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Archive for the ‘Candomblé’ Category

Òrìsà Òsògìyán

 

 

 Oxaguian no Brasil ou simplesmente Òrìsà Òsògìyán como ele mais gosta de ser chamado, Ewúléèjìbò “Senhor de Ejigbô” onde é tratado por Kábiyèsi, é um dos Orixás mais emblemáticos do candomblé. Sobre ele também recai uma série de segredos rituais guardados pelos terreiros, embora muitas coisas já se tenham escrito. Acredito sim nessa complexidade em se cultuar o maior dos Orixás, pois sua energia é tão suave, tão magnífica, magnânima e tão sutil que nem todo mundo tá preparado para se harmonizar e poder interagir de seu Axé.

Conta um itãn que Oxun Aiyan’lá, de acordo com uma de suas histórias, ela teria dançado pela primeira vez na presença de Òsògìyán e fez todo o mercado lhe acompanhar. É por este motivo que filhas de Oxun Aìyan’lá, a fim de agradar Òsògìyán envia clarins para homenagear o Orixá, ato que se pode observar em alguns terreiros antigos.
Os mitos afro-brasileiros sobre este ancestral nos permitem perceber que Oxaguian liga-se a comida: Òrìsà jẹ iyán kile. A sua festa é o ponto culminante do chamado Ciclo das Águas, representado pelos inhames novos presenteados pela terra após um período de dificuldades. Òsògìyán, assim, o dono do inhame. É ele quem garante o nosso sustento de cada dia representado pelas raízes, conhecido por Orixá comedor de inhame pilado (Oxaguian), pois inventou o Pilão para melhor preparar seu prato favorito.

O Grande Òsògìyán em momentos de crise representa a estabilidade; em ocasiões de guerras, a estratégia; na tristeza é a alegria, no fim é o recomeço, é o Orixá de todos os momentos, promove a guerra para estabelecer o equilíbrio e a justiça entre os Homens. Orixá do dinamismo e movimento construtivo, da cultura material. Seu domínio são as lutas diárias por sustento e trabalho e a paz. Oxaguian incentiva o trabalho e a superação. Oxaguian é o provedor, é o guerreiro da paz. Nunca entra numa batalha para perder, sempre ganhando suas lutas e superando quaisquer obstáculos.

