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Archive for Maio, 2014

Não sem espanto a mãe de santo Stella de Oxóssi recebeu a notícia de sua eleição, na quinta-feira 25, para a cadeira 33 da Academia de Letras da Bahia, lugar ocupado no passado pelo poeta Castro Alves. Ao contrário do hábito dos candidatos nesta e em outras praças, Stella não tinha feito campanha. “Levei um choque, pois é uma coisa que não é comum”, diz a ialorixá do terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, primeira mãe de santo acadêmica do País. “Depois vi que foi a comunidade que proporcionou isso e achei uma recompensa.” A posse será em setembro e ela confessa não saber exatamente qual seu papel na Academia.

O título não é meramente honorífico. Mãe Stella publicou seis livros, bem mais do que alguns imortais da Academia Brasileira. Nascida Maria Stella Azevedo dos Santos, formou-se em Enfermagem pela Escola Bahiana de Medicina. Foi enfermeira durante 30 anos até ser escolhida, em 1976, mãe de santo do Ilê Axé Opô Afonjá, uma das casas de candomblé mais importantes e tradicionais do estado, fundada em 1910. O último de seus livros é uma antologia dos artigos publicados quinzenalmente no jornal A Tarde. Escreve à mão e suas “filhas” digitam o texto. “Sou analfabeta em computador.”

Na quinta-feira 2, a ialorixá completou 88 anos. Ela desce as escadas do sobrado onde vive com certo esforço, mas sem o apoio de ninguém. Por causa da dificuldade de locomoção, passa a maior parte do tempo no andar de cima da casa. Só desce para acompanhar a cerimônia de culto a Xangô, orixá da Justiça, às quartas-feiras, ou para receber visitas. Seu cérebro continua, porém, afiado. “Envelhecer é uma briga constante entre o que a mente pode e o corpo não deixa.”

A ialorixá tem o costume de assistir ao noticiário na televisão, ler jornal e revistas. “Gosto de saber das coisas. Se a gente não se informa, vira inocente útil.” Em suas colunas de jornal, conta histórias antigas, fala de espiritualidade, do candomblé e da atualidade. Em um dos textos mais recentes, criticou os sacerdotes que confundem religiosidade com fanatismo e aqueles que utilizam a religião como meio de enriquecimento, inclusive no próprio candomblé. “Alguns acham que o barato da religião é ficar rico baseado na crença alheia”, provoca. “Mas religião não é meio de vida.”

Bem informada, ela acompanha as polêmicas entre líderes evangélicos e homossexuais. O candomblé não é contra os gays e nele não existe a palavra pecado, explica. “Se Deus consentiu que existisse, quem pode ser contra a homossexualidade? Se é um assunto que não prejudica o outro, temos a obrigação de ser felizes.” Ela desmente, com bom humor, a crença frequente entre gays de que o orixá Logun-Edé seria homossexual, por aparecer na tradição como meio homem, meio mulher. “Logun-Edé foi morar com a avó Iemanjá e, como era o único homem no pedaço, passou a se vestir como as mulheres de lá. É mito que seja gay. Mas é um bom mito.”

Na Bahia, os seguidores do candomblé sofrem com o preconceito disseminado por pastores evangélicos, mas esse não é assunto do seu interesse. “Não tenho tempo para perder falando desse tipo de gente, para fazer guerra santa”, diz. “Porém, até Jesus, se fosse deste tempo, iria procurar a defesa dele, não ia sofrer calado.” Se a líder espiritual não fala, outros integrantes do terreiro estão atentos e participam das articulações políticas contra a intolerância religiosa. Mãe Stella lembra de quando Mãe Aninha, a fundadora do Opô Afonjá, foi ao Rio de Janeiro, em 1934, se queixar a Getúlio Vargas da proibição ao candomblé, e conseguiu. O Decreto 1.202 instituiu a liberdade de culto no País.

Tombado como Patrimônio Histórico em 1999, o Ilê Axê Opô Afonjá foi fundado por Mãe Aninha em uma enorme fazenda, que ocupava quase todo o atual bairro. Chamava-se Roça de São Gonçalo. Mãe Aninha, com medo de o terreno ser confiscado pela polícia, prática comum na época, foi ao cartório registrar a propriedade. Quando o funcionário perguntou “Em nome de quem?”, a mãe de santo respondeu: “Xangô”. Como não era possível, Mãe Aninha criou a Sociedade Cruz Santa do Ilê Axé Opô Afonjá, com ata, presidente e tudo o mais, em nome da qual as terras acabaram registradas.

“Ela era uma mulher de visão. Costumava dizer que queria ver todos os filhos a serviço de Xangô com anel no dedo, ou seja, formados”, conta Mãe Stella. Em honra à matriarca, a escola Eugênia Anna dos Santos funciona desde 1986 no terreiro. Atualmente, 350 crianças cursam o ensino fundamental. Além das aulas de matemática, português e demais disciplinas, elas aprendem história e cultura afro-brasileira, com noções da língua iorubá. Com o tempo, o terreno de Mãe Aninha foi invadido e se transformou em bairro. Na parte interna do terreiro, murado para evitar novas invasões, vivem atualmente cerca de cem famílias.

