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Ègbé,

Me deparei com esse texto do Ogá e Babalawo Márcio Alexandre no site da Mãe Cléo e aqui reproduzo fielmente, pois concordo em gênero, número e grau.

Me incomodam profundamente as discussões, muitas vezes sem fim, sobre as verdades dentro da nossa tradição religiosa do Culto aos Orixás.

Quando falo em Culto aos Orixás, refiro-me especificamente ao Candomblé e ao Culto de Ifá, que são cultos Yorubás distintos e complementares. Cada um com seu viés, o candomblé como reconfiguração brasileira do Culto Lesse Orixá e Ifá como culto relacionado ao destino, regido pelo Orixá Orunmila.

Estes cultos surgidos, sim, na África, se reconfiguraram na Diáspora e, em alguns casos, preservaram-se de forma que nem mesmo existe mais no continente Africano.

Ora, é sabido que em fins do século XIX e início do século XX, houve uma série de intercâmbios entre África e Brasil para que se resgatasse aqui o que havia se perdido por lá.

No entanto, a cada dia surgem novas “verdades”, novas divindades, novas formas de se dar comida ao santo, novas formas de cantar e dançar, quase sempre jogando o que foi construído aqui na vala comum do erro, como se a única e absoluta verdade fosse aquilo que chega recriado e com roupagem de tradicional e puro.

O mesmo acontece com Ifá. Chamam a nós, da tradição afro-cubana de loucos e inventores, se esquecendo que a Ilha preservou Ifá tal como o recebeu dos velhos africanos que lá chegaram desterrados. Praticamos Ifá como o recebemos há 200 anos e todos nossos ritos e normas estão preservados não variando de país para país, como acontece aqui no Brasil onde vemos diletos africanos fazerem coisas que jamais fariam em seus países.

Meus incômodos partem de três premissas:

A primeira é que falta convicção religiosa àqueles que, de uma hora para outra resolvem jogar fora tudo aquilo que aprenderam porque alguém disse que está errado ou porque ” em África” é assim.

Em segundo lugar me incomoda a relação desrespeitosa que se estabelece entre estes neo-convertidos, com a tradição que abandonaram como se a partir de agora fossem eles os portadores da verdade absoluta.

Por fim, e não menos importante, incomoda-me o sujeito que fez umas duas ou três viagens à África, visitou meia dúzia de povoados e volta como se fosse o maior especialista da face da terra achando que todos os que estão por aqui são umas bestas quadradas que anseiam pelo seu saber único e inigualável.

A verdade está naquilo que nos faz bem, nos traz bons resultados, e nos dá paz de espírito. Pouco me importa se em algum canto do mundo Xangô não come quiabo. O que me importa é que há 500 anos damos quiabo a ele no Brasil e ele sempre nos respondeu.

Certa vez um dos primeiros teólogos da Igreja Primitiva escreveu sobre a existência real de Jesus Cristo, pois nunca houve provas históricas de sua existência: “a mim pouco importa se ele existiu ou não, o que importa é que eu creio”.

Assim é meu pensamento. Não me importam as verdades de cada um. Importa no que creio e disso não abro mão. Um religioso que abre mão de suas crenças é um fraco, um irresponsável e um inconsequente com aqueles que o seguem.

Claro, não devemos ser bitolados e nem fundamentalistas, devemos sempre buscar aprender e conhecer coisas novas que venham como aporte, um robustecimento daquilo que já sabemos. Sabemos que em nosso Culto aos Orixás por mais que vivamos nunca aprenderemos tudo. Mas há um limite e ele está naquilo em que não confronta com o que aprendemos, pois também nossa religião se pauta em costumes e tradições, legados fundamentais deixados pelos nossos mais velhos.

Suas verdades, nossas verdades, minhas verdades. Assim vivemos e assim seguimos. Quero muito aprender e conhecer coisas novas, mas minha verdade está totalmente baseada naquilo em que creio e disso não abro mão. Do mesmo jeito que não imponho minhas verdades a ninguém não aceito que imponham as suas a mim. Isso é postura da qual não me arredo um passo.

