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Nos últimos 100 anos, o Brasil e a África têm compartilhado uma série de informações acerca do culto aos “Deuses africanos”, “Heróis divinizados”, Orixás, Jinkissi, Vodun etc., em busca de um purismo religioso que, pregam os mais tradicionalistas, resgatam as verdadeiras raízes da religiosidade.

 

A África e a América do Sul já compartilham muitas coisas há muito tempo, inclusive suas terras durante milhões de anos. Muitas das plantas e animais de ambos os continentes são semelhantes, seja por que são aparentadas, pertencentes à mesma família, segundo a ciência, ou por que evoluíram para exercer a mesma “função” em seu meio ambiente, um fenômeno chamado de “evolução convergente”.

 

Como se não bastasse as culturas se misturarem pelo vai e vem das naus há quinhentos anos, às vezes nem se sabe direito o que é originalmente africano, americano, europeu, oriental etc, e em se tratando do Candomblé e do uso das ervas, ainda mais!

 

Muitos dos vegetais que utilizamos em nossos rituais mais sacramentados não são africanos de origem, e sua inserção no culto aos Orixás tem origens e histórias das mais diversas. O Boldo vem da cordilheira dos Andes, o Abacaxi é sul-americano e Brasileiro por excelência, a Lavanda, a Alfazema, o Manjericão e o Alecrim são Europeus, a Mangueira vem da Índia, a Colônia é Tailandesa, a Maria-sem-Vergonha e o Quebra Pedra, por mais comuns que sejam por aqui, são verdadeiramente africanos, já o Caruru e o Mulungu, existem espécies tanto africanas quanto americanas, e o coqueiro vegeta espontaneamente em litorais de todo o planeta há milhares de anos.

 

Talvez o exemplo mais dramático seja o Milho. Todo iniciado logo aprende que um bom Acaçá agrada a todos os Orixás, e que poucas coisas agradam mais a Obatalá do que o Ebo feito com canjica, cujos grãos mais brancos foram escolhidos um a um e bastante cozidos, até ficarem bem macios, assim como sabe que pipocas são a principal oferenda à Obaluaiê, ainda mais quando estouradas na areia das praias.

 

No entanto, essas iguarias não são feitas com um grão vindo de uma planta originária da África. O Milho é uma gramínea, parente dos Capins, Bambus e Gramas, e é a forma doméstica do Teosirito, um matinho que, se olhar de relance, acha que é capim qualquer, que foi selecionado e desenvolvido há pelo menos 5 mil anos atrás pelas avançadas civilizações que habitavam a região aonde, hoje, é o México, e seu cultivo foi espalhado pelos indígenas por todo o continente americano, do Canadá ao Chile, e ilhas do Caribe. Foi levado para as colônias europeias na África após o “descobrimento”, há “apenas” uns 500 anos.

 

Se o culto aos Orixás, Voduns e Jinkisi tem milhares de anos, é improvável que o Acaçá sempre tenha sido como o conhecemos hoje, que os primeiros Ebó oferecidos a Obatalá fossem feitos de canjica e, nas lendas milenares de Obaluaiê, tenham se ofertado pipoca de milho. O Inhame substituiu o milho branco em muitas de suas atuais aplicações e o Sorgo, um grão pequeno, nativo do Oriente médio e cultivado por todo norte da África, muito provavelmente produziu pequenas pipocas oferecidas ao longo dos séculos.

 

O Africano entende o culto de uma forma pouco diferente da nossa, mais dinâmica e abertos às novidades, às oportunidades e ao progresso de sua sociedade, sem abandonar sua essência. Poderia citar vários precedentes, como o uso do rifle, que só surgiram no mundo ocidental por volta do século 15, como uma das representações mais importantes de um dos mais antigos sistemas oraculares do mundo, o Ngombo dos povos Bantu, sobretudo a etnia Tchokwe. Essa mesma dinâmica aplicou-se ao negro quando escravizado nas Américas, que aproveitou o que havia em mãos para continuar com seus rituais. Um bom exemplo é o Teteregun!

 

A planta original, o Teteregun (para os Yorubá) ou Muengi Mujolo (para os Bantu, dentre outos nomes) é conhecido pela ciência como Costus spectabilis, nome e sobrenome, ou melhor, gênero e espécie. Nas Américas, uma prima próxima, Costus spiralis, substituiu o Teteregun tão bem que a pequena diferença no aspecto da floração nem foi considerado, até por que as qualidades medicinais, o odor e o sabor das folhas quinadas são praticamente iguais aos de sua prima africana.

 

Para complicar ainda mais a equação, diversas etnias africanas foram espalhadas por toda a imensidão do Brasil, aonde tiveram contato não apenas umas com as outras, mas com indígenas de etnias diferentes e também diferentes espécies e variedades de plantas. O resultado é que muitas dos nomes aos quais nos referimos as ervas que usamos em nosso culto designam diversas espécies de plantas diferentes, muitas vezes sequer aparentadas. O que se chama de Inhame é conhecido como Cará no Sul e Sudeste, e vice-versa no restante do país. Um é uma trepadeira africana, Dioscorea sp.*, o outro é uma planta de raízes tuberosas nativa dos pântanos do extremo oriente, Alocasia sp.*. O Orinrin de Oxum ou Ewe Rinrin pode designar a Erva Jabuti, Peperomia pellucida, a Alfavaquinha de Cobra, Monniera trifolia, ou a Serralha, Sonchus oleraceus, plantas completamente diferentes, mas com qualidades medicinais bastante semelhantes, por mais improvável que isso possa parecer.

 

O critério utilizado para rebatizar espécies de plantas, em muitos casos, não se baseia na semelhança física como aconteceu com o Teteregun, e sim nas qualidades medicinais e, por que não dizer, no Axé que cada folha carrega e como ela responde às rezas feitas em sua intenção. Não há dados específicos, mas provavelmente os primeiros dirigentes testaram as folhas que encontravam para avaliar se poderiam utilizá-las em substituição às folhas originais que encontravam na África.

