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A Religião dos Yorubás

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A religião tradicional yorubá envolve adoração e respeito a Olorun ou Olòdùmarè, o criador, dos Orixás e dos antepassados, e cultuam 401 deidades; a maior parte desses Orixás são figuras antropomorfas, que também são associadas com características naturais. As pessoas rezam e fazem sacrifícios, de acordo com suas necessidades e situação. Cada divindade tem as suas regras, ritos e sacrifícios próprios. Os yorubás rezam para os Orixás para intervenção divina em suas vidas.

Olorun (o dono do céu), ou Olòdùmarè é o Deus supremo dos yorubás, ele é o criador, é invocado em bênçãos e em certas obrigações, mas nenhum santuário existe para ele, nenhum sacerdócio organizado.

Os yorubás, também, crêem que os antepassados interferem diariamente nos eventos da terra. Em algumas cidades são feitos festivais anuais, onde cada Egungun dança, e é festejado. Como já vimos os yorubás, são um povo com uma cultura muito rica. Eles superaram muitos obstáculos para alcançar o ponto em que estão hoje. A sua cultura e história podem ser vistas ao longo do mundo, especialmente as convicções religiosas, em outras palavras, os yorubás são dos mais influentes povos do mundo.

Outra explicação que se faz a respeito do aparecimento das divindades seria que Oxalá ou Obatalá, deus da criação instalou o seu reino em Ifé, lugar sagrado dos yorubás. Fala-se que Obatalá tinha um irmão mais jovem chamado Oduduwa, que ambicionava executar as tarefas que Olòdùmarè confiou a Obatalá e, para tanto, fez um ebó, contando com a colaboração de Esu (Exu), que armou uma cilada, provocando muita sede em Obatalá, que se encontrava bastante cansado da viagem. Ao se aproximar de uma palmeira, usando seu cajado, furou a dita palmeira e bebeu o emu ( vinho de palma) que jorrava. Exausto embriagou-se rapidamente e ali mesmo deitou e adormeceu. Oduduwa que vinha de espreita na retaguarda, passou à sua frente, e tornou-se fundador dos povos yorubás.

Olodumare

Poucos sacerdotes falam de Olòdùmarè, pois não existe nenhum altar, nenhum assentamento dedicado a ele e nenhum filho ou filha lhe é consagrado. A religião é parte essencial da cultura dos povos africanos, e acreditam que Olòdùmarè seja o ser supremo, é o Obá Orum, rei do céu. É ele acima de tudo; omnipresente, ele é Olorun Alagbara, o Deus Poderoso.

Diz a mitologia yorubá que Olòdùmarè, junto com a criação do céu e da terra, trouxe para a existência as outras divindades Orixás, para o ajudar a administrar a sua criação, e a importância de cada divindade depende da posição dentro do panteão yorubá. Olòdùmarè é o Deus Supremo dos yorubás, merecedor de grande reverência, o seu status de supremacia é absoluto.

Ele é Omnipotente – tão omnipotente que para Olòdùmarè nada é impossível, ele é o rei cujos trabalhos são feitos para perfeição.

Ele é imortal – Olòdùmarè nunca morre, os yorubás crêem que seja inimaginável para Elemi (o dono da vida) morrer.

Ele é Omnisciente – Olòdùmarè sabe tudo, não existe nada que se possa esconder dele; ele é sábio, tudo está ao seu alcance. Alguns estudiosos afirmam que a religião yorubá, é a religião monoteísta mais antiga da humanidade.

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Temos que ter muito claro que para falarmos de ética dentro de uma determinada religião o primeiro impulso que devemos ter é de fazermos uma separação entre o que se entende por bem e mal. Ao falarmos da religião de Umbanda e das religiões Afro-brasileiras ou afro-descendentes como preferem alguns, não podemos nos envolver com conceitos cristãos de pecado, haja vista não fazer parte de nosso universo religioso.