É sempre retratado como um guerreiro forte, astuto e conquistador, Oxaguian rege as inovações, a busca pelo aprimoramento, o inconformismo. É um Orixá relacionado com o sustento do dia a dia, gostando de mesa farta. Seu sustento vem do fundo da terra ou da floresta. Ele detém todas as armas e as usa para alcançar seus objetivos, que são: dar para quem tem fome e até tomar de quem tem muito e não tem fome.  De acordo com suas histórias, ele teria passado em Irê, a terra de Ògún, e graças à sua inteligência idealizou armas forjadas pelo grande ferreiro. A amizade entre o povo de Ejigbô foi tanta que Ògún, certa ocasião, se ofereceu para ir à frente de uma batalha lutar pelo povo de Ògìyán que na volta foi aclamado Senhor vestindo-se de branco.
Diz-se também que o Orixá que adora inhames é amigo inseparável de Oyá e dela ganhou os Atoris, com quem anda sem pisar no chão levado pelo vento que lhe conduz a todos os lugares. Por isso, filhos dessa Orixá se sentem plenamente atraídas por estarem perto dos filhos deste Orixá. Osogiyan põe um ponto final no fim e inaugura aquilo que é infinito, pois diante dele tudo é recomeço.
Òsògìyán é o Orixá do renascimento, tudo que forma um ciclo se mantém graças a ele. Este é o motivo pelo qual no dia a ele consagrado se realiza uma pequena procissão. Ele representa a volta para a casa, a estabilidade dos grupos que até então vagavam sem destino. O terceiro Domingo do ciclo das Águas de Oxalá é representado pelo ” Ojó Odò” (dia do Pilão) de Òsògìyán, pois fecha o ciclo de renovação da existência.
Com o Orixá Sàngó, coluna central do culto reorganizado no Brasil pelos Yorubas e seus descendentes, Ògìyán se relaciona como outrora os reinos de Ejigbô e Ifon estavam ligados à Oyó, fato relembrado pelo pilão, instrumento de vital importância para a fixação dos grupos na terra. Se o pilão é o centro do mercado, a mão de pilão é o instrumento que repete o movimento que liga o céu à terra, garantindo a nossa permanência através da comida, do inhame dado em forma de presente por Osogiyan. O pilão como o ferro ilustra uma nova etapa da história da humanidade. A partir dele, pode-se falar em comidas mais elaboradas, preparar a farinha e conservar melhor os alimentos. O Pilão representa a justiça, o equilibrio provocado pelas duas bocas do pilão, seus Ìsáns representam o poder ligado a Irôko ancestralidade, vida e morte, a espada representa a luta diária pela paz social.
Òsun é verdadeiramente o coração de Osogiyan, dizem os antigos que “Òsun é sua menina dos olhos”. Ela dança também para ele. É Òsun quem vai a frente das mulheres da terra de Ijexá que inventaram um tipo de tambor apenas tocado por elas. Instrumento na sua origem feminino como as cabaças, cujo som remete ao mesmo produzido na vida uterina. Oxun teria ensinado estes sons para a humanidade, escutando a sua própria barriga. Mantém relações também com Ewá, ilustrada através de uma das passagens míticas mais emblemáticas. Ewá, aquela que tem o poder de transformar-se em qualquer coisa, lhe teria salvo da morte, garantindo assim a continuidade do ciclo da vida. Osogiyan como já falamos, relaciona-se também com os Orixás caçadores e caçadoras. Daí a sua relação com Òsóòsì, considerado líder e cabeça da grande caçada. Com Osanyìn interage estrategicamente com o pássaro, as magias e todo tipo de feitiçaria “Òsò”, prefixo de seu nome estabelece a parceria, o sumo da folha, etc. Com Obà divide a essência guerreira feminina/masculina, a guerra através dos sentimentos do coração, do amor e da paz.
Osogiyan anda através de passos mais rápidos, determinados. Em guerra constante, a prontidão, o alerta nunca lhe precedem, pois ele é a própria luta, relembrada num de seus títulos de pronúncia mais evitada: “Baba O’Lorogun”, literalmente “pai da guerra”. O Orixá que carrega todas as armas, ora caçador, ora rei, ora a guerra, mantém relações também com Yemanjá, pois ela é responsável pelo equilíbrio, o principio ancestral, o mundo só é inteligível, graças àquela que mantém as nossas cabeças (ìyá Orí) que suaviza a sua chegada. Com Jagun forma talvez a parceria mais intrigante, caminham juntos e às vezes se confundem entre si, guerreiros inseparáveis. Com Airá, o conhecimento da impulsividade, dando a este exatamente o oposto, os dois lados da moeda, julgar pela razão e não pela emoção. Com Nàná a grande Iyabá se confraterniza, a grande metáfora vida e morte. Com Exú é a comemoração, juntos sintonizam a articulação, a discórdia proposital, o movimento.
Òsògìyán representam o começo da humanidade, o sol nascente, a vida que chega no primeiro raio de sol, o Pai do dia.
Quando entramos em contato com os elementos, entramos em conexão com o mundo divino e seus respectivos senhores através de seu axé. Alguns se conectam a nós através da musica, outros através das águas, do Fogo, da Terra, dos metais, minerais, do vento ou simplesmente do silêncio. Ele também se revela no silêncio na quietude e mansidão. Ele está em todos os níveis!
Com Odùduá, Orixá matéria que é responsável pela abertura no primeiro Domingo das “Águas de Oxalá”, a grande mãe progenitora feminina que representa a Terra, e com Olúfón (Oxalufan) Orixá cujo o templo é em Ifón, responsável pelo segundo domingo das “Águas de Oxalá”, a procissão de Obatalá,o Ebô repartido entre todos os presentes. Orunmilá testemunha através de Ifá.
Senhor do Igí Opè Íwìn, Akinjolè, Babá Ikíre, Babá Epè, Babá Eléèjìgbò, Ajagúna, Ògìyán, Òsáàlá,  com tantos nomes que pode ser conhecido e reverenciado.

