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Archive for the ‘Candomblé’ Category

Dando continuidade aos posts sobre as Grandes Senhoras do Candomblé, trago o perfil da saudosa Gaiakú Luíza de Oyá, esta grande personalidade do Candomblé Jeje-Mahi no Brasil, e quiçá a maior delas.

Luiza Franquelina da Rocha nasceu em 25 de agosto de 1909, em Cachoeira, cidade do Recôncavo Baiano. Sua mãe chamava-se Cecília, negra, descendente de escravos e iniciada para Yemonjá em Feira de Santana/BA, vindo a falecer com 105 anos. Seu pai chamava Miguel, negro, também descendente de escravos e foi confirmado Kpenjigàn na Roça de Ventura (Kwe Sejá Húnde), candomblé Jeje em Cachoeira, por Gaiaku Maria Ogorensì de Gbèsén. Faleceu aos 86 anos. Sua irmã carnal, Joana, foi iniciada para o vodun Azansú por Gaiaku Pararasì, na Roça de Ventura. Suas primas foram iniciadas como Ekedi por Sinha Abali, também na Roça de Ventura. A avó paterna de Gaiaku chamava-se Maria Galdência da Conceição e sua bisavó era uma negra africana chamada Malakê, filha de Sàngó, que chegou a Cachoeira em torno de 1820, amarrada em um porão de navio, para ser escrava de uma branca por nome Pombinha Rosalva, que lhe batizou com o nome de Maria Felicidade da Conceição.

Gaiaku Luiza que é bisneta de africano e foi nascida e criada dentro do candomblé aonde chegou a morar dentro da Roça de Ventura. Teve contato com as velhas tias do candomblé que lhe ensinaram muita coisa. Em 1937 Gaiaku Luiza é iniciada para Oyá na nação ketu, no Ilé Ibecê Alaketu Àse Ògún Medjèdjè, do famoso Babalorixá Manoel Cerqueira de Amorin, mais conhecido como Nezinho de Ògún, ou Nezinho da Muritiba, filho-de-santo de Mãe Menininha do Gantois. Por motivos particulares, após 2 anos Gaiaku Luiza se afasta da Roça deste ilustre Babalorixá. Foi Sinhá Abali, segunda Gaiaku a governar a Roça de Ventura, quem viu que Gaiaku Luiza deveria ser iniciada no Jeje, nação de toda sua família, e não no Ketu. Assim, encarrega sua irmã-de-santo Kpòsúsì Romaninha, de sua inteira confiança, a iniciar Gaiaku Luiza no Terreiro Zòògodò Bogun Malè Hùndo, em Salvador. Em 1944, Gaiaku Luiza é iniciada na nação Jeje sendo a terceira a compor um barco de 3 vodunsìs. Seu barco foi constituído por uma Osún, um Azansú e uma Oyá.

Gaiaku Luiza foi uma das poucas Vodunsìs,  na Bahia, que ousaram abrir uma roça de candomblé jeje-mahi. Isso ocorreu em 1952, num período em que não era comum tal prática dentro do culto jeje. Na época, supõe-se que existiam somente dois terreiros jeje-mahi na Bahia, que eram o Zòògodò Bogun Malè Hùndo (Terreiro do Bogun), em Salvador, e a Roça de Ventura (Sejá Hundê) , em Cachoeira. Com a autorização e participação de sua mãe-de-santo Kpòsúsì  Romaninha, dona Luiza abriu um terreiro jeje-mahi, tornando-se, então, uma Gaiaku.

A iniciação de Gaiaku Luiza foi no Bogun. Ela chegou no Bogun no dia 9 de agosto de 1944 e só voltou para casa em 1945. Segundo depoimento da própria Gaiaku Luiza, quem comandava o Bogum naquela época era Gaiaku Emiliana, pertencente ao vodun Agué.

Foi nesse contexto que Gaiaku Luiza plantou o axé do Hùnkpámè  Ayono Huntoloji. Ela narrava que:

