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Olódùmarè, o Juiz em silêncio vê todas as mentiras.

Mentir vai matar os mentirosos
Juramento quebrado vai matar quem quebra o juramento
Estes foram o aviso de Ifá para Òrúnmìlà
Ao ir em missão de Ifá para os mentirosos na terra
E também quando quebra a missão de Ifá ao quebrar o juramento na terra
Ele foi aconselhado a oferecer ebo
Ele cumpriu
Aqueles que chamam negra como branco
Olódùmarè está te observando
Aqueles que chamam de Iroko de Oriro
Olódùmarè está te observando
Olódùmarè o juiz em silêncio.
Lição de hoje amanhã
1, não minta, porque uma única mentira descoberta pode criar dúvida em toda a verdade.
2, não quebrem um juramento, porque juramento quebrado vai matar aqueles que vão contra o juramento.

Odù Ògúndá Ogbè

Vamos dizer a verdade, porque só pessoa confiável terá o apoio de todos Ìrúnmolé.
Podem mentir para o próximo, porém Olódùmarè tudo sabe e tudo vê.

Estejam todos abençoados.
Awo Ifá Bowale

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O Mokan será colocado na iniciação juntamente com os fios de contas devidamente lavados e deverá acompanhá-lo até o odu ije.
Após se dar esta obrigação (a de sete anos), deve o mesmo ser depositado no Igbá do Orixá, pois se trata de uma jóia que, mesmo depois de seu tempo obrigatório de uso, deve ser guardada.
Para entender a aplicação espiritual do uso do Mokãn , gostaríamos de falar um pouco da matéria prima do qual o mesmo é feito, a palha da costa, Ìkó.
Palha da costa é a fibra de ráfia, extraída de uma palmeira chamada Igí-Ògòrò pelo povo africano.
Seu uso é indispensável na iniciação de uma pessoa ao culto òòrísá , no sentido de proteger a vulnerabilidade dos neófitos.
É um grande fundamento da família dos Òòrísás.
A íntima ligação da palha da costa com a prevenção de contaminações por energias negativas.
Neste sentido, podemos afirmar que o Ìkó é uma palha que nos protege dos Ègúns.
Daí se confeccionar o Ikán (contra-egun), a umbigueira e o xaorô de palha da costa.
Seria a aplicação espiritual do Mokãn também uma forma de prevenção?
Vejamos:
À priori, podemos dizer que o Mokãn é uma proteção do Òrí e do Umbigo.
Por isso ele vai invariavelmente do pescoço (do fim da cabeça) até o umbigo.
Estes são os símbolos de nossa vida espiritual.
Òrí é o receptáculo de nossa individualidade e o umbigo o símbolo de nosso nascimento para a vida espiritual enquanto omo òòrísá.
A posteriori, diremos que o Mokãn é um símbolo dos neófitos com os demais ikãns e a sua delògún, trata-se de um conjunto-símbolo-representativo inseparáveis.
Mais que os delògúns (fios de conta), o Mokãn é o símbolo da etapa de formação do filho de òòrísá.
Usar o Mokãn é externar este lindo momento em que todo o Àse, toda a tradição afro-brasileira, se faz em continuidade, configura-se o adôxu, aquele que é iniciado.

Pesquisa de texto: Ìyálòrìsá Marli T’Sàngó

Ese Ifá de Òwónrín’ Ìrètè

Introdução

Òpè kute

Foi o Áwo que lançou

Ifá para a Tartaruga

Que sobe na palmeira

No dia em que iria coletar

Frutos no campo de Ailerolodún

Ele que levou o Áwo à casa da riqueza

É o mesmo que leva

A casa da pobreza

Que é a casa do pai

Da tartaruga

Iton

Aqui está Alabahun (Tartaruga) seu pai se dedicou a colher Eyin (fruto do Ikin).

Quando Alabahun cresceu, também se dedicou a mesma profissão. Ele foi com seus Áwo para saber se ele iria prosperar em sua profissão e eles lhe disseram que ele teria que realizar ebo, disseram que teria que oferecer uma de suas ferramentas de trabalho no ebó. Alabahun tinha dois machados e ele ofereceu um no ebó como lhe disseram seus Áwo.