“E mo rí ó, e mo rí Ifá ó.” – “Eu vi, eu através de Ifá”.  (Somente Ifá pode propiciar) “Òòsààlà ki àwa àwúre”,  “Oxalá nos dá boa sorte”

Babá mí Òsògìyán, mò jùbá, mutun’bá, Àwúre!

Texto/pesquisa:Fernando D’Òsògìyán.

Colaboração: Suami D’Òsún

 

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A iniciação em si já é um marco por se tratar de uma transição, de um renascimento do iniciado como uma nova pessoa.  Eu mesma tive noção de quem eu realmente sou, de como eu realmente sou após a feitura. Recordo-me exatamente da sensação após eu ter saído do preceito, de encarar o mundo com uma roupa de cor, com os cabelos curtinhos e a nova sensação no peito. Lembro até da primeira coisa que eu fiz assim que tirei o branco e do quanto me enxerguei diferente no espelho. As pessoas me notavam diferente e eu me notava diferente também. Eram meus recém 18 anos, eu nem sabia o que era o mundo ainda, tinha acabado de sair da escola, entrado na faculdade e a minha entrada de vez num mundo muito maior coincidiu com a entrada definitiva de Iansã na minha vida. Tudo mudou. Talvez tenha sido proposital da parte dela. Acho que sim. E essas lembranças vivem voltando à tona cada vez que vejo mais um iniciado nascendo, mais uma irmã ou irmão passando pelo preceito e relatando as situações vivenciadas neste período.

De lá pra cá se vão quatro movimentados e inesperados anos aonde eu venho aprendendo a sentir e entender os sinais dela – que algumas vezes são silenciosos e noutras tão gritantes. Acho que com o tempo os iniciados desenvolvem uma relação pessoal com o próprio Orixá. Chega a ser íntima. Falo por mim, falo pelo que eu sinto com Oyá, falo pela segurança que ela me dá quando eu estou no meio de uma tempestade e da segurança que eu lhe dou ao afirmar que sempre irei por ela, custe o que custar.

Eu tenho vivido o meu tempo de iniciada com o maior cuidado e delicadeza possíveis, gradativamente tentando entender todos os acontecimentos, mesmo quando eles surgem de forma totalmente inesperada. Já errei o caminho para onde ela apontou, às vezes entendi errado o que ela falava… Coisas que qualquer filha criança como eu faz.

Acho que eu e Oyá estamos um pouco misturadas. Não falo isso nem pra demonstrar alguma soberba ou algum orgulho. Tenho orgulho do meu Orixá sim, tenho a minha essência individual sim, tenho muito ainda a aprender com ela e sobre ela sim, mas tenho-a muito em mim e isso eu não preciso explicar porque o sentir nem sempre consegue ser traduzido.

Muitas vezes falamos de assuntos sobre a religião muito necessários e que precisam com urgência serem relatados e ensinados. Eu tenho a dimensão do quanto o nosso blog, por exemplo, é importante neste meio virtual no tocante a estas informações e o quão ávidos são os nossos leitores por aprendizados, conselhos e explicações. Porém, eu acho necessária também essa pausa pra falar sobre o sentir, acho necessário eu parar pra pensar no meu Orixá como energia que me acompanha diariamente e não só como um Orixá dos ventos e das tempestades. Cada um precisa sentir o Orixá que há dentro de si. Pensar nisso, refletir isso e observar isso. Mais aqui dentro, menos lá fora, gente. Às vezes alguns iniciados procuram tantas informações externas sobre o orixá ou saem tão alvoroçados atrás de respostas para as agonias momentâneas que chega a parecer que esquecem-se que o Orixá está neles, que eles tiveram Ori e corpo sacralizados para o Orixá fazer dali também sua morada. Parece que esquecem que o Orixá ouve.

Eu, passado o ritmo turbulento que só as mudanças trazem, tenho pensando e sentido muito essa interação. Além de aprender mais, faço meus “feedbacks” e me sinto alegre e confiante na forma como tenho caminhado.

