Na Umbanda, os Orixás e os Guias foram organizados em 7 linhas principais, que chamamos de “os 7 Orixás Maiores”. Cada linha
possui 7 divisões (vibrações), que chamamos de “Orixás Menores”, e cada Orixá Menor, possui 7 guias subordinados, e assim por diante.
Os Orixás Maiores são espíritos extremamente evoluídos, acredita-se na Umbanda, que não é possível o contato direto com eles.
Por isso cada linha de Orixá, envia para trabalhar na Terra os Guias, que são entidades trabalhadoras, que vem de Aruanda ajudar seus
filhos, nos livrando de demandas e transmitindo bons fluidos.
São eles os Guias, nossos conhecidos Pretos Velhos, Caboclos, Crianças, Baianos, Marinheiros, Boiadeiros, Povo da Água, Povo do
Oriente, etc. Cada entidade trabalha dentro de uma linha especifica, por exemplo, O Sr. Caboclo Cobra Coral, trabalha na vibração de
Oxossi, o Sr. Caboclo Pedra Preta na vibração de Xangô, as Crianças na vibração de Ibeji (Yori), e assim por diante. Cada entidade
trabalha na linha que sua vibração mais se idntifica. Por isso é errado o termo “Linha do Oriente” ou “Linha dos Baianos”, o correto é
“Povo do Oriente” e “Povo da Bahia”.
Os Pretos Velhos trabalham tanto na Linha de Xangô, como na Linha de Obaluaiê (Yorimá), isso dependendo de sua vibração. Quanto ao
Povo da Bahia, podem vibrar em qualquer linha, há registros dessas entidades trabalhando na Linha de Oxalá, por exemplo. Todos eles
são entidades de grande valor.
As entidades não comandam Exus, a não ser que participarem de uma das 7 vibrações de um Orixá, por exemplo, a Linha de
Ogum vibra em 7 Orixás Menores, e cada um deles comanda um Exu especifico. Porém um Caboclo da linha de Ogum está
diretamente subordinado a um Orixá Menor.
Os Orixás Maiores são:
1ª. Linha – Oxalá
2ª. Linha – Iemanjá
3ª. Linha – Ogum
4ª. Linha – Xangô
5ª. Linha – Oxossi
6ª. Linha – Ibeji (Yori ou Erê)
7ª. Linha – Obaluaê (Yorima, nessa linha trabalham também
os nossos queridos Preto-Velhos).
Alguns cultos Umbandista, trabalham com algumas diferenças quanto aos Orixás Maiores, por exemplo, já foi notado nossa
querida Oxum como Orixá Maior, porém Oxum trabalha na linha de Iemanjá, sendo ela então um Orixá Menor, o que não desabona em
nada seu poder ou grandeza. Acredita-se que não existe Orixá mais ou menos importante. Também foi verificado alterações
quanto a ordem dos Orixás nas linhas.
Segundo alguns estudiosos, podemos encontrar ainda uma dupla de Orixás Maiores que comandam as linhas. Assim podemos ter:
Oxalá – par vibracional com Odudua
Iemanjá – par vibracional com Oxumaré
Ogum – par vibracional com Iansã *
Oxóssi – par vibracional com Obá
Xangô – par vibracional com Egunitá
Yori – par vibracional com Oxun *
Yorimá – par vibracional com Nanã *
* estas divindades tambem são representadas como orixás menores sendo Oxun e Nanã da linha de Iemanjá e Iansã da linha de Xangô.
Egunitá que é considerada orixá e pouco conhecida devido a falta de sincretismo com uma santa católica é por vezes confundida com Iansã, embora haja ligação entre elas, isso é uma precipitação. Egunitá é o polo feminino ligado ao fogo e Xangô é o masculino. Iansã por sua vez liga-se aos ventos e aos raios. Mas mesmo assim é comum a sitação Iansã Egunitá definida como a Iansã do Fogo.
Os pontos riscados de Umbanda são um exemplo de influência Jeje. Estes simbolos vem da cultura daomeana dos vevés ou símbolos de Vodún, usados principalmente no Vodu haitiano. Estes simbolos servem para chamar ou simplesmente representar a divindade a qual fazem referencia.
Há também uma divindade conhecida como Mãe Sinda que alguns chamam de Mãe Ondina (para alguns são duas divindades independentes), ligada a Iemanjá, que segundo alguns pesquisadores, seu nome é formado por Sin=água e Da (Dan)=serpente e está ligada à influência jeje.
“Oh Mamãe Sinda como é linda Olha a Sinda mamãe o que é Oh Mamãe Sinda mirongueira Olha a Sinda mamãe o que é”
Outra divindade que muito se discute na Umbanda é Nanã, por vezes chamada de Mãe Santana devido a seu sincretismo com Santa Ana, a avó de Jesus Cristo. Quando esta divindade manifesta-se na lei de Umbanda, vem como uma anciã, uma senhora muito velha e curvada pelo peso das Eras.
Bém, se alguém tiver alguma contribuição fico grato!
Está aqui publicado, no espaço mais de vocês do que nosso, mais uma grande ideia de um dos nossos leitores – o Eurico – que resgatou esse vídeo maravilhoso e nos deu a oportunidade de ouvir, ver ou rever o grande Pai Agenor Miranda e suas sábias palavras.
“Sou filha de Iansã, sou pintada, raspada, uso minhas contas onde passo e defendo meus orixás em todos os espaços que Deus deixou no mundo.” (Fonte da citação: bahianoticias.com.br)
O professor pediu o material de desenho, a custo o pai de Luislinda conseguiu comprar um, meio remendado. Pois bastou o professor ver o material para magoá-la para sempre. “Menina, deixe de estudar e vá aprender a fazer feijoada na casa dos brancos”. Ela chorou, ainda se emociona quando relembra, 58 anos depois. Mas tomou coragem e retrucou: “Vou é ser juíza e lhe prender”. A primeira parte, ela cumpriu. Em 1984, a baiana Luislinda Valois Santos tornou-se a primeira juíza negra do País. Não à toa, também foi quem proferiu a primeira sentença contra racismo no Brasil. Em 28 de setembro de 1993, condenou o supermercado Olhe Preço a indenizar a empregada doméstica Aíla de Jesus, acusada injustamente de furto. Aos 67 anos, lança em agosto seu primeiro livro, O negro no século XXI.
