mais vezes com mais indicações e também futuros textos de sua própria autoria. Será um prazer para nós.

 Mutunbá!

Dayane

A vida em um terreiro é uma lição de ética, moral e comportamento.

Candomblé não pode ser associado a uma religião sem ética e moral. Não a religião. A vida em um terreiro é uma lição de ética, moral e comportamento. Entretanto, mesmos nas casas mais tradicionais ainda há uma linha de pensamento na qual o próprio babalorixá diz: “não me interessa o que aquela pessoa faz do portão para foram, mas sim do portão para dentro”. Lamento, minha opinião é que quem diz isso está errado, muito errado.

Sim, importa sim o que a pessoa faz em qualquer lugar e em qualquer hora do dia. O candomblé não é um religião de igreja, você pratica ela todo o seu tempo. Não temos templo, o templo é o mundo e a gente está com o orixá o tempo todo. Assim o comportamento de uma pessoa importa sim.

Não existe o sentido secular, a separação entre o sagrado e o laico no candomblé. A religião é a continuidade de nossa vida e o terreiro é apenas um momento em que as pessoas se reúnem. Cerimônias podem ser feitas em qualquer lugar e alguns consideram que são até mais intensas quando se está em contato com o mundo natural. Desta maneira, uma pessoa não pode dizer que não interessa o que um adepto faz do portal para fora. Essa pessoa do portão para fora tem que ser a mesma do portão para dentro. Mais uma vez sou obrigado a dizer que pessoas que dizem que o que o membro de sua casa faz do portão para fora não o interessa é uma pessoa desinformada, não sabe o que se espera de uma religião e de um sacerdote.

Sob o ponto de vista conceitual, para podermos entender a ética da religião a gente tem que se mirar em duas coisas: a primeira é o conteúdo do ensinamento formal que esta nos ésé de Ifa e também nos itans, e mitos regionais. Essas histórias traduzem conceitos éticos e morais da religião.

O cuidado é não usar os mitos deturpados e estragados que circulam por aí e que servem apenas para transmitir e justificar vilanias. Dessa maneira, estudar esses mitos e itans é uma parte fundamental do aprendizado religioso. Nesse sentido as pessoas mais velhas são aquelas que aprenderam mais histórias e mesmo sem terem podido escrevê-las elas podem contar para os demais. Um mais velho legítimo é aquele que sempre atrai em torno de si pessoas mais novas ávidas por ouvirem suas histórias e casos e é uma pessoa sempre com conhecimento para transmitir, mas conhecimento que não sejam apenas vaidades pessoais, porque também já vi muita gente que a única coisa que faz é repetir histórias sobre si mesmo. Igualmente pessoas cuja única coisa que têm a contar são críticas, comentários pejorativos e patifarias que viu em outras casas é uma pessoa sem conteúdo que perde sua vida andando por lugares que não merecem a presença de ninguém. Eu penso assim, se você vai a um lugar e vê uma coisa ruim ou feia, a primeira coisa é “o que você esta fazendo lá?” Se esta lá é igual aos demais.

Mas a moral e ética das histórias e versos não são uma coisa simples e previsível. É muito diferente da moral cristã e muito mais humana, muito mais permissiva a certos aspectos comuns da vida de todos. Ela não espelha pessoas santas e puras e sim pessoas normais que acertam e erram. A astúcia é uma coisa bastante permitida.

Eu posso afirmar que em todas as histórias que li nunca vi nada que mostrasse um exemplo de comportamento que não fosse ético ou digno. Pelo contrário é exigido que as pessoas sejam de fato corretas e úteis para a família e sociedade. Assim, não consigo encontrar justificativa para a classificação de antiética e amoral do candomblé.

Eu entendo sim que existem pessoas antiéticas e amorais que são babalorixás e iyalorixas e que espalham por aí besteiras e nulidades. Na verdade mercadores de feitiçaria, gente que nas histórias que li sempre eram as pessoas ruins, não as boas. Essas pessoas que vendem facilidades e prosperidades que elas mesmas não têm em seus feitiços furados são as que menos interessam por qualquer ética e moral.