“Em 1948, minha mãe Oyá começou a reclamar que não queria que batesse candomblé ali (casa no bairro da Liberdade). Ela passou a querer uma roça onde houvesse água, árvores frutíferas e que fosse perto da linha férrea. Saí procurando uma roça para comprar, mas não encontrava. No dia 2 de novembro, eu já estava saindo para minha procura, quando minha mãe carnal falou: ‘Logo hoje, minha filha, dia de finados’ Eu respondi: ‘Quem sabe, mamãe, os espíritos de luz me ajudam?’ Saímos eu e Delza sem destino, fomos parar em Almeida Brandão. Passamos por ponte, estrada de ferro e nada de encontrar. Adiante, vi uma placa, quando chegamos perto não era uma placa de venda, dizia o seguinte: prenda sua galinha que a roça tem veneno. Delza dizia: ‘Minha velha, vamos embora, esta chuviscando e não vamos achar nada.’ Quando estávamos voltando e já estava anoitecendo, vi uma placa, mas não conseguia enxergar porque já estava escuro, chegamos mais perto e a placa era de vende-se. Descemos até o portão velho e caído, aí apareceu uma “Dan” (cobra), eu então falei: olha Delza esta roça vai ser nossa. A roça ficava num lugar chamado Cabrito. Começamos a gritar e de repente apareceu um velho, pé hoje e pé amanhã. Ele se aproximou perguntando se queríamos comprar frutas, eu respondi que queria comprar a roça. Era tanta “Dan”, que havia na roça que você pisava e sentia elas por baixo das folhas. Deixei tudo acertado com o velho e marcamos a negociação. Foi uma venda rápida. No dia 2 de novembro a roça já era minha verbalmente. O casal de velhos ainda ficou morando na roça  por algum tempo. A velha, dona Maria era de Oyá e o velho era de Azansú. Mudei para a roça em 1950. Foi muito difícil morar ali, no começo. Não conhecia ninguém, sozinha ali, jogada, morando naquela casinha de palha. Comi uma roxura! Comendo zinco e arrotando semânio. A inauguração da roça, em 1952, sob a permissão de Gaiaku Kpòsúsì Romaninha, foi com uma festa para Azansú, o dono da casa, e foi muita gente prestigiar. A roça recebeu o nome de Humpame Ayono Huntoloji.”

Em 1962, a roça é transferida para um local denominado Alto da Levada, próximo ao bairro do Caquende, na cidade de Cachoeira, onde permanece até hoje.

Em 20 de junho de 2005, Luiza Franquelina da Rocha, ou Gaiaku Luiza de Oyá faleceu, aos 96 anos de idade. Considerada uma das mais importantes sacerdotisas do culto afro-religioso jeje-mahi do Brasil e possuidora de uma sabedoria inigualável. Faleceu em Cachoeira, na sua roça, cercada de filhos-de-santo, amigos e familiares, como ela sempre quis e costuma dizer: “Mãe-de-santo tem que morrer dentro de sua roça”.  Foi determinado, ainda em vida pela falecida, que a herdeira do posto de dirigente sacerdotal do terreiro seria sua sobrinha carnal, Regina Maria da Rocha. Dofona Regina – hoje chamada Gaiakú Regina Avimajesì – foi iniciada no Hùnkpámè Hùntóloji, num barco de 3 Vodunsìs, para o Vodun Avimaje.

-Texto extraído e readaptado do livro “Gaiaku Luiza e a trajetória do jeje-mahi”, escrito por Marcos Carvalho (Mejitó Marcos de Gbèsén), filho de santo de Gaiaku Luiza.

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No Brasil foi introduzido o jôgo de divinação feito com 16 Búzios (kawrís), sistema trazido e aperfeiçoado na África por Bamgbose Obitikú (Rodolfo Martins de Andrade) para as iyás do Ilê Axé Iyá Nassô Oká, mais conhecido por Casa Branca do Engenho Velho, por volta de 1830. Sistema que se espalhou por todo candomblé brasileiro, pela sua simplicidade e independência de Babalawos, o “Mérìndilogún – jogo de 16 Búzios” com mais de 70 caminhos e desdobramentos. Abaixo relacionei a minha visão desse sistema, uma leitura basica sem predizer nada, apenas uma síntese e com profundo respeito a Orunmilá, peço agô.

16 Búzios e 16 odús principais, são eles:

1-Òkàràn Méjì – 1 aberto e 15 fechados
-este é odú principal de Exú, podem aparecer Egun, Oyá. Este caminho representa a magia boa e ruim.
-(ówe)provérbio: “A imprudência é o venemo da continuidade”.

2-Éjì Oko Méjì – 2 abertos e 14 fechados
-neste odú falam principalmente Oxalufon, Ibeji, Irôko e Ajê Salugá. Representa a sabedoria, a consciência e a clarevidência.
-(ówe)provérbio: “Deus não impões aos ignorantes a obrigação de aprender, sem antes ter exigido dos sábios, o juramento de ensinar”.

3-Ògúndá Méjì – 3 abertos e 13 fechados
-este é o odú principal de Ogun e nele podem aparecer Omolú, Yemanjá e Oyá. Representa o esperma, o poder e a certeza.
-(ówe) provérbio: “O assassino culposo e o ladrão nato, não são homens de guerra”.

4-Ìròsún Méjì – 4 abertos e 12 fechados
-neste odú falam Oyá, Egun, Yemanjá e Oxóssi. Representa a cavidade, o abandono e a renúncia.
-(ówe) provérbio: “A terra-mãe, se penteia com a enxada”.

5-Òsé Méjì – 5 abertos e 11 fechados
-neste caminho falam Omolú, Oxun, Yamí, podem aparecer Oyá, Xangô e Exú. Representa a dor, o pesar, a espiritualidade e o sofrimnento
-(ówe) provérbio: “cabeça dura não quebra miséria, mesmo quando o ancião se curva, ainda assim, está de pé”.

6-Òbàrà Méjì – 6 abertos e 10 fechados
-neste caminho falam Airá, Oxóssi, Logun, Ori, Odé e Oxun pode aparecer. Representa a nobreza e vaidade (+), inveja e roubo (-).ówe) provérbio: “Rei morto, Rei coroado”.