Como foi sua infância? Imagino que não tenha tido muitos recursos…
Faça uma pequena ideia (risos). Minha mãe era lavadeira e costureira e meu pai era motorneiro de bonde. Minha infância foi miserável, mas meus pais sempre primaram pela educação e pela nossa saúde. Quando eu tinha 9 anos, estava começando a estudar, um professor pediu um material de desenho e meu pai, coitado, não pôde comprar o que ele pediu, mas comprou outro. Quando cheguei à escola, feliz da vida, ele disse: “Menina, se seu pai não pode comprar o material, deixe de estudar e vá aprender a fazer feijoada na casa dos brancos”. Imagine como foi marcante pra mim (chora). Saí chorando. Mas sou muito impetuosa. Voltei, fui em cima dele e falei: “Não vou fazer feijoada para branco, não. Vou é ser juíza e lhe prender”. Em casa, ainda tomei uma baita surra do meu pai. Naquela época, não se podia desrespeitar professor.
Começou a trabalhar cedo?
Com 7 anos, quis aprender datilografia e, para pagar o curso, minha mãe sugeriu que eu lavasse aquelas fraldas de pano que se usava na época. Aí fiz isso. Mas, trabalhar realmente, comecei com 14 anos, como datilógrafa. Comecei na Companhia Docas da Bahia e, logo em seguida, minha mãe tinha acabado de morrer, me arrumaram um trabalho no DNER (Departamento Nacional de Estradas e Rodagem, hoje Dnit). Fui crescendo lá: trabalhei como escrevente, escriturária, chefe de orçamento. Estudei filosofia, não concluí, depois comecei teatro, mas meu pai não me deixou cursar, disse que era coisa de prostituta. Aí, um dia, decidi fazer direito. Já tinha uns 34, 35 anos. Me inscrevi e passei na Universidade Católica. Me formei aos 39 anos, no dia 8 de dezembro e, no dia 9, começaram as inscrições para o concurso de procurador do DNER. Passei em primeiro lugar no Brasil. Mas não pude assumir aqui.
Por que não?
A pessoa que passou em último também era daqui da Bahia. Como eu não tinha padrinho político, algumas autoridades me puseram numa sala e falaram: “Doutora, precisamos da sua vaga aqui. Vamos lhe oferecer Sergipe ou Paraná”. Aí falei: como vocês estão me mandando embora, vou logo para longe. Fui para o Paraná. Com 90 dias, o chefe da procuradoria de lá se aposentou e fui designada para a vaga dele. Morei lá quase 8 anos.
Li que, antes de estudar direito, a senhora participou de um concurso de beleza. Como foi isso?
Trabalhava no DNER, tinha uns 20 anos, e um dia me chamaram na diretoria e falaram: “estão abrindo um concurso da Mais Bela Mulata e você vai ser a nossa miss” (risos). Aí eles foram falar com meu pai. Era de maiô e tudo, imagine… Meu pai ficou bastante reticente, mas por fim pediu a seu Rangel, que era o chefe do administrativo, para assinar um documento se responsabilizando pela minha integridade física (risos). A integridade física da época era a tal da virgindade, a preocupação era essa. Teve várias etapas. As mais importantes foram no Forte de São Marcelo e na Rua Chile, que era o point. Ganhei como Miss Simpatia.
E como se tornou juíza?
Estava em Curitiba e vim de férias para cá, soube do concurso pelo jornal A TARDE, que meu pai comprou. Falei: pronto, é agora. No dia seguinte, fiz a inscrição e as provas. Aí, uma noite, o telefone tocou e a menina disse que eu tinha sido aprovada. Acordei meia Curitiba, né? (risos). O fato de ser a primeira juíza negra do Brasil só me dá responsabilidade. Até hoje só temos dois ministros negros nos tribunais superiores. Por que isso? A inteligência não é privacidade de nenhuma raça. Até porque só existe uma raça, a humana. Ser juíza não é difícil. É só ter bom senso, estudar de manhã, meio-dia, de tarde e de noite e gostar de lidar com gente. Não pode pensar que, só porque o cidadão é marginal, ele já merece estar enclausurado. Primeiro se vai ver por que aquele sujeito virou marginal. A sociedade é quem escolhe quem vai delinquir. E te digo mais: nesse momento, a sociedade escolheu que é o negro, pobre, jovem, da periferia. Na hora que se tem de condenar, se não tiver a quem condenar, se condena o negro, mesmo que ele ainda esteja no ventre da mãe.
A senhora falou que não é “porque o cidadão é marginal que já merece estar enclausurado”. A sociedade espera uma resposta, de todo modo.
A sociedade não colabora para que as pessoas não cheguem a delinquir. O que é que se tem de dar? Oportunidades. Primeiro, educação de qualidade e continuada. Imagine uma pessoa que tem oito, dez filhos, se depara uma manhã sem ter o pão para alimentar seus filhos. Se não tiver muito equilíbrio, faz bobagem.
Já se viu diante de um caso desse? Como a senhora agiu?
Já, no interior. Resolvi da seguinte forma: fui até o prefeito e consegui um serviço de jardinagem para ele. A pena que dei foi que, com o primeiro salário, ele pagasse o que tinha pego. Nunca mais ouvi falar que esse rapaz fizesse nada de ilegal. Digo sempre o seguinte: se tiver eu e uma loira juntas, o que sumir primeiro, fui eu que peguei. É sempre o negro que é o delinquente de hoje.
No seu trabalho como juíza, ainda sofre muito preconceito?
Sou a sétima juíza mais antiga do Estado e nunca consegui ser convocada para o Tribunal. Me sinto preterida. Tenho certeza de que já era para eu ser desembargadora há muito tempo, preencho todos os requisitos. Para se saber o que é racismo, é só ficar negro por 48h. Certa vez, no juizado de Piatã, aproveitei o tempo para arrumar uns processos. Chegou uma advogada e falou: ‘O juiz vem hoje?’. Eu aí fiz um sinal para a moça não dizer que era eu. A advogada ficou lá, reclamando que juiz nunca chegava na hora, coisa e tal. Na hora da audiência, subi, pus a toga e, quando ela me viu, não acertou fazer nada. Tive de adiar a audiência. Falei: ‘Tenha paciência, a senhora toma um chazinho de erva-cidreira e, amanhã, nós continuamos’. Precisa maior racismo do que esse?
A senhora proferiu a primeira sentença contra racismo no Brasil. Como foi a repercussão do caso?