E como canta Maria Bethânia:

“O mais importante do bordado
É o avesso, é o avesso
O mais importante em mim
É o que eu não conheço

O que de mim aparece  
É o que dentro de mim Deus tece

Dayane

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Orixá regente

mae-stella-oxossiEste é um artigo que possui objetivo esclarecedor. Tentarei tornar compreensível um assunto que surge todo princípio de ano. A imprensa faz reportagens e as pessoas indagam umas as outras ou perguntam a si mesmas sobre o orixá que influenciará o novo ano que surge. Fazem isso na tentativa de adivinhas o que é preciso ser divinado. Adivinhar é fazer conjecturas sobre um tema usando a intuição, o que todo ser humano pode fazer. Divinar, todavia, é entrar em comunicação com o sagrado, através de rituais guiados por sacerdotes. É claro que todo ser vivo, por possuir uma parcela divina, é capaz de se conectar com os deuses. Mas a utilização de oráculos, os quais fornecem informações mais precisas sobre o destino da comunidade, requer uma preparação especial e um estilo de vida que propicia à intuição inerente a todos apresentar-se de maneira muito mais clara. A intuição se transforma aqui em revelação: quando os véus que encobrem os mistérios são retirados pelos deuses, a fim de que nossa jornada aconteça de uma maneira orientada e, assim, possamos cumprir a tarefa que nos foi legada com o mínimo de percalços possível, o que torna a vida bem mais leve.

Os leitores acostumados com os artigos que escrevo poderão estranhar a formalidade deste texto. É que “há tempo para tudo”: para contar anedotas, falar poesias, refletir sobre a vida… Esse tema pede seriedade! Faço isso porque creio ser a imprensa o meio ideal para esclarecer assuntos, que só não só melhor comentados por falta de oportunidade e conhecimento. Tendo agora esta oportunidade que me é dada pelo jornal A TARDE, não quero desperdiçá-la. Mesmo tendo eu a consciência de que nada se modifica de um dia para o outro, aproveitarei o momento para tentar fazer com que a população melhor compreenda as respostas do oráculo trazido pelos africanos para o Brasil, esperando que as sementes aqui jogadas possam um dia florescer e dar bons frutos.

A pergunta correta não é qual o orixá que rege o ano e, sim, qual o orixá que rege o ano para aquelas pessoas que cultuam as divindades e estão vinculadas à comunidade em que o jogo de búzios foi utilizado. Se isso não for bem esclarecido e, consequentemente, bem compreendido, parece que todos os sacerdotes erram em suas respostas, uma vez que uma iyalorixá diz que o orixá do ano é Iyemanjá, enquanto outra diz que é Oxum, ou um babalorixá diz que é Oxossi. Mesmo correndo o risco de o texto ficar enfadonho, insistirei em alguns pontos, a fim de elucidá-los melhor. No nosso terreiro, o Ilê Axé Opô Afonjá, o regente do ano 2012 é Xangô. A referida divindade, que se revelou no jogo feito por mim, não esta comandando o mundo inteiro, nem mesmo o Brasil ou a Bahia. Ela é o guia das pessoas que, de uma maneira ou outra (mais profunda – como é o caso dos iniciados; ou mais superficial – os devotos que freqüentam a “Casa”), estão vinculadas a mim enquanto iyalorixá, ou ao terreiro em questão.

O leitor, diante dessa explicação, poderá ficar confuso e sentir necessidade de perguntar: “E eu, que não cultuo orixá e não tenho relação com o candomblé, não serei orientado nem protegido por nenhuma divindade?” A resposta é: “Claro que sim! Por aquela que você cultua ou acredita”. Um católico, ou um protestante será guiado pelos ensinamentos de Jesus; um budista, pelas sábias orientações de Buda… Outra pergunta ainda poderá surgir: “E quanto às pessoas que não são religiosas, elas ficarão à toa?”. Não, é claro que não. Essas serão guiadas e orientadas pela natureza, que é a presença concreta do Deus abstrato. Seus instintos, protegidos por suas cabeças e corações, conduzirão suas vidas de modo que seus passos sigam sempre na direção correta.

Que Xangô – divindade da eloquência, da estratégia, do fogo que produz o movimento necessário a todo tipo de prosperidade – possa receber, de meus filhos espirituais, cultos suficientes para que fortalecido possa torná-los cada vez mais fortes para enfrentar as intempéries que todo ano traz consigo. Obrigada, Ano Velho, pelas experiências passadas para o Ano Novo.