Depois de realizar o ebó, ele foi trabalhar com o único machado que restava. Quando chegou ao lugar onde se encontravam as árvores de palma, começou a trabalhar cortando os ramos de Eyin e quando havia somente um ramo em uma palma que se encontrava na beira do rio, Alabahun começou a cortar a penca e quando estava cortando o machado saiu de mão e caiu dentro do rio. Alabahun ficou chateado quando seu machado caiu no rio e disse:

Por que foi cair logo agora, quando faltava apenas uma penca para retirar?

Como vou me fazer se não terminar de colher e completar meu trabalho?

Alabahun desceu da palma para tentar encontrar seu machado e entrou na água, a correnteza o puxou e o arrastou até uma aldeia dentro da água. Nesta cidade, a maioria dos habitantes eram mulheres, muitas mulheres e de várias tonalidades de pele, dudu (negras), fun fun (brancas), pupa (rosadas), ayirin (várias cores) e também muito dinheiro, uma incalculável soma de dinheiro. Ao cair, Alabahun, naquela cidade, as pessoas daquele local não tinham um líder e já lhes haviam dito que eles encontrariam uma pessoa de fora da comunidade (um estrangeiro) que iria ocupar este posto.

Por isso quando Alabahun chegou a esta cidade, todos os habitantes foram atrás dele e o agarraram e Alabahun não sabia o por que. Ele se assustou pensando que ele seria agredido e disse:

O que eu fiz para vocês?

Elas o levaram e o sentaram no trono do rei e ali lhe deram dinheiro, mulheres e etc.

Nesta cidade não havia nenhum homem e Alabahun havia sido o único que havia chegado a este lugar.

Eles disseram à Alabahun que naquele povoado elas tinham uma proibição, que era comer Eyin (fruto do Ikin). Elas levaram Alabahun ao pé de uma palma de Eyin e aquele tipo de Eyin não era o que ele conhecia, este era muito grande. O rei desta cidade não podia comer Eyin. Ele foi advertido que se ele comesse aquele fruto, as consequências iriam ser terríveis.

Eles lhe impuseram esta proibição. Ele podia entrar em qualquer parte do palácio, porém existia uma casa onde ele não podia entrar. Este era o quarto menor do palácio. Assim o tempo se passou, até que um dia, ao saírem todos do palácio e Alabahun ficou sozinho, ele se perguntou:

Por que não posso comer Eyin, se este sempre foi o fruto do meu trabalho?

Ele disse:

Eles são tão bonitos e tão grandes!

Eu vou provar um!

Ele foi e comeu um, porém, ele pegou outros e os levou para seu quarto real para continuar comendo. Como Alabahun estava desfrutando do Eyin, Èşù o induziu dizendo:

Não vê que rico é o Eyin que disseram para você não comer?

Então, vê aquele quarto que te disseram para não entrar?

O que você está esperando para entrar nele!

E desta forma Alabahun foi induzido por Èşù, entrou no quarto e ele viu que ali estava a raiz da palma de onde havia caído seu machado e ao seu lado estava sua ferramenta.

(Aqui vemos o trabalho de Èşù em cima de nosso caráter, lembre-se que discutimos este tema e não houve muita concordância de sua parte, rindo)

Quando ele foi nomeado rei, suas roupas sujas foram tiradas e elas também estavam ali.

As pessoas da cidade agarraram Alabahun e o mandaram outra vez para fora, com a mesma roupa e sem nenhum dinheiro.

O que leva um Áwo a riqueza

Também leva um Áwo a pobreza

Que é a casa do pai da tartaruga.

Este Eșé Ifá explica como Alabahun teve a riqueza por meio de ebo que os Áwo realizaram, porém, ao mesmo tempo os mostra que tão importantes é o respeito ao tabu, pois, ainda que o ebo tenha lhe trago toda riqueza, ele rompeu com o tabu e isto o levou novamente a mesma pobreza que ele já havia vivido com muito sofrimento.

