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Muita coisa estranha ou inconclusiva é dita sobre Logun Ede, e ainda assim há pouca informação, seja séria ou não, sobre essa divindade. Esse texto tem o intuito de reunir algumas informações diferentes das que comummente circulam sobre esse Orixá.
Esta foto tirada por Verger mostra uma sacerdotisa de Logun que porta na mão direita uma espada cerimonial de bronze utilizada no século 19 por mulheres em suas danças. Na mão esquerda está o ofá/arco e flecha.
Enquanto a relação entre Logun e Oxum é bastante clara (como será exposto adiante), a ligação com Erinle, ou Ibualamo, não parece tão justificável assim. Embora seja comum a afirmativa que seu pai seja Erinle, um Oriki Oxum afirma outra coisa:
Orunto olufe li o bi Logun Ede. (Orunto Olufe gerou Logun Ede; tradução de Verger em Notas sobre o culto aos orixás e voduns, pág. 414).
A ligação literal com Erinle que eu consegui encontrar foi num oriki Logun colhido por Verger na cidade de Ilexá, no qual consta um epíteto em comum com o de Erinle, colhido em Ilobu pelo mesmo:
Para Logun: Ala opa fari (Ele mexe os braços fantasiosamente)
Para Erinle: Apa fari (Ele movimenta os braços com imaginação)
Quem é/foi Orunto Olufe que figura nessa cantiga de Oxum exposta por Verger?
Orunto Olufe, provavelmente o mesmo que OBALUFE ORUNTO.
Segundo Bascom “Orunto também é conhecido como rei da cidade de Ife, Obalufe, Oba Ilu Ife” Neste sentido Orunto é considerado um gvernante de Ife pré-Odudua. (trecho de ‘African notes: Volume 8’, University of Ibadan. Institute of African Studies – 1979).
Ainda de acordo com Bascom, “(Orunto…) também conhecido como “Oni do exterior, de fora” (Oni ode) porque ele governa fora do palácio. Em Ife havia chefes externos que eram responsáveis por cada distrito da cidade, Orunto em específico era primariamente responsável pelo distrito de Iremo, mas como nos tempos antigos o Oni só saía em público duas vezes ao ano durante festividades de Orisanla e Ogun, cabia a Orunto a responsabilidade pela cidade inteira no lugar do Oni (por isso era chamado de Obalufe, isto é Rei de Ife).
O porque do chefe desse distrito em particular (Iremo) ser escolhido para essa função justifica o porque Logun ser considerado um príncipe. A afirmação de que essa escolha aponta para uma linhagem anterior a Odudua que teria sido mantida dessa forma parece bem plausível já que o único contato pessoal entre o Oni e o Obalufe, que só ocorre uma vez por ano durante o festival de Edi, acontece na forma de uma batalha simulada.
Em Ijebu-Ife (local tido como a origem do Orunto, conhecido localmente como Balufo Ijaogun) ocorre uma cerimônia na qual os sacerdotes-chefe de Obalufe Orunto são identificados como pessoas que teriam possuido a terra anteriormente à ordem vigente e são eles, não o Oni ou algum sacerdote da linhagem de Odudua, que fazem as oferendas para apaziguar os deuses do solo. John Wyndham afirma em seu ‘Myths of Ife’, que o Obalufe clama ser descendente de Oxum.
A ligação entre Logun e Oxum é reforçada desde que é possível observar sua presença em mais Oriki de Oxum.
Trechos de Oriki a Oxum (Verger, Notas sobre o culto aos orixás e voduns, pag. 415):
Yeye Ologun ede obinrin Pepe bi eni se osu (Mãe de Logun ede, mulher trivial como alguem que prepara o legume osu)
Ologunede o gb(e) èru kò s(e) ayo (Ologunede, aquele que tem medo não pode tornar-se uma pessoa importante)
Na página 418 há uma cantiga (cuja tradução que consta é bem rudimentar) proveniente de Ouidah listada entre as de Oxum, mas entre parênteses está escrito “para Logun Ede”, seguem os trechos que considerei interessantes:
Nigbo ti ko yeye mi (Onde que torna mostrar minha mãe)
Mo ko nigbo Ogun ode (Eu volto a mostrar onde Ogun ode)
Kabo ti ko yeye mi (Onde que encontrar mãe minha)
Akuko nlá a bi(i) di rodo (Galo grande ele com cauda desdobrada)
Se considerada uma correspondência entre as frases (as duas ultimas são referidas como refrão), então a frase ‘Akuko nlá a bii di rodo’ refere-se ao supracitado ‘Ogun ode’.
Algumas pessoas afirmam que Logun possui ligação com Ogun, de fato são Orixás caçadores, mas além disso há um Orixá que possui forte ligação com Oxum cultuado na cidade de Oxogbo chamado Owari, ele é tido como o artesão que fabrica as jóias de cobre que Oxum usa, e a tradição afirma que os filhos são as verdadeiras jóias de Oxum. Se as jóias são os filhos, e o fabricante dos filhos-jóias é Owari, então ele pode ser considerado o pai de Logun Ede, no Brasil existe uma divindade adorada sob o nome de Ogun Wari. Como Ogun, tanto Owari quanto Erinle são considerados artífices metalurgicos. A relação entre Erinle e Oxum se dá tambem quando o curso do rio Erinle atravessa o de Oