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Archive for the ‘Candomblé’ Category

As interpretações errôneas sobre os costumes do Candomblé…

Na última década houve um exacerbado aumento de Sacerdotes no Candomblé, sobretudo, aqueles que se tornaram Ìyálòrìsàs/Babalòrìsàs, imediatamente após terem concluído sua obrigação de sete anos. Mas será que somente a obrigação de sete anos outorga a um iniciado o direito ao sacerdócio? A resposta é não, vejamos por que.

Criou-se nos últimos tempos, o indevido paradigma de que ao completar a obrigação de sete anos, o iniciado poderá instaurar o exercício do sacerdócio. Fato é que o sacerdote não nasce quando do término da sua obrigação de sete anos, mas muito antes, quando do seu nascimento. Na rica e bela cultura dos Òrìsàs, acreditamos que trazemos para o Aye (terra), a missão de nossas vidas acordada ainda no Orùn (céu). Em linhas gerais, isso quer dizer que a pessoa traz a missão de se tornar um sacerdote já no seu nascimento, isso está cravado irreversivelmente no seu destino, eles são os Omo Bibi (os bem nascidos).

Dessa forma, as pessoas que são “consagradas sacerdotes”, somente por terem completado o ciclo de sete anos, mas que não traz impresso no seu destino essa missão, poderá causar sério prejuízo a si mesmo e, principalmente aos seus seguidores.

Um Sacerdote de Òrìsà, além de obviamente zelar pela Divindade, zela pelos filhos dessas Divindades, ou seja, o sacerdote cuida de pessoas. É muito importante destacar esse ponto: “O Sacerdote cuida de Òrìsàs, de Pessoas. Ele cuida de Cabeças”. Nesse sentido, vale salientar que a obrigação de sete anos é um passo muito importante na vida de qualquer Omo Òrìsà e condição sine qua non para um futuro sacerdote, mas não é a obrigação de sete anos que tornará um Omo Òrìsà em sacerdote. Isso deve ser claro a todos.

Mas se não é a obrigação de sete anos que outorga o sacerdócio a um iniciado o que é então? Como dito acima, isso está impresso na memória ancestral daquele indivíduo, ele traz consigo essa missão do Orùn, que será revelada por meio do oráculo ou por voz pessoal do Òrìsà. Em uma primeira leitura, isso pode parecer utópico, no entanto, vamos lembrar a consagração sacerdotal de alguns dos mais importantes nomes do Candomblé.

A reverenciada Ìyálòrìsà do Opo Afonjá, Mãe Senhora de Òsun, recebera a navalha que fora de sua avó Ìyá Oba Tosí, ainda na sua iniciação, sendo que sua Ìyálòrìsà Mãe Aninha, anteviu que ela seria uma sacerdotisa. A querida Ìyálòrìsà do Gantois, Mãe Menininha, foi consagrada Ìyálòrìsà pelos Deuses, que a escolherem e a sentaram no trono do Ile Iya Omi Ase Iyamase, sem a interferência humana. Na nossa casa, o Terreiro de Òsùmàrè, nosso amado Pai Pecê, foi indicado como futuro Babalòrìsà logo no seu nascimento, sendo carregado no barracão pelo Òrìsà Ògún de sua Avó, a inesquecível Mãe Simplícia.

Não queremos em momento algum, dizer que a consagração dos sacerdotes deve ocorrer nos parâmetros mencionados, mas queremos sim dizer que é necessária uma consulta muito acurada ao jogo de búzios, questionando aos Òrìsàs se aquela pessoa realmente deverá ser consagrada sacerdote. É preciso saber se aquela pessoa realmente foi escolhida pelos Òrìsàs para ser um Babalòrìsà ou Ìyalòrìsà, isso é algo muito sério.

Aqui em Salvador, por exemplo, há muitos Egbon (Omo Òrìsà com suas obrigações de 7 anos completadas, mas não consagrados sacerdotes). Esses Egbon, antiguíssimos e de conhecimento requintado da Religião dos Òrìsàs não se tornaram Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs por um único motivo, a saber: Não carregam nos seus destinos essa missão. Esses antigos são felizes por serem Egbon, são felizes por zelar pelos Òrìsàs na casa onde foram iniciados. São felizes por serem consultados pelos mais novos, sobre as histórias do povo antigo. São felizes por dizer: “Eu sou egbon da Casa A ou B”.