Me lembro bem. Aíla Maria de Jesus foi a um supermercado e quando estava saindo, o segurança a humilhou, disse que ela tinha posto na bolsa um frango congelado e dois sabonetes. Ela falou que, se ele chamasse a polícia, ela abriria a bolsa. Aí, a polícia chegou e viu que não tinha nada. Na época, a repercussão foi que o feitiço virou contra o feiticeiro (risos). Comecei a receber ameaças, o pessoal ligava para a minha casa dizendo: “Onde é que essa negra faz supermercado?” Fiquei com medo e pedi afastamento, resolvi voltar para Curitiba. Aí fui ao banco com meu filho, me sentei e ele foi resolver as coisas para mim. Passou um tempo o segurança ficou me olhando, depois veio outro, depois veio o gerente. E eu lá sem saber o que fazer. Pensei: se eu me mexer para pegar minha carteira de juíza, eles podem pensar que eu estou armada e me matar. Quando meu filho voltou, criei alma nova. Ele falou: “O que é isso com minha mãe?”. E o gerente respondeu: “Ela ficou muito tempo aí sentada”. Chorei a tarde inteira.
No livro O negro no século XXI, a senhora diz que “a Justiça é inacessível ao negro pobre”. A senhora é uma das idealizadoras do Balcão de Justiça e Cidadania, que atende moradores das periferias. Isso vem melhorando?
Sim. Criei o Balcão de Justiça e Cidadania, o Justiça Bairro a Bairro, Justiça Itinerante da Bahia de Todos-os-Santos e o programa Justiça, Escola e Cidadania, para levar a Justiça às escolas públicas. Recebi em Brasília, em 2006, o Primeiro Prêmio de Acesso à Justiça, pelo trabalho desenvolvido pelo Balcão. A ideia é resolver conflitos pela mediação, inclusive divórcios, separações, pensão alimentícia, que são os casos mais frequentes. As pessoas acham que, para ir até a Justiça, têm de estar com uma roupa muito arrumada, mas não precisa nada disso. Hoje, trabalho no juizado da Unijorge, que eu implantei.
Por que a Justiça na Bahia é uma das mais lentas no Brasil?
Primeiro, temos um número pequeno de magistrados e um número inaceitável de desembargadores. No Paraná, que é bem menor que a Bahia, são 120 desembargadores. Aqui, são apenas 35. É humanamente impossível. E a falta de recursos colabora bastante negativamente.
O movimento negro muitas vezes pleiteia políticas específicas, como as cotas. Isso não fere a Constituição, que diz que “todos são iguais perante a lei”?
Não se pode igualar os desiguais. Tudo que é inferior é encaminhado ao negro. As cotas são importantes, mas não permanentemente, porque senão parece esmola. É enquanto se equipara o ensino público e privado. O problema é que a qualidade da escola pública não melhora.
A maioria das vítimas de homicídio em Salvador são jovens negros. Qual é a parcela de responsabilidade da Justiça? Há apenas duas varas do júri para julgar esses casos.
Depois da visita a presídios, resolvi criar um projeto: Inclua no trabalho e na educação e exclua da prisão, para ocupar os jovens da periferia. A televisão fica com aquele ‘compre, compre, compre’. O adolescente vê um tênis e quer adquirir, seja como for. Pai e mãe também não têm condições, saem para trabalhar, deixam o menino sozinho. O que acontece? O traficante vai e coopta. O poder público é culpado por não dar condições para as famílias terem uma vida mais digna. Isso tudo vai desaguar no Judiciário, e falta estrutura.
No livro, a senhora também fala sobre aborto. É a favor da descriminalização?
Acho que se trata o assunto olhando somente a mulher pobre. A mulher rica faz aborto a todo instante, mas isso não vem a público, ela não morre, nem é presa. Acho que tem de deixar de ser crime, sim. Ninguém aborta porque quer.
A senhora é de santo, e o pastor Márcio Marinho, da Igreja Universal, assina a contracapa do seu livro. Como é a relação de vocês?
Me criei no candomblé, sou filha de Iansã. Acho que, primeiro, não se deve olhar a religião da pessoa, mas sim quem ela é. Já fiz parcerias com a Igreja Universal, e eles sempre cumpriram o papel deles.
No Brasil, por mais que este termo tenha um caráter pejorativo, nefasto, nebuloso, assustador, na África a magia negra tem seus fins, a prática da Magia Negra entre os Yorubás envolve a crença em cura medicinal, envenenamentos, bruxarias, curanderismo, etc. A Magia era empregada com diversos fins tais como: feitiços para ganhar dinheiro, ter sucesso no amor, induzir pessoas ao erro, detectar veneno na comida na bebida, defesas contra armas, assaltantes, maldições, fazer chover e tantos outras magias.
Recorre-se a Magia Negra em casa de doença do filho cujo pai se encontra distante. Busca-se alguém para alcançar o pai e para trazê-lo a tempo, emprega-se uma magia negra denominada “Ka nako” (encurtamento de caminho). Assim, não há distinção nítida entre a medicina e a magia.
Qualquer pessoa pode praticar medicina entre os Yorubás. Os medicamentos preparados por médicos nativos são purgativos e, quase sempre, eficazes. Conhecem-se incluisve muitos métodos de tratamento da blenorragia…
Toda “oogun” (magia Negra) se baseia na botânica, como indica seu nome alternativo “egbogi” (raiz árvore) e na zoologia, devido às difilculdades de tradução, seria despropositado citar os diferentes tipos de doenças curadas através de Magia Negra e os ingredientes empregados com valor medicinal, entretanto, pode-se dizer que quando praticam como propósito de curar, a magia não pressupõe conhecimento exato de seus processos. Um indivíduo que prescreva alguns ingredientes pode não saber realmente seu mecanismo de atuaçãono organismo.
Segundo o professor Michel Ademola Adesoji, pode-se afirmar que muitas pessoas são testemunhas dos efeitos da Magia Negra, inclusive ele próprio foi vítima. Ele conta que em Ilexá, teve a oportunidade de assistir ao culto nacional a Ogun, ao qual comparessem pessoas de todos os lugares, longínquos e próximos. Ele diz que foi nessa ocasião que presenciou os efeitos da Magia Negra, já que, neste dia, praticaran-na uns sobreo os outros.
Dize-se que Sìjìdì, uma imagem feita de barro, pode executar tarefas para o mestre que o construiu, à noite, a imagem mata inimigos de seu mestre, por outro lado, este deve permanecer acordado até de manhã, senão corre o risco de ser morto por sua própria criação quando retornar.