Mãe Stella é a quinta sucessora de Aninha. Depois da fundadora vieram Mãe Bada, Mãe Senhora e Mãe Ondina – a tradição do Opô Afonjá é de vitaliciedade e matriarcado. Stella, cuja mãe morreu quando tinha 7 anos, foi criada por um casal de tios, uma família de bens, “abastada”, como descreve. Seu tio era tabelião e a menina negra estudou em boas escolas da capital baiana. Aos 13 anos, foi iniciada no candomblé a partir da sugestão de uma conhecida. Nas biografias postadas na internet, diz-se que Stella apresentava então um “comportamento não esperado”. Pergunto o que era exatamente. Mediunidade?

“Que nada, era traquinagem. Eu, ao contrário das meninas da minha época, gostava de jogar bola na rua, subir no bonde. Além disso, falava sozinha, tinha meus amiguinhos que ninguém via. Aí alguém comentou: ‘Ela tem de fazer orixá’.” A menina foi levada, primeiro, ao terreiro do Gantois, onde esperou muito tempo e não foi atendida. A tia, brava, acabou por levá-la para “fazer orixá” no Opô Afonjá, com Mãe Senhora. “Mãe Menininha costumava dizer: ‘Você só não fez santo aqui por causa de um recado mal dado’.”

Tanto o Gantois quanto o Opô Afonjá sempre foram frequentados por artistas e políticos. O escritor Jorge Amado, o antropólogo Pierre Verger e o artista plástico Carybé costumavam ir até lá para a cerimônia ou simplesmente para bater papo com Mãe Stella. De Carybé ela recorda o jeito brincalhão. “Era um molequinho.” Ao lado de Verger, a mãe de santo conheceu o Benin, mas se encantou mesmo foi com a Nigéria, terra de seus ancestrais.

“A Nigéria é Salvador, o clima, os costumes, as árvores. Uma vez dormiram uns nigerianos aqui em casa, depois de viajar muitas horas e um deles, ao acordar, olhou pela janela e disse: ‘Andei tanto para saltar no mesmo lugar’”, gargalha. Sobre os políticos, fala que recebeu todos, de Antonio Carlos Magalhães a Jaques Wagner, mas prefere não dizer o nome de seu predileto, para não provocar ciúmes. Filha de Oxóssi, orixá caçador, Mãe Stella diz ter incorporado deste o hábito de não falar muito. “Caçador fica atento, não fala. Quem fala muito se perde. Os antigos diziam que quem fala muito dá bom dia a cavalo.” Ela adora provérbios, tema de um de seus livros. “Sou uma menina tímida.”

Sobre a morte, Mãe Stella conta que, no candomblé, o espírito vira ancestral. “Não vou dizer que não me importo de morrer. Me importo, sim. Não gosto de morrer porque gosto de viver.” E a sabedoria conquistada com o tempo, Mãe Stella, é verdade? “É uma obrigação. Se Deus deu esse privilégio de viver tantos anos, como não aproveitar? Agora, a gente está sempre aprendendo, ninguém é completamente sabido”, ensina. “Aprendo muito com os jovens e com as crianças. Eles têm cada saque tão interessante.”

(Texto publicado originalmente na revista CartaCapital)

Publicado em 16 de maio de 2013

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Creio que este blog deve reconhecimento a uma pessoa que trabalhou e ainda trabalha dentro de nossa cultura/religião, com honestidade, carinho e amor ao òrìsà.

Mesmo afastado fisicamente, não nos abandona e nos ajuda com textos e respostas inseridos neste blog.

Nada mais justos, reconhecer o trabalho de BÀBÁ FERNANDO, SACERDOTE INICIADO DE ORISA’NLÁ A TRINTA ANOS ATRÁZ, que ainda encontra tempo para ajudar muitas pessoas neste país.

Um grande herdeiro de seu Àse e referência para quem conhece seu trabalho.

Ser o primeiro nem sempre nos coloca em posição de absoluto destaque ou hierarquia.

Òfún, perde na hierarquia ao chegar no Ayè, quando todos os Odù vieram para este mundo.

Seu poder e o temor por sua presença jamais foram descartados, sua sabedoria e sua presença sempre foram objeto de apreciação e respeito. Por conter a altura e largura de todos os Odù, ele, podemos dizer, é formado por todos.

Sua presença impõem tanto respeito que ao ser revelado em uma caída, reverenciamos sua presença com um estrondoso: Epá Odù!!

Mudamos a configuração dos búzios ou Òpèlè Ifá na mesma hora, pois uma minúscula partícula de poeira pode macular sua presença, devido seu mais alto grau de pureza.