Ashe to iban eshu.

Iboru, Iboya, Ibosheshe

Texto: Babalawo Marcio Alexandre Obeate Ifairawo

Vodun Gu, Assen e Representação

                                    Vodun Gu, Assen e Representação

Ogun Avagan é uma divindade cultuada no Batuque do Rio Grande do Sul, em suas diversas vertentes (Ijexá, Jeje, Nagô, Oyó, Kabinda/Kanbina), que tem dentre suas funções proteger o templo e as pessoas ligadas a ele. É assentado em um espaço reservado, em frente ao templo, juntamente com Exu Olode (ou Bará Lodê) e ambos tem a função de proteger o local.

Ogun Avagan é tido pelos adeptos do Batuque do Rio Grande do Sul como uma divindade vinda dos “jejis”, o considerando um Vodun, e não estão errados em sua concepção, pois tanto Ogun Avagan quanto Oyá Timboá (Atinbowá) são divindades Voduns, associadas ao culto yorubá do Batuque do RS, sendo atreladas como qualidades de Orixás e sendo cultuados nos moldes dos mesmos.

Para enterdermos melhor Ogun Avagan, precisamos compreender como nasceu o culto de Vodun Gü e os ancestrais que foram divinizados e fazem parte de seu clã, pois até Avagan temos uma sequência:

Ògún: divindade yorubá da guerra e dos metais;
: divindade fon com origem yorubá, uma adaptação do culto do orixá Ògún, carrega também os nomes Gü Huntonji, Ogü, Dagü e Ogün mesmo. É uma divindade popular (Toxwyo);
– Avagän ou Gü Avagän: divindade fon, ancestral divinizado, ligado ao culto do vodun Gü, ou um título do mesmo, cujo nome na língua ajagbé significa “senhor do metal” ou “ferreiro”, é uma divindade local.

Do Culto de Ògún, nasce Gü

O culto de Ogun foi levado ao Dànxómè por ferreiros yorubás no final do séc XVII. De acordo com Verger: “Para os Fon do Dahomey, Gü desempenha o mesmo papel que Ogum dos yorubás, mas, como Odùduà, é desconhecido em Abomey, Gü ai, é considerado o filho de Lisà e Mäwü, versão fon de Orìsàálá e Yemowo. Maximilien Quénum, o compara a Legba e assinala sua presença diante das forjas. Christian Merlo indica que “todos os templos” têm seu Gü, cuja virtude é fortificar o vodun. Em Xwèɖá na República do Benin, no Templo de Dan, se encontra um assen dedicado ao Vodun Gü, cuja função é proteger o templo. Chamam-no Sòhokwé, o guardião da casa”. O Assentamento da divindade “Xoroke” nos terreiros jeje-mahi do Brasil se refere a proteger os templos, e alguns o chamam de “Ogun Tolú”. O emblema principal de Gü é o Gubasá, uma adaga metálica adornada com desenhos, utilizada em diversos rituais, incluindo o culto de Fá. O Gubasá também é conhecido e utilizado no Vodu haitiano. O Gudaaglo, facão de tamanho menor, é um outro emblema, símbolo de proteção e defesa contra os inimigos. Na iconografia fon, é representado segurando estes dois sabres, o Gubasá na mão direita e o Gudaaglo na mão esquerda. Vários templos e casas no Benin, possuem seu assentamento de Gü.

Avagan

Gu vodun 2

Na língua ajagbé “Ava – metal, ferro; Gän – senhor, no sentido de possuir” literalmente “o ferreiro”,  pode se referir a um ancestral divinizado ligado ao culto de Gü, bem como ser um título do próprio, como pode se referir a diversos ferreiros do antigo Danxomè. Além de Avagan temos ancestrais divinizados, ligados ao culto de Gü, que é o Ako Vodun, o chefe do clã. Podemos citar por exemplo Gu Badagri, divindade muito conhecida no Haiti, sob o nome de “Ogou Badagris” que é um ancestral que foi divinizado e ligado ao culto de Gu.