Estas religiões, desde que existem, têm normas que lhes norteiam, mas que nem sempre são do conhecimento e observância de seus sacerdotes, pois cada Babalorixá /Iyalorixá ou Dirigente Espiritual cuida de colocar suas próprias normas dentro de suas Casas. Isto ocorre até porque não temos um único Mandatário Supremo, todos são supremos em seus Axés. Porém, isto não impossibilita que todos se unam para zelar pelos “Códigos de Ética” que sempre existiram, muito embora a idéia seja que só agora estamos criando essas normas. Ocorre que para isto todos são chamados a observar e cumprir com essas posturas, passarmos para nossos filhos e simpatizantes aí já estaremos ajudando e muito para que a religião tenha seu lugar de respeito e credibilidade. Como disse, tenta-se por no papel aquilo que na prática já existe e só precisa ser observado.

Vejamos, pois que normas, que códigos devemos observar:

1. É imperativo que dentro da Umbanda e dos Cultos Afro-brasileiros, todos estejam preocupados em manter a tradição religiosa e cultural de seu grupo, sem misturas e enxertos, sem junções e adições absurdas e desastrosas e que estas mesmas religiões deixem de se preocupar apenas com a parte litúrgica, para também se dedicarem ao bem-estar das pessoas, da comunidade como um todo, do país, do mundo, e também que esteja sempre presente a preocupação na preservação do meio ambiente, lembrando que somos uma religião ecológica por excelência.

2. Precisamos aprender a respeitar a nação do outro, pois todos os segmentos têm origem em comum na Mãe África, cultuam Orixá, Vodun, Nkissi, Bacuro, Encantados e Guias que são muito queridos e amados por seus adeptos. O desrespeito à liturgia e ao ritual de cada um incorre num grande mal para toda a comunidade afro-brasileira.

3. Precisamos ter respeito com os mais velhos, com os Agba da religião, com nossos ancestrais. Vêem-se hoje em dia pessoas novas chamando a atenção e querendo ensinar os mais antigos. Se os mais velhos não souberem nada, o que diremos dos novos? Pensamos que se precisa de entendimento e muito diálogo entre as gerações a fim de se tirar o melhor proveito. Mas tudo com seriedade e dignidade.

4. Em todos os grandes eventos (Congressos, Seminários, Encontros etc.), deve-se ter um Cerimonial adequado para se ver “quem é quem”, dando-se as devidas precedências e evitando-se constrangimentos ao se destacar, por exemplo, um filho em detrimento de seu pai. É antiético.

5. Nas festas religiosas (Toques), devemos nos preocupar com nossos convidados e dar-lhes a atenção devida, também fazendo com que todo o Egbé saiba se portar e respeitar. É desagradável chegarmos a lugares onde muitos torcem a cara e ignoram aqueles que com carinho ali estão para prestigiar e participar.

Urge que conversemos com nossos Sacerdotes e adeptos para que não confundam religião com “questões sexuais”. Graças à Avievodum, Olodumare, Zambiapongo, temos uma religião liberal que não nos castra. Entretanto, muitos se aproveitam de seus cargos e postos para desfilarem frustrações sexuais e travestirem nossa Religião colocando-nos em descrédito perante as autoridades e à própria sociedade; Devemos lutar pela união sincera e verdadeira das pessoas interessadas na preservação dos nossos segmentos religiosos.

A discórdia, a desunião, a intriga só enfraquece a própria religião. Cada um deve fazer sua parte, com critérios, com seriedade, com dignidade. Não devemos nos ver como concorrentes, mas como membros unidos de um mesmo corpo. Precisamos acabar com a idéia de que um é melhor que o outro. Para nossos Deuses somos todos iguais. Será, por exemplo, que meu Vodum Toy Azonce só gosta de mim e não gostará de outros seus filhos? Será que Odé, Oxossi, Águè só ama um filho e esquece os outros? Não, certamente que não, o problema é individual, é pessoal, é falta de boa formação, de bom berço; Vamos lutar para que os congressos sejam fóruns de grandes decisões, de momentos de verdadeiras reflexões, de congraçamentos, de bons e felizes reencontros e não que deixemos nossos lares para nos digladiar.

Não devemos confundir pontos de vista diferentes com geração de ódio. Isso não é ético; Vamos valorizar com toda sinceridade as diferentes formas tradicionais dos cultos afros. Lutemos por uma união e não por uma unidade.