De que valeu o sacrifício feito, se não respeitou as proibições?

De nada.

Por esta razão é que explicamos que tão importante é conhecer e realizar os sacrifícios e mais importante ainda é respeitar os tabus ditados por Ifá.

Muitos sacerdotes tanto de Ifá como de Òòșà (Òrìșà), são consagrados (iniciados) corretamente na religião, porém, muitos não conhecem seus èèwò e o que é pior, os conhecem e não os respeitam.

E quando seus assuntos começam a dar errado, com certeza sua vida se tornará um calvário.

O respeito aos tabus (èèwò) deve ser levado muito a sério, para que sua vida não se torne um rio de lamentações.

Os sacerdotes de Ifá e Òòșà, devem levar isto muito a sério, para ter uma vida mais tranquila e com menos inconvenientes, pois, se os ebo nos levam a prosperidade, o respeito ao tabu nos faz manter esta mesma prosperidade.

 

 

Informamos o falecimento da Iya Regina D Oxóssi.  O velório será realizado velada no Barracão situado na Rua Compositor Silas de Oliveira em Madureira, e o sepultamento ocorrerá hoje dia 31.11 as 16 horas no cemitério do caju, zona portuária da cidade do Rio de Janeiro.

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O Búzio

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O Búzio é uma concha marinha composta de duas faces: dianteira e traseira.
A face dianteira contém uma fenda dentada de cima a baixo, a qual podemos chamar de “boca”.
Segundo a totalidade dos babalawos, é a parte falante do jogo.
A face traseira , originalmente fechada, é aberta para proporcionar o equilíbrio e a queda do búzio em duas posições, aberto e fechado, com idênticas probabilidades.
De acordo com os mitos, a adivinhação pelos búzios foi introduzida pelo Òòrísá Òsún e suas filhas são Ìyás Petebí por natureza.
Os búzios também são chamados de kaurís e já valeram como dinheiro no segundo milênio antes de Cristo.
O Jogo do Ìbò: é uma forma de prestar assessoramento ao Jogo de Búzios, tem a finalidade de decidir ou revelar o ebó, obrigações, decisões, o odú e a qualidade de Òòrísás.
O Ìbò promove uma participação mais direta entre o consulente e o jogo.
As perguntas são feitas à Orunmilá sem a interferência de Èsú.
A palavra Ìbò significa aquilo que está encoberto, oculto, e vem do verbo bò, cobrir, em razão de ato de a pessoa ter, em suas mãos fechadas, dois elementos para responder as perguntas feitas.
O Ìbò utiliza-se de uma fava ou búzio ou otás de formatos diferentes que um deles significa SIM e o outro NÂO, para pergunta feita.
Bibliografia: *José Beniste.
Há também o Jogo feito com o Obí e Orobô e o de Exú com 4 búzios que auxiliam na confirmação das jogadas.
Só podem jogar búzios, o Egbon que tem sua Cuia ou Deká ou Igbàse, o cargo de BàbálÒòrísá /Ìyálòòrísá ou Ojú Oluwò, conferidos pelo seu àse e ratificados por Orunmilá.
Oxeturá ou Òsétùwá, acompanha todas as divindades, é formado pela combinação de Otùwá e Òsé, um odú menor, 17ª e mensageiro dos Odús, muito ligado a Èsú; Òdòsú é o vigia do jogo, que observa à parte, mais que não participa diretamente no jogo, mas que pode ajudar numa indecisão.
As caídas podem variar de àse para àse, podendo haver pequenas divergências.

Babalorixá Fernando D’Osogiyan

O cerco que quer nos fechar

Na manhã deste domingo, 24 de setembro de 2017, começou a circular pelos grupos do WhatsApp um relato de um fato ocorrido durante a celebração religiosa em um terreiro de Olinda, PE. Não divulgarei nomes, pois não pedi autorização para isso. Antes de falar sobre escreverei trechos do relato:

“Esta noite fomos surpreendidos por 4 homens (…). Enquanto Oxun seguia como presente para o rio, vivemos momentos de pânico dentro do terreiro. Muitos tiros e furtos de celulares. Impressionado com a ousadia, Graças aos nossos ancestrais ninguém ficou ferido. Estava em pânico no primeiro andar de casa, rendido por um dos meliantes enquanto ouvíamos os disparos e gritos vindos do salão, imaginando uma chacina. Tudo terminou bem. Segue para nós o exemplo. Um dos assaltantes gritou dizendo que iria calar o cão. Benção a todos”.