Quando questionados por muitos a razão de não serem Babalòrìsàs/Ìyálòrìsàs, eles imediatamente respondem: “Oh meu filho, eu não nasci com essa missão não, minha missão é ajudar a casa onde eu me iniciei”. Alguns inconformados reiteram: “Mas com tanto saber, você tinha que ser sacerdote”. Esses antigos Egbon, por sua vez, no elevado grau de sabedoria, acumulada ao longo de anos, finalizam a conversa dizendo: “Oh meu filho, saber é o de menos, é preciso nascer para ser”…

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

Fonte: https://www.facebook.com/casadeoxumare

 

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Por que Enfeitamos a Árvore de Iroko?

Já falamos sobre a roupa que veste Ògún, o Màrìwò. Hoje, vamos falar um pouco sobre a importante Árvore de Ìróko, na qual habita o Òrìsà do mesmo nome. É também, uma pequena homenagem a célebre Egbon Cidália de Iroko, que faleceu esse ano, e que teve um papel de importância singular para o Candomblé do Brasil.

Muitas pessoas que vão às festas de Iroko, observam com atenção os enfeites colocados nessa misteriosa árvore. Muitos acreditam que os enfeites são colocados para deixar a árvore mais bonita em suas festividades, mas a verdade é que, como tudo que há no Candomblé, os enfeites de Iroko não são colocados ao acaso.

Uma antiga história africana, conta que existia uma mulher chamada Oloronbi que não conseguia ter filhos. Ela sempre que passava diante de uma gigantesca árvore de Iroko dizia: “Oh Meu Pai, eu sou muito solitária, se o senhor me der um filho ou uma filha para eu não ficar mais sozinha nesse mundo, eu lhe darei uma cabra e azeite de dendê”.

Sempre que Oloronbi passava diante de Iroko ela repetia sua súplica. Iroko comovido com o sofrimento de Oloronbi, fez com que ele engravidasse. Oloronbi ficou muito feliz ao saber que estava grávida, mas esqueceu-se da promessa que havia feito a Iroko. Quando seu filho nasceu, ela todos os dias passava diante da árvore sagrada, sem sequer reverenciá-la. Iroko muito triste com o descaso de Oloronbi, resolveu tomar para si aquela criança, sendo que foi ele o responsável por ela ter engravidado. Desta forma, num dia em que Oloronbi parou diante da árvore de Iroko, à noite, para conversar, Iroko sem que ela percebesse chamou a criança para dentro do seu gigantesco tronco, cuidando dela.

Oloronbi ficou desesperada, pois não sabia o que havia acontecido com sua criança, procurando um Sacerdote de Orisa, para saber o que tinha acontecido. O sacerdote consultou o Deus da Adivinhação e disse que a criança de Oloronbi estava no tronco de Iroko, pois ela não realizou aquilo que havia prometido. O Sacerdote disse que ela mandasse fazer alguns bonecos e bonecas de madeira, como se fossem seus filhos e que, novamente parasse diante de árvore de Iroko, comentando que estava muito feliz por ter outros filhos e que, no momento em que Iroko fosse pegar os bonecos, ela teria a oportunidade de pegar sua criança e que no outro dia, fosse novamente diante da Árvore oferecer a cabra e o azeite que havia prometido, pedindo perdão a Iroko.

Oloronbi fez o que o sacerdote havia recomendado, resgatando sua criança. No outro dia, Oloronbi ofertou a cabra e o azeite, enfeitando á arvore com os brinquedos, para que todos soubessem que se ela tinha conseguido uma criança, era pelas graças de Iroko.

Essa história mostra-nos duas coisas importantes, a primeira é que jamais devemos esquecer de nossas promessas e, a segunda é que jamais podemos ficar diante de Iroko a noite.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó
Texto da Casa do Òsùmàrè

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Parte  2.

Ifá é uma disciplina espiritual enraizada na idéia de que o desenvolvimento de Iwá Pèlé ou Bom Caráter é a chave para entender o destino.

Há um provérbio iorubá que diz:

Ayanmó ni Iwá Pèlé, Iwá Pèlé ni ayanmó.