7-Òdí Méjì – 7 abertos e 9 fechados
-neste caminho falam Oxun, Omolú, Exú, podem aparecer Odé, Ogun, Obá e Ajêxelugá. Representa: o avesso, o buraco e a derrota
-(ówe) provérbio: “A Equidade e a harmonia são as medidas da vida”.

8-Èjì Onílè Méjì – 8 abertos e 8 fechados
-este é o caminho principal de Osogiyan, podem aparecer Iroko, Ogunjá, Modé, Iyagunté, Jibí e Arauwé. Representa a mutação constante, vida e morte.
-(ówe)provérbio: “Em cima e embaixo, dentro ou fora da natureza, nada se cria, nada sofre perda, tudo se muda”.

9-Òsá Méjì – 9 abertos e 7 fechados
-Neste caminho falam Yemanjá, Oyá, Orí e podem aparecer babá Ajalá e babá Egun. Representa a renovação, a inteligência e a gestação
-(ówe) provérbio: “Orí é o primeiro a nascer e o último a morrer”.

10-Òfún Méjì – 10 abertos e 6 fechados
-Principal Odú de Oxalufon, podem aparecer Oxun, Orunmilá e Oduduwá, os funfun em geral. Representa o ciclo sem fim, o nascimento, o mundo.
-(ówe) provérbio: ” A Longevidade é o caminho”

11-Òwónrín Méjì – 11 abertos e 5 fechados
-neste caminho falam Oyá, Exú, Ogun. Representa as mudanças repentinas sobre qualquer ponto de vista, começo e fim.
-(ówe)provérbio: “Ele é a rota que faz o errado virar o certo e vice-versa”.

12-Èjìlá Sebòra Méjì – 12 abertos e 4 fechados
-odú principal de Xangô e podem aparecer Oba, Axabó, Yamassê, Irôko. Representa a união, ação e justiça.
-(ówe)provérbio: ” O escudo representa a águia solar”

13-Èjì Ológbon Méjì – 13 abertos e 3 fechados
-neste caminho falam Nanã, Ikú, Omolú e Egun. Representa a Àísí- a morte como parte da vida, o pó.
-(ówe)provérbio: “Tão logo nasce, caminha para morte”.

14-Ìká Méjì – 14 abertos e 2 fechados
-Neste caminho falam Oxumarê, Osanyin, Ewá e podem aparecer, Omolú e Logun Edé. Representa a renovação, a beleza, o amor.
-(ówe) provérbio: “Terra e céu em comunicação”.

15-Méjì – 15 abertos e 1 fechado
-Neste caminho fala Obà e pode aparecer Ewá, Ogun. Representa apaga, a justiça com retidão.
-(ówe)provérbio:” A Terra é minha mãe, para seu ventre voltarei”.

16-Àláàfiá Méjì – 16 abertos
-Neste caminho fala Orunmilá e todos os Orixás podem aparecer.Representa a vocação,a coerência, a integração: reconhecimeto, saúde e paz.
-(ówe)provérbio: ” Pecado é o que sai da boca, não o que entra”.

Òpìrá – 16 fechados
-Não é um odú e sim uma caída negativa, não há mensagem alguma, simplesmente o jôgo está fechado, o olhador não poderá mais jogar neste dia, prenúncio fatídico, fatal.

*O Búzio é uma concha marinha composta de duas faces: dianteira e traseira. A face dianteira contém uma fenda dentada de cima a baixo, aqual podemos chamar de “boca”, Segundo a totalidade dos babalawos, é a parte falante do jogo. A face trazeira, originalmente fechada, é aberta para proporcionar o equilíbrio e a queda do búzio em duas posições, aberto e fechado, com idênticas probabilidades. De acordo com os mitos, a adivinhação pelos búzios foi introduzida pelo Orixá Oxun e suas filhas são Iyas Petebí por natureza. Os búzios também são chamados de kaurís e já valeram como dinheiro no segundo milênio antes de Cristo.
O Jogo do Ìbò: é uma forma de prestar assessoramento ao Jogo de Búzios, tem a finalidade de decidir ou revelar o ebó, obrigações, decisões, o odú e a qualidade de Orixá. O Ìbò promove uma participação mais direta entre o consulente e o jogo. As perguntas são feitas à Orunmilá sem a interferência de Exú. A palavra Ìbò significa aquilo que está encoberto, oculto, e vem do verbo bò, cobrir, em razão de ato de a pessoa ter, em suas mãos fechadas, dois elementos para responder as perguntas feitas. O Ìbò utiliza-se de uma fava ou búzio ou otás de formatos diferentes que um deles significa SIM e o outro NÂO, para pergunta feita.
Bibliografia: *José Beniste.

Há também o Jogo feito com o Obí e Orobô e o de Exú com 4 búzios que auxiliam na confirmação das jogadas.

Só podem jogar búzios, o Egbon que tem sua Cuia ou Deká, o cargo de Babalorixá/Iyalorixá ou Ojú Oluwò, conferidos pelo seu axé e ratificados por Orunmilá.