Viver num clima de insegurança constante já se tornou um sentimento “banal” para todas nós em praticamente todas as cidades do Brasil. Apesar da “normalidade” não vivemos um momento de paz e segurança. Apesar da ausência oficial de uma guerra, a sensação em que todas as pessoas vivem é de estarmos no meio de um conflito correndo risco de vida em todos os momentos dentro e fora de casa. Acredito que não falo nenhuma novidade aqui.

O relato é chocante e assustador e seria tão chocante e assustador quanto se ocorresse numa padaria, num centro espírita, numa igreja… Mas o que o torna ainda mais assustador é o teor da frase descrita no relato: “um dos assaltantes gritou dizendo que iria calar o cão“. Não é somente o furto, não é somente o assalto. Estamos agora falando de ódio, de intolerância, de preconceito. Isso aliado aos relatos recentes de destruição de terreiros por intolerância religiosa nos deixam mais alertas e, obviamente, com mais medo, pois nós, povo de terreiro, estamos à mercê de mais um nível de violência. O que nos acontece é motivado por um clima de ódio cada dia mais motivado.

Esse clima de ódio causa-nos medo. Temos medo de tocar, temos medo de fazer nossos ritos públicos. Temos pedido proteção policial para abrirmos nossas portas. Não por medo de assalto, e sim por medo da invasão motivada pelo ódio. Qual tipo de templo precisa disso para funcionar publicamente? Você já viu esse tipo de situação acontecer com uma igreja, um templo budista, um centro espírita aqui no Brasil? Não somos todos iguais, não vivemos em um ambiente de simples intolerância religiosa. Esta intolerância direcionada para terreiros de religião afro-brasileira ainda é motivada pelo racismo. O racismo religioso existe e está agora mostrando ainda mais a sua face perversa, excludente e aniquiladora.

Assim como em África ligaram a figura de Exu ao diabo nos tempos da colonização, séculos depois ainda relegam a nossa religiosidade o lugar do obscuro de uma crença que não é nossa.  Eu ainda provoco olhares de reprovação ao andar de branco e de ojá na cabeça na rua, na universidade. Juízes ainda ignoram nosso sistema de crença como religião. Grupos ainda nos consideram primitivos evolutivamente.

Se em um país onde o direito a praticar uma religião é direito garantido e, ainda assim, precisamos pedir proteção institucional, isso significa categoricamente que não estamos em um estado de normalidade. Todos dias temos um direito a menos. Retirada de direitos respaldada por grandes grupos que compõe os poderes legislativo e executivo e que no contexto atual estão com suas ideias conservadoras e repressoras cada vez mais fortalecidas e atuantes. Isso pode custar (e custa!) vidas. Todos estes elementos estão conectados. Não podemos perder isso de vista.

Não precisamos falar sobre isso. Precisamos agir urgentemente sobre isso.

Dayane Silva (Oyakole)

Ubuntu: a filosofia africana que nutre o conceito de humanidade em sua essência

Burundi – Foto: Virginia Maria Yunes

Natalia da Luz, Por dentro da África

Rio – Uma sociedade sustentada pelos pilares do respeito e da solidariedade faz parte da essência de ubuntu, filosofia africana que trata da importância das alianças e do relacionamento das pessoas, umas com as outras. Na tentativa da tradução para o português, ubuntu seria “humanidade para com os outros”. Uma pessoa com ubuntu tem consciência de que é afetada quando seus semelhantes são diminuídos, oprimidos.