Este provérbio traduzido aproximadamente significa:

Destino é bom caráter, bom caráter é destino.

É a partir da referência mítica que se diz:

“… quando o destino é incerto, é o bom caráter que eu escolherei.”

A ingerência metafísica aqui é clara, se você está incerto sobre o seu destino simplesmente faça a coisa certa naquele momento.

Nascemos ómó rere, que significa: boas pessoas e bem-aventuradas.

O que sugere que fazendo a coisa certa no momento certo não poderemos estar em oposição ao nosso destino.

A língua litúrgica Iorubá é freqüentemente criada através do uso de elisões.

Uma elisão é uma sentença encurtada em língua iorubá para formar uma palavra.

Por exemplo, a palavra Ifáyabale é uma referência em Ifá ao ritual de resolução de disputas.

A palavra é Ifáyabale, elisão Ìyá bàbá ilé.

Significando:

A sabedoria das mães e pais da terra.

Isto é tanto uma referência ao processo ritual como uma indicação clara da metodologia da resolução dos problemas.

É com a orientação dos mais velhos que nós resolvemos nossos conflitos.

Vamos usar a metodologia de análise da linguagem para termos outro olhar para a frase:

Ayanmó ni Iwá Pèlé, Iwá Pèlé ni ayanmó.

Da elisão:

Ayanmó ni Iwá ope ile  Iwá ope ni ayanmó.

Temos a tradução do destino inicial sugerindo que o bom caráter é o nosso destino e nós temos uma camada mais profunda que significa olharmos para as palavras originais que formam as elisões da sentença.

A tradução torna-se então a árvore ancestral.

É o caminho para saudar a terra, saudamos a terra através da árvore ancestral.

Quando olhamos para a fonte das elisões começamos a entender o contexto desta cultura que leva à criação de palavras e frases usadas para expressar idéias espirituais.

A árvore Ayan é usada na cultura iorubá tradicional como um altar ancestral.

A idéia de uma árvore sendo usada como um altar ancestral é baseado no símbolo da árvore da vida, o que significa que vem das raízes, nos torna o motor que da a luz e as mudas.

Uma árvore é uma manifestação viva dos ciclos de: vida (Ogbè méjì), morte (Òyèkú méjì), transformação (Ìwòrì méjì) e renascimento (Òdí méjì).

Ayan está servindo como um lar para centenas de grandes e antigas espécies de animais que vivem em harmonia em um espaço muito pequeno.

Esta harmonia cria o ventre do igbodu (cabaça da existência) que é o significado da floresta. Um igbodu é um portal inter-dimensional que liga o Òrum ao Ayè ou o Céu a Terra. Esses portais criam flashes de luz ao redor da árvore que se parece com lâmpadas se acendendo. Estes flashes de luz são chamados de Espírito do Pássaro Éyèle, significado que o pássaro Éyèle é usado pelas mães mais velhas para se comunicar diretamente com os Imortais no Òrun. A árvore Ayan também é usada para fazer tambores bata que são usados ​​para se comunicar com Egun e alguns Ebora.

Egun é o espírito coletivo da linhagem ancestral de uma pessoa.  Eborá são ancestrais divinizados que funcionam como avatares das Forças da Natureza chamado geralmente de òrìsá. A árvore Ayan é o lugar onde o iorubá tradicional se comunica com seus ancestrais e da árvore Ayan é feito o tambor que é usado para invocar os estados alterados de consciência que melhoraram esta comunicação.

Então, o que o provérbio, Ayanmó ni Iwá Pèlé, Iwá Pèlé ni ayanmó, está nos dizendo?

Ele está dizendo que devemos usar a sabedoria dos antepassados ​​para saudar a Terra. Aos nossos olhos pode nos parecer uma expressão estranha, especialmente no que se refere à idéia de Bom Caráter (Iwá Pèlé).