 

Por isso quando receber uma lista de ervas que você precisará providencias para um ebó, sacudimento, bate folha ou outro ritual, e se deparar com fotos e informações de diferentes tipos de plantas por aí, converse com os mais velhos e conheça qual é a planta a que eles se referem especificamente. Isso é muito importante, pois plantas muito parecidas podem ter resultados completamente diferentes e até mesmo perigosos.

 

Conheci uma filha de Obaluaiê que passou um banho para um consulente no qual iriam algumas folhas de Guiné. O problema é que a Guiné é basicamente tóxica, e dentre as diversas espécies que chamamos de Guiné, algumas são mais venenosas que outras. Esse consulente acabou usando uma das variedades mais tóxicas e em grande quantidade, e teve uma séria reação alérgica que gerou pústulas por todo o corpo e alguns dias de internação, o que deu um trabalho danado a todos do ilê, não apenas em rezas e acompanhamento dessa pessoa, mas por que receitar compostos de ervas, sobretudo para uso interno (beber ou comer) caracteriza crime de prática de medicina ilegal, pena de três a seis anos de cadeia e uma multa bem pesada! Por misericórdia de Oxalá, tudo deu certo nesse caso.

 

O conhecimento e o uso das folhas em nossa religião é essencial e fascinante, mas exige grande responsabilidade. Saber reconhece-las é um aprendizado essencial. Como boa parte dos mistérios em nossa riquíssima religião, desvendá-los leva algum tempo e muita dedicação.

* O termo sp. é usado, dentre outras aplicações, para denominar um grupo de diversas espécies que são classificadas no mesmo gênero e recebem a mesma denominação popular.

Texto: Alexandre Avari – ( Bizziboy o babalosanyin do blog )

https://ileaxeoxolufaniwin.wordpress.com

A traição enviou os irmãos ao combate, a falta de respeito a uma advertência do oráculo (Ifá/Ọrúnmìlà/Òsún) provocou a morte, o rompimento de relações e destruiu uma família.
O mito (conforme o autor) narra a história de três Irunmolè, Odé, Ògún e Ợya. A verossimilhança pode estar intrínseca, como pode estar metaforicamente espalhada dentro do Itọn. As lições são várias, as percepções idem e o mais importante:
Levar o aprendizado para o nosso dia a dia, esta é a essência de nossa cultura espiritual.
Boa leitura.

Òfún’L’Ogbè

Quando alguém é advertido
E este alguém escuta e aceita a advertência.
A vida será mais fácil e cômoda para ele.
Quando alguém é advertido
E respeita e obedece a advertência
A vida será mais fácil e cômoda para ele.
A recusa em ouvir
A Advertência de ter atenção, é negada.
Odé (o caçador) o Áwo lhe deu uma medicina preparada de Ifá.
Quando Odé iria à floresta para seus sete dias usuais.
Expedição de caça.
Odé foi advertido para fazer ẹbợ.
Para que a expedição fosse abençoada.
Ele foi proibido de beber.
Marca tribal na frente, cidadão de Ègbá.
Marca tribal no pescoço, cidadão de Èsà (Ìjèsà).
Pòrògún Matúyèrì filho de Olúweri (deusa do rio)
O cidadão de Ìjàyè está regressando de Ìjàyè.
A esposa mais velha revelou o segredo de minha identidade.

Itọn

Mais uma vez, era mais uma expedição de Odé onde os usuais sete dias seriam usados.
Como de costume ele foi ao seu Áwo para consultar Ifá. Odé foi fazer ẹbợ. Foi dito para alimentar Èşù. Ele também foi advertido para evitar bebidas e ter muito cuidado. Odé adiou o ẹbợ e saiu para a floresta para caçar e planejou fazer o ẹbợ quando retornar-se.
Sem mais nada a resolver Odé entrou na floresta, quando algo muito raro aconteceu. Na sua frente de pé e perto de um Ìrókò três Àgbònrín (cervo), enquanto Odé ajustava sua arma para um bom tiro, os três àgbèrín se transformaram em três mulheres lindas, ele ficou assombrado. Ele imediatamente pensou em esperar e ver o que aconteceria em seguida. Com as peles de animais em suas mãos e sem premeditar a presença de Odé, os animais tornaram-se senhoras cujos nomes eram: Kéké l’ojù, Alábàjà l’Ợrùn e Pòrògún Matúyèrì, golpearam três vezes a árvore de Ìrókò.
A cada golpe elas diziam: O Osílèkùn, sì’lèkùn, guardião do portão abra a porta.
O Ìrókò abriu a porta no terceiro golpe e as senhoras puseram seu áwo (as peles) em três compartimentos separados dentro do Ìrókò, Elas saíram e foram ao mercado.
Quando Odé teve certeza que elas haviam ido embora ele saiu de seu esconderijo. Ele foi diretamente ao mesmo Ìrókò tentando refugiar-se e golpeou a árvore três vezes. A cada golpe ele dizia as mesmas palavras que as três senhoras disseram: O Osílèkùn, sì’lèkùn.
O Ìrókò abriu o portão para Odé. Odé pegou a pele das senhoras e pegou uma rota mais rápida para sua casa. Chegando a casa ele foi diretamente ao sótão e escondeu as peles. Enquanto as peles estavam escondidas ele tomou uma rota mais rápida para o mercado. Odé supôs que elas estariam neste mercado, pois este era o mercado mais importante e todo dia 17 era um dia muito especial para os negócios. Odé viu as senhoras e se chegou para perto delas. Ele as saudou como se as tivesse conhecido há muito tempo. Isto era um mau agouro para elas, pois elas pensavam que nenhum humano as conhecesse ou soubessem de suas identidades, elas ficaram transtornadas. Elas foram para longe do mercado e andaram muito rápido, o mais rápido que suas pernas pudessem levá-las.
Elas correram até ficar longe das vistas dos seres humanos. Uma vez dentro da floresta, elas foram rapidamente à árvore de Ìrókò para recuperar suas peles. Sem que elas soubessem, Odé as seguiu, porém, ele guardava uma distância segura. Quando elas chegaram e golpearam a árvore e chamaram Osílèkùn três vezes para abrir a porta, as senhoras ficaram apreensivas quando o Ìrókò não lhes abriu a porta.
Elas chamaram freneticamente por Osílèkùn, porém, não havia uma resposta, elas estavam tentando entender o que poderia ter acontecido de mal quando Odé apareceu. Odé saudou as três senhoras mais uma vez, porém agora ele as felicitava por sua beleza. As senhoras suspeitavam de Odé lhe perguntaram por que ele estava seguindo elas furtivamente. Odé lhe disse que tinha o que elas estavam procurando. Surpresas as senhoras perguntaram:
O que você pensa que nós estamos procurando?
Odé lhes disse que elas procuravam por suas peles. Ele disse como foi que elas se se metamorfosearam em sua frente, mas cedo neste mesmo dia. Com raiva, elas exigiram suas peles de volta. Odé lhes disse calmamente que elas teriam que negociar para recuperar suas peles. Como Odé estava em uma posição de superioridade, elas mudaram a abordagem para convencê-lo a devolver suas peles. Odé disse que devolveria as peles se da parte delas houvesse uma posição de cooperação, elas perguntaram o que ele queria e qual era a condição.
Em vez de uma resposta direta, Odé perdeu muito tempo, ele começou uma conversa amistosa para relaxar as senhoras.
Enquanto as senhoras se descontraiam elas foram ficando amistosas, Odé falou que lhes devolveria suas peles com a condição de todas se casarem com ele. A oferta de Odé não surpreendeu as senhoras por que elas se anteciparam e estavam orando antes dele para que a proposta se concretizasse. Antecipadamente, no entanto, elas disseram que pensariam sobre isso, No futuro elas disseram à Odé que elas se casariam, porém, elas também teriam suas próprias condições e Odé deveria considerar. Odé disse que estava preparado para encarar qualquer condição e com igual respeito prometeu elevar os termos e as condições. As senhoras disseram à Odé que cada uma delas tem um tabu e que ele não deveria rompê-lo, esta era uma condição para se casarem com ele. Elas também disseram que não gostariam que quaisquer dos três tabus fossem quebrados, pois elas iriam embora imediatamente se isso acontecesse. Odé prometeu que respeitaria seus tabus. Ele também prometeu que nunca diria a ninguém sobre este fato, de que elas são animais acima de tudo. Com o voto solene de Odé as senhoras começaram a dizer seus tabus.
A senhora cujo nome era Kéké-l’ojù foi a primeira a falar. Kéké-l’ojù disse à Odé que seu tabu era Ilá (Okrà – quiabo), ela disse que nunca deveria ver comer ou ser oferecido Okrà em hipótese alguma, mesmo que ensopado/sopa ou como parte de qualquer comida. Odé disse que ele obedeceria e respeitaria seu tabu.
A segunda senhora Alábàjà – l ’Ợrùn disse que seu tabu era uma pilha de madeira e que ela nunca poderia cair em sua presença. Odé disse que entendia e prometeu guardar e respeitar seu tabu.
A terceira senhora, filha de Pròrògún – sùsú Olúweri (deusa do rio) disse que seu tabu era uma panela de água entornar ou ser jogada no solo em sua presença.
Odé prometeu respeitar seu tabu igualmente às outras. Depois dos votos, Odé e suas novas esposas saíram para sua casa no povoado.
Chegando a casa, Odé as colocou para dentro, ainda que, os membros de sua família, amigos e vizinhos curiosos ficassem olhando fixamente. Esta introdução não foi o bastante para satisfazer a curiosidade das pessoas, principalmente de seu irmão, que se sentiu no merecimento de saber tudo a respeito das misteriosas esposas de Odé. Amigos, vizinhos e outras pessoas também queriam saber mais sobre as esposas de Odé. Muitas perguntas amistosas foram feitas as três esposas pelo irmão de Odé, pelos membros da família, vizinhos e amigos que não renderam nenhum resultado. Logo, historiam fantasiosas e diferentes sobre Odé e suas esposas começaram a circular. Para salvaguardar o sagrado juramento feito a suas esposas, Odé não prestou atenção aos rumores. Os rumores tampouco molestaram suas esposas. Em outra fase, todos exceto o irmão de Odé, deixaram de fazer perguntas sobre as esposas. O irmão insistia que era merecedor de conhecer o mistério por traz deste casamento.
Durante muito tempo as coisas ficaram fáceis na casa de Odé, sua vida melhorou e ele estava contente com suas esposas e os muitos filhos que elas deram à luz para ele. As esposas também estavam contentes e elas respeitavam seu marido por ter seus tabus guardados no mais alto respeito. No entanto, esta felicidade e os segredos de Odé não durariam para sempre. O irmão ciumento de Odé que havia inventado muitas e até então não tinha conseguido truques para obter informações, propôs um plano diabólico. O seu plano agora seria embriagar Odé, então colocaria pressão em Odé para que ele revelasse a identidade de suas esposas. Até então, ele vinha evitando a bebida de acordo com as instruções de Ifá, ainda que não tenha feito aquele ẹbợ. Quando o irmão de Odé estava firme em seus propósitos ele convidou Odé para um bate-papo familiar. Sem suspeitar de nenhuma malicia, Odé aceitou o convite de seu irmão e foi ao seu encontro. O irmão mais velho sabia que Odé havia parado com a bebida há muito tempo, porém, ele preparou um embriagador misturado à bebida e ofereceu à para Odé beber dizendo que essa bebida era preparada para relaxamento. Ele não suspeitou que fosse drogado. Odé tomou a bebida e foi dormir quase que imediatamente. Antes de desmaiar, no entanto, o irmão mais velho, trabalhou para saber de Odé o segredo de suas esposas misteriosas. Em seu estado de inebriante, Odé divulgou os tabus de suas esposas, inclusive disse ao irmão sobre as peles que estavam escondidas no sótão. O irmão mais velho ficou contente em saber o segredo, pois ele desejava usar esta arma futuramente. Porém enquanto o irmão mais velho trabalha com Odé para descobrir estes segredos, sua esposa que estava escondida escutou tudo, pois ela também estava ansiosa para conhecer os segredos das esposas de Odé.
Ao ouvir falar dos segredos das esposas de Odé, a cunhada de Odé (esposa de seu irmão mais velho) propôs uma atitude contra as esposas de Odé. Ela começou passando comentários bobos sempre que estava perto das esposas de Odé, somente para que elas soubessem que ela sabia sobre seus segredos. As esposas de Odé ignoraram os comentários desta trama, porém, estavam angustiadas sobre a verdade sobre a verdade inerente aos comentários. Para saber a verdade, elas pediram a seu marido, Odé, para informá-las se ele havia dito alguma coisa sobre seus segredos a alguém. Odé disse que não contou nada a ninguém desde que ele realmente tivesse conhecimento suficiente, a não ser quando seu irmão o fez ficar bêbado. No entanto sua esposa disse a ele sobre a perturbação repentina causada por sua cunhada, com comentários estranhos. Odé aliviou seus medos e as informou que isto era uma maneira da mão direita de sua cunhada para conseguir com que elas falassem. Por traz de sua face, Odé estava muito preocupado e angustiado, por que sua cunhada também relatou fatos perto da verdade. Entretanto, a família de Odé e de seu irmão viviam no mesmo complexo de casas como era costume na nação yorùbá. Esta coexistência tradicional proporcionou a cunhada de Odé tornar possível o rompimento dos tabus das esposas de Odé, ela concretizaria seu plano diabólico.
As esposas de Odé e sua cunhada foram em conjunto fazer suas tarefas noturnas, quando a esposa do irmão mais velho de Odé pegou uma panela cheia de quiabo e começou deliberadamente a cortá-los. Na metade do caminho ela foi para o quintal e pegou um monte de madeira que ela havia escondido, ela pegou a pilha de madeira e deixou cair perto da esposa de Odé. Quando ela terminou de deixar cair à pilha de madeira ela entrou e pegou uma vasilha com água colocou sobre sua cabeça e deixou cair em frente a esposa de Odé. Tudo foi feito com o esforço e intuito de quebrar os tabus das esposas de Odé. Odé e as esposas ficaram estáticas com a maldade em curso. Elas foram com raiva para cima de seu marido. Porém a esposa do irmão mais velho não tinha terminado com seu plano, ela foi mais adiante e chamou as três mulheres de animais dizendo:
Não neguem o fato de que vocês são animais e eu sei onde estão suas peles. Seu marido as guardou no sótão.
Ela foi embora, não sem antes fazer comentários amargos. Deixando as esposas de Odé desconcertadas. De fato, elas pensaram que seria muita coincidência admitir que seu marido não houvesse dito nada. Quando elas se recuperaram do susto que a esposa do irmão mais velho as fez passar pelas grandes revelações, elas foram até o quarto de Odé, investigaram o sótão e conseguiram suas peles. O próximo passo delas foi arrumar suas coisas, seus pertences e de seus filhos e saíram de casa para a floresta, sua casa original, junto com seus filhos. De alguma forma, mesmo longe de casa, Odé teve um pressentimento que alguma coisa estava errada com sua família. Ele fez um desvio e voltou para sua casa imediatamente.
Em seu caminho de volta, no entanto, Odé encontrou com sua família inteira. Uma avaliação rápida da situação o alertou que suas esposas não estavam bem. Ele perguntou por que elas estavam indo embora. Elas disseram que sua cunhada sabia de seus segredos e rompeu com todos os seus tabus e ela inclusive disse onde suas peles estavam escondidas. Odé foi emudecendo e quase desmaiou. Quando ele recuperou a normalidade ele pediu a suas esposas por perdão, dizendo: Eu não sei como minha cunhada soube do segredo de vocês, quem sabe ela não seja uma bruxa.
Ele pediu para que elas não o deixassem, porém, elas o recordaram do acordo original e reiteraram que elas tinham que sair. Odé foi para casa com o coração estraçalhado. Ele foi diretamente ao seu irmão que morava no mesmo complexo. Ele encontrou seu irmão e lhe perguntou como ele conseguiu a informação sobre suas esposas, om irmão disse que não sabia sobre o que ele estava falando. Neste instante Odé recordou que seu irmão havia lhe embriagado, no entanto, ele desafiou o irmão a negar o fato que ele recebeu a informação dele enquanto ele (o mais velho) o embriagava. Uma discussão acalorada se desenvolveu e Odé matou seu irmão, pois estava com muita raiva.

Ase.

Tradução Odé Ợlaigbo

Ifá Dida 2

S. Popoola.

 

Ègbé,

Me deparei com esse texto do Ogá e Babalawo Márcio Alexandre no site da Mãe Cléo e aqui reproduzo fielmente, pois concordo em gênero, número e grau.

Me incomodam profundamente as discussões, muitas vezes sem fim, sobre as verdades dentro da nossa tradição religiosa do Culto aos Orixás.

Quando falo em Culto aos Orixás, refiro-me especificamente ao Candomblé e ao Culto de Ifá, que são cultos Yorubás distintos e complementares. Cada um com seu viés, o candomblé como reconfiguração brasileira do Culto Lesse Orixá e Ifá como culto relacionado ao destino, regido pelo Orixá Orunmila.

Estes cultos surgidos, sim, na África, se reconfiguraram na Diáspora e, em alguns casos, preservaram-se de forma que nem mesmo existe mais no continente Africano.

Ora, é sabido que em fins do século XIX e início do século XX, houve uma série de intercâmbios entre África e Brasil para que se resgatasse aqui o que havia se perdido por lá.

No entanto, a cada dia surgem novas “verdades”, novas divindades, novas formas de se dar comida ao santo, novas formas de cantar e dançar, quase sempre jogando o que foi construído aqui na vala comum do erro, como se a única e absoluta verdade fosse aquilo que chega recriado e com roupagem de tradicional e puro.

O mesmo acontece com Ifá. Chamam a nós, da tradição afro-cubana de loucos e inventores, se esquecendo que a Ilha preservou Ifá tal como o recebeu dos velhos africanos que lá chegaram desterrados. Praticamos Ifá como o recebemos há 200 anos e todos nossos ritos e normas estão preservados não variando de país para país, como acontece aqui no Brasil onde vemos diletos africanos fazerem coisas que jamais fariam em seus países.

Meus incômodos partem de três premissas:

A primeira é que falta convicção religiosa àqueles que, de uma hora para outra resolvem jogar fora tudo aquilo que aprenderam porque alguém disse que está errado ou porque ” em África” é assim.

Em segundo lugar me incomoda a relação desrespeitosa que se estabelece entre estes neo-convertidos, com a tradição que abandonaram como se a partir de agora fossem eles os portadores da verdade absoluta.

Por fim, e não menos importante, incomoda-me o sujeito que fez umas duas ou três viagens à África, visitou meia dúzia de povoados e volta como se fosse o maior especialista da face da terra achando que todos os que estão por aqui são umas bestas quadradas que anseiam pelo seu saber único e inigualável.

A verdade está naquilo que nos faz bem, nos traz bons resultados, e nos dá paz de espírito. Pouco me importa se em algum canto do mundo Xangô não come quiabo. O que me importa é que há 500 anos damos quiabo a ele no Brasil e ele sempre nos respondeu.

Certa vez um dos primeiros teólogos da Igreja Primitiva escreveu sobre a existência real de Jesus Cristo, pois nunca houve provas históricas de sua existência: “a mim pouco importa se ele existiu ou não, o que importa é que eu creio”.

Assim é meu pensamento. Não me importam as verdades de cada um. Importa no que creio e disso não abro mão. Um religioso que abre mão de suas crenças é um fraco, um irresponsável e um inconsequente com aqueles que o seguem.

Claro, não devemos ser bitolados e nem fundamentalistas, devemos sempre buscar aprender e conhecer coisas novas que venham como aporte, um robustecimento daquilo que já sabemos. Sabemos que em nosso Culto aos Orixás por mais que vivamos nunca aprenderemos tudo. Mas há um limite e ele está naquilo em que não confronta com o que aprendemos, pois também nossa religião se pauta em costumes e tradições, legados fundamentais deixados pelos nossos mais velhos.

Suas verdades, nossas verdades, minhas verdades. Assim vivemos e assim seguimos. Quero muito aprender e conhecer coisas novas, mas minha verdade está totalmente baseada naquilo em que creio e disso não abro mão. Do mesmo jeito que não imponho minhas verdades a ninguém não aceito que imponham as suas a mim. Isso é postura da qual não me arredo um passo.

Ashe to iban eshu.

Iboru, Iboya, Ibosheshe

Texto: Ogá , Babalawo Marcio Alexandre Obeate Ifairawo

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Vodun Gu, Assen e Representação

                                    Vodun Gu, Assen e Representação

Ogun Avagan é uma divindade cultuada no Batuque do Rio Grande do Sul, em suas diversas vertentes (Ijexá, Jeje, Nagô, Oyó, Kabinda/Kanbina), que tem dentre suas funções proteger o templo e as pessoas ligadas a ele. É assentado em um espaço reservado, em frente ao templo, juntamente com Exu Olode (ou Bará Lodê) e ambos tem a função de proteger o local.

Ogun Avagan é tido pelos adeptos do Batuque do Rio Grande do Sul como uma divindade vinda dos “jejis”, o considerando um Vodun, e não estão errados em sua concepção, pois tanto Ogun Avagan quanto Oyá Timboá (Atinbowá) são divindades Voduns, associadas ao culto yorubá do Batuque do RS, sendo atreladas como qualidades de Orixás e sendo cultuados nos moldes dos mesmos.

Para enterdermos melhor Ogun Avagan, precisamos compreender como nasceu o culto de Vodun Gü e os ancestrais que foram divinizados e fazem parte de seu clã, pois até Avagan temos uma sequência:

Ògún: divindade yorubá da guerra e dos metais;
: divindade fon com origem yorubá, uma adaptação do culto do orixá Ògún, carrega também os nomes Gü Huntonji, Ogü, Dagü e Ogün mesmo. É uma divindade popular (Toxwyo);
– Avagän ou Gü Avagän: divindade fon, ancestral divinizado, ligado ao culto do vodun Gü, ou um título do mesmo, cujo nome na língua ajagbé significa “senhor do metal” ou “ferreiro”, é uma divindade local.