– De ubuntu, as pessoas devem saber que o mundo não é uma ilha: “Eu sou porque nós somos”. Eu sou humano, e a natureza humana implica compaixão, partilha, respeito, empatia – detalhou em entrevista exclusiva ao Por dentro da África, Dirk Louw, doutor em Filosofia Africana pela Universidade de Stellenbosch (África do Sul).

Dirk conta que  não há uma origem exata da palavra. Estudiosos costumam se referir a ubuntu como uma ética “antiga” que vem sendo usada “desde tempos imemoriais”. Alguns pesquisadores especulam sobre o Egito Antigo (parte de um complexo de civilizações, do qual também faziam parte as regiões ao sul do Egito, atualmente no Sudão, Eritreia, Etiópia e Somália) como o local de origem do ubuntu como uma ética, mas o próprio fundamento do ubuntu é geralmente associado à África Subsaariana e às línguas bantos (grupo etnolinguístico localizado principalmente na África Subsaariana).

Burundi – Foto: Virginia Maria Yunes

– No fundo, este fundamento tradicional africano articula um respeito básico pelos outros. Ele pode ser interpretado tanto como uma regra de conduta ou ética social. Ele descreve tanto o ser humano como “ser-com-os-outros” e prescreve que “ser-com-os-outros” deve ser tudo. Como tal, o ubuntu adiciona um sabor e momento distintamente africanos a uma avaliação descolonizada – contou o especialista e membro-fundador da South African Philosopher Consultants Association.

Na esfera política, o conceito é utilizado para enfatizar a necessidade da união e do consenso nas tomadas de decisão, bem como na ética humanitária. Dirk lembra que também existe o  aspecto religioso, assentado na máxima zulu (uma das 11 línguas oficiais da África do Sul) umuntu ngumuntu ngabantu (uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas) que, aparentemente, parece não ter conotação religiosa na sociedade ocidental, mas está ligada à ancestralidade. A ideia de ubuntu inclui respeito pela religiosidade, individualidade e particularidade dos outros.

Dirk (à esquerda) com professores da Universidade de Stellenbosch

Ubuntu ressalta a importância do acordo ou consenso. A cultura tradicional africana, ao que parece, tem uma capacidade quase infinita para a busca do consenso e da reconciliação (Teffo, 1994a: 4 – Towards a conceptualization of Ubuntu). Embora possa haver uma hierarquia de importância entre os oradores, cada pessoa recebe uma chance igual de falar até que algum tipo de acordo, consenso ou coesão do grupo seja atingido. Este objetivo importante é expresso por palavras como Simunye (“nós somos um”, ou seja, “a união faz a força”) e slogans como “uma lesão é uma lesão para todos” (Broodryk, 1997a: 5, 7, 9 – Ubuntu Management and Motivation, de Johann Broodryk).

Uso da palavra com a democracia na África do Sul 

Após quase cinco décadas de segregação racial apoiada pela legislação, o processo de construção da África do Sul no pós-apartheid exigia igualdade universal, respeito pelos direitos humanos, valores e diferenças. Desta forma, a ideia de ubuntu estava diretamente ligada à história da luta contra o regime que excluía a cidadania e os direitos dos negros.

Dirk conta que ubuntu é muito usado em contextos sobre repressão e colonialismo. Na verdade, o filósofo político Leonhard Praeg destacou que, por meio da pergunta “O que é Ubuntu”?, o tema africano procura autenticidade cultural e, portanto, a liberdade de um passado (e presente), representada pela opressão ocidental e pelo neocolonialismo.

Ubuntu The first Ubuntu Walk 2013 2
Ubuntu The first Ubuntu Walk 2013 – South Africa

– O advento da democracia na África do Sul, em 1994, pode ter servido como um catalisador nesse sentido. Na mesma linha, Mogobe Ramose comparou ubuntu à “verdadeira justiça para os povos indígenas conquistados nas guerras injustas do colonialismo” – disse Dirk.