Ilé Axé Oxumarê – Casa de Oxumarê, Sociedade Cultural, Religiosa e Beneficente São Salvador, localizada na Avenida Vasco da Gama, 343, bairro da Federação, antiga Mata Escura, Salvador, Bahia. Foi fundada inicialmente no Calundú do Obitedó, Cachoeira, Recôncavo baiano.
Tombado pelo IPAC – Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia em 15/12/2004.[1]
História
Casa de Oxumarê, Associação Cultural e Religiosa São Salvador – Ilê Oxumarê Araká Axé Ogodô, fundada por Manoel Joaquim Ricardo, Babá Talabi, entre o final do século 18 e inicio do séc.19, tem suas origens ligadas no culto à Ajunsun, praticado no Calundu do Obitedó, em Cachoeira – Ba. É considerada uma das casas mais antigas de candomblé abertas em Salvador. Localizada, atualmente, no bairro da Federação, com acesso também pela Av. Vasco da Gama, a Casa de Oxumarê foi reconhecida como patrimônio histórico pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia – IPAC, em 15 de dezembro de 2004.
A Casa de Oxumarê já teve o seu axé fincando em diversos locais. Inicialmente, entre os séculos XVIII e XIX, Manoel José Ricardo, Babá Talabi realiza o culto a Ajunsun, no Calundu do Obitedó, na cidade de Cachoeira, Bahia. Este é o marco de fundação da Casa de Oxumarê. Em 1830, registros documentais comprovam que a Casa de Oxumarê já realizava as suas atividades religiosas no bairro da Cruz do Cosme (atual bairro do Pau Miúdo), em Salvador. Para fugir das constantes perseguições, Antônio de Oxumarê transfere o Axé da Casa para o, então distante, bairro da Mata Escura, atual bairro da Federação.
As mudanças de locais de funcionamento da Casa de Oxumarê são fruto da sua resistência e a busca de assegurar a integridade dos seus filhos e filhas de santo. Contabilizando o seu nascimento no Calundu do Obitedó, a passagem pela Cruz do Cosme, e sua permanência na Mata Escura, atual bairro da Federação, a Casa de Oxumarê tem mais de 200 anos de existência.
[editar] Babalorixás e Iyalorixás
* 1 – Manoel Joaquim Ricardo – Babá Talábi de Ajunsun – Africano da Costa, funda o Ilê Oxumarê ainda em Cachoeira, no final do século XVIII. Morre em 20 de junho de 1865;
* 2 – Antônio Maria Belchior – Babá Salakó de Sangò – Conhecido como Antônio das Cobras – Nasce em 1839, é iniciado aos 6 anos, em 1845. Em 1863 assume a casa de Oxumarê, aos 24 anos. Falece, aos 65 anos, em 14 de janeiro de 1904, depois de administrar a Casa por 41 anos;
* 3 – Antônio Manuel Bonfim – Babá Antônio de Oxumarê – Conhecido como Cobra Encantada, em alguns momentos também denominado de Antônio das Cobras – Nasce em 1879, aos 7 anos, em 1886 é iniciado por Babá Salakó. Em 1904, aos 25 anos, assume a casa. Aos 45 anos, em 16 de junho de 1926, falece. Administra a casa por 22 anos;
* 4 – Maria das Merces dos Santos – Yá cotinha de Yewá – Nasce em 1886, aos 19 anos, em 1905 é iniciada. Aos 41 anos, em 1927 assume a casa e administra por 21 anos. Falece em 22 de junho de 1948, aos 68 anos;
* Mãe Francelina de Ogun
* 5 – Simplícia Brasiliana da Encarnação – Yá Simplicia de Ogum – Nasce em 2 de março de 1916, é iniciada aos 21 anos, em março de 1937. EM 1953, aos 37 anos, assume a Casa. Falece ao 51 anos, em 18 de outubro 1967. Dirigiu a Casa por 14 Anos;
* No período de 1967-1974 a casa ficou sem atividades.
* 6 – Nilzete Austricliano da Encarnação – Yá Nilzete de Yemanjá – Nasce em 28 de fevereiro de 1937. Aos 28 anos, em 14 de dezembro de 1965 é iniciada. Aos 37 anos, em 1974, assume a liderança da Casa. Falece aos 53 anos, em 30 de março 1990, após 16 anos de gestão;
* 7 – Sivanilton Encarnação da Mata – Babá Pecê de Oxumarê – Nasce, em 30 de agosto de 1964 e é iniciado com menos de 2 anos, em 14 de dezembro de 1965. Em 1991, assume a casa com 27 anos. Mais de 20 depois, ainda é a maior liderança da Casa.
Recentemente a Lei Estadual 8.297 de 30 / 07 / 2002 declara de Utilidade Pública a Casa de Oxumare, lei esta promulgada pela Presidência da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia.
Apoios oferecidos pela Prefeitura Municipal de Salvador:
Reforma do telhado do barracão – gestão da Prefeita Lidice da Mata;
Escadarias e contenções – gestão do Prefeito Fernando Wilson Magalhães;
OS PRIMEIROS TERREIROS DE CANDOMBLÉ por: Pierre Fatumbi Verger
A instituição de confrarias religiosas, sob a égide da Igreja Católica, separava as etnias africanas. Os pretos de Angola formavam a Venerável Ordem Terceira do Rosário de Nossa Senhora das Portas do Carmo, fundada na Igreja de Nossa Senhora do Rosário do Pelourinho. Os daomeanos (gêges) reuniam-se sob a devoção de Nosso Senhor Bom Jesus das Necessidades e Redenção dos Homens Pretos, na Capela do Corpo Santo, na Cidade Baixa. Os nagôs, cuja maioria pertencia à nação Kêto, formavam duas irmandades: uma de mulheres, a de Nossa Senhora da Boa Morte; outra reservada aos homens, a de Nosso Senhor dos Martírios.
Essa separação por etnias completava o que já havia esboçado a instituição dos batuques do século precedente e permitia aos escravos, libertos ou não, assim reagrupados, praticar juntos novamente, em locais situados fora das igrejas, o culto de seus deuses africanos.
Várias mulheres enérgicas e voluntariosas, originárias de Kêto, antigas escravas libertas, pertencentes à Irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte da Igreja da Barroquinha, teriam tomado a iniciativa de criar um terreiro de candomblé chamado Iyá Omi Àse Aira Intilè, numa casa situada na Ladeira do Berquo, hoje Rua Visconde de Itaparica, próxima à Igreja da Barroquinha.