Outro aspecto da moral é o qual seria moral da sociedade yoruba e que se reflete na religião e nos mitos regionais. Isso é natural em qualquer religião: a sociedade que a gerou influencia a sua ética. Da mesma maneira tudo o que eu pude observar sobre a ética da sociedade – e fiz algum esforço nisso – apontam para o reflexo que temos nos ésé e itan.

Essa é minha visão. Reconheço que o mundo conspira contra ela e que a atitude das pessoas é que conduz a essa classificação amoral. Reputo isso ao despreparo dos que têm cargo e também a conveniência de ter justificativa para fazer o que quiser. Muitos devem saber que existe um mau comportamento de pessoas que entram para um terreiro, fazem o mínimo de obrigações e abrem sua casa. A maior parte não busca nem aprender, seja por falta de esforço ou de interesse os mitos da tradição oral, gosta de dizer que o Candomblé é uma tradição oral apenas para justificar o fato que não querem buscar conhecimento que não tem. Muitos vêm de umbanda e trazem uma carga de conceitos católicos e espíritas e se consideram espíritas, acreditam naquela bobagem de karma, etc. O problema com esse grupo é que procuram usar os conhecimentos de outras religiões porque não procuram os da sua, mas reagem a ética e moral dessas religiões porque são do candomblé. Eu acho que já que elas são candomblecistas- que usem os itans de Ifá ao invés dos ensinamentos doutrinário-espírita de outras religiões. Fica mais coerente.

Fonte: Alexandre

Adaptação: Suami Portinhal

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A Galinha de Angola era uma ave muito feia e por isso, afastava as pessoas de perto de si, mesmo sendo muito rica. Ela vivia abandonada em uma grande floresta em meio a sua riqueza.

Cansada de ser desprezada, resolveu consultar o oráculo sagrado no Palácio de Obatalá. Quando lá chegou, o Sacerdote a colocou para fora, dizendo que ela deveria estar usando um Alá branco para entrar na casa do Grande Deus Funfun. Ainda mais triste, a Galinha de Angola resolveu ir para outra floresta e de uma vez por todas, deixar de conviver perto de
tudo e todos.

Após 21 dias caminhando, a Galinha de Angola parou em uma floresta, sem saber que era sagrada (Igbodu). Lá, ela encontrou um velho maltrapilho gemendo de dores. Esse velho disse:

“Pare! estou muito doente e não tenho dinheiro para me alimentar, me dê o que comer e beber, por favor,”!

A Galinha de Angola pegou tudo o que tinha e deu ao velho homem que, após saciar a sua fome e sede, caiu dormindo em sono profundo. A Galinha de Angola continuou preocupada com o velho e ficou ao seu lado enquanto ele dormia. Ao acordar, o velho perguntou-lhe, porque ainda estava lá, fazendo companhia para aquele velho maltrapilho.

A Galinha começou a dizer que não poderia abandoná-lo, pois ele estava precisando dela, dize sua história ao velho, falando que todos lhe achavam feia, com um aspecto repugnante e que não mais queria viver.

O Velho respondeu que o seu exterior não importava em nada, pois por dentro, ele era um dos seres mais belos que existia. Disse que aquela era uma floresta sagrada e que na verdade, ele era Obatalá. A Galinha de Angola ficou surpresa com a revelação, pedindo-lhe desculpas por entrar na floresta sagrada.

Obatalá pegou Efun e começou a pintar a Galinha de Angola, que ficou muito bonita. Além disso, Obatalá disse que, o maior símbolo para os iniciados era o Osù e modelou um na superfície da cabeça da Galinha de Angola, dizendo que, a partir daquele momento, ela seria o Animal mais Sagrado do Culto aos Òrìsàs, pois somente ela, traz o Grande Osù em sua cabeça.

Essa história é um grande ensinamento, pois mostra que não podemos julgar ninguém por sua aparência, mostra que não devemos jamais negar comida e bebida. Nossa religião oferta, ajuda e acolhe, essa é mensagem que devemos guardar.

Que nosso Pai Òsùmàrè Aràká continue olhando e abençoando todos.
texto: Terreiro de Òsùmàrè

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