Oxeturá ou Òsétùwá, acompanha todas as divindades, é formado pela combinação de Otùwá e Òsé, um odú menor, 17ª e mensageiro dos Odús, muito ligado a Exú; Òdòsú é o vigia do jogo, que observa à parte, mais que não participa diretamente no jogo, mas que pode ajudar numa indecisão.

As caídas acima podem variar de Axé par Axé, podendo haver pequenas divergências.

Babalorixá Fernando D’Osogiyan

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Complementando nosso texto sobre Eewò, temos neste post várias causas que se não causam mortes e provocam vários dissabores em nossas vidas. Esta falta de maturidade em nossas ações / palavras proferidas, muitas vezes nos causam problemas, que poderiam muito facilmente serem contornados ou evitados. O Odu Ogbe meji (ejionile) nos recomenda tranquilidade, paz, boa convivência com nossos amigos, filhos, parentes e contrários. Não é bem isto que temos assistido no nosso dia a dia, a intolerância é um mal que nos atinge no peito e o que sobra são pessimos sentimentos e desejos de vingança. Olodunmarè não nos colocou neste mundo para sermos agressivos e incompreensiveis com nosso semelhante, a convivência tem seus tributos e devemos pagá-los sem arrogância ou desdém, vivemos em uma rodovia de duas mãos. O Odu Ogunda’Ogbe (Ogundabede) nos pede o tempo todo para cuidar-mos de nosso carater e de nossas ações.
As mensagens dos Odu maiores / menores e Òrúnmìlá, são os ditames de Olodunmarè, se estamos nesta religião devemos segui-los. Nossa religião ao contrário do que muita gente pensa não é apenas òrìsá, estes são uma parte muito importante da engrenagem, mas não são o todo. O conjunto é o mais importante. Exergar a religião como um mosaico, lhe fará entender o seu papel neste mundo.
Boa leitura.

Orunmila descobriu que muitas pessoas estavam morrendo em sua tenra idade. Ele descobriu que muitos morreram de doença envenenamento, afogamento, suicídio, maus desígnios de acidente adversário, e assim por diante. Ele então decidiu ir e descobrir quais as causas dessas mortes não naturais. Por esta razão, ele foi consultar Ifá. Ele queria saber se fosse possível para ele saber a causa da morte não natural que estava matando os seres humanos. Foi-lhe dito que ele iria ver a causa e que os seres humanos eram os que provocam todas as mortes que os matavam. A Orunmila foi dito que não houve morte no céu e que a morte estava aqui na terra. Ele foi convidado a oferecer um sacrifício de três bodes adultos para propiciar Ifa. Ele obedeceu. Ele então começou a observar as atividades humanas.
Durante suas observações, ele descobriu que todas as mortes foram causadas por quatro fatores principais: a ignorância, a estupidez, a negligência e a teimosia. Ele descobriu que se os seres humanos pudessem evitar todos estes fatores de morte prematura, eles viveriam muito tempo na terra.