Maria Stella de Azevedo Santos
Iyalorixá de Ilê Axé Opô Afonjá
Jornal A TARDE 04/01/2012

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Egun e Oku

Os povos de origem yorubá tem um nome especial de tratar seus antepassados,egun,esse termo identifica o antepassado masculino espíritos divinizados através de rituais específicos, aonde o morto passa a ser considerado de forma especial, ele recebe um novo nome e começa ser cultuado junto ao assentamento dos demais antepassados.

Os yorubas acreditam que o culto a egun serve para harmonizar a pessoa com o passado, mas principalmente para reverenciar aqueles que contribuíram para a nossa existência, pois como todos sabemos sem passado não existe presente e muito menos futuro.
Os espíritos dos mortos na cultura yoruba recebem o nome de oku, não é todo oku que se torna egun ,mas todo egun um dia foi um oku.
A diferença esta nos rituais próprios para tornar o oku um ser divinizado, esses rituais podem ser feitos somente para os espíritos de pessoas iniciadas no culto de orisa ou de egungun,é claro que existe outros pré requisitos para que esse processo de divinização seja efetuado o homem quando vivo deve ter um comportamento exemplar se pretender um dia ser cultuado como egun.
No Brasil existe uma diferença em relação ao que é feito no território yorubá, aqui se acredita que os eguns jamais devem ter contato direto com as pessoas, isso para a tradição yorubá não procede, os antepassados ficam felizes com esse contato,essa é uma das formas de harmonizar o espírito com seu descendentes. Não confundir contato com tocar no egun.
Quase todo espírito (oku) cria problema para os seu descendentes se não for cuidado de forma adequada,normalmente a falta de rituais fúnebres próprios e o despreparo das pessoas para cumprirem algumas exigências básicas nessa relação homem espírito terminam criando esse conflito.
Na cultura yorubá existe uma sociedade secreta que se encarrega dos rituais fúnebres, esses sacerdotes cultuam uma divindade chamada Oro, que no Brasil ainda é um pouco desconhecida.
No tocante aos espíritos dos antepassados femininos, é muito raro que seja cultuado de forma individualizado, normalmente é cultuado de forma genérica na sociedade secreta das Iya mi, exemplo iyami Osoronga,Iya mi Aiye,Iya mi Aje…
Exemplos de culto :
1-Egungun,culto de espíritos masculinos individualizados
2-Oro,culto de espíritos masculino generalizado.
3-Iya mi ,culto de espírito feminino generalizado.
Observação: Não confundir com o culto aos Orisas, espíritos divinizados,e com culto no Brasil relacionado as forças da natureza.
Para melhor entendimento,não confundir com caboclos cultuados na Umbanda religião de origem Brasileira.

Autor: Babalawo Ifagbayin Agboola

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Dos caminhos da tradição

Certo dia li um texto escrito pelo Leonardo Boff chamado “O caminho como arquétipo”. Como sempre, os textos do Boff me fazem refletir sobre a temática que ele aborda mesmo eu exercendo a espiritualidade sob a vivência do Candomblé e quase sempre relaciono uma coisa ou outra ao meu mundo religioso, especificamente. O trecho abaixo é exatamente o elo desta relação:

“No caminho de cada pessoa trabalham sempre milhões e milhões de experiências de caminhos passados e andados por infindáveis gerações. A tarefa de cada um é prolongar este caminho e fazer o seu caminho de tal forma que melhore e aprofunde o caminho recebido, endireite o torto e legue aos futuros caminhantes, um caminho enriquecido com sua pisada.” (O caminho como arquétipo, Leonardo Boff)

Eu poderia dizer que o caminho da nossa tradição religiosa é basicamente tudo isso contido neste trecho, e assim, continuar este caminho deveria ser uma obviedade, um acontecimento natural. Porém, a minha ingenuidade não é tanta ao ponto de reconhecer que isso acontece regularmente. Os tantos comentários que recebemos mostram que algué(ns) se perderam dos caminhos que os antecederam e vêm pondo os caminhos futuros dos descendentes a perder. E a religião também perde com isso.