Ifabimi Aladanu, escritor e pesquisador da cultura afro e também do culto vodun cita: “Avagan é o que diz seu nome: ferreiro, um de seus atributos. Com esse atributo ele é reverenciado de uma forma distinta daqueles outros, que é um só, mas de outra cidade ou que tenha um outro atributo. Ele é ferreiro então ele não vai a guerra mas ele faz a faca, então antes do sacrifício ele é reverenciado, como se fosse o Asi Anju dos iorubás. Frekwen tem a forja, Avagan é o ferreiro.”

Também considera-se que o título Avagan esteja ligado não somente a um ancestral específico, ou a Gu, mas há vários ferreiros reais do antigo Danxomè. Logo podemos concluir que antes de ser um nome específico a uma única divindade, Avagan é um título que se extende ao coletivo.

Podemos ainda encontrar autores que consideram que Avagan pode ser Avagá: uma divindade fon feminina, mas que poderia ter se associado ao culto de Ogun, no Brasil, fazendo assim surgir Ogun Avagan. Vejamos, como cita Bokonon Defódjí (Daniel Barreiro), sacerdote de Fá-Vodun, pesquisador e escritor, sobre esta divindade: “Vodoun feminino, acredita-se que o portador das bênçãos de Vodoun Dan, que dá a sabedoria de Mawu e proteção para seu novo Rei -HOUNON-GA que foi coroado, simbolizada pelas serpentes nos braços do Hounon-Ga, ela é a que se comunica com Vodoun dizendo-lhe que “um novo Rei há nascido” para a sua comunidade e reinará sobre a então até que um novo nascer … Avagá foi confundida com Orisa na América pelos irmãos, inclusive confundida como o Orisa Ogun…” (Tradução minha).

De fato vemos que muitas concepções circundam a divindade Avagan, e como chegou ao Brasil e foi associada a Ogun, pois de alguma maneira, desde África já havia um elo, uma ligação.

Ogun Avagan mantém muitos desses aspectos, e também uma semelhança com a divindade conhecida como Sohokwe ou Xoroke, por ser aquele que fica “na frente” e protege os templos. Também é o portador da faca, digamos, aquele que faz a faca, o ferreiro, o primeiro que recebe louvações.

 

 

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Não copie sem autorização, lei L9.610 de direitos autorais.

Hùngbónò Charles (Charles da Silva), sacerdote, historiador e pesquisador da cultura Vodun

 

 

             Custódio Joaquim Almeida de Xapanã (Sakpatá Erupé)

O “Príncipe Negro” ou Príncipe Custódio de Xapanã é uma das mais importantes e controversas personalidades dentro da formação e estruturação da religião afrosul, denominada Batuque do Rio Grande do Sul, praticada sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (além de outros estados em menor proporção) e também em países como Argentina e Uruguai, para onde este culto migrou através de seus sacerdotes.

A figura de Custódio, é sempre associada ao povo Fon (Jeji) e a ele se atribue a vertente Jeji/Jeje-Glefe/Jeje-Nagô, praticadas nas liturgias do Batuque, e os Voduns que fazem parte do mesmo. No entanto é uma precipitação atribuir esta personalidade como sendo um Fon/Daomeano, ou mesmo dizer que ele foi o responsável pela estruturação do culto de alguns Voduns no Batuque (que nesta religião não tem um culto exatamente organizado e que são cultuados segundo a cultura yorubá, na forma de “qualidades de Orixás”). O Príncipe Custódio de fato era africano, mas não daomeano. Trata-se de um dos príncipes da dinastia do povo Bini ou Edo, habitantes do antigo Reino de Benin, localizado a sudoeste da antiga cidade de Ifé (hoje, Lagos), na atual República da Nigéria.

Para entendermos um pouco da cultura do povo Bini ou Edo, vamos analisar como esse povo emergiu como civilização.