Daí o lema da INTECAB que é a “união na diversidade”; Resgatemos a língua de cada culto e devemos usar nossos títulos corretamente. Jamais se deve estimular o absurdo, a invencionice, títulos inadequados. Por exemplo: não é ético chamarmos uma Sacerdotisa de Umbanda de Iyalorixá, pois esta não foi iniciada e nem inicia ninguém. Seu grande valor está em ser uma Dirigente Espiritual, uma digna Babá de Umbanda sem nenhum demérito de seu potencial espiritual e material;

Todos têm o dever de recusar a efetivação de rituais religiosos que firam sua tradição de origem e sejam contrários aos ditames de sua consciência;

É de suma importância zelar pela dignidade da tradição e cultura Afro-brasileira em todos os seus níveis de desdobramentos, sendo este o papel preponderante de todos os verdadeiros Sacerdotes;

Somos todos tradicionalistas: da Umbanda, do Kêtú, do Mina Jêje, do Ifon, da Angola, do Jêje Mahi, do Omolocô, do Nagô Egbá, do Alakêtú, do Mina Nagô, da Encantaria, da Tradição de Orixá ou do Fanti-Ashanti, desde que sigamos nossos rituais e costumes legados por nossos antepassados. Esta é uma postura ética que precisa ser levada em conta;

A exploração que alguns sacerdotes fazem com seus filhos é imoral, antes de ser ética, e precisa de grandes reflexões. Tenta-se criar a idéia de que quanto mais dinheiro, mais axé, e assim torna-se comércio. “Cobrar “salva” ou chão” é entendido como axé, mas exploração é caso de polícia;

Outro tema polêmico e delicado diz respeito à quebra de tabus religiosos, incluindo-se nestes os relacionamentos sexuais entre pais e filhos de uma mesma casa. Comete-se o incesto; Finalizamos abordando a questão do “Jogo de Búzios” antes exercido somente por grandes e sábios sacerdotes e sacerdotisas, de forma extremamente sagrado, e hoje feito em praças públicas, viadutos, feiras esotéricas, shoppings, sem falar no “disque búzios” e “0900”, que tanto entristecem os tradicionalistas.

(Palestra apresentada no 1º Congresso de Cultura Afro-Brasileira, Uberlândia, MG, Set./1999) Toy Vódunnon Francelino de Shapanan

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Exú Não É O Diabo

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“… E o Anjo Lúcifer, de rara beleza, quis ser o filho de Deus na Terra. Mas Deus recusou. Lúcifer, então, revoltou-se contra o Todo Poderoso e foi banido dos Céus, com os seus fiéis e confinado ao Inferno, onde ficaria para todo o sempre…”

A Mitologia cristã, então, deu nome aos dois, ou seja, explicou a existência do Bem e do Mal, embora jamais admita que ambas as forças são de igual peso, pois assim admitiria que Lúcifer, o Anjo banido do Céu, teria o mesmo poder que o criador. Convenhamos que ficaria bastante difícil…

Assim, o homem criou a imagem do Diabo, Demónio, Satanás, Capeta, Cão, ou outro qualquer sinónimo ou adjectivo que queiram aplicar-lhe.

Teria então, o Diabo, a imagem repugnante de um homem de chifres, com asas de morcego, pés de bode, corpo avermelhado, dentes pontiagudos e dotado de uma maldade infinita.

A Igreja correlacionou, então, o Diabo cristão com o Exú dos Africanos, mostrando que nós, seguidores da cultura Africana, adoramos também o Capeta. E praticamente conseguiram perpetuar essa imagem e passá-la para a Umbanda, que tem, nas casas de Exú, imagens como aquelas que descrevi do Diabo.

Existem até aqueles que fazem uma relação de variações de Demónios cristãos como Asmodeus, Belzebu e Lúcifer, com Exús Africanos como Exú Tiriri, Exú Lalu, Exú Marabô, por exemplo. Mas isso não passa de um equívoco. Não chega a ser, nem de longe, sincretismo, muito menos uma equivalência.

A imagem do Diabo foi criada pelos cristãos. O mal assim ganhou forma, e hoje, a quase totalidade da humanidade acredita nesta figura temida, horrorosa e repugnante do Diabo.