Eu tenho algumas hipóteses sobre esses “desvios” e uma delas é o “auto-endeusamento” por parte de alguns zeladores. Explico: Candomblé é submissão, submissão ao orixá, é pelo orixá que oris de 1 ou de 100 anos encostam na terra como respeito e submissão. De certa forma, o respeito ao orixá iguala todo mundo da escala hierárquica, neste caso. A primeira e a última palavra vêm sempre do orixá. Mas alguns zeladores se dão tanta importância que passam a decidir por ele e descartam o caminho que veio antes dele, desconsideram a tradição em nome de uma assinatura “na minha casa é assim”, como se customizar o culto fosse algo saudável a religião como unidade.

A conseqüência disso a gente já sabe e já vê: filhos perdidos que olham para trás e veem tudo difuso, embaçado e sem certezas sobre os próprios caminhos. Não basta o preconceito que ainda sofremos e a intolerância, ainda temos esses graves problemas internos sem nenhuma perspectiva de realmente serem sanados.

Enquanto os caminhos não são respeitados, vemos filhos perdidos e amedrontados com concepções absurdas sobre os conceitos que pertencem ao Candomblé e zeladores com um rei na barriga deturpando à sua própria “marca” uma religião que tem caminhos longos trilhados em cima de muito sacrifício e tradição.

Logicamente há mais hipóteses e cada um de vocês pode enxergar alguma diferente da minha citada aqui. Restringi-me a esta somente, pois é a que mais me irrita de forma enfática (muito enfática) e tem me feito repensar o simples ato de visitar certas casas.

Axé.

Dayane

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Os Ajogun

 

 

Ajogun – Àqueles Que Lutam Contra A Humanidade

Nas últimas postagens, abordamos duas Divindades de suma importância, que estreitam os laços existentes entre o Orùn e o Aye (Ìyàmì e Egúngún). Hoje vamos falar um pouco sobre os “Ajogun”, que não são Òrìsàs (é importante que isso fique claro a todos), mas sim, espíritos malignos que tem como objetivo afetar a vida das pessoas no Aye.

À primeira vista, muitos se apavoram em saber da existência de espíritos malignos que podem nos prejudicar. É fato que eles atrapalham a vida das pessoas, mas na concepção Yorùbá, esses espíritos fazem com que exista o equilíbrio natural, a simetria entre mundos e poderes.

Isso é evidenciado, por exemplo, no jogo do Obì, no qual existe uma caída que reflete a harmonia perfeita, na qual duas faces internas do Obì caem voltadas para baixo e duas para cima, sendo que os sexos dos gomos do Obì caem divididos para baixo e para cima harmoniosamente. Na cultura dos Òrìsàs essa caída representa a simetria perfeita, pois o negativo e positivo estão em consonância, bem como o feminino e masculino.

Dessa forma, embora malignos e terríveis, a existência dos Ajogun motiva as energias positivas a circularem no mundo. Essas energias positivas são estimuladas por meio dos sacrifícios (Ebó) que são prescritos por Sacerdotes, que o revelam por meio do oráculo.

Os Ajogun são forças muito negativas, que tem como objetivo causar doenças, acidentes, brigas, discórdias. Por isso, quando há sacrifícios, é comum cantarmos pedindo para que a água (elemento mais puro e benéfico que existe) cubra e mate as discórdias (bomi pa ejo), cubra e mate as doenças (bomi pa arun), cubra e mate as maldições (bomi pa epe), etc. Em verdade, estamos pedindo para que a água cubra e mate os poderes malignos do mundo, os Ajogun.

Diferente das Divindades que moram nos espaços do Orùn, regressando ao aye por meio da manifestação, os Ajogun moram no Aye e não no orùn. Isso acontece, pois os Ajogun não conseguiram causar males no mundo dos Deuses. Ou seja, os Ajogun moram no aye, pois aqui, diferente do orùn, eles conseguem espalhar os males de forma indiscriminada.

Os Ajogun estão sempre à espreita, esperando um momento adequado para atuar. Por isso, é muito importante que as pessoas sempre se cuidem, por meio de oferendas, banhos e o que mais for necessário, conforme prescrição do Sacerdote.

Quando algo de ruim surge no mundo, por exemplo, uma nova doença, isso certamente foi motivado por Ajogun, entretanto, quando uma grande descoberta em benefício à sociedade surge, foi motivada pelas forças positivas que sempre prevaleceram, como os Òrìsàs.