Na cultura iorubá tradicional você deve cumprimentar uma pessoa idosa. É o trabalho dos mais velhos que nos guiará no caminho do desenvolvimento espiritual. Dizemos que os anciãos guiam-nos para saudar a Terra e chamar a Terra de ancião e dar a entender que devemos viver em harmonia com a Terra, pois esta é a chave para o crescimento espiritual. Ifá está enraizado na idéia de atunwá (reencarnação).  A crença da cultura iorubá tradicional é a de que estamos renascendo dentro de nossa linhagem biológica e que o nosso nascimento traz consigo a responsabilidade moral de corrigir o que está quebrado na história de nossa família.  Para que essa evolução espiritual ocorra os seres humanos precisam de um lugar para viver a experiência com atunwá e o lugar que escolhemos é chamado Onilé ou Terra.  Se Onilé morre a experiência com atunwá morre com ele. Isso significa que nossa primeira obrigação espiritual e disciplinar é desenvolver o Bom Caráter e cuidar da Terra. Em termos simples, nós temos a obrigação moral de deixar a Terra como um lugar melhor de se viver. A Terra é a plataforma através da qual nós escolhemos para abraçar o processo de crescimento espiritual. Na minha humilde opinião os humanos não estão fazendo um trabalho tão bom em deixar a Terra em melhor forma do que a encontramos.

Ifá pode consertar um mundo quebrado.

Esta frase faz parte das escrituras sagradas,..

Eu acredito que seja verdade.

Oração coletiva é entendida na cultura iorubá tradicional como a capacidade de abrir portais na Terra. Esses portais são chamados ventre do igbodu, que significa ‘a floresta’. Para uma cultura que define o Bom Caráter por meio da elisão Iwá Pèlé, a idéia de portais abertos por meio do uso da oração não é difícil de entender. Recentemente eu terminei uma questão sobre a visão de uma cidade americana.  Esta área foi utilizada por antigas culturas indígenas nos Estados Unidos como um centro de ritual e centro de treinamento para o sacerdócio. O canyon contém kivas numerosas. A kiva é um círculo de pedras enterradas no solo e utilizadas para realizar o ritual. Os kivas em Chaco Canyon são o seu igbodu. Eles são portais para os reinos invisíveis da Criação que Ifá chama de Òrum. Fui abençoado em Chaco Canyon ao receber instruções sobre a Terra. No mesmo momento em que eu recebi uma mensagem no Canyon uma tempestade de vento soprou e se abriram as portas da minha casa que ficava a 600 milhas de distância. Cada vez que eu piso em uma kiva sou imediatamente saudado com uma visão nova e diferente.

Era uma espécie de mudar os canais na TV. Consciência? Talvez.

Eu prefiro acreditar que quando chegamos para saudar a Terra, a Terra irá responder, dando-nos orientação.

Isso é o que fazem os anciãos, pois a Terra é a Mãe de todos.  Vivemos em um universo holográfico. Isso significa que sempre haverá manifestação da Criação, isto está contido dentro de cada átomo da Criação.  As informações que precisamos para corrigir o que está quebrado estão ao nosso redor e em toda parte.  A pergunta é:

Como podemos acessar essa informação?

Temos acesso à informação para a saudação da Terra, significando, sabermos humildemente usar a sabedoria dos antepassados ​​para nos ensinar como nos comunicar com Ayan, a árvore da sabedoria ancestral.

Esta idéia foi muito bem expressa no filme Avatar quando a árvore, no centro da comunidade indígena, reunia os recursos do planeta para defender-se contra uma invasão militar. Sim, eu sei que era um filme, porém está enraizado na verdade.

Ire o.

Por: Áwo Fatunmbi

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Porque Jogamos Água à Rua?

A misteriosa Religião dos Òrìsàs é norteada de costumes e dogmas, um deles é aquilo que chamamos de “despachar a rua”, que condiz em jogar três punhados de água, antes de entrar ou sair de casa. Mas porque fazemos isso? Primeiramente é importante recordarmos da importância da água na nossa cultura. No Candomblé não se faz nada sem água, ela que umidifica, resfria e fertiliza. Nós mesmos, antes de nascermos, no útero de nossa mãe, ficamos o período gestacional na água do ventre materno, somente isso já seria o suficiente para sermos gratos à água diariamente, afinal, sem ela não existiríamos.

Há muitos momentos em que despachamos a porta. As ocasiões mais comuns são ao acordamos, ao sairmos de casa e ao retornarmos para casa. Mas não são somente nesses momentos. Por exemplo, há determinadas cantigas que retratam um momento de muita turbulência na vida do Òrìsà, podendo despertar sua cólera se entoadas em momentos inoportunos. Nessas situações, o Babalòrìsà ou Ìyálòrìsà, sempre atento, solicita à uma antiga egbon, que jogue água à rua, apaziguando o Òrìsà que foi recordado de um momento adverso em sua vida no Aye.