As versões sobre o assunto são numerosas e variam bastante quando relatam as diversas peripécias que acompanharam essa realização. Os nomes dessas mulheres são eles mesmos controversos. Duas delas chamadas Iyalussô Danadana e Iyanassô Akalá, segundo uns, e Iyanassô Oká, segundo outros, auxiliadas por um certo Babá Assiká, saudado como Essá Assiká no padê do qual falaremos mais tarde, teriam sido as fundadoras do terreiro de Ase Aira Intilè. Iyalussô Danadana, segundo consta, regressou à África e lá morreu. Iyanassô teria, pelo seu lado viajado a Kêto, acompanhada por Marcelina da Silva. Não se sabe exatamente se esta era sua filha de sangue, ou filha espiritual, isto é, iniciada por ela no culto dos orixás, ou ainda, se se tratava de uma prima sua. As opiniões sobre o assunto são controversas e tornamse obejto de eruditas discussões, estando porém todos de acordo em declarar que seu nome de iniciada era Obatossí.
Marcelina-Obatossí fez-se acompanhar nessa viagem por sua filha Madalena. Após sete anos de permanência em Kêto, o pequeno grupo voltou acrescido de duas crianças que Madalena tivera na África, e grávida de uma terceira, Claudiana, que será por sua vez mãe de Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora, Oxum Miua, da qual tive a insigne honra de tornar-me filho espiritual.
Ianassô e Obatossí trouxeram de Kêto, além dessas filhas e netas, um africano chamado Bangboxé, que recebeu na Bahia o nome de Rodolfo Martins de Andrade, e, no padê ao qual me referi acima, é saudado como Essá Obitikô.
O terreiro situado, quando de sua fundação, por trás da Barroquinha mudou-se por diversas vezes e, após haver passado pelo Calabar na Baixa de São Lourenço, instalou-se sob o nome de Ilê Iyanassô na Avenida Vasco da Gama, onde ainda hoje se encontra, sendo familiarmente chamado de Casa Branca do Engenho Velho, e no qual Marcelina-Obatossí tornou-se a mãe-de-santo após a morte de Iyanassô.
Verifica-se ligeira divergência na versão dada por Dona Menininha relativa às origens dos terreiros provenientes da Barroquinha. O nome de Iyalussô Danadana não é mencionado. A primeira mãe-de-santo teria sido Iyá Akalá (distinta de Iyanassô), que, tendo regressado à África, aí mesmo veio a falecer. A segunda mãe-de-santo teria sido Iyanassô Oká (e não Akalá).
Não se sabe com precisão a data de todos esses acontecimentos, pois, no início do século XIX, a religião católica era ainda a única autorizada. As reuniões de protestantes eram toleradas só para os estrangeiros; o islamismo, que provocara uma série de revoltas de escravos entre 1808 e 1835, era formalmente proibido e perseguido com extremo rigor; os cultos aos deuses africanos eram ignorados e passavam por práticas supersticiosas. Tais cultos tinham um caráter clandestino e as pessoas que neles tomavam parte eram perseguidas pelas autoridades.
Por volta de 1826, a polícia da Bahia havia, no decorrer de buscas efetuadas com o objetivo de prevenir possíveis levantes de africanos, escravos ou livres, na cidade ou nas redondezas, recolhido atabaques, espanta-moscas e outros objetos que pareciam mais adequados ao candomblé do que a uma sangrenta revolução. Nina Rodrigues refere-se a certo quilombo, existente nas matas do Urubu, em Pirajá, “o qual se mantinha com o auxílio de uma casa de fetiche da vizinhança, chamada a Casa de Candomblé”.
Um artigo do Jornal da Bahia, de 3 de maio de 1855, faz alusão a uma reunião na casa Ilê Iyanassô: “Foram presos e colocados à disposição da polícia Cristovão Francisco Tavares, africano emancipado, Maria salomé, Joana Francisca, Leopoldina Maria da Conceição, Escolástica Maria da Conceição, crioulos livres; os escravos Rodolfo Araújo Sá Barreto, mulato; Melônio, crioulo, e as africanas Maria Tereza, Benedita, Silvana… que estavam no local chamado Engenho Velho, numa reunião que chamavam de candomblé”. É curioso encontrar nesse documento o nome, pouco comum, de Escolástica maria da Conceição, o mesmo com o qual seia batizada, trinta e cinco anos mais tarde, Dona Menininha, a famosa mãe-de-santo do Gantois, cujos pais, a essa época, sem dúvida, frequentavam ou faziam parte do terreiro de Ilê Iyanassô, onde houve essa ação policial.
Com a morte de Marcelina-Obatossí, foi Maria Júlia Figueiredo, Omonike, Iyálódé, também chamada Erelu na sociedade dos geledé, que se tornou a nova mãe-de-santo. Isso provocou serias discussões entre os membros mais antigos do terreiro de Ilê Iyanassô, tendo como consequência a criação de dois novos terreiros, originários do primeiro; Júlia Maria da Conceição Nazaré, cujo orixá era Dàda Báayànì Àjàkú, fundou um terreiro chamado Iyá Omi Àse Ìyámase, no Alto do Gantois, cuja mãe-de-santo atual, e quarta a ocupar este lugar, é Dona Escolástica Maria da Conceição nazaré, “Menininha”, a última das famosas mães-de-santo da antiga geração. Segundo Menininha, Júlia da Conceição Nazaré, fundadora do Terreiro do Gantois, teria sido a irmã-de-santo, e não filha-de-santo, de Marcelina-Obatossí. Uma personagem importante nos meios do candomblé, chamada Babá Adetá Okanledê, consagrada a Oxóssi e originária de Kêto, teria tido um papel importante quando foi criado o Terreiro do Gantois, Iyá Omi Àse Ìyámase.
Eugênia Ana Santos, Aninha Obabiyi, cujo orixá era Xangô, auxiliada por Joaquim Vieira da Silva, Obasanya, um africano vindo do Recife e saudado Essá Oburô, no Padê ao qual já fizemos alusão, fundaram outro terreiro saído do Illé Iavanassô e chamado “Centro Cruz Santa do Axê de Opô Afonjá”, que foi instalado, em 1910, em São Gonçalo do Retiro, depois do Axê ter funcionado provisoriamente no lugar denominado Camarão, no bairro do Rio Vermelho.
Sob o impulso desta grande Mãe de Santo, o novo terreiro rapidamente igualou – e talvez, mesmo, tenha ultrapassado – em reputação os outros candomblés Kétu.