Quando o mais velho chega, todos nós o reverenciamos, assim é e assim sempre será (Odù Iká’fun).

Um sábio não se impõem, ele é reconhecido.

Òfún méjì diz:

Quando uma perna vai adiante a outra, obrigatoriamente, a segue.

Se o pai comanda, o filho segue atrás dele.

Se, entretanto, a filho anda à frente, então, ele será honrado como maior do que era seu pai.”

Òfún, outrora, era o primeiro de todos os Odù mas ele chegou tarde a Ifé-Ondaiye:

Outros vieram antes dele, porque em seu caminho ele tinha bebido uma grande quantidade de vinho de palma,

Até se saciar, com avidez e com muita sede.

Finalmente, chegando na Terra, Òfún encontrou Éjì Ogbè tendo tomado seu lugar.

Éjì Ogbè, então, se tornou o primeiro dentre os Odù

Òfún estava louco e completamente desapontado.

Os outros diziam:

Você era o nosso líder, sempre na frente, e nós pensamos que quando chegássemos aqui, encontraríamos você, como sempre, vindo antes.

Então, nós simplesmente, tomamos os nossos lugares no grau que julgamos nosso.”

Foi quando as pessoas de Ifé confirmaram, após terem ouvido isto, com seriedade:

Quando uma perna vai adiante a outra, obrigatoriamente, a segue.

Se o pai comanda, o filho segue atrás dele.

Se, entretanto, a filho anda à frente.

Então, ele será honrado como sendo maior do que era seu pai.”

O Odù Òkánrán Sợdẹ (Òkánrán-Ogbè) diz:

Eu comprei um Idẹ (pulseira sagrada).

Justamente o Idẹ que uso pendurado.

O Idẹ que amarrei a minha cintura.

Um rato penetrou no meu quarto e o levou.

Òrúnmìlá disse que a decisão seria adiada até sua volta.

Ele repetiu que resolveria quando voltar.

Quando regressar perguntarei.

O que posso fazer com o rato?

Òrúnmìlá disse que o rato deveria ser usado para propiciar Ifá.

Então Ifá mandou cortar a cabeça do rato para consumo.

Eu comprei um Idẹ

Justamente o Idẹ que uso pendurado.

O Idẹ que amarrei a minha cintura.

Um peixe penetrou no meu quarto e o levou.

Òrúnmìlá disse que a decisão seria adiada até sua volta.

Ele repetiu que resolveria quando voltar.

Quando regressar perguntarei.

O que posso fazer com o peixe?

Òrúnmìlá disse que o rato deveria ser usado para propiciar Ifá.

Então Ifá mandou cortar a cabeça do peixe para consumo.

Eu comprei um Idẹ

Justamente o Idẹ que uso pendurado.

O Idẹ que amarrei a minha cintura.

Um pássaroveio ao meu quartoem silêncio.

E o levou.

Òrúnmìlá disse que a decisão seria adiada até sua volta.

Ele repetiu que resolveria quando voltar.

Quando regressar perguntarei.

O que posso fazer com o passáro?

Òrúnmìlá disse que o passáro deveria ser usado para propiciar Ifá.

Então Ifá mandou cortar a cabeça do passáro para consumo.

Eu comprei um Idẹ

Justamente o Idẹ que uso pendurado.

O Idẹ que amarrei a minha cintura.

Um animalveio ao meu quartoem silêncio.

E o levou.

Òrúnmìlá disse que a decisão seria adiada até sua volta.

Ele repetiu que resolveria quando voltar.

Quando regressar perguntarei.

O que posso fazer com o animal?

Òrúnmìlá disse que o animal deveria ser usado para propiciar Ifá.

Então Ifá mandou cortar a cabeça do animal para consumo.

Eu comprei um Idẹ

Justamente o Idẹ que uso pendurado.

O Idẹ que amarrei a minha cintura.

O filho de alguém silenciosamente entrou em meu quarto e o levou.

Òrúnmìlá disse que a decisão seria adiada até sua volta.

Ele repetiu que resolveria quando voltar.

Quando regressar perguntarei.

O que posso fazer com esta criança?

Òrúnmìlá respondeu que esta criança tinha o direito de tirar este Idẹ de alguém.

Talvez teu filho te tome o Idẹ um dia. (Quando morremos)

Talvez nossa descendência tome nosso Idẹ.

Quando meu pai morrer

Eu herdarei seu Idẹ.

Talvez nossos filhos herdem nosso Idẹ.

Isto mostra que este é o desejo de todos que cultuam Ifá/Òrìsà e que tenham filhos que possam herdar o seu Idẹ depois de morrerem.

* Idẹ = Ilèkè de Ifá (fio de contas sagrado).

Te desejo vida longa e muita saúde para aproveitar esta longevidade.

Obàtálá epá.

Epá òrìsà.

Modùpé Bàbá.

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