Veja mais: O jogo que uniu a África do Sul 

O filósofo acredita que é preciso reconhecer a diversidade de línguas, histórias, valores e costumes, os quais constituem a sociedade sul-africana. Como exemplo, ele cita que os sul-africanos brancos tendem a chamar todas as práticas da medicina tradicional africana de “bruxaria” e rotular todos esses praticantes como “curandeiros”. No entanto, de acordo com a obra Ubuntu Management and Motivation, de Johann Broodryk,  há, pelo menos, cinco tipos de médicos nas sociedades tradicionais africanas, e os curandeiros estão sendo apontados como algo ruim pelos próprios africanos. Por outro lado, a cooperação dos outros curandeiros tradicionais é vital em iniciativas de cuidados de saúde primários, como planejamento familiar e programas de imunização (Broodryk, 1997a: 15; 1997b: 63f).

Individualismo e Ubuntu 

Angola – Foto: Isabel Maria Vale

O professor de filosofia conta que o individualismo ressalta aspectos aparentemente solitários da existência humana, em detrimento dos aspectos comuns. Para o coletivista, a sociedade nada mais é que um grupo ou uma coleção de solitários indivíduos. No Ocidente, o individualismo, muitas vezes, se traduz em uma competitividade impetuosa. Isso está em contraste com a preferência africana para a cooperação, o trabalho em grupo ou Shosholoza (trabalho em equipe). Veja no link a seguir! 

Veja mais: Shosholoza: o hino das torcidas (brancas e negras) sul-africanas 

– Existem aproximadamente 800.000 “stokvels” na África do Sul, que são empresas comuns ou empreendimentos coletivos, tais como clubes de poupança e sociedades funerárias. A economia stokvel poderia ser descrita como o capitalismo com Siza (humanidade) ou uma forma socialista do capitalismo. Fazer lucro é importante, mas nunca se envolve a exploração de outros. Como tal, os stokvels são baseados no “sistema de família alargada” – exemplificou Dirk.

Desde 1990, a palavra vem sendo usada por muitas personalidades sul-africanas como Nelson Mandela, Desmond Tutu, Walter Sisulu (ativista sul-africano contra o apartheid) e Credo Mutwa (sangoma, representante da medicina tradicional africana). O conceito de ubuntu inspira além das fronteiras africanas e indica uma forma de tratar o semelhante como o melhor caminho para a humanidade.

Arquivo de Nelson Mandela - Divulgação
Arquivo de Nelson Mandela – Divulgação

Nelson Mandela (Prêmio Nobel da Paz de 1993)

“Um viajante em visita à África do Sul poderia parar em uma aldeia sem ter que pedir comida ou água. Uma vez que ele para, as pessoas dão-lhe comida. Esse é um aspecto do ubuntu, mas o ubuntu tem vários aspectos. O ubuntu não significa que as pessoas não devem enriquecer. A questão, portanto, é: Você vai fazer isso e permitir que a comunidade ao seu redor possa melhorar?”

Desmond Tutu (Prêmio Nobel da Paz de 1984)

Desmond Tutu – Foto: ONU

“É a essência do ser humano. Ele fala do fato de que minha humanidade está presa e está indissoluvelmente ligada à sua. Eu sou humano, porque eu pertenço. Ele fala sobre a totalidade, sobre a compaixão. Uma pessoa com ubuntu é acolhedora, hospitaleira, generosa, disposta a compartilhar. A qualidade do ubuntu dá às pessoas a resiliência, permitindo-as sobreviver e emergir humanas, apesar de todos os esforços para desumanizá-las.”

A proposta de família alargada, que abraça toda a comunidade fortalecida a partir da ajuda mútua, sanando o sofrimento alheio, traz consigo a ideia da superação de diferentes tipos de discriminação, relacionados, por exemplo, à cor da pele, gênero, orientação sexual e religião.

– Deve ficar claro que ubuntu se opõe à discriminação negativa, seja contra homossexuais, mulheres ou por motivos de raça. No entanto, pode-se argumentar que a compreensão de Thaddeus Metz (filósofo americano) se resume a uma interpretação liberal, emancipatória do ubuntu. Nem todas as versões ou interpretações de ubuntu são iguais – completou Dirk.

Este conteúdo pertence ao Por dentro da África. Para reprodução, entre em contato com a redação.

Por dentro da África