Em suma, em todos esses momentos, o objetivo é apaziguar. Há uma frase em yorùbá que diz “Somente a Água Fresca Apazigua o Calor da Terra”. Ao acordamos, despachamos a porta, recitando palavras que tem por objetivo, pedir que aquele dia seja de tranqüilidade e de harmonia. Quando estamos saindo de casa, jogamos água à rua, rogando à Èsù Oná (O Senhor dos Caminhos), que aquela água, apazigúe os caminhos que vamos percorrer e que, sobretudo, não nos deparemos com situações que nos exponha a riscos.

Ao entrar na Casa de Candomblé, por exemplo, despachamos a rua, pedindo licença aos Donos da Porteira, reverenciando-os sempre. Em muitas casas de Candomblé a porteira está sempre aberta, isso não significa que não há dono, muito pelo contrário. Nesse aspecto, pedimos licença (Ago) aos Donos da Porteira, mostrando nosso respeito e, pedindo que a água resfrie a terra, até o momento em que, vamos nos purificar por meio do Omi Ero ou Omi Agbo, para poder então, partilhar do convívio no Terreiro de Asè.

Por isso, jamais se esqueçam, apazigúe a terra antes de caminhar sobre ela.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoado todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó

Texto da Casa de Oxumarê-BA

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Parte 1

Ègbé,

Costumo sempre que possível perguntar aos abians e os mais novos o que eles sabem a respeito de nossa religião. O que realmente vieram colher, o que realmente irão cultuar e o que eles objetivam.

Para minha surpresa, ninguém conhece o cerne da questão.

Por que cultuamos òrìsá?

Qual a finalidade de tudo isto?

Onde fica o fim da estrada?

Eéwo (tabu), absolvição, punição, Èsú, o que será que tudo isto quer dizer?

O que devemos fazer dentro de um Ilè àse?

Lavar, passar, cozinhar, arrumar, guardar, olhar, falar, fofocar, concertar, desentupir, capinar, varrer, ajudar, comer, aprender, osé, acender vela, rezar, òfò e etc…

Quem poderia levantar o braço e dizer que a canção mais importante, é a que você está compondo?

Sua canção tem que ser linda e ela não pode ser dividida e nem ter parceria, letra e musica devem ter inspiração própria, você tem compromissos seriíssimos com sua evolução

O sentido de caridade e ajuda ao semelhante é magnífico, porém, devemos olhar nossa estrada, devemos objetivar evoluir, devemos ascender, devemos buscar a superação.

Dentro deste conceito, se analisarmos friamente, o grupo será beneficiado, se há evolução pessoal dentro do grupo, então existe um objetivo a ser alcançado pelos demais. Devemos servir de inspiração e não ajudantes de entrega ou meros ajudantes de estiva, ajudar o outro a carregar um peso que ele se desobriga a carregar, visto que chegou um auxilio luxuoso. Neste caso, você.

O conceito de evolução espiritual está na base de nosso culto, é a atividade fim de nosso sacrificio, o objetivo maior do ser humano. E esta base chama-se caráter. Caráter é muito importante dentro desta cadeia espiritual, uma pessoa desprovida de caráter sempre terá obstáculos a ser ultrapassados, sua vida sempre terá um plus nos problemas, sempre ouviremos aquelas famosas frases:

Mas como?

Eu dei comida, dei até bicho de quatro pés calçado e nada aconteceu.

E começa a transferência de responsabilidades, a mão do Ogan é ruim, o sacerdote não tem àse, me disseram que não foi feito direito, pelo que eu sei ficou faltando algo, enfim…

Uma gama de subterfúgios para poder mascarar o erro individual, o desvio de caráter. Não podemos em hipótese alguma fugir de nossas responsabilidades, não estamos aqui para simplesmente vestir, bailar e ralar dentro de uma casa de àse.

Nossas atitudes dentro e fora contaram muito, não se embriagar, a não promiscuidade, os maus costumes, os desvios de conduta, a falta de cuidado com o que não lhe pertence e muito mais exemplos que não são necessários exemplificar aqui, pois o conceito de certo e errado nasce com você, ele nós é ofertado na hora do sopro divino de Òlódúmarè (Emi), sabemos muito bem onde está o fiel da balança e para que lado ela pende conforme nossas atitudes no dia-a-dia.