O Reino de Benin e o Povo Edo

O Reino de Benim formou-se entre os séculos XII e XIII, onde tem sua História montada através das investigações arqueológias e também através dos mitos que envolvem sua fundação. Os mitos que envolvem a fundação de Benin, estão intimamente relacionados aos mitos de fundação de Ifé; Acredita-se que Ifé fora fundada por Odudua, um dos orixás da criação, a mando do deus supremo, Olorum. Benin, por sua vez, teria sido fundado por Oraniã, orixá das profundezas da terra e filho de Odudua. A lenda sobre Oraniã ainda faz referência a um suposto filho que ele teve, Eweka, que teria sido o primeiro rei, ou Obá (nome adotado dos Yorubás), de Benin. O fato é que o Reino de Benin contou, ao longo de sua trajetória, com poderosos Obás. No século XV, um desses obás, Ewuare, promoveu intensas reformas no reino, transformando Benin em uma grandiosa potência subsaariana. A língua falada por este povo chama-se igualmente edo, aproximando-se a língua yorubá, e sua cultura também encontra-se atrelada a cultura do povo Yorubá.

Obá Ovonramwen de Benin e Osualele Okizi Erupé

Ovonramwen Nogbaisi (Obá de Benin, entre 1888-1897), também chamado Overami, foi o Obá (rei) do Reino de Benin até a expedição punitiva britânica de 1897.

No final do século XIX, o Reino de Benin ainda havia conseguido manter a sua independência com relação ao monopólio britânico. O território, no entanto, a muito estava sendo cobiçado por um influente grupo de investidores por seus ricos recursos naturais, como óleo de palma, borracha e marfim.  O reino foi em grande parte resistente ao controle britânico, e uma pressão contínua de figuras como o vice-cônsul britânico James Robert Phillips e Capitão Gallwey, que se empanhavam para a anexação britânica do Império Benim e a remoção do Obá Ovonramwen.

A força de invasão britânica chefiada por Phillips, foi estabelecida, para derrubar o Obá em 1896. O plano de Phillips era ganhar acesso ao palácio de Ovonramwen, dizendo que queria fazer negociações. Mensageiros de Ovonramwen no entantp emitiram várias advertências para não violar a soberania territorial de Benin, alegando que o Obá era incapaz de ver Phillips naquele momento devido a deveres cerimoniais. Tendo sido avisado em várias outras ocasiões no caminho, Phillips provocou o Obá, um insulto deliberado destinado a provocar o conflito que iria fornecer uma desculpa para a anexação britânica. A expedição de Phillips no entando falhou e muitos de seus homens mortos. Posteriormente, uma operação militar contra o Reino de Benin, em 1897, liderada por Harry Rawson resultou na queima da Cidade de Benin (capital do Reino) e na mortes de um número incontável de seus habitantes. Embora os britânicos tivessem ordem para executar o Obá, Ovonramwen escapou, mas logo depois se rendeu, conseguindo fazer um acordo com os britânicos, que ele e sua família iriam se exilar. Ovonramwen foi exilado em Calabar com suas duas mulheres, e lá morreu em 1914.

Segundo os relatos citados em muitas bibliografias que abordam o Batuque Afrosul, um dos filhos de Ovonramwen era Osuanlele, considerado por alguns como seu primogênito. A Osuanlele é atribuida a figura de Custódio Joaquim Almeida (nome adotado no Brasil), o nome que ele teria adotado ao mudar-se para o Brasil, onde residiu até o final de sua vida na cidade de Porto Alegre/RS.

Um conflito na História

No entanto, apesar de a Custódio ser atribuido ser Osuanlele, o filho de Ovonramwen e por conseguinte “príncipe” de Benin, existem muitas discordâncias históricas; uma delas é que na história do Reino de Benin, não há nada que relate alguns dos filhos de Ovonramwen sendo exilado no Brasil.

Outra discordância seria assimilar um nobre de etnia Edo, ao culto Vodun e chamá-lo de pai dos Jejis no Rio Grande do Sul, pois há inúmeras evidências de que Custódio Almeida praticava um culto nàgó. Com estas evidências alguns escritores e historiadores chegam a acreditar que Custódio teria tido conhecimento do exilio do Obá e sua família e teria se aproveitado do fato para se intitular um nobre, um dos príncipes Edo.