Colocando de lado as questões de “Deus e Diabo”, temos que admitir que existe o equilíbrio de forças do Bem e do Mal dentro de cada um de nós. Desenvolvemos aquela que mais nos fascina, mas não culpemos o Diabo, nem mesmo a Deus, pois temos o livre-arbítrio para escolher a nossa conduta. Desenvolvemos as duas forças dentro de nós, nas mesmas proporções, se quisermos, pois podemos ser bons ao extremo, e maus, na mesmíssima proporção.

Tudo o que é bom, tem um lado mau. E vice-versa. O homem é que delineia isso, aliado às condições sociais, ou através do seu interior, que pode tender para qualquer lado ou em qualquer direcção.

Fica assim o Diabo, como representação “folclórica” de tudo aquilo que não presta, de tudo aquilo que é contrário aos dogmas da Igreja e tudo aquilo que é, decididamente, Mal. Fica o Diabo como símbolo de todos os crimes, destruições, situações adversas e maldades existentes no mundo, pois a preguiça do homem – que por sinal é obra do “Capeta” – não permite que ele veja os pólos opostos que, óbvia e logicamente, existem no Universo, incluindo o planeta em que vivemos.

Então, “o Diabo que os carregue”, pois prefiro ver as coisas de forma mais lógica e transparente. Prefiro olhar para a Natureza, admirá-la, estudá-la, para que possa, como muitos que pensam desta maneira, encontrar a harmonia plena e definitiva.

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Sacrifício

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No Candomblé, a maioria das “obrigações” são acompanhadas de “matança” de animais de várias espécies.

Esta cerimónia é uma das mais importantes dentro do preceito Africano. Para ela, são exigidos vários requisitos a quem as pratica.

Por esta razão, dentro da organização de um terreiro, há sempre uma pessoa, além do Babalorixá ou Yalorixá, especializada para isso. É o Axogun ou o “mão-de-faca”. Dele depende o êxito do sacrifício e a aceitação por parte do Orixá do animal sacrificado.

Uma matança mal feita é rejeitada e, muitas vezes o Orixá, a quem a matança se destina, cobra-a em dobro, ou em triplo. Assim se pode avaliar a responsabilidade do seu executor.

Por isso também, o Babalorixá ou Yalorixá tem o máximo cuidado ao prepará-lo para a função; e é claro, que só poderá ser Axogun uma pessoa que seja “feita”, fazendo parte do seu aprendizado essa parte tão importante.

O Axogun precisa conhecer o modo pelo qual deverá executar a matança para qualquer dos Orixás, bem como, os pontos adequados. É indispensável que saiba o animal que compete a cada Orixá, bem como, a cor e o sexo correspondentes.

Muita gente pensa que, pelo facto de ter “visto” matar algum animal está apta para realizar o mesmo sacrifício. E desanda a fazer “sacrifícios” a torto e a direito!… O resultado é sempre triste, tanto para o executor como para quem se deixar induzir por pessoas de tal irresponsabilidade!

É necessário receber o preceito de “mão-de-faca” dentro do cerimonial adequado. Sem ter “recebido” esse preceito, não poderá, em hipótese alguma executar sacrifícios, e muito menos, dar “mão-de-faca” a alguém. Quem poderá dar o que não tem?

Todo aquele que desejar completar a sua “obrigação”, a fim de se tornar de facto sacerdote, terá que receber, indispensavelmente, a sua “mão-de-faca”, sem o que, nunca poderá trabalhar satisfatoriamente.

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Bori

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Da fusão da palavra Bó, que em Ioruba significa oferenda, com Ori, que quer dizer cabeça, surge o termo Bori, que literalmente traduzido significa “ Oferenda à Cabeça”. Do ponto de vista da interpretação do ritual, pode-se afirmar que o Bori é uma iniciação à religião, na realidade, a grande iniciação, sem a qual nenhum noviço pode passar pelos rituais de raspagem, ou seja, pela iniciação ao sacerdócio. Sendo assim, quem deu Bori é (Iésè órìsà).