Do Culto de Ògún, nasce Gü

O culto de Ogun foi levado ao Dànxómè por ferreiros yorubás no final do séc XVII. De acordo com Verger: “Para os Fon do Dahomey, Gü desempenha o mesmo papel que Ogum dos yorubás, mas, como Odùduà, é desconhecido em Abomey, Gü ai, é considerado o filho de Lisà e Mäwü, versão fon de Orìsàálá e Yemowo. Maximilien Quénum, o compara a Legba e assinala sua presença diante das forjas. Christian Merlo indica que “todos os templos” têm seu Gü, cuja virtude é fortificar o vodun. Em Xwèɖá na República do Benin, no Templo de Dan, se encontra um assen dedicado ao Vodun Gü, cuja função é proteger o templo. Chamam-no Sòhokwé, o guardião da casa”. O Assentamento da divindade “Xoroke” nos terreiros jeje-mahi do Brasil se refere a proteger os templos, e alguns o chamam de “Ogun Tolú”. O emblema principal de Gü é o Gubasá, uma adaga metálica adornada com desenhos, utilizada em diversos rituais, incluindo o culto de Fá. O Gubasá também é conhecido e utilizado no Vodu haitiano. O Gudaaglo, facão de tamanho menor, é um outro emblema, símbolo de proteção e defesa contra os inimigos. Na iconografia fon, é representado segurando estes dois sabres, o Gubasá na mão direita e o Gudaaglo na mão esquerda. Vários templos e casas no Benin, possuem seu assentamento de Gü.

Avagan

Gu vodun 2

Na língua ajagbé “Ava – metal, ferro; Gän – senhor, no sentido de possuir” literalmente “o ferreiro”,  pode se referir a um ancestral divinizado ligado ao culto de Gü, bem como ser um título do próprio, como pode se referir a diversos ferreiros do antigo Danxomè. Além de Avagan temos ancestrais divinizados, ligados ao culto de Gü, que é o Ako Vodun, o chefe do clã. Podemos citar por exemplo Gu Badagri, divindade muito conhecida no Haiti, sob o nome de “Ogou Badagris” que é um ancestral que foi divinizado e ligado ao culto de Gu.

Ifabimi Aladanu, escritor e pesquisador da cultura afro e também do culto vodun cita: “Avagan é o que diz seu nome: ferreiro, um de seus atributos. Com esse atributo ele é reverenciado de uma forma distinta daqueles outros, que é um só, mas de outra cidade ou que tenha um outro atributo. Ele é ferreiro então ele não vai a guerra mas ele faz a faca, então antes do sacrifício ele é reverenciado, como se fosse o Asi Anju dos iorubás. Frekwen tem a forja, Avagan é o ferreiro.”

Também considera-se que o título Avagan esteja ligado não somente a um ancestral específico, ou a Gu, mas há vários ferreiros reais do antigo Danxomè. Logo podemos concluir que antes de ser um nome específico a uma única divindade, Avagan é um título que se extende ao coletivo.

Podemos ainda encontrar autores que consideram que Avagan pode ser Avagá: uma divindade fon feminina, mas que poderia ter se associado ao culto de Ogun, no Brasil, fazendo assim surgir Ogun Avagan. Vejamos, como cita Bokonon Defódjí (Daniel Barreiro), sacerdote de Fá-Vodun, pesquisador e escritor, sobre esta divindade: “Vodoun feminino, acredita-se que o portador das bênçãos de Vodoun Dan, que dá a sabedoria de Mawu e proteção para seu novo Rei -HOUNON-GA que foi coroado, simbolizada pelas serpentes nos braços do Hounon-Ga, ela é a que se comunica com Vodoun dizendo-lhe que “um novo Rei há nascido” para a sua comunidade e reinará sobre a então até que um novo nascer … Avagá foi confundida com Orisa na América pelos irmãos, inclusive confundida como o Orisa Ogun…” (Tradução minha).

De fato vemos que muitas concepções circundam a divindade Avagan, e como chegou ao Brasil e foi associada a Ogun, pois de alguma maneira, desde África já havia um elo, uma ligação.

Ogun Avagan mantém muitos desses aspectos, e também uma semelhança com a divindade conhecida como Sohokwe ou Xoroke, por ser aquele que fica “na frente” e protege os templos. Também é o portador da faca, digamos, aquele que faz a faca, o ferreiro, o primeiro que recebe louvações.

 

 

Respeite o Autor

Não copie sem autorização, lei L9.610 de direitos autorais.

Hùngbónò Charles (Charles da Silva), sacerdote, historiador e pesquisador da cultura Vodun

 

 

             Custódio Joaquim Almeida de Xapanã (Sakpatá Erupé)

O “Príncipe Negro” ou Príncipe Custódio de Xapanã é uma das mais importantes e controversas personalidades dentro da formação e estruturação da religião afrosul, denominada Batuque do Rio Grande do Sul, praticada sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (além de outros estados em menor proporção) e também em países como Argentina e Uruguai, para onde este culto migrou através de seus sacerdotes.

A figura de Custódio, é sempre associada ao povo Fon (Jeji) e a ele se atribue a vertente Jeji/Jeje-Glefe/Jeje-Nagô, praticadas nas liturgias do Batuque, e os Voduns que fazem parte do mesmo. No entanto é uma precipitação atribuir esta personalidade como sendo um Fon/Daomeano, ou mesmo dizer que ele foi o responsável pela estruturação do culto de alguns Voduns no Batuque (que nesta religião não tem um culto exatamente organizado e que são cultuados segundo a cultura yorubá, na forma de “qualidades de Orixás”). O Príncipe Custódio de fato era africano, mas não daomeano. Trata-se de um dos príncipes da dinastia do povo Bini ou Edo, habitantes do antigo Reino de Benin, localizado a sudoeste da antiga cidade de Ifé (hoje, Lagos), na atual República da Nigéria.

Para entendermos um pouco da cultura do povo Bini ou Edo, vamos analisar como esse povo emergiu como civilização.

O Reino de Benin e o Povo Edo

O Reino de Benim formou-se entre os séculos XII e XIII, onde tem sua História montada através das investigações arqueológias e também através dos mitos que envolvem sua fundação. Os mitos que envolvem a fundação de Benin, estão intimamente relacionados aos mitos de fundação de Ifé; Acredita-se que Ifé fora fundada por Odudua, um dos orixás da criação, a mando do deus supremo, Olorum. Benin, por sua vez, teria sido fundado por Oraniã, orixá das profundezas da terra e filho de Odudua. A lenda sobre Oraniã ainda faz referência a um suposto filho que ele teve, Eweka, que teria sido o primeiro rei, ou Obá (nome adotado dos Yorubás), de Benin. O fato é que o Reino de Benin contou, ao longo de sua trajetória, com poderosos Obás. No século XV, um desses obás, Ewuare, promoveu intensas reformas no reino, transformando Benin em uma grandiosa potência subsaariana. A língua falada por este povo chama-se igualmente edo, aproximando-se a língua yorubá, e sua cultura também encontra-se atrelada a cultura do povo Yorubá.