Maria da Purificação Lopz, Tia Bada Olufandeí, sucedeu, em 1938, a Aninha e deixou, em 1941, o encargo do terreiro a Maria Bibiana do Espírito Santo, Mãe Senhora Oxunmiwá, filha espiritual de Aninha Obabiyi.
Pelo jogo complicado das filiações, Senhora era bisneta de Obatossí por laços de sangue e sua neta somente por laços espirituais da iniciação. Em outros termos, Iyanassô Akalá (ou Oká) foi, na geração anterior, ao mesmo tempo, a bisavó e a trisavó de Senhora. As coisas tornaram-se mais complicadas ainda quando Senhora recebeu, em 1952, o título honorífico de Iyanassô, dado pelo Alafin Oyó da Nigéria, por intermédio de uma carta de que tive a honra de ser o portador. Senhora, abolindo o tempo passado, graças a esta distinção, tornou-se espiritualmente a fundadora desta família de terreiros de candomblé da nação de Kétu, na Bahia, confirmando tão elevada posição em 1962, quando foi presidir, seguida de seus Ogans (onde figuravam os colaboradores desta obra, Carybé, Jorge Amado, Waldeloir Rêgo e eu mesmo), o Axexê ou cerimônia mortuária da saudosa, e mais que centenária, Mãe de Santo do Ilê Iyanassô da Casa Branca do Engenho Velho, Maximiana Maria da Conceição, Tia Massi Oinfunké.
Esta dignidade recebida da África por Senhora provocou, diga-se de passagem, comentários e rumores, os “fuxicos”que agitam e apaixonam as pessoas que pertencem a este pequeno mundo, cheio de tradição, onde as questões de etiqueta, de direitos fundamentados sobre o valor dos nascimentos espirituais, de primazias, de gradação nas formas elaboradas de saudações, de prosternações, de ajoelhamentos são observadas, discutidas e criticadas apaixonadamente; neste mundo onde o beija-mão, as curvaturas, as respeitosas inclinações de cabeça, as mãos ligeiramente balançadas em gestos abençoadores representam um papel tão minucioso e docilmente praticado como na Corte do Rei Sol. Os terreiros de candomblé são os últimos lugares onde as regras do bom tom reinam ainda soberanamente.
Após o desaparecimento da saudosa Mãe Senhora, em 1967, duas novas Mães de Santo lhe sucederam à frente do Axê Opô Afonjá. A atual Maria Estella de Azevedo Santos, Odé Kayodê, retornando a tradição de Iyanassô e de Obatossí, foi fazer uma viagem às fontes, na Nigéria e no ex-Daomé.
Após a morte de Senhora, outros terreiros foram criados, originários todos do Axê Opô Afonjá formando uma terceira geração desta família de candomblés que nasceu na Barroquinha. Citemos o Axê Opô Aganju, de Balbino Daniel de Paula, Obaraim, que viajou para África e aí participou das festas para Xangô, com perfeita naturalidade, como se sua família não houvesse deixado aquele país há várias gerações.
Existem numerosos outros terreiros que seguem o ritual Kétu, como o do Illé Mariolajê no Matatu, mais conhecido sob o nome de Alaketu, cuja Mãe de santo atual, Olga de Alaketu, já foi várias vezes à África. Citemos, ainda, o terreiro de Ilé Ogunjá, também no Matatu, do falecido Pai de Santo Procópio Xavier de Souza, Ogunjobí.
Ao lado dos terreiros Nagô-Kétu, há na Bahia os da nação Igexa. O mais digno dentre eles é o de Eduardo Igexa, ou Eduardo Antônio Mangabeira, meio-irmão de Otávio Mangabeira, que foi governador do Estado da Bahia. Durante a década de 50 ele enviou cartas redigidas em perfeito Yorubá a seu distante parente, o Rei de Igexá, que as recebeu de minhas mãos bastante emocionado. Os terreiros Gegê, onde se praticava o culto dos Voduns do Daomé, eram mais raros. O mais conhecido era o do Bogum, da falecida Emiliana Piedade dos Reis, à qual sucedeu a falecida Valentina Maria dos Anjos, Mãe Runhó.
Os cultos Gegê e Nagô se fundiam em terreiros como o de Oxumaré, na Rua Vasco da Gama, dos falecidos Antônio de Oxumaré, Cotinha e Simpliciana.
O ritual dos cultos de origem Bantu era inicialmente diferente das cerimônias Nagôs e Gegês. Misturaram-se, depois, tornando-se bastante próprios. A originalidade destes cultos Bantus é difícil de definir. Não se sabe se os rituais Gegê e Nagô foram ou não influenciados por escravos do Congo e de Angola, já presentes no Brasil em grande quantidade, no final do século XVII. Relações mais constantes estabeleceram-se nos séculos posteriores, entre Bahia e Pernambuco e a Costa dita dos Escravos; a maioria dos cativos desembarcados nestas duas províncias era constituída, então, pelos Gegês e Nagôs (Daomeanos e Yorubás).
Expusemos, em outras obras, as razões comerciais criadas pela presença do fumo na Bahia e em Pernambuco, razões que determinaram a afluência dos Gegês e dos Nagôs a estas duas regiões, a partir do século XVIII, e não às outras partes do Brasil, onde os Congos e Angolas continuaram a ser importados em grande proporção.
A palavra candomblé, que serve para designar, na Bahia, as religiões africanas em geral, parece ser de origem Bantu. É possível que as influências das religiões vindas destas regiões não se restringissem, apenas, ao nome dado às cerimônias, mas tivessem dado aos cultos Gegê e Nagô na Bahia uma forma diferente, em certos detalhes, destas mesmas manifestações na África.
Um estudo em separado do ritual Bantu é tarefa bastante difícil, pois seria necessário fazê-lo em diversos pontos do Brasil, em lugares onde esta influência Gegê-Nagô não se tivesse feito sentir. Na Bahia, temos que nos contentar com a presença de alguns cantos e rítmos de tambores. Seria necessário, também, localizar os termos Bantus ainda conhecidos, termos estes que os participantes de terreiros Bantus têm tendência a exprimir no seu equivalente Nagô, seja por espírito de discriminação, seja para falar numa língua compreensível aos seus interlocutores.
Existem na Bahia o terreiro Congo do falecido Manoel Bernardino da Paixão, o Bate Folha, no bairro de Beiru; o terreiro Angola da falecida Maria Neném do Tumbeuci, também no Beiru, e o de seu Filho de Santo, o falecido Manoel Ciríaco de Jesus, o Tumba Juçara, no Alto do Corrupio, hoje sob a direção da Mãe de Santo Dere.