Há também escritos que denominam Custódio como “Príncipe de Ajudá”, referindo-se ao porto de Ouidah, na atual República de Benin (antigo Reino de Danxomè), de onde partiram vários negros de etnia yorubá para o Brasil e talvez esse teria sido o motivo de uma associação entre a figura de Custódio e o povo Jeji, no entanto não há nenhuma evidência história de que algum “Príncipe de Ajudá” tivesse vindo para o Brasil, ainda mais em epócas tardias da escravidão como se referem os relatos voltados a figura de Custódio.

O Culto dos Voduns Reais

Como se sabe, a realeza daomeana tinha uma maneira própria de culto. Seus Voduns (Hennu-vodun) eram Voduns famíliares, ou seja, o culto de seus próprios ancestrais que eram divinizados e tornados Voduns. Não existe no Rio Grande do Sul vestígios ou relatos de algum culto semelhante; diferente do que existe no Maranhão na Casa das Minas, uma casa de tradição Jeji, que teria sido fundada pela rainha Na Agotimé, esposa do Rei Agonglo que teria sido exilada e mandada como escrava para o Brasil por seu enteado Adandozan. A Casa das Minas realiza uma prática única de culto aos voduns ligados a família real de Danxomè (Daomé).

Conclusão

A origem exata de Custódio Joaquim Almeida, apesar de diversos estudos realizados a seu respeito, continua um mistério. Sem dúvida foi uma personalidade que teve muito prestígio e criou laços com personalidades da elite, importantes na época. As conclusões que se pode tirar é que foi e ainda é uma importante figura e um dos pilares na formação do Batuque do Rio Grande do Sul como é conhecido hoje. No entanto, dentre os relatos que o citam, sempre apontam uma forma de culto nàgó, e não Jeji, como afirmam as tradições orais do Batuque. Uma das hipóteses é que ele tenha se integrado a comunidades de negros ditos Jejis que aqui ja estavam e que ele teria se auto-denominado Jeji e sua raiz religiosa assim se perpetuou, absorvendo uma porção de costumes e rituais praticados por ele.

Estudo de imagem

Na foto abaixo vemos Ovonramwen ao centro; suas duas esposas uma de cada lado, envoltos pelos filhos. O rapaz mais alto, atrás de Ovonramwen é tido como sendo Osuanlele.

 

Obá Ovonramwen de Benin e sua família.

Obá Ovonramwen de Benin e sua família.

 

 

Texto: Charles da Silva (Hùngbónò Charles),

Formação em História (Unopar), especialista em História e Cultura Afrobrasileira (Uniasselvi)

 

 

Fontes e Referências:

-Redescobrindo o Nàgó do Príncipe Custódio (https://ileaseekundeyi.files.wordpress.com/2013/04/redescobrindo-o-culto-nago-do-principe-culstodio.pdf)
– Alberto da Costa e Silva, Um chefe africano em Porto Alegre, in “Um rio chamado Atlântico”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira;UFRJ, 2003

-Mundo Escola – Reino de Benin (http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiageral/reino-benin.htm)

-Thomas Uwadiale Obinyan, The Annexation of Benin, in Journal of Black Studies, Vol. 19, No. 1 (Sep., 1988), pp. 29-40

 

 

Ewé  Tètèrègún – A Folha da Vida e da Morte.

A Religião dos Òrìsàs é cheia de rituais e simbolismos. No entanto, a razão desses rituais nem sempre é de conhecimento da maioria dos adeptos. Um dos rituais mais recorrentes no Candomblé, refere-se a folha de Teteregun, a qual é utilizada para molhar a cabeça dos Omo Òrìsà (filhos dos Deuses) e, em diversas outras ocasiões, pedindo-se sempre coisas boas. … Mas porque fazemos isso? Uma antiga história de Ifá, narra que, Teteregun não realizou uma oferenda prescrita por Olokun e, quem em razão disso, estava ficando completamente seca. Desse modo, Teteregun ficou desesperada e resolveu consultar o oráculo sagrado. Ifá, o Deus da Adivinhação, por meio do oráculo disse que Teteregun deveria realizar um sacrifício, sendo que esse sacrifício seria pegar água para Olokun, ao longo de alguns dias. Logo ao amanhecer, Teteregun foi ao rio, quando Teteregun retornou já era noite, ela pegou toda água que trouxe e derramou no mar para Olokun. Teteregun fez isso ao longo de alguns dias, sendo que no último dia, Olokun molhou o corpo de Teteregun, dizendo que ela seria a folha encarregada de molhar o seco, que ela seria a folha com o poder de refrescar o calor, que ela seria a folha capaz de apaziguar a cólera, da mesma forma, como ela conseguiu apaziguar Olokun.

Nome Yorùbá = Tètèrègún, Tètè Egún, Tètèègúndò.
Nome Bantu = Mueki Rizanga.
Nomes Populares = Cana-do-brejo, Cana-de-macaco, Cana-do-mato, Sanguelavô, Sangolovô, Ubacaia.
Nome Científico = Costus spicatus Sw, zingiberacege

 

Tètèrègún é uma folha nativa do Brasil, é encontrada em todo o território nacional e também e outros continentes.
Folha Gún (de excitação), Masculina, ligada ao elemento Ar.

É folha usada principalmente para Obàtálá e também para Òsóòsìi, Nànà e Bàbá Egúngún, sem dúvidas que é uma das folhas mais utilizadas dentro da Liturgia dentro do Culto aos Òrìsàs no candomblé no Brasil e na Nigéria Èsìn (religião) Yorùbá. Folha de grande importância e fundamento, por isso sua participa do encerramentos do ritual de Sasányìn, é a folha da Vida e da Morte.
A mesma é utilizada em Iniciações (Igbèrè), na sacralização de elementos ritualísticos, em magias e medicinas = Oògùn.
Esta folha faz parte da composição do Àgbo dos Orixás citados acima e para banhar o Ìyàwó no período de reclusão. Representando a Morte (para a vida profana) e a Vida (nascimento para a vida religiosa). É uma das folhas que ajuda a chamar Orixá, podendo ser utilizada em quase todos os ritos que se utilizam de folhas.

“Tètèrègún òjò do mpá 

Tètèrègún òjò wo bi wá”

Têtêrêgún é como a chuva que mata.
Têtêrêgún é como a chuva que dá vida.

“E Tètèrègún e Tètèrègún Ojo gb’oomi wá ó 
Tètèrègún Ojo gb’o omi wa e jô ó Tètèrègún”   
A chuva traz a água que molha teteregun
Chuva traz água por favor, para molhar o teteregun. 
Pesquisa: Livro Ewé José Flavio e Eduardo Napoleão
Pesquisa texto: Blog Casa do Òsùmàrè e Blog Gunfaremim

Acervo cultural: Ilé Àse Òsòlúfón Íwìn

Ìyá Omindarewa

É com pesar que comunicamos o falecimento da venerável Iyalorixá francesa, Omidarewá.

Uma grande filha de mãe Yemanjá, o candomblé do Rio de Janeiro está de luto.

A yalorixá Gisele Omindarewà morreu aos 92 anos em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, quinta-feira (21).

Gisele Cossad dedicou a vida à cultura nagô e era responsável pelo Centro de Candomblé em Santa Cruz da Serra, onde o velório foi realizado.

“Primeiro, a iniciação não ensina nada. Ela é uma espécie de porta que abrimos para o conhecimento. A partir do momento que ultrapassemos essa etapa e somos iniciados, então temos o direito de saber. É preciso buscar e ter vontade de aprender, mas esse direito não é dado para qualquer um, tem que conquistá-lo. E isso não se faz com papel e lápis, não é assim que se passa as coisas para as pessoas, isto é típico da concepção africana do saber: devemos aprender praticando.”
Gisele Binon Cossard – ìyá Omindarewá
31/05/1923 – 21/01/2016

 

Yalorixá Gisele Omindarewa morreu aos 92 anos  (Foto: Reprodução/ TV Globo)

 Resultado de imagem para fotos de intolerância religiosa

Com o crescimento da diversidade religiosa no Brasil é verificado um crescimento da intolerância religiosa, tendo sido criado até mesmo o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa (21 de janeiro) por meio da Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, sancionada pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva, o que foi um reconhecimento do próprio Estado da existência do problema.[1][2][3]

A Constituição prevê a liberdade de religião e a Igreja e o Estado estão oficialmente separados, sendo o Brasil um Estado laico.[4] A legislação brasileira proíbe qualquer tipo deintolerância religiosa, sendo a prática religiosa geralmente livre no país. Segundo o “Relatório Internacional de Liberdade Religiosa de 2005”, elaborado pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, a “relação geralmente amigável entre religiões contribui para a liberdade religiosa” no Brasil.

Confira o que outras líderes religiosas falam sobre intolerância religiosa:

Mãe-Jaciara1

Mãe Jaciara – Sucessora de Mãe Gilda no Terreiro Axé Abassá de Ogum, Mãe Jaciara é taxativa quando expressa sua opinião. “O maior problema para mim como Yalorixá de um Terreiro de Candomblé é o preconceito que as pessoas tem pela história e imagem distorcida que tem a respeito ao candomblé. As pessoas relacionam a nossa religião a práticas de magias negras e cultos demoníacos. Não poderia estar mais longe da verdade”.

Mãe-Valdina

Makota Valdina – Makota Valdina Pinto, do Terreiro Tanuri Junsara, em Salvador/BA, defende o direito à crença religiosa assegurado pelo Artigo 5º, inciso 6º da Constituição Federal. “Não podemos falar de intolerância sem relacioná-la ao racismo praticado contra as religiões afro-brasileiras”.

Mãe-Beata

Mãe Beata – Filha de Exu com Iemanjá, Mãe Beata de Yemanjá é descendente de africanos escravizadose defensora da ancestralidade africana. “Quando eu observo que alguém está levando a conversa para caminho da intolerância religiosa, eu uso o respeito e vivência para derrubá-lo. Precisamos estimular a consciência de que o Brasil é uma mistura de todas as raças e religiões”.

Mae-Stella

Mãe Stella – Mãe Stella de Oxóssi, Ialorixá do terreiro Ilê Axé Opó Afonjá, fundado em 1910 em São Gonçalo do Retiro-BA, afirma que sua luta é, e sempre será, pela igualdade de direitos: “Sigo esforçando-me para que a religião trazida pelo povo africano ao Brasil seja devidamente respeitada”.

Fonte: Wikipédia e Geledés

 

 Ekedi no Candomblé Ketu

As Ekedis (Èkèjí) também podem ser chamadas de  Àjòyè, Ìyároba, Makota, a depender da tradição da casa ou nação,  não entram em transe, ou seja: não incorporam,  pois que, precisam  estarem acordadas para exercerem sua função. Dentro de uma casa de Santo onde se tem axé, a Ekédi é chamada de mãe e tem o respeito dos demais como tal, afinal uma mulher que escuta, aconselha, ama, cria, consola, alimenta, lava, passa, cozinha,etc , independente de ter gerado é MÃE desde que o mundo existe.

Diz uma lenda do povo Jeje:
“Em uma  reunião Orunmilá ordenou que cada vodun escolhesse ainda no ventre da mãe uma criança para que ela fosse o sacerdote do vodun e que não virasse com nada . Já que se na terra fariam voduncis e mais tarde seriam sacerdotes quem zelaria por eles , se todos virassem com vodun quem olharia pela casa de santo por tudo , quem zelaria por eles voduns quando viessem no ori dos vodunces. E Assim surgiu a primeira ekedji do ventre de uma mucama de Azirí”.

Abaixo do Babalorixá/ Iyalorixá a Ekédi faz tudo que todos de uma casa de axé fazem, mas, nem todos fazem o que uma Ekédi faz, dai sua grande importância até o simples ato de enxugar o suor de um Orixá no barracão participação efetiva numa iniciação.

Uma Ekédi comprometida com a divindade que lhe escolheu, tem a obrigação de zelar por suas roupas e apetrechos, por sua segurança e conforto, saber vesti-lo, talvez seja essa uma de suas principais funções.

Esse trato direto com dedicação, amor e carinho com os Orixás, as torna muito próxima deles, ganham a sua confiança, interagem de uma forma única, uma parceria perfeita.

Um boa Ekedi tem que estar sempre atenta ao menor gesto do seu Babalorixá/Iyalorixá, dar ritmo a Casa coordenando funções, observando e sendo os olhos de seu zelador.

A Ekedi cabe a obrigação de manter o foco na preparação dos ebós, mesa de borí, no preparo das comidas secas e axés dos Orixás, impondo-se na cozinha de Santo, exigindo silêncio e concentração pois a energia colocada na confecção de um ebó ou de uma comida de Santo é primordial no andamento das obrigações, estar focada em seus afazeres é fundamental.

Uma antiga iyalorixá dizia que se conhece uma Ekedi pelas unhas, limpando galinha, tirando axé, escarnando ori.

Como os Ogans, as Ekedis são escolhidas pelo Orixá do zelador, que primeiramente serão convidadas, cabendo a eles o direito de não aceitarem a responsabilidade, mas, em aceitando, serão suspensas e posteriormente confirmadas para o Orixá, podendo no futuro e por merecimento ganhar um Oyè, ou seja um título ou cargo dentro da Casa.

Ekedi toma suas obrigações anualmente e conta tempo, seus Orixás são reverenciados por todos os Orixás da Casa no decorrer das festas relacionadas ao seu Orixá, podem se vestir de baiana como as Egbomis, alaká ou saia branca para dar mais mobilidade, fica a critério das normas de cada Casa.

Texto e acervo cultural- Àjòìè Sonia D’Yemojá – Ìrànsé do Ilé Àse Òsòlúfón ÍwÌn

“Entendo minha religião e meu Orixá com muito mais profundidade em se tratando da relação estabelecida com uma Ekedi. Quando o Orixá convida e escolhe alguém para ser sua Ekedi e, é aceito por ela, com certeza existe algo além dessa simples escolha, existe comprometimento espiritual de fundo ancestral. O que acontece é que  Ekedis estão contidas neste Orixá, são parte dele, Orixá. Este elo os une eternamente, está provado no momento que o Orixá dá orukó da Ekedi no barracão e que poucos dão valor e importância. Neste momento, mais do que nunca se estabelece o intercambio das energias entre eles, direitos e deveres ficam firmados e o amor, carinho, disciplina, liturgia, são preservados. O Babalorixá precisa que se estabeleça uma forte união em torno de si e nas funções do axé, casas de santo sem suas Ekedis, não se estabelecem, pois elas ajudam a formar a base, a casa precisa de um corpo em sua formação, precisa de sustentabilidade, a espinha dorsal, a segurança, o Orixá também precisa de conforto.

Ekedis, não precisam usar kelê, raspar, colocar adôxu, etc, por que o seu Babalorixá ou Iyalorixá, já passou por isso, se elas Ekedis, nasceram para servir o Orixá, então estão contidas em sí na energia do Orixá, independente de seu próprio Orixá.

É uma relação de intimidade e de muita cumplicidade espiritual para com o Orixá. As boas Ekedis, tomam a frente muitas vezes em defesa de seu Axé, protegem seu Babalorixá ou sua Iyalorixá, Intervém em questões inerentes a liturgia em defesa de seu juramento, a aliança com o  Orixá.”

Texto: Babalorixá  Fernando D’Osogiyan -Ilé Àse Òsòlúfón Íwìn

https://ileaxeoxolufaniwin.wordpress.com

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