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Desde o século XVII se tem notícias de cultos africanos em terras brasileiras. De fato, há cerca de vinte anos, uma imensa massa de informações sobre o que se convencionou chamar “calundu colonial” começou a ser revelada por historiadores e antropólogos brasileiros, que, investigando nos arquivos públicos da santa inquisição, se depararam não apenas com novos dados, mas também com novas interpretações sobre um tema até então mal conhecido. Os animadores desses misteriosos cultos de origem africana começaram então a ocupar a cena historiográfica.Figuras como o congolês Domingos Umbata, flagrado em 1646 pelos visitadores da Inquisição na capitania de Ilhéus; a angolana Branca, ativa na cidade baiana de Rio Real nos primeiríssimos anos do século XVIII; a outra angolana, Luzia Pinta, muito bem-sucedida na freguesia de Sabará, nas Minas Gerais, entre 1720 e 1740; a courana Joseja Maria ou Josefa Courá com sua “dança de Tunda”, estabelecida em 1647 no arraial de Paracatu, Minas Gerais; o daomeano Sebastião, estabelecido em 1785 na cidade de caichoeira, no Recôncavo Baino; e enfim, Joaquim Baptista, ogan (uma espécie d líder de terreiro) do ‘culto ao seu deus Vodun”, no Accu de Brotas, freguesia periférica da cidade da Bahia, em 1829. A esta lista poderia ser acrescentada de Zacharias Wagener, artista que viveu no Pernambuco holandês de 1634 a 1641, representando uma festa de africanos e trazendo preciosas informações visuais sobre a variedade e a disposição dos atores, figurinos e instrumentos musicais. Os adeptos dos calundus organizavam suas festas públicas na residência de uma pessoa importante da comunidade, ou então em casas também destinadas a outras ocupações. Não tinham templos propriamente ditos, mas, também não se tratava de simples cultos domésticos, uma vez que tinham um calendário de festas, iniciavam vários fiéis em diferentes funções e eram frequentados por um número razoavelmente grande de pessoas, inclusive brancos vindos de diversos arraiais. Ademais, o sacerdote principal tinha condições de ganhar bem a vida com atendimento individual e se tornar financeiramente independente ao prestar à população serviços essenciais que o Estado colonial não assegurava satisfatoriamente.
A documentação da época permite três tipos de sacerdócio, às vezes reunidos numa mesma pessoa, como Luzia Pinta, que era “culunduzeira, curandeira e adivinhadeira”. Isso significa que, além de oficiantes religiosos, esses personagens sabiam preparar tisanas, cataplasma, e unguentos que aliviavam os males corriqueiros dos habitantes da colônia, eram também capazes de curar doenças mais graves como a tuberculose, a varíola e a lepra, usando os recursos da farmacopéia tradicional, participaram inclusive do combate às epidemias que assolaram a Bahia em meados do século XIX; também sabiam, curar distúrbios mentais ou espirituais, usando tratamentos combinados e complexos. Na cidade de Rio Real, no interior baiano, o Santo Ofício identificou o caso de um senhor empresário que pagou caro por, pelo menos, duas escravas curandeiras afamadas, montando com elas uma espécie de clínica onde se praticavam vários tipod de cura, e dividindo com elastodos os lucros. Desses registros, surgiram notícias de curandeiros e adivinhadores sendo recebidos em monastérios, nos meios ricos, onde eram bem pagos, e até agraciados pelo rei de Portugal por bons serviços prestados. A eficiência questionava o monopólio da cura atribuído à Igreja e mesmo à medicina oficial.
Como o escravismo se configurava como um regime de opressão, sempre se pensou que os calundus tivessem sido duramente perseguidos. Mas, de fato, se isso fosse realidade, seus líderes jamais poderiam ter se estabelecido estavelmente, como, por exemplo, Luzia Pinta, quese manteve atuante vinte anos na cidade mineira de sabará. Na verdade, existia no seio da classe governante um debate constante a respeito da melhor maneira de controlar a massa escrava e liberta. Se a política tirânica parece ter predominado nos períodos de crise, em grande parte do tempo foi a política moderada que predominou.
Assim, desde o século XVII os calundus funcionavam normalmente no Brasil, pelo menos até que seus líderes se tornassem muito visíveis, angariassem clientela branca ou se envolvessem em revoltas. Faziam parte da paisagem social porque eram funcionais, respondiam a várias necessidades de uma população carente e não pretendiam ser seitas secretas. Sua vocação era se tornar, como na África, instituições públicas reconhecidas.
Desse lado do Atlântico, os calundus de diversas origens africanas, como Natu ( das regiôes ao sul da África, como Angola, Congo, MOçambique) e Jeje (da África Ocidental, atual República de Benin), por exemplo, acabaram aderindo ao Catolicismo, já o sincretismo com os cultos ameríndios deu-se apenas com os bantos. Alguns, como o de Luzia Pinta, misturaram tradições africanas, católicas e indíginas no mesmo ritual, dando origem ao que se convencionou chamar Umbanda.
Ao contrário dos anteriores, o calundu Jeje do Pasto de Cachoeira era uma organização tipicamente urbana, e o primeiro a ter como endereço uma rua, embora de periferia. Já o candomblé do Accu é um dos vários cultos jejes que começaram a funcionar no Recôncavo Baiano em meados do século XIX, situados em freguesias urbanas apenas no nomes-eram, na verdade, chácaras cercadas de mata atlântica.
Esses cultos Jejes eram mais marcadamente cumitários e com fortes tradições litúrgicas, as que foram implantadas na Bahia. Nesse processo, receberam apoio dos calundus bantos existentes, que detinham um saber ritual acumulado, bem adaptado ao meio. O próximo passo, ousado, nessa trajetória de constituição da religião afro-brasileira, seria precisamente organizar o culto na cidade, exibi-lo como instituição urbana legítima, buscar sua oficialização.

Texto: Renato da Silveira
Professor Universidade da Bahia
Antropólogo e Doutor pela E.H.E.S.S de Paris.

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Por muitos anos observei pessoas reclamarem da vida, das divindades, de quem lhe abriu um jogo, enfim, reclamam tanto que esquecem de observar seus modos em relação à vida e as divindades. Nosso conjunto de ações dentro do culto é como um carro, se não colocamos combustível não adianta ter um carro de luxo. A falta de combustível deste carro pode se chamar Eewò, fazemos tudo o mais corretamente possível dentro do culto e esquecemos de nossas maneiras.
Boa leitura.

Eewò – O instigador.