Dito isto, espero que fique menos confuso a forma de se relacionar com os objetivos de nossa religião. Orí é o ponto a ser alcançado e o caráter é a base para se conseguir atingir a meta.

Lembrem: Se o ebo não fez efeito é por que faltou “folha” e esta folha muitas vezes pode ser o nosso caráter.

Ire gbogbo.

Por Da Ilha.

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Creio que este assunto não se esgota facilmente. As relações intespetuosas entre filhos e sacerdotes dentro dos Ilè Àse precisam ser cada vez mais  lapidadas. Os tabus referentes a maus tratos (físico, oral e gesticular) contra sacerdote, ancião, pai e mãe desagradam os olhos de Òlódúmarè.

O assunto abordado abaixo pede uma reflexão, vivemos pedindo respeito pelo nosso culto/religião, será que estamos respeitando-os com devido peso, com a mesma reciprocidade.

Òrúnmìlá no Odù Òsá’Ìwòrì nos diz:

“Se eu lhe der tudo que você me pede, será que você irá se esforçar por si mesmo.”

Boa leitura.

  1. Cuide do seu santuário (se tiver algum) com sinceridade, humildade e limpeza. Não se aproxime de seus santuários se você foi beber fumar ou ter relações sexuais. E nunca venha de forma “impura”.
  2. Não faz sentido para mim se você usa ilekè e se veste como uma “stripper” ou “bandido”. Então, por favor, vista adequadamente se você estiver usando ilekè.
  3. Nunca finja ser algo que você não é. Se você recebeu um igbá e não passou por Igbodu (processo de iniciação), então você só tem um igbá de òrìsá. Você não é um sacerdote ou a sacerdotisa da divindade assentada.
  4. Se o seu pai diz que você precisa ter relações sexuais com ele para remover qualquer tabu ou para subir na vida, fuja dele. Ele é charlatão, uma fraude e etc.
  5. Se estiver participando de um sire òrìsá, por favor, se vista adequadamente. Minissaias, tops, shorts, não podem, usar calças compridas também não, ficar na frente dos atabaques é desrespeito ao Ilè e ao òrìsá.
  6. Ao cumprimentar um sacerdote ou sacerdotisa em público, é apropriado Kunle (reverência leve, dobrar joelhos) ou mesmo Dobale (ir ao chão) para eles. Eu sei que isto vai levantar as sobrancelhas, mas para fazer Foribale para alguém em público em um ambiente não espiritual é um sinal de arrogância.
  7. Como cumprimentar um santuário ou sacerdote depende do seu sacerdote. Eu já vi isso ser feito de forma diferente por pessoas daqui dos estados e do exterior (Nigéria e Daomé). Quando em dúvida, mostre o seu respeito.
  8. Nunca se deve fumar beber, usar drogas, ter relações sexuais, usar de palavrões enquanto se usa seu ileke (fio de contas). Estas são ferramentas sagradas que foram dadas a você e você deve tratá-las como tesouro.
  9. Se você não estiver satisfeito ou deseja sair da casa espiritual do seu sacerdote e o seu desejo é seguir em frente, de a devida notificação. Solicitamos que se possível, ofertar Adimu de partida (oferta) e seguir seu caminho em paz.
  10. Nunca use o que foi ensinado pelo seu sacerdote para fazer mal aos outros. Lembre-se a energia que você colocar para fora vai voltar para você. Se você enviar a negatividade, a negatividade vai voltar para você. Se você enviar amor e paz, o amor e a paz vão voltar para você.
  11. Nunca, jamais, doe seus igbás. (ouça seu sacerdote!). Um Igbá òrìsá deve nascer dentro do santuário, Igbá não nasce por osmose! Isto é um tabu, mas infelizmente e vergonhosamente muitos estão fazendo isso.
  12. “Compra de Igbá”, tem gente tentando acumular o maior número possível e isto não é bom, se você não tiver autorização através da adivinhação adequada de montar seus Igbás não o faça. Ter um Igbá Òrìsá é um trabalho árduo. Estes são representações do òrìsá e requer muito cuidado.

