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Archive for Julho, 2008

Orunmilá e o Euromilhões

orunmila

Não importa o quanto eu peça ou rogue, a sua resposta é sempre um rotundo não. Uma vez achei até que tinha um argumento lógico e irrefutável para saber quais seriam os próximos números. Comecei por apresentar a minha lógica numa afirmação confirmando que o Pai Orunmilá era o repositório de todo o conhecimento e que assim ele saberia como conseguir qualquer coisa. Mas, ainda antes de eu fazer a minha pergunta, de como conseguiria Pai Orunmilá dizer-me os números do Euromilhões, ele atalhou dizendo que como Pai tinha sempre a escolha sobre se quereria dar-me as respostas ou não. O Pai sabe tudo, mas tem também sentido de humor…

A razão pela qual ele escolhe não me dizer a mim, ou a alguma outra pessoa, os números do Euromilhões é muito simples, como é que isso me ajudaria no meu caminho? No mínimo, provavelmente ganhar o Euromilhões seria um desvio tal do nosso caminho Espiritual que seria uma coisa séria! Já ouvi inúmeras histórias de pessoas relatando como o Euromilhões ou a Lotaria lhes destruíram a vida. Há o exemplo do homem que ganhou a lotaria e que aplicou estupidamente o dinheiro comprando carros e tudo o mais para a sua filha. Mas quando a vida altamente materialista da sua filha acabou de forma trágica com uma overdose de drogas, o homem culpou a lotaria, mas absolveu-se a si próprio de qualquer contribuição.

Seja como for, a questão é que Orunmilá não é o responsável pelo Destino para ajudar algumas pessoas a enriquecer enquanto outras lutam. Não é o seu trabalho gerir as nossas vidas. É sim o de nos guiar espiritualmente e não financeiramente. E uma coisa da qual tenho muita certeza é de que a imensa riqueza é directamente desproporcional à capacidade de cada um em atingir saúde Espiritual – “Porque onde estiver o vosso tesouro, aí estará também o vosso coração” – Mateus 6:21 – Não costumo utilizar as escrituras, mas esta frase pareceu-me bastante adequada.

Para muitas pessoas, o dinheiro é tudo na vida. Aquele que morrer com maior materialismo ganha. Mas ganha o quê? Recordemos o exemplo anterior da jovem que morreu com overdose… ela teve “tudo” o que o dinheiro podia comprar. O sucesso financeiro não deve de facto ser o nosso objectivo.

Além do mais, seria difícil desenvolver a nossa espiritualidade com bases Africanas quando a nossa atenção começa a focar-se em desenvolver contas bancárias seculares. A maioria das pessoas ricas “financeiramente” não chegaram a essa posição sendo generosas quanto às cordas da sua bolsa! Duas das características principais da Espiritualidade que são absolutamente contraditórias à acumulação de riqueza são um saudável sentido de comunidade combinado com um impulso de partilha com aqueles menos afortunados. Como se diz em Mateus 6:24, “ Ninguém pode servir a dois senhores; porque, ou há-de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro”. Se me é possível parafrasear um pouco, não podemos servir Espiritualidade e Dinheiro.

O Pai Orunmilá não me vai ajudar a ganhar o Euromilhões. Honestamente também não espero que o faça. Os números do Euromilhões ou da Lotaria são uma espécie de anedota que temos entre nós. Acredite ou não, um Orixá pode ter um excelente sentido de humor. Mas o que é ainda mais impressionante é a sua capacidade de cumprir com uma decisão, uma vez que a tome. Se alguma vez ganhar O Euromilhões será apenas porque estava no meu caminho e não porque tenha informação privilegiada quanto aos números que vão sair.

Embora eu possa achar que seria bom se o conseguisse, poderia também ser a pior coisa a alguma vez acontecer na minha vida. Preciso ter muito cuidado com o que desejo e peço. Pode realmente concretizar-se!

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O Transe e a Identidade

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Na visão do candomblé, com a iniciação recupera-se uma identidade natural e social perdida por várias causas e que é o fundamento, que estava presente desde o nascimento. Esta é a memória do corpo, que ritualmente vai ser re-activada e fixada através de longas etapas de aprendizagem e incorporação dos fundamentos da vida religiosa, através da dança e da música. À medida que o filho-de-santo vai avançando nos passos da sua iniciação, estará também a ingressar numa ordem sócio-cosmológica na qual o corpo e as suas sensações ocupam um lugar de destaque. (Brito Polvora, 1995).

Segundo os relatos dos iniciados, o “chamado” do Orixá pode acontecer de diversas formas: sonhos, sensações, visões, doenças estranhas que não são confirmadas pela medicina tradicional, e, em geral, um sofrimento psíquico ou físico que se manifesta de um dia para o outro sem uma explicação certa.

No contacto com estas pessoas, colocando-lhe questões, surge um mundo fantástico e em movimento que se agita no corpo e que, com grande dificuldade, pode ser expresso com palavras e entendido por aqueles que não o experimentaram.

A iniciação, como relata Reginaldo Prandi, “consiste, pois, em etapas de aprendizado ritual, por parte do filho-de-santo, e em estágios de adensamento da sacralidade do orixá particular deste iniciado ” e no desenvolvimento de uma nova identidade que, conforme estas pessoas, parecem ser mais seguras – as pessoas afirmam sentir-se mais protegidas, dizem que “aprendem a lidar com a vida de outra forma”.

A idedntidade sonora

Segundo as lendas, a divindade suprema dá a vida ao homem através do sopro (Emí). Por causa disso, o candomblé pode ser considerado uma religião pneumática , ou seja, entende-se que a criação se originou pelo ritmo da respiração da divindade.

Segundo a mitologia, cada pessoa nasce com um dono-da-cabeça, que vive no corpo através do seu ritmo individual, da sua respiração, do seu andar. Esse ritmo pessoal, por diversas causas, pode ser esquecido ao longo da vida . O ritmo interior, ligado ao orixá dono-da-cabeça , ao longo da aproximação à religião e mais exatamente na iniciação, é feito emergir e fixado definitivamente no corpo, este ritmo tem uma vibração que a música capta e expressa como uma memória da identidade espiritual.

A personalidade do orixá é inscrita no corpo do iniciado em rituais secretos que prevêem como uma das condições o uso do ritmo e do som. Nessa fase dramática da vida do iniciao, a base rítmica do próprio dono-da-cabeça (o toque especifico e a sua cantiga) vai-se tornar um ritmo permanente que serve como pano de fundo para as actividades progressivas do recém-nascido. Assim, todas as vezes que os Alabés tocarem, a identidade sonora do filho-de-santo responderá aos tambores, cujo toque chama o seu orixá.

Sendo a iniciação a representação do nascimento, o fiel nasce simbolicamente uma segunda vez, numa nova vida, e, sendo o som, o ritmo, o movimento, elementos constantes da vida fetal, os movimentos e ritmos que os iniciados aprendem no Roncó irão ocupar também uma parte importante da sua memória originária e serão inscritos no seu corpo. A identidade sonora (o toque do Orixá) pode ser equiparada à alma do iniciado, que ele manifestará nos rituais periódicos.

Os toques tão diferentes de Oiá ou de Iemanjá, por exemplo, atestam inequivocamente os traços da personalidade desses orixás. A primeira, nervosa e livre; a segunda, uma matrona calma e independente que anda distribuindo alimentos e harmonia. De facto, cada orixá tem o seu toque único e original que simbolicamente corresponde à sua voz, à sua personalidade, ao seu movimento, aos seus aspectos mitológicos e aos elementos naturais dos quais é composto.

Essa identidade sonora do orixá contém a identidade sonora do possuído. A música é a comunicação entre o filho e o orixá, enquanto a dança é a manifestação dessa comunicação. O possuído reconhece, a um nível sensual, os ritmos e os movimentos precedentemente inscritos no seu corpo e, todas as vezes que ouve a sua identidade sonora, ele responde com o corpo.

A comunicação acontece aí a um nível muito subtil: o som dos tambores propaga-se através de todos os sentidos, a música envolve a pessoa como um todo e obriga-a a comparticipar do som. Em geral, com a passagem do tempo e o aumento dos anos de iniciação, o ritmo interior corresponderá sempre mais ao ritmo exterior, numa progressiva união e conhecimento com o orixá do qual é filho. Cabe ao fiel moldar-se e comunicar com o Orixá, até entender as suas mensagens aprendendo a “dançar” na vida quotidiana.

No Candomblé, o Orixá pode chamar o fiel de diversos modos e muitas das vezes o faz através de uma doença ou de uma desordem psíquica. Se a divindade exige ser feita, o filho-de-santo será iniciado, obtendo na esmagadora maioria dos casos a cura da doença e um maior equilíbrio psicológico. O tratamento é, em grande medida, conduzido através da música, que põe em comunicação a terra, o Aiê, com o mundo espiritual, o Orum – isto é, o exterior e o interior.

A cura na terapêutica do Candomblé, é muito fascinante, em especial quando é contraposta à terapêutica oficial, em que o doente é privado do próprio corpo, na maior parte das vezes fragmentado e desprovido de uma história própria. Pelo contrario, nesta religião o corpo é percebido como um todo e deve ser activado para aprender a cuidar-se e a dar valor às experiencias feitas no mundo, para aprender a “ser-no-mundo” agora.

O elemento sonoro-musical utilizado no tratamento põe o fiel numa nova dimensão existencial, a da experiência religiosa, orientando-o e protegendo-o no contexto ritual.

A partir do momento em que existe uma harmonia entre a música interior, a própria identidade sonora e aquela dos tambores, advém o conhecimento da identidade espiritual, do outro, do divino e, através do outro, de si.

Aparece, assim, o conceito do “duplo” divino: o filho-de-santo, deixando-se possuir, cria, ele mesmo, o “outro” e, nesse processo de criação-incorporação, experimenta-o intensamente dentro de si, até ele mesmo o possuír, inscrevê-lo no próprio corpo como uma nova identidade-rítmica interior, à qual poderá fazer referência ao longo da sua vida.

Segundo o candomblé é através do corpo que o homem inicia o conhecimento religioso e alcança uma nova identidade mais forte e protectora, a do Orixá. É no corpo que vivem as experiências e se unem as várias informações simbólicas sobre o mundo; é no corpo que, vivendo as energias sagradas, o fiel se pode comunicar com o divino.

Por Rosamaria Susanna Barbára

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O Ipadé (também chamado popularmente, embora erradamente, de Padê) de Exú é um ritual executado antes de qualquer cerimónia interna ou pública do Candomblé, Exú é sempre o primeiro a ser homenageado.

De manhã, consuma-se o sacrifício; os preparativos culinários e a oferenda às divindades ocupam o restante do dia; a cerimónia pública propriamente dita começa ao fim da tarde, quando o sol se põe e prolonga-se por muito tempo, noite adentro.

Qualquer cerimónia tem início, obrigatoriamente, com o Padê de Exú. Costuma-se dizer que essa cerimónia é para despachar Exú, mas isso não é correcto, pois com esta cerimónia apenas colocamos Exú como guardião e mensageiro, para avisar os Orixás de que estaremos precisando das suas presenças no Aiyé (Terra).

Exú é, na verdade, o Mercúrio africano, o intermediário necessário entre o homem e o sobrenatural, o intérprete que conhece ao mesmo tempo a língua dos mortais e a dos Orixás. É pois ele o encarregado – e o Ipadé não tem outra finalidade – de levar aos Orixás o chamamento dos seus filhos.

O Ipadé é celebrado por duas das filhas-de-santo mais antigas da casa, a Dagã e a Sidagã, ao som de cânticos em língua Iorubá, cantados sob a direcção da Iyà Têbêxê e sob o controle do Babalorixá ou Yalorixá, diante de uma quartinha com água e um prato de barro contendo o alimento de Exú, e um outro recipiente com o alimento favorito dos ancestrais.

Embora o Ipadé se dirija antes de tudo a Exú, comporta também obrigatoriamente uma cantiga aos mortos (Essá) ou para os antepassados do Candomblé, alguns de entre eles são mesmo designados pelos seus títulos sacerdotais.

A quartinha, o recipiente e o prato serão levados para fora do barracão onde se desenrolarão as restantes cerimónias.

A festa propriamente dita pode então começar.

Obs.: Não confundir Padê (que significa a comida de Exú) com Ipadé (que significa Encontro) que é a cerimónia propriamente dita.

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