Eewó, o quebrador de tabu, convidou e abriu a porta para os Ajogun (forças negativas) entrarem vida de alguém.
Convidar os rivais de Ire (sorte) na vida de uns é a função que Eewo (Eewo é uma divindade) realiza. A quebra de Eewó pode ter conseqüências rápidas, como pode levar semanas, como podem também se tornarem fatais se não for visto a tempo. Muitas vezes as pessoas se perguntam o porquê de tantos problemas ocorrendo juntamente com doenças. As coisas que são faladas em uma divinação recente não acontecem (é previsto uma benção e ela não ocorre).
Em seguida, perguntam muitas coisas sobre o conhecimento ou mesmo a competência do adivinho, alguns até perguntam por que uma sorte vista no jogo não se manifesta ou leva muito tempo para se concretizar e também por que uma força negativa (Ajogun) ocorre na vida dele?
Isto às vezes pode ser causado pela questão do Eewo ou tabu.
Definição de Eewò/Tabu:
1. Proibido de ser usado, mencionados ou se aproximar por uma questão social ou cultural.
2. Algo que é separado por que é sagrado e ao mesmo tempo proibido de ser usado
3. A proibição de determinados tipos de comportamento ou linguagem, porque são considerados inaceitáveis.
4.. Um tipo de comportamento ou um assunto que é proibido ou reprovado porque é considerado inaceitável.
5. Comentar coisas particulares, de pessoas, ou tipos e roupas sagradas e portanto, proibido de serem usados.
Ifá nos ensina que a quebra de Eewò/tabu pode ter profundas implicações na vida e abrirá a porta para todos os tipos de negatividades.
Eewo pode tornar você muito mais vulnerável que a própria coisa, que você está tentando evitar.
Esta quebra de Eewó também inclui sacerdotes.
Como pode nos reduzir o nível espiritual.
Eewó não são apenas comidas, mas lugares, palavras, pessoas, cores ou outras coisas.
Pode ser tão simples como perder a paciência com alguém ou de reagir de uma maneira que te colocará em oposição à mensagem que seu adivinho (Ikins, Opelé, Erindinlogun/búzios ou Obi) te aconselha.
Também pode ser a falta muito sutil de mostrar o devido respeito aos mais velhos, professores ou qualquer posição dentro da hierarquia da nossa tradição.
Considere quebrar os tabus comparando a se expor a um vírus de gripe sem as precauções apropriadas, tais como: comer saudavelmente, hábitos de repouso, higiene pessoal. Vírus estão por toda parte e precisamos tomar cuidado para evitarmos ser atingido por eles. Mesmo que todos os Ajogun estejam em torno de qualquer um de nós, podendo a qualquer momento nos atacar. Nós devemos tomar precauções.
É verdade, nosso Ori, nossos Antepassados, os Irunmole e os Òrìsás, iram nos proteger, mas até certo ponto, porém as precauções necessárias ainda precisam ser tomadas. Não se pode menosprezar os Eewó dos demais, menosprezando as prevenções que eles tomaram, deve-se ter senso comum e equilíbrio, não tripudiar.
No Odu Ika’ofun, Ifá diz que só porque alguém fez cerimônia Itelodu (iniciação ao culto de Òrúnmìlá) ou Òrìsá não lhe dá o poder de pular em um rio caudaloso e profundo sem saber nadar!
Também em Eji Ogbe (Ejionile) Ifá diz: agora que você “subiu ao topo da Sagrada Palmeira, não solte suas mãos” o resultado final em ambos os casos pode ser desastroso .
Deve-se respeitar o tabu e usar o bom senso, se alguém sabe o que é venenoso, então essa pessoa deve fazer esforços para evitá-lo.
O mesmo se aplica à questão das relações pessoais e assuntos íntimos, isto é verdade, ainda precisamos usar o sentido, mesmo em assuntos do coração, ou seja, ao se envolverem em um relacionamento, ambos os sexos devem reconhecer as divindades que residem dentro de nós, e acabar com a “visão invertida”, que parece ser muito prevalecente na nossa comunidade.
A relação deve ser sincera, comentário difamatório e traição não têm lugar dentro da relação e para todos os efeitos devem ser considerados como Eewo e punível por Ifá. Um Odu Ifá ao lidar com a questão do tabu diz:
É a tartaruga, que acorda e coloca a bandeja de Ifá em sua cabeça
O caracol, é ele que viaja e usa sua casa como sua carga.
A formiga preta mascarada é a que sai em seus trajes voando.
Estes foram os Babalawo que lançaram Ifá para Olodumare depois de criar o mundo e atribuir os parâmetros para operá-lo, Olodumare fez do Eewò (tabu) um de seus reis.
Se submeter à iniciação do sacerdócio, sem o ser, acabará por prejuducá-lo.
Por favor, mais difícil é reconhecer tabu. (para sustentar a vida), o fardo mais delicado de todos eles (para observar).
É tabu matar pessoas no mundo.
Eles acusavam a morte (Ikù) falsamente. (dizem que ele morreu de causa natural), mas foram essas pessoas que usam magias para maldade.
Ifá diz que seu sucesso na vida, a sua capacidade para alcançar sucesso, felicidade e boa saúde depende inteiramente do quanto você é capaz de reconhecer e evitar os tabus.
Se você escolhe realizar sua própria iniciação com qualquer sacerdote, muito de como você vai viver sua vida depende da observância destes tabus.
Temos a capacidade, através de nossos meios para nos comunicar com as divindades para identificar nossos próprios tabus, mas devemos conhecer o caminho e como caminhar, perceba que são duas coisas muito diferentes. Sublinhando o modo como vivemos nossas vidas, o que fazemos na vida e quem somos, é a chave.
A posição que ocupamos na vida, é apenas uma nota de rodapé à questão muito maior.
Em conclusão, na jornada da vida consideremos as atitudes potenciais de quebrar um tabu. Quando você souber seus próprios tabus pessoais, devem-se fazer esforços para observá-los. Fazer a sua iniciação em Ifá ou Orisa é apenas uma parte deste, mesmo tendo adivinhações ordinárias e ouvido as mensagens, tudo isto é apenas uma parte de toda a imagem, o que vem no caminho ou não, é subjetivo e relativo à execução de sacrifício pleno e completo. Neste caso estou me referindo ao ebó (sacrifício) da observância pessoal e do ajuste pessoal.
As mensagens da Divindade e realização do sacrifício, é a vigilância que deve ser lançada sobre o Eewò (tabu). Estude sua vida, aprenda e domine seu próprio Odu (o jogo que foi feito durante a sua iniciação trás esta informação), faça uma auto-análise, profunda e incorpore as mensagens das Divindades em sua rotina diária e hábitos, isso vai ajudá-lo a viver bem e em conformidade com o seu próprio destino. É Eewo quem convida todos os Ajogun (forças negativas) para a vida daqueles que podem puxar o gatilho dos obstáculos de sua vida.