Por diversas vezes, já discorremos sobre a importância da realização dos sacríficios prescritos, sobre a importância de não quebrar tabus (Ewó), uma das razões para termos falado bastante sobre esses temas, foi justamente para se entender que essas ações atacam os poderes dos Ajogun.

Quando, por exemplo, uma pessoa quebra um Ewó, ela está ajudando e dando forças ao Ajogun. O mesmo ocorre quando o sacerdote prescreve um sacrifício que é negligenciado, a pessoa está dando forças ao Ajogun.

Nós do Terreiro de Òsùmàrè, esperamos uma vez mais, ter contribuido para o esclarecimento dos temas relacionados a nossa crença.
Texo do Facebook da Casa do Òsùmàrè

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“O Dia Nacional da Consciência Negra é celebrado em 20 de novembro no Brasil e é dedicado à reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A semana dentro da qual está esse dia recebe o nome de Semana da Consciência Negra.

A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O Dia da Consciência Negra procura ser uma data para se lembrar a resistência do negro à escravidão de forma geral, desde o primeiro transporte de africanos para o solo brasileiro (1594).

Algumas entidades como o Movimento Negro (o maior do gênero no país) organizam palestras e eventos educativos, visando principalmente crianças negras. Procura-se evitar o desenvolvimento do auto-preconceito, ou seja, da inferiorização perante a sociedade.

Outros temas debatidos pela comunidade negra e que ganham evidência neste dia são: inserção do negro no mercado de trabalho, cotas universitárias, se há discriminação por parte da polícia, identificação de etnias, moda e beleza negra, etc.” (Wikipedia)

Muito recentemente foi lançado na rede um vídeo curto onde em um momento o entrevistador indaga o ator Morgan Freeman com a seguinte questão: “Quando iremos nos livrar do racismo?”, e Morgan o responde “Parando de falar sobre ele.”.

Esse vídeo tem sido usado por muitas pessoas para passar a ideia de que quem fortalece o racismo são aqueles que falam e lutam contra ele e, por conseqüência, o mês da Consciência Negra é posto em cheque.

Infelizmente muitas pessoas são capazes de usar quarenta segundos de um vídeo editado e descontextualizado para criticar e fortalecer o mito da democracia racial no nosso país, pois viveríamos numa sociedade igualitária e com oportunidades acessíveis a todos. O que valeria seria a meritocracia.

Desconsiderar a necessidade da discussão, da existência do problema e de soluções para que o racismo não ganhe mais força, para mim, beira a insanidade e a ignorância.

O racismo é um problema complexo e todos os movimentos que aqui estão lutando não estão aqui por conflito entre raças, para testar ou comprovar alguma soberania racial. O racismo existe, os números comprovam, a tela da nossa sociedade comprova, a minha prima negra de seis anos que tem vergonha do cabelo por causa dos amiguinhos da escola comprova, os índices de marginalização também comprovam isso, a negra como empregada doméstica na televisão comprova isso.

Não só se discute preconceito e racismo no mês de novembro. Durante todos os outros meses do ano há pessoas engajadas em estudar, observar, comprovar esta anomalia presente em nossa sociedade e montar políticas públicas que visem diminuir esse abismo de diferenças sociais.

Afirmo-lhes: não adianta dizer que racismo existe ou não, não adianta dizer que é contra ou a favor do movimento da boca pra fora por causa de quarenta segundos. A história do negro marginalizado aqui tem centenas de anos, ou seja, precisamos de muito mais que quarenta segundos para discutir o problema. Adianta sim abrir os horizontes dos nossos olhos, do nosso mundinho, ler, buscar informação, usar os nossos olhos para observarmos como realmente são as coisas ao nosso redor.

O mês, a semana, o Dia da Consciência Negra servem para tentar tirar –  com mais ênfase – do pensamento dos próprios negros as palavras que eu ouvi num ônibus dia desses: “Negro nasceu pra sofrer.”. Não é se por na moda, no politicamente correto e sim não ver na própria cor, no próprio cabelo entraves para a própria aceitação. Nós temos que nos ver com os nossos próprios olhos e não com os olhos de uma sociedade montada e estratificada de uma maneira onde a sua base é composta, em sua maioria, pelos descendentes daqueles falsamente alforriados no dia 13 de maio de 1888.

Dayane

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