Cada pessoa, antes de nascer escolhe o seu Ori, o seu princípio individual, a sua cabeça. Ele revela que cada ser humano é único, tendo escolhido as suas próprias potencialidades. Odú é o caminho pelo qual se chega à plena realização de Orí, portanto não se pode cobiçar as conquistas dos outros. Cada um, como ensina Orunmilá – Ifá, deve ser grande no seu próprio caminho, pois, embora se escolha o Orí antes de nascer na Terra, os caminhos vão sendo traçados ao longo da vida.

Exú, por exemplo, mostra-nos a encruzilhada, ou seja, revela que temos vários caminhos a escolher. Ponderar e escolher a trajectória mais adequada é a tarefa que cabe a cada Orí, por isso, o equilíbrio e a clareza são fundamentais na hora da decisão e é por intermédio do Bori que tudo é adquirido.

Os mais antigos souberam que Ajalá é o Orixá funfun responsável pela criação de Orí. Desta forma, ensinaram-nos que Oxalá deve ser sempre evocado na cerimónia de Bori. Iemanjá é a mãe da individualidade, e por essa razão está directamente relacionada com Orí, sendo imprescindível a sua participação no ritual.

A própria cabeça é a síntese dos caminhos entrecruzados. A individualidade e a iniciação (que são únicas e acabam, muitas vezes, configurando-se como sinónimos) começam no Orí, que ao mesmo tempo aponta para as quatro direcções.

OJUORI – A TESTA

ICOCO ORI – A NUCA

OPA OTUM – O LADO DIREITO

OPA OSSI – O LADO ESQUERDO

Desta mesma forma, a Terra também é dividida em quatro pontos: norte, sul, este e oeste; o centro é a referencia, logo, todas as pessoas se devem colocar como o centro do mundo, tendo à sua volta os quatro pontos cardeais: os caminhos a escolher e a seguir. A cabeça é uma síntese do mundo, com todas as possibilidades e contradições.
Em África, Orí é considerado um Deus, aliás, o primeiro que deve ser cultuado, mas é também, juntamente com o sopro da vida (emi) e o organismo (ese), um conceito fundamental para compreender os rituais relacionados com a vida, como o Axexê (asesé). Nota-se a importância destes elementos, sobretudo o Orí, pelos Orikis com que são invocados.

O Bori prepara a cabeça para que o Orixá se possa manifestar plenamente. Entre as oferendas que são feitas ao Orí algumas merecem menção especial.

É o caso da galinha de Angola, chamada Etun ou Konkém no Candomblé; ela é o maior símbolo de individualização e representa a própria iniciação. A Etun é adoxu (adosú), ou seja, é feita nos mistérios do Orixá. Ela já nasce com Exú, por isso se relaciona com o começo e com o fim, com a vida e a morte, por isso está no Bori e no Axexê.

O peixe representa as potencialidades, pois a imensidão do oceano é a sua casa e a liberdade o seu próprio caminho. As comidas brancas, principalmente os grãos, evocam fertilidade e fartura. Flores, que aguardam a germinação, e frutas, os produtos da flor germinada, simbolizam a fartura e a riqueza.

O pombo branco é o maior símbolo do poder criador, portanto não pode faltar. A noz cola, isto é, o obi é sempre o primeiro alimento oferecido a Ori; é a boa semente que se planta e se espera que dê bons frutos.

Todos os elementos que constituem a oferenda à cabeça exprimem desejos comuns a todas as pessoas: paz, tranquilidade, saúde, prosperidade, riqueza, boa sorte, amor, longevidade, mas cabe ao Orí de cada um eleger as prioridades e, uma vez cultuado como deve ser, proporciona-as aos seus filhos.

Nunca se esqueça: Orixá começa com Orí.

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ÀBÍKÚ

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Sucessivos abortos numa mesma mulher, partos seguidos da morte da criança recém nascida, morte de crianças ou jovens, repentinas e associadas a estágios significativos de vida, tais como mudanças nas fases de crescimento, aniversários, casamento ou nascimento do primeiro filho, são identificados como acontecimentos ligados aos Àbíkú.

O que é “Àbíkú”?