Lembre-se, não é sobre você (humano), nem sobre mim,  mas sobre Egúngún, irunmolè, òrìsá e Òlódúmarè!

Texto garimpado na net, caso você conheça o autor nos informe.

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“Dia de desordem e destruição em Brejo da Madre de Deus

BREJO DA MADRE E DEUS – O dia foi de caos ontem no distrito de São Domingos, em Brejo da Madre de Deus, no Agreste. Revoltados com a morte de Flanio da Silva Macedo, 9 anos, assassinado em ritual macabro, moradores da comunidade botaram fogo em pelo menos seis casas de pessoas acusadas de atuar como pai-de-santo. O tumultuo tomou conta do distrito e a polícia não conseguiu conter os atos de vandalismo, que atingiu também pessoas que nada tinham a ver com o a morte da criança. A situação só começou a se normalizar no começo da tarde, com a chegada de reforço policial, inclusive o Batalhão de Choque e dois helicópteros.
Os atos de vandalismo começaram logo cedo, por volta das 7h. Os incêndios aconteceram em sequência e foram causados por centenas de pessoas de todas as idades. Alegando que queriam matar todos os “macumbeiros”, a turba descontrolada tomou as ruas da cidade e incendiou casas em vários bairros. 
Uma das primeiras fica localizada na Travessa São João, no centro do distrito de São Domingos. A pequena residência, de um homem identificado apenas como Vavá, teve os móveis retirados e queimados na frente. O fogo também atingiu o imóvel, que ficou parcialmente destruída. “Muita gente invadiu a tocou fogo. Ele usava coisa de catimbó. O pessoal está tocando fogo em todas as casas dos catimbozeiros”, disse o autônomo Jânio Arruda. Segundo populares, o morador já tinha fugido e a casa estava aberta. Um homem foi detido durante o ato de vandalismo.
Enquanto a polícia tentava controlar a situação na Travessa São João, recebeu a informação de que a multidão já estava atacando outra residência, desta vez na Rua Francisco Borba Xavier, conhecida como Rua da Lama. Segundo vizinhos, a dona da casa, identificada apenas como Dona Carminha, de 78 anos, morava no local com o marido. A população não colocou fogo na residência, mas quebrou móveis e objetos, entre eles algumas imagens de santos de candomblé.”
Fonte: Jornal do Commercio
 

Por desinformação, ignorância e distorção da mídia, religiosos de segmentos espiritualistas e de matriz africana vêm sendo perseguidos e tendo seus centros e terreiros invadidos – e em alguns casos destruídos – em Brejo da Madre de Deus, Pernambuco.

Um homem apontado como “pai de santo” é o principal suspeito de ter planejado e participado do crime juntamente com outras quatro pessoas. Diante da atrocidade do ato, a população enfurecida vem cometendo atos durante esta semana contra centros e terreiros.

O caso, devido à dimensão, tem ganhado bastante espaço na mídia pernambucana e frequentemente cenas típicas de inquisição e intolerância passam nos canais de comunicação e me deixam perplexa diante de tal atitude, de tamanha agressão começando pelo crime e chegando aos atos de destruição e perseguição religiosa na cidade e em localidades vizinhas.

A falta de informação ainda é a principal causa desse tipo de ato relacionado a nós, praticantes de religiões de matriz africana. Uma mídia que distorce fatos, uma população ignorante e somos lançados à fogueira para sermos dizimados.

Especialmente hoje, por perceber que todos esses atos assustadores têm causas maiores, fixas, e não pontuais, questiono até quando as nossas federações continuarão tão desarticuladas nacionalmente, ainda com pouco grito, ainda com pouca vontade de gritar e se manifestar imediatamente diante desses atos, até quando o povo de terreiro irá se calar e quando a Lei 10.639 será praticada com eficácia nas escolas para construirmos cidadãos menos intolerantes, menos manipuláveis e um pouco mais sensatos.

Como religiosa me pus no lugar de cada um que teve a sua casa de culto destruída, de cada um que foi agredido e imagino o sentimento de impotência e de falta de proteção que nos cerca. Já está passando da hora de unirmos, meus irmãos. Já está passando da hora da nossa religião se transformar na instituição que naturalmente ela deve ser.

Dayane Silva

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