Obá Ovonramwen de Benin e Osualele Okizi Erupé

Ovonramwen Nogbaisi (Obá de Benin, entre 1888-1897), também chamado Overami, foi o Obá (rei) do Reino de Benin até a expedição punitiva britânica de 1897.

No final do século XIX, o Reino de Benin ainda havia conseguido manter a sua independência com relação ao monopólio britânico. O território, no entanto, a muito estava sendo cobiçado por um influente grupo de investidores por seus ricos recursos naturais, como óleo de palma, borracha e marfim.  O reino foi em grande parte resistente ao controle britânico, e uma pressão contínua de figuras como o vice-cônsul britânico James Robert Phillips e Capitão Gallwey, que se empanhavam para a anexação britânica do Império Benim e a remoção do Obá Ovonramwen.

A força de invasão britânica chefiada por Phillips, foi estabelecida, para derrubar o Obá em 1896. O plano de Phillips era ganhar acesso ao palácio de Ovonramwen, dizendo que queria fazer negociações. Mensageiros de Ovonramwen no entantp emitiram várias advertências para não violar a soberania territorial de Benin, alegando que o Obá era incapaz de ver Phillips naquele momento devido a deveres cerimoniais. Tendo sido avisado em várias outras ocasiões no caminho, Phillips provocou o Obá, um insulto deliberado destinado a provocar o conflito que iria fornecer uma desculpa para a anexação britânica. A expedição de Phillips no entando falhou e muitos de seus homens mortos. Posteriormente, uma operação militar contra o Reino de Benin, em 1897, liderada por Harry Rawson resultou na queima da Cidade de Benin (capital do Reino) e na mortes de um número incontável de seus habitantes. Embora os britânicos tivessem ordem para executar o Obá, Ovonramwen escapou, mas logo depois se rendeu, conseguindo fazer um acordo com os britânicos, que ele e sua família iriam se exilar. Ovonramwen foi exilado em Calabar com suas duas mulheres, e lá morreu em 1914.

Segundo os relatos citados em muitas bibliografias que abordam o Batuque Afrosul, um dos filhos de Ovonramwen era Osuanlele, considerado por alguns como seu primogênito. A Osuanlele é atribuida a figura de Custódio Joaquim Almeida (nome adotado no Brasil), o nome que ele teria adotado ao mudar-se para o Brasil, onde residiu até o final de sua vida na cidade de Porto Alegre/RS.

Um conflito na História

No entanto, apesar de a Custódio ser atribuido ser Osuanlele, o filho de Ovonramwen e por conseguinte “príncipe” de Benin, existem muitas discordâncias históricas; uma delas é que na história do Reino de Benin, não há nada que relate alguns dos filhos de Ovonramwen sendo exilado no Brasil.

Outra discordância seria assimilar um nobre de etnia Edo, ao culto Vodun e chamá-lo de pai dos Jejis no Rio Grande do Sul, pois há inúmeras evidências de que Custódio Almeida praticava um culto nàgó. Com estas evidências alguns escritores e historiadores chegam a acreditar que Custódio teria tido conhecimento do exilio do Obá e sua família e teria se aproveitado do fato para se intitular um nobre, um dos príncipes Edo.

Há também escritos que denominam Custódio como “Príncipe de Ajudá”, referindo-se ao porto de Ouidah, na atual República de Benin (antigo Reino de Danxomè), de onde partiram vários negros de etnia yorubá para o Brasil e talvez esse teria sido o motivo de uma associação entre a figura de Custódio e o povo Jeji, no entanto não há nenhuma evidência história de que algum “Príncipe de Ajudá” tivesse vindo para o Brasil, ainda mais em epócas tardias da escravidão como se referem os relatos voltados a figura de Custódio.

O Culto dos Voduns Reais

Como se sabe, a realeza daomeana tinha uma maneira própria de culto. Seus Voduns (Hennu-vodun) eram Voduns famíliares, ou seja, o culto de seus próprios ancestrais que eram divinizados e tornados Voduns. Não existe no Rio Grande do Sul vestígios ou relatos de algum culto semelhante; diferente do que existe no Maranhão na Casa das Minas, uma casa de tradição Jeji, que teria sido fundada pela rainha Na Agotimé, esposa do Rei Agonglo que teria sido exilada e mandada como escrava para o Brasil por seu enteado Adandozan. A Casa das Minas realiza uma prática única de culto aos voduns ligados a família real de Danxomè (Daomé).

Conclusão

A origem exata de Custódio Joaquim Almeida, apesar de diversos estudos realizados a seu respeito, continua um mistério. Sem dúvida foi uma personalidade que teve muito prestígio e criou laços com personalidades da elite, importantes na época. As conclusões que se pode tirar é que foi e ainda é uma importante figura e um dos pilares na formação do Batuque do Rio Grande do Sul como é conhecido hoje. No entanto, dentre os relatos que o citam, sempre apontam uma forma de culto nàgó, e não Jeji, como afirmam as tradições orais do Batuque. Uma das hipóteses é que ele tenha se integrado a comunidades de negros ditos Jejis que aqui ja estavam e que ele teria se auto-denominado Jeji e sua raiz religiosa assim se perpetuou, absorvendo uma porção de costumes e rituais praticados por ele.