A tradução literal é “nascido para morrer” (a bi ku) ou “o parimos e ele morreu” (a bi o ku), designando crianças ou jovens que morrem antes de seus pais. Há, assim, dois tipos de Àbíkú: o primeiro, Àbíkú – omode, designando crianças e o segundo, Àbíkú – Agba, referindo-se a jovens ou adultos que morrem, via de regra, em momentos significativos de suas vidas e sempre antes dos pais, apresentando nisso uma alteração da ordem natural que socialmente é aceita e entendida como: aqueles que chegaram ao Aiyé (mundo físico) primeiro, voltam primeiro ao Orún (mundo espiritual). Nessa questão, além da lógica natural, está presente a garantia da continuidade no Aiyé e a certeza da lembrança e do culto ao ancestral que deixa descendentes que recontarão sua história ao longo dos tempos, garantindo sua “sobrevivência” na comunidade.

No Orún vive um grupo de crianças chamadas Emere ou Elegbe e este grupo constitui o Egbe Orún Àbíkú, ou seja, sociedade das crianças que nascem para morrer. Contam os mitos que a primeira vez que os Àbíkú vieram para a terra foi em Awaiye e constituíam um grupo de duzentos e oitenta, trazidos por Alawaiye, chefe deles no Orún. Na encruzilhada que une o Orún ao Aiyé, ikorita meta, todos pararam e vários pactos foram feitos, definindo o momento particular do retorno de cada um ao Orún. Alguns voltariam quando vissem pela primeira vez o rosto da mãe, outros quando casassem, um terceiro grupo voltaria quando completassem determinado tempo de vida, um quarto grupo voltaria quando tivessem o primeiro filho, e assim por diante. E o carinho dos pais, o amor que recebessem ou os presentes não seriam capazes de retê-los no Aiyé. Alguns assumiram o compromisso de que nem nasceriam. Esse pacto deveria ser cumprido e os seus companheiros no Orún manterem-se presentes na sua vida, interagindo no seu dia a dia, para que não o esquecessem e retornassem ao Orún tão logo o momento pactuado ocorresse.

Como chega a ocorrer o nascimento ou a manifestação de um Àbíkú em uma gravidez? O Ioruba acredita que a acção do Àbíkú ocorre por determinação do destino da mãe, ou por força de magia/feitiçaria, ou por condições acidentais. O Prof. Sikiru Salami e a Profa. Dra. Iyakemi Ribeiro, na sua monografia “Ayedungbe: a terra é doce para nela se viver – rito na luta contra a morte de Àbíkú”, definem essas condições acidentais como “aquisição inadvertida de um Àbíkú por uma mulher grávida que não tenha tomado os necessários cuidados para evitar isso”. Existe a crença de que uma mulher grávida, ao passar por determinados locais em que os Àbíkú se estabelecem, se não estiver devidamente protegida, pode ver-se invadida por este “espírito” e tornar-se sujeita à gravidez de um Àbíkú. Por isso cuidados especiais são tomados pelas mulheres tão logo tenham consciência do estado de gravidez. Não é raro que mulheres grávidas carreguem junto a barriga um “ota”, devidamente preparado, para evitar essa “invasão” por parte de um Elegbe. Sacrifícios, oferendas e rezas são feitas também com o objectivo de evitar que uma mulher tenha filhos Àbíkú ou que, grávida, venha a ser “invadida” por um deles.

Deixando de lado condições acidentais ou efeito de magia/feitiçaria, temos observado que a ocorrência de Àbíkú numa mãe invariavelmente repete uma história familiar que podemos reconhecer procurando os seus antecedentes. Ou seja, podemos procurar nos antecedentes familiares da mãe para constatar, invariavelmente, que este Àbíkú vem se fazendo presente na família, geração após geração, em linha directa ou não.

Outra questão interessante é que podemos afirmar com grande precisão que alguns Odú de nascimento predispõem a ocorrência de Elegbe. Assim, temos que mulheres regidas pelo Odú Ogundabede (Ogunda + Ogbe) são naturalmente predispostas a gerarem filhos Àbíkú e, identificadas, quando ainda não são mães, certas oferendas são realizadas e alimentos são-lhes dados para prevenir a ocorrência. Ebó igualmente é feito nas situações em que já geraram filhos ou planejam gerar – um preá é colocado acima da porta de entrada da casa e um peixe acima da porta de trás, para proteger os moradores da visita dos Elegbe que ali vêm em busca de seus companheiros. Neste caso, deixam de ter acesso ao interior da casa e levarão, no lugar da pessoa que vieram buscar, o preá e o peixe. Um Orin Egbe , cantiga dedicada a Aragbo ou Ere Igbo, Orixá protector das crianças Àbíkú, fala-nos desse Ebó.

Entendemos, assim, que Egbe é cultuado e louvado com a finalidade de defender as crianças da morte prematura e oferendas lhe são feitas para que “desistam” de levar os Àbíkú de volta para o Orún, sendo um de seus objectivos a questão da manutenção dessas crianças no Aiyé. Segundo o Prof. Sikiru Salami e a Profa. Dra. Iyakemi Ribeiro, na obra já citada, “… Estabelece-se assim um jogo de forças entre Aragbo e a comunidade de Àbíkú que deseja levar seus membros do Aiyé, mundo físico, para o Orún, mundo dos mortos, mundo espiritual.

Cultos e oferendas são realizados tanto para que a comunidade de Àbíkú abra mão de levá-los de volta, como para que Ere igbo os proteja de serem reconduzidos à terra espiritual.” Todas as pessoas nascidas dentro do Odú Ogundabede, homens e mulheres, devem cultuar Egbe. Entende-se também que quem o cultua evoca as suas bênçãos em benefício das crianças do núcleo familiar. Aliás, o culto de Egbe e suas festas trazem muita semelhança com as festas e o culto que se fazem para “Cosme e Damião” e que são, muitas vezes, confundidas com o culto do Òrìsà Ibeji. Este Òrìsà e Egbe (ou Aragbo) são de distintas naturezas, justificam abordagens e tratamentos diferenciados, têm formas particulares de serem louvados, são cultuados por diferentes razões e necessidades, e os seus cultos não podem ser confundidos sob pena de incorrermos em erro de fundamento.

Por último, dois aspectos são importantes de serem nomeados: o primeiro, diz respeito ao que podemos chamar de comportamento peculiar da criança Àbíkú. São, certamente, crianças que se distinguem por este aspecto. Segundo, a resistência, na nossa cultura, que os pais têm em aceitar o facto de terem um filho Àbíkú e a dificuldade consequente em lidar com esta criança e todas as necessidades decorrentes da luta pela sua permanência no Aiyé. Cabe aí um importante papel para o sacerdote que pode ajudá-los a compreender a questão, dar-lhes orientação e acompanhamento durante todo o processo.

Texto de José Ribas

Por Fernando D’Osogiyan
O têrmo Abikú não se pontua apenas à aqueles que nascem para morrer, como determina o conceito Yurubá, pois sendo assim todos nós seríamos Abikús. Costumo dizer, para exemplificar, que Abikú tem qualidade, ou seja, existem vários tipos de abikú e formas de atuação e agregação, numa mesma concepção.

Pode-se cuidar de uma criança Abikú, fazendo-a conviver normalmente entre os seus fazendo oferendas, ebós, tratamento do Orí que são capazes de reter no mundo o Abikú e de lhe fazer esquecer sua promessa de volta, rompendo assim o ciclo de idas e vindas constantes entre o Orun e o Aiye, fazendo pactos também.

Os Abikús tem influência na família, são poderosos manipuladores, videntes, espíritos envelhecidos, atitudes de adulto, etc.

A energia de um Abikú pode rondar uma gravidez, muitos rompimentos e perda de bebê estão relacionadas, porém, não se pode confundir falta de cuidados e tratamento adequado na gravidez com Abikú. Quando o zelador observa através do jogo a presença de Abikú, o tratamento começa no ventre da mãe com as obrigações necessárias e ebós, através de Oxun, Orí, Exú, Egungun, Oxalá.

Existem também os Orixás Abikús Oxalá e Nanã, pois regem a vida e a morte nos dois planos de vida e energia, sendo assim, todas as pessoas de Oxalá e Nanã são Abikús, inclusive a própria iniciação os diferencia como especiais. Mas, independente disso, outras pessoas de qualquer outro Orixá pode ser da família Abikú, a família Kóreo.

Um conceito interessante, que vale uma reflexão é que: uma pessoa pode introduzir em sua vida o espírito abikú, quando antecipa os seus ciclos naturais em função da ambição ou opções de vida. Isto a levará a tornar-se um Abikú, pois certamente terá a data da sua morte antecipada.