Destaquemos, finalmente, o caso do falecido Pai de Santo João Alves de Torres, mais conhecido como Joãozinho da Goméa, que deve seu renome ao Caboclo Pedra Preta, e cujo culto, realizado à maneira africana, era dedicado aos ancestrais indígenas, Senhores desta Terra do Brasil. Iniciado no ritual Angola por Jubiabá, Joãozinho for herdeiro de uma Yansã e se orientou, cada vez mais, em direção ao ritual Nagô. Este caso nos parece típico da ascendência exercida pelo ritual Nagô sobre as religiões de etnias diferentes.
Na própria África, as religiões Bantus parecem centradas sobre uma série de devoções aos ancestrais de um grupo familiar reduzido e não sobre o culto de deuses ligados às forças da natureza. É possível que existissem estes tipos de cultos, mas, na Bahia, eles tomaram uma forma bem próxima da concepção Yorubá.
Entrevistado por Bruno Hoffmann para revista Almanaque Brasil, Zulú Araújo, despertou para importância da luta contra o racismo ao ouvir do seu pai, semianalfabeto: “Preto só é gente se estudar”. Mesmo tendo sido sempre o melhor aluno por onde passou, esse baiano não conseguiu escapar da discriminação racial. Logo percebeu que para que a situação do negro pudesse mudar, o País teria também que se transformar. Formado em arquitetura, decidiu fazer do combate ao racismo o seu principal objetivo de vida. Hoje é presidente da Fundação Palmares, entidade governamental que trabalha para incluir o negro de fato na sociedade brasileira. Zulu comemora os avanços das políticas afirmativas, principalmente das polêmicas cotas raciais que, em sete anos, colocaram mais negros em universidades públicas do que em toda a história do Brasil. Mas sabe queo trabalho é árduo, pois, como diz,” nenhuma elite do mundo, branca ou preta, quer perder privilégios”. Diante da urgência em corrigir distorções históricas, conclui: “A sociedade precisa entender que a inclusão dos negros é boa para todos”.
Qual é a gênese do racismo brasileiro? Elê é fruto de um processo complexo. A colonização feita pelos portugueses foi distinta da empreendida por espanhóis e anglo-saxões. A colononização portuguesa se deu, entre aspas, ” dentro da promiscuidade”. Aqui ocorreu o período de escravidão mais longo do mundo: dos nossos 510 anos, 4/5 foram de escravidão. O mesmo que 385 anos, quase 400 anos. É evidente que há uma sociedade conformada dentro do processo escravizador. O Olhar direcionado ao negro sempre o projetou como menor. Primeiro pela cor da pele, de origem africana, e também porque era ele quem trabalhava. A elite portuguesa sempre raciocinou que ser rico e poderoso estava relacionado com o não trabalho, com o ócio, diferentemente do pensamento de outras elites. O racismo foi naturalizado ao extremo. Sempre foi comum o negro ouvir: ” Se comprenda, rapaz. Procure o seu lugar”. nem se davam ao luxo de dizer qual era o nosso lugar. Não era preciso ser dito: era na senzala, na cozinha, como lixeiro, como pedreiro. Esse era o lugar próprio, de subserviência e subalternidade. Quais são os reflexos dessa cultura? No Brasil sempre houve uma escala cromática para se livrar de ser negro. Quando fui tirar minha carteira de identidade, aos 12 anos, e disse queera preto, a moça se recusou a registrar a informação: ” Pelo amor de Deus, você não é preto, não faça uma coisa dessa com você”. No Brasil há essa escala cromática: o branco, o preto, o pardo, o escurinho, o moreninho, o cor de jambo… Nosso racismo não tem nada a ver com a nossa ascendência. É um racismo fenotípico. Quando mais próximo da cor escura, mais excluído. Mas branco é branco. Porque ser branco, no Brasil, é se aproximar do sucesso, da civilidade, da beleza. Tanto que a mulher negra bonita deixou de ser negra e se tornou mulata. É um tipo de racismo muito próprio, então? Sim. E ao enfrentar o racismo, é preciso entender a complexidade do racismo brasileiro. Não podemos responsabilizar os brancos de hoje, mas também não podemos esquecer o passado. É preciso de medidas corretivas capazes de tornar as oportunidades iguais. Aí a condição do negro tem de prevalecer. Nenhum outro pobre foi escravizado no Brasil que não o negro. Italianos, alemães, japoneses…Nenhum.
A escravidão no Brasil foi um processo extremamente inteligente sob o ponto de vista do colonizador. Para enfraquecer a resistência., comoçou-se desagregando a estrutura familiar. Ao chegar ao Brasil, o pai ia para Bahia, a mãe para São Paulo, o filho para o Rio Grande do Sul. Além disso, misturavan-se negros de várias etnias, com estruturas linguísticas totalmente diferentes. Também havia a eliminação do sobrenome, além de uma enorme violência. Diante de tentativas de lutar contra a escravidão, houve processos violentíssimos, como no quilombo de Palmares. Lá 20 mil negros e alguns brancos foram assssinados em 1685 por lutarem bravamente pela liberdade. sabe qual é a dimensão desse número de mortos hoje? Um milhão de pessoas. É o mesmo que entrar numa cidade e matar um milhão de pessoas. Zumbi dos Palmares recebe o mesmo tratamento de heróis nacionais como Tiradentes? Zumbi está na galeria dos heróis nacionais., mas, depois de muita luta. Por muito tempo foi tratado como marginal. Até hoje é celebrado muito mais pelos negros. Defendemos que o dia de Zumbi seja considerado um feriado nacional, coisa que ainda não é, diferentemente de Tiradentes. Uma pessoa que morre por 20 mil pessoas, que fazemde tudo para esconder sua presença na nossa história e continua com toda essa importância 300 anos depois…Sem dúvida se trata de um herói nacional. Falta torná-lo um herói de todos. O Processo de abolição no Brasil foi diferente do de outros países? No Brasil deu-se um processo planejado de exclusão. Depois da abolição houve um incentivo de um movimento maciço de imigração de europeus e asiáticos, apoiados por intelectuais como Nina Rodrigues, que dizia quera fundamental embraquecer o País, pois a majoritária presença negra era vista como responsável pelo apobrecimento da nossa sociedade. Não houve nenhum processo de inclusão do negro após a abolição. nenhum.