Estudo de imagem

Na foto abaixo vemos Ovonramwen ao centro; suas duas esposas uma de cada lado, envoltos pelos filhos. O rapaz mais alto, atrás de Ovonramwen é tido como sendo Osuanlele.

 

Obá Ovonramwen de Benin e sua família.

Obá Ovonramwen de Benin e sua família.

 

 

Texto: Charles da Silva (Hùngbónò Charles),

Formação em História (Unopar), especialista em História e Cultura Afrobrasileira (Uniasselvi)

 

 

Fontes e Referências:

-Redescobrindo o Nàgó do Príncipe Custódio (https://ileaseekundeyi.files.wordpress.com/2013/04/redescobrindo-o-culto-nago-do-principe-culstodio.pdf)
– Alberto da Costa e Silva, Um chefe africano em Porto Alegre, in “Um rio chamado Atlântico”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira;UFRJ, 2003

-Mundo Escola – Reino de Benin (http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiageral/reino-benin.htm)

-Thomas Uwadiale Obinyan, The Annexation of Benin, in Journal of Black Studies, Vol. 19, No. 1 (Sep., 1988), pp. 29-40

 

 

Ewé  Tètèrègún – A Folha da Vida e da Morte.

A Religião dos Òrìsàs é cheia de rituais e simbolismos. No entanto, a razão desses rituais nem sempre é de conhecimento da maioria dos adeptos. Um dos rituais mais recorrentes no Candomblé, refere-se a folha de Teteregun, a qual é utilizada para molhar a cabeça dos Omo Òrìsà (filhos dos Deuses) e, em diversas outras ocasiões, pedindo-se sempre coisas boas. … Mas porque fazemos isso? Uma antiga história de Ifá, narra que, Teteregun não realizou uma oferenda prescrita por Olokun e, quem em razão disso, estava ficando completamente seca. Desse modo, Teteregun ficou desesperada e resolveu consultar o oráculo sagrado. Ifá, o Deus da Adivinhação, por meio do oráculo disse que Teteregun deveria realizar um sacrifício, sendo que esse sacrifício seria pegar água para Olokun, ao longo de alguns dias. Logo ao amanhecer, Teteregun foi ao rio, quando Teteregun retornou já era noite, ela pegou toda água que trouxe e derramou no mar para Olokun. Teteregun fez isso ao longo de alguns dias, sendo que no último dia, Olokun molhou o corpo de Teteregun, dizendo que ela seria a folha encarregada de molhar o seco, que ela seria a folha com o poder de refrescar o calor, que ela seria a folha capaz de apaziguar a cólera, da mesma forma, como ela conseguiu apaziguar Olokun.

Nome Yorùbá = Tètèrègún, Tètè Egún, Tètèègúndò.
Nome Bantu = Mueki Rizanga.
Nomes Populares = Cana-do-brejo, Cana-de-macaco, Cana-do-mato, Sanguelavô, Sangolovô, Ubacaia.
Nome Científico = Costus spicatus Sw, zingiberacege

 

Tètèrègún é uma folha nativa do Brasil, é encontrada em todo o território nacional e também e outros continentes.
Folha Gún (de excitação), Masculina, ligada ao elemento Ar.

É folha usada principalmente para Obàtálá e também para Òsóòsìi, Nànà e Bàbá Egúngún, sem dúvidas que é uma das folhas mais utilizadas dentro da Liturgia dentro do Culto aos Òrìsàs no candomblé no Brasil e na Nigéria Èsìn (religião) Yorùbá. Folha de grande importância e fundamento, por isso sua participa do encerramentos do ritual de Sasányìn, é a folha da Vida e da Morte.
A mesma é utilizada em Iniciações (Igbèrè), na sacralização de elementos ritualísticos, em magias e medicinas = Oògùn.
Esta folha faz parte da composição do Àgbo dos Orixás citados acima e para banhar o Ìyàwó no período de reclusão. Representando a Morte (para a vida profana) e a Vida (nascimento para a vida religiosa). É uma das folhas que ajuda a chamar Orixá, podendo ser utilizada em quase todos os ritos que se utilizam de folhas.

“Tètèrègún òjò do mpá 

Tètèrègún òjò wo bi wá”

Têtêrêgún é como a chuva que mata.
Têtêrêgún é como a chuva que dá vida.

“E Tètèrègún e Tètèrègún Ojo gb’oomi wá ó 
Tètèrègún Ojo gb’o omi wa e jô ó Tètèrègún”   
A chuva traz a água que molha teteregun
Chuva traz água por favor, para molhar o teteregun. 
Pesquisa: Livro Ewé José Flavio e Eduardo Napoleão
Pesquisa texto: Blog Casa do Òsùmàrè e Blog Gunfaremim

Acervo cultural: Ilé Àse Òsòlúfón Íwìn

Ìyá Omindarewa

É com pesar que comunicamos o falecimento da venerável Iyalorixá francesa, Omidarewá.

Uma grande filha de mãe Yemanjá, o candomblé do Rio de Janeiro está de luto.

A yalorixá Gisele Omindarewà morreu aos 92 anos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, quinta-feira (21).

Gisele Cossad dedicou a vida à cultura nagô e era responsável pelo Centro de Candomblé em Santa Cruz da Serra, onde o velório foi realizado.

“Primeiro, a iniciação não ensina nada. Ela é uma espécie de porta que abrimos para o conhecimento. A partir do momento que ultrapassemos essa etapa e somos iniciados, então temos o direito de saber. É preciso buscar e ter vontade de aprender, mas esse direito não é dado para qualquer um, tem que conquistá-lo. E isso não se faz com papel e lápis, não é assim que se passa as coisas para as pessoas, isto é típico da concepção africana do saber: devemos aprender praticando.”
Gisele Binon Cossard – ìyá Omindarewá
31/05/1923 – 21/01/2016

 

Yalorixá Gisele Omindarewa morreu aos 92 anos  (Foto: Reprodução/ TV Globo)