Abikú é muito mais do que se pode imaginar, sem dúvida alguma, há conceitos, preceitos, ewós, etc, e deve ser tratado simultâneamente no mundo visível e invisível.

Awúre Kóreo, axé.

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As Ervas dos Orixás

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As ervas detém grande quantidade de Axé (Energia mágica-universal, sagrada) e quando bem combinadas entre si, detém forte poder de limpeza da aura e produzem energia positiva.

Um banho, com o Axé das ervas dos Orixás do Candomblé, age sobre a aura eliminando energias negativas, produzindo energias positivas.

Um banho de ervas reúne as ervas adequadas a cada caso, agindo directamente sobre esses distúrbios, eliminando os sintomas provocados pelo acumulo de energias negativas.

Ervas indicadas para preparar um banho

Nesta relação, encontra as ervas mais utilizadas, e que são mais facilmente encontradas para uso.

Estão listadas com a nomenclatura popular, a científica e Iorubana, indicando-se também para que orixás se destinam, ou são normalmente usadas.

– Babosa – aloe vera – Exú – ipòlerin, ipè erin
– Melão são caetano- momordica charantia – Oxumaré, Nanã – èjìnrìn, wéwé
– Saião/Folha da costa – kalanchoe brasiliensis – Oxalá – òdundún, elétí
– Erva de santa luzia – pistia stratoides (stratiotes) – Oxum – ójuóró
– Nenúfar/lótus – nymphaea (lótus) alba – Oxum – òsíbàtà
– Pimentinha d’Água /Jambu – spilanthes acmella (filicaulis) – Oxum – éurépepe, awere        pepe, ewerepèpè
– São gonçalinho – cassiaria sylvestris – Ogum, Oxóssi – alékèsì
– Sete sangrias – cuphea balsamona – Obaluaiyê – àmù
– Tapete de oxalá (boldo) – peltodon tormentosa – Oxalá – ewé bàbá
– Bete cheiroso – piper eucalyptifolium – Oxalá – ewé boyi
– Goiabeira – psidium goiava – Oxóssi, Ogum – àtòrì, gúábà
– Mamona – ricinus communis – Exú, Ossaim – lárà funfun, ewé lará
– Mamona vermelha – ricinus sanguneus – Exú, Ossaim – làrá pupa
– Peregun – dracaena fragans – Ogum, Oyá – pèrègún
– Alumon – vernonia bahiensis (amugdalina) – Ogum – ewúro jíje
– Carqueja – borreria captata – Oxóssi – kànérì
– Umbauba/embaúba – cecropia palmata – Nanã, Xangô, Oyá – agbaó / agbamoda
– Perpetua – alternanthera phylloxeroides – o seu Exú – èkèlegbárá
– Gameleira branca – ficus maxima – Tempo (Iroko), Xangô
– Canela de velho – molonia albicans – Omulú
– Macassá – tanacetum vulgaris – Oxum, Oxalá
– Melissa – melissa oficinalis – Oxum
– Kitoko – pluchea quitoco – Xangô – obalu
– Para raio/cinamomo – melia azeoarach – Oyá – ekéòyìnbó
– Beti branco/agua de alevante – renealmia occidentalis sweet – Oxalá – kaiá
– Alfavaca (erva doce) – ocimum guineensis – Oxalá – efínrín èrùyánntefé
– Folha da fortuna – bryophylum – Exú – eru oridundun, àbá modá
– Espada de yansã – rhoeo – Oyá – ewé mesán
– Aroeira branca – litrhea – Ogum
– Poejo -mentha sp – olátoríje
– Erva prata
– Picão – elésin máso
– Patchouli – Exú – ewé legbá
– Anis – clausena anisata – Oyá – agbásá, àtàpàrí òbúko
– Aroeira – schinus sp – Ogum
– Alecrim – rosmarinus officinais – Oxóssi – sawéwé
– Araça – psidium sp – Oxóssi – gúrófá
– Guiné – petiveria alliacea – Oxóssi – ojusaju
– Louro – laurus nobilis – Ossain – ewe asá

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