Na Bahia, em 1920,havia ádido para negro não ir a escola, porque diziam que os negros promoviam badernas e intranquilidades. isso ocorreu muito recentemente, há menos de 100 anos. Há dados do IBGE e do IPEA que atestam que as assimetrias entre negros e brancos continuaram com a mesma distância, paralelas, de 1888 a 1988. As primeiras mudanças só ocorreram com a entrada do sistema de cotas iniversitárias em 2003. As cotas estão sendo bem-sucedidas? Sem dúvida. A presença dos negros nas faculdades brasileiras sempre foi ínfima. Com as cotas raciais e o ProUni, que existem desde 2003, houve a entrada de mais negros no ensinio superior de que no período entre 1808 e 2002. Por que persiste alguma resistência a esse sistema? Não acho que a população seja contra. Numa pesquisa, 68% das pessoas se declararam favoráveis às cotas. sabe o que um articulista da Folha de São Paulo disse ao comentar a pesquisa? ” Ainda temos tempo de mudar essa situação”.
Apesar de haver um bombardeio nos últimos cinco anos de todos os grandes órgãos de imprensa contra cotas, neste ano a pesquisa deu 66,5% das pessoas continuam favoráveis a elas. Isso não é divulgado. A população não é contra as cotas. Quem é contra é uma classe média alta que se consideram herdeiras divinas dos privilégios e da melhor parte da sociedade. Como está o atual momento de discussão? O debate sobre a inclusão racial é fundamental. As provas são contundentes nesse aspecto. O que ocorreu no leste europeu sobre a questão étnica? Sérvios, Montenegrinos, Croatas e Albaneses se mataram devido a uma questão étina que não foi resolvida. Em Ruanda, Hutus e Tutsis também se mataram. Tudo preto no Branco. Ou a questão étnica é resolvida do ponto de vista cultural e social ou ela explode de maneira trágica e cruel. O que vivemos hoje é um processo de discussão de reflexão e de avanço para superarmos a tragédia de quase 400 anos de escravidão no Brasil. Desfizeram-se alguns mitos? Há dados maravilhosos. Primeiro:destruiu-se o mito de que elas iriam reduzir a meritocracia na universidade. As pesquisas comprovam que a maioria absoluta dos alunos cotistas é superior ou igual à média dos outros alunos. A evasão escolar é menor, mesmo vindo de base mais frágil do que a dos não cotistas.
Praticamente não houve casos de tensão racial nas faculdades. Nada daquilo que se disse que iria acontecer com a entrada dos negros cotistas aconteceu. Todos os medos caíram, além de haver dados excepcionais. Hoje há aproximadamente 400 mil jovens negros no ensino superior, ou seja: daqui a quatro anos teremos esse pessoal disputando o mercado de trabalho com igualdade de condições. Essa é uma norma eficaz de combater o racismo? Sem dúvida alguma. As cotas promovem a ascenção social, fazem a iniversidade refletir sobre a questão. Etambém é muito importante colocar negros em postos de comando da sociedade, fazendo com que esses postos espelhem a nossa composição social. É preciso ter negros médicos, advogados, engenheiros, desembargadores, professores. Eu sou arquiteto, e na minha prifissão 1,8% são negros. Quando estudei em Salvador, há masi de 30 anos, havia dois negros na minha turma. Sabe quantos entraram este ano? 40%. É uma diferença enorme. É evidente que essa inclusão vai alterar as relações sociais, as relações econômicas e as relações políticas. Os brasileiros ainda têm dificuldade de encarar e discutir o racismo? A questão racial no Brasil é um trauma estrutural na sociedade brasileira. O número de negros aumentou de 10 anos pra cá, subiu 52%, mesmo sem aumento vegetativo da população negra. A partir do momento em que se deram condições das pessoas se assumirem como cidadãs, elas foram se assumindo de forma plena como negras. Mas há um preço alto a ser pago com a discussão do racismo para determinada parcela da sociedade. É bom que o Brasil seja considerado com poucos negros, para que a universidade continue com 90% de eurodescendentes. É bom que não se fale muito de negros, para que a faculdade de medicina tenha 98% de brancos. De 200 vagas, 198 são de um público que representa uma minoria no Brasil. Há interesses em torno disso. Se há negros no Brasil, é preciso assumir que seus ancentrais foram vítimas do processo de escravidão dos mais longos da história da humanidade. Aí serão necessárias políticas públicas para superar essa questão.
Com políticas públicas se conclui. Com a inclusão, se estabelece competitividade, processos democráticos de escolha, distribuição das riquezas da sociedade. E nenhuma elite do mundo, branca ou preta, quer perder previlégios. No caso brasileiro, essa elite se confunde com os brancos: a maioria absoluta é formada por brancos que dominam e se apropriam da coisa pública há 500 anos.
Demover esse processo é complicado. Quais são as suas expectativas para os próximos anos acerca das questões raciais? Eu vejo com muito otimismo. Estamos construindo um espaço necessário para reduzir a discriminação no Brasil. É claro que 400 anos não se apagam de uma hora para outra. Mas estamos criando condições de disputar de igual para igual o direito de sermos tratados como cidadãos. Evidentemente, teremos muitos embates, mas também sei que teremos uma oportunidade muito maior de alcançar o que está na constituição: que somos todos iguais, independentemente da cor, raça, religião e origem social. Isso é fundamental.
Eu não desejo que todos no país se considerem iguais. Somos didtintos mesmo. Temos culturas, origens, religiões e pensamentos diferentes. Isso é bom. Não queremos ser melhor ou pior do que qualquer outro grupo brasileiro. Queremos ser respeitdos nessa diferença. O futuro dos negros no Brasil é o futuro da sociedade brasileira. É impossível fazer uma sociedade verdadeiramente democrática sem que haja a superação do racismo e sem inclusão plena do negro na sociedade brasileira. É bom para a sociedade que sejamos incluídos o mais rápidamente possível, para garantir uma sociedade plural, segura, democrática, aberta, diversa. Não será bom, só para os negros, mas para todos.
"Tudo o que é bom e justo emana de um único Deus, que hoje pode ter muitos nomes e cultos. Mas, seus princípios foram antes cultuados por um único povo; primordial e resistente, criado à sua imagem e semelhança.
São esses factos que nos fazem ter tanta dificuldade em entender a intolerância, o preconceito e a violência praticados em nome de Deus (?), contra os religiosos do Candomblé e da Umbanda ou de qualquer outra religião. A religiosidade Africana é a prática de uma doutrina baseada em valores de Paz, Justiça, Amor fraterno e Sacralização da vida".