Por Awoyinfa Ifáloju

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Perfil – Mãe Aninha

A maior guerreira dentre todas Iyalorixás a incansável Mãe Aninha.

Primeira Iyalorixá do Ilê Axé Opó Afonjá Bahia.

Filha de africanos, Eugênia Ana dos Santos, a iyalorixá Obá Biyi, nasceu em Salvador em 1869. Mais conhecida como Mãe Aninha, ela foi iniciada no candomblé do Engenho Velho – a casa de Iyá Nassô – fundado por volta de 1830 e o primeiro a funcionar regularmente na Bahia. Saiu de lá para formar uma nova casa, o Ilê Axé Opô Afonjá, hoje considerado Patrimônio Histórico Nacional.

Em 1935, Martiniano do Bonfim sugeriu a Mãe Aninha que criasse o Corpo dos Obás de Xangô, que deveria ser integrado por amigos e protetores do terreiro. Martiniano era uma das personalidades mais respeitadas da comunidade afro-baiana. Havia retornado da Nigéria em 1883, portando altos títulos da hierarquia sacerdotal yorubana. Sua idéia tornou-se real, quando, em 1936, foi instituído o corpo de obás, ou 12 ministros de Xangô do Axé Opô Afonjá. Até hoje são escolhidas pessoas de grande prestígio social para ocupar esse corpo.

A função principal dos obás é a sustentação do axé, tanto do ponto de vista material quanto do seu status. No Ilê Axé Opô Afonjá, ainda hoje os obás formam uma seleta hierarquia, abaixo somente da mãe-de-santo e da mãe pequena, eventual substituta da mãe-de-santo. Na Bahia, a criação dos obás trouxe ao culto de Xangô um importante exército de reforço. Nas últimas décadas, já ocuparam esse posto os escritores Jorge Amado e Antônio Olinto, os compositores Gilberto Gil e Dorival Caymmi, o artista plástico Carybé e os pesquisadores Vivaldo da Costa Lima e Muniz Sodré, entre outros.

Mãe Aninha sempre lutou para fortalecer o culto do candomblé no Brasil e garantir condições para o seu livre exercício. Segundo consta, por intermédio do ministro Osvaldo Aranha, que era seu filho de santo, Mãe Aninha provocou a promulgação do Decreto Presidencial nº 1202, no primeiro governo de Getúlio Vargas, pondo fim à proibição aos cultos afro-brasileiros em 1934.

Em sua época, foi uma personalidade importante, muito respeitada e popular nos candomblés da Bahia. Foi ela quem revelou ao pai Agenor sua vocação para candomblé quando ele ainda era criança. Falecida em 1938, Mãe Aninha foi sucedida por Mãe Bada de Oxalá e depois por Maria Bibiana do Espírito Santo, Oxum Muiuá, popularmente conhecida como Mãe Senhora de Oxum.

Fonte: Internet

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“Feedback religioso”

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Egbé,

Hoje, mais do que em outros momentos, quero conversar com todos que fazem e que chegam a este blog sobre a visão, o comportamento jovem dentro de um universo que preza pelo tempo e pelas experiências adquiridas com a idade: o Candomblé.

Dentro desse comportamento quero destacar dois atos: o ato de falar (tão presente na nossa pouca experiência de vida como jovens) e o ato de ouvir (tão apreciado dentro do Candomblé). Assim como falar sobre os desdobramentos dessa relação e trazer algumas reflexões minhas já que tratei de unir em minha existência, como em simbiose, estes dois paralelos tão diferentes e complementares.

Nós, jovens, temos mentes que buscam a vanguarda, o novo, as transformações em contraste com uma cultura, uma religião, uma filosofia de vida que se segura em valores antigos e no mantimento de tradições. “vanguarda”, “tradição”… Existe paradoxo maior que estas duas palavras no mesmo contexto? Existe possibilidade de ambas andarem juntas, de mãos dadas?

Colocando-me na berlinda como jovem nascida nos anos noventa e que pegou o mundo já no caos do fim do século XX; como jovem de um tempo onde rebeldia deixou de ser encarada com o sentido de transpor, mudar, de não se conformar e ir à busca de algo melhor, para ser encarada como extrapolação de limites, ultrapassar a medida do desrespeito e não só beirar, mas esborrar, o limite do exagero. O Candomblé chegou até mim como um freio de arrumação, onde o meu ato de querer falar mais, falar muito, gritar e de pouco – ou nada – ouvir mostrou-me que a minha vontade de mudança é válida e que o silêncio também é uma prece. Tudo em seu equilíbrio. É… Como jovem eu posso falar: o Candomblé me trouxe equilíbrio.

De tempos em tempos, em minhas reflexões, momentos de reza e auto-observação, paro pra analisar o que venho absorvendo de positivo, o que absorvi de negativo e, nisso tudo, o que eu realmente adquiri em forma de aprendizado. Digamos que seja um “feedback religioso”. Não falo apenas de aprendizado sobre orixá, cozinha, pejí… Falo, principalmente, sobre aprendizado pessoal: no que a espiritualidade exercida através do contato com o coletivo, com a manifestação divina dentro deste coletivo, traz para o meu dia a dia, para o meu cotidiano, para a minha maneira de enxergar as pessoas, de me posicionar no mundo. Ora, religião também é isso, Candomblé também é isso.

Costumo fazer essas reflexões com mais ênfase quando vai se aproximando a minha data de iniciação e no “feedback religioso” deste ano tenho observado que aquela inquietude mencionada mais a cima como “rebeldia” ainda em mim é presente. Não no sentido de transformar a minha religião e nem muito menos com o intuito de romper com as tradições. Talvez o “mudar” que tanto paira sobre a minha mente signifique “voltar”: voltar ao respeito, querer voltar a perceber a religião sendo encarada com seriedade, com base, com humildade. A minha vontade de romper está relacionada a romper com uma feia atualidade que vai se disseminando entre alguns zeladores, vitimando alguns filhos de orixá e acaba por projetar uma imagem errônea do que praticamos e achamos certo para as pessoas externas à religião. Minha rebeldia está contida por aí.

Só que a segunda observação, esta anos-luz mais importante para mim, foi a capacidade de OUVIR, o ato de exercitar a verdadeira escuta. Ouvir o tempo, ouvir a experiência, ouvir meu ori, ouvir palavras soltas que me chegam imbuídas de grandes significados e trazendo bastante aprendizado.

Citei esta observação como a mais importante, pois o mundo lá fora exige os nossos gritos, o mundo lá fora está tão cheio de problemas, metralhando tantos assuntos, tantas sensações pesadas em nós que a saída, às vezes, é falar. Falar como ato de regurgitar aquilo que temos de engolir das pessoas, da sociedade, da política, do trabalho. Estamos todos, jovens ou não, cansados e sempre dispostos a falar como meio de esvaziar o que o mundo trata de nos encher contra a nossa vontade.

Como pessoas estamos nos perdendo, pois atropelamos uns aos outros, cada um com o seu problema, cada um com a sua história pra querer contar, pra querer desabafar e ao mesmo tempo em que falamos não somos entendidos já que aquele ouvinte apenas está alerta por uma pausa de nossa parte para assim começar a querer se esvaziar também.

No Candomblé aprendi que eu não devo aprender a ouvir as pessoas apenas, eu devo calar para me ouvir, ouvir o que a minha essência (meu Ori), a minha natureza (que também pode ser chamada por Oyá) têm para mim. Ouvir para organizar os meus pensamentos, ouvir para assimilar os aprendizados. Ouvir para deixar a minha voz interna falar mais alto.

Creio que o nosso tempo de iyawô, os ciclos de idade pelos quais passamos, também estão para avaliarmos nossa conduta, nosso espaço, nosso papel dentro da religião e, principalmente, o papel da religião na nossa vida, a figura do orixá na nossa ótica, na nossa capacidade em ver o que mora dentro de nós e o que mora fora. O tempo dentro do Candomblé nos ensina como internalizar o nosso maior aprendizado: ouvir não só com as orelhas, mas também com os olhos, com o coração.

Como jovem falante (sou de Oyá rsrs) que tem alguma coragem pra se posicionar e defender convicções, chego à conclusão que não há caminhos contrários entre os meus 21 anos de idade e os mais de 200 anos de idade do Candomblé. Percebo até como uma união super positiva, pois a minha jovialidade atua em mim com a disposição de enfrentar e o Candomblé atua em mim com a capacidade, tal qual caçador, tal qual sábio mais velho, de perceber o momento certo, de ouvir muito para então falar e agir de forma que o meu objetivo inicial seja alcançado.

Como jovem orgulhosamente iniciada para o orixá Oyá dentro do Candomblé posso lhes afirmar: não estou aqui apenas para fazer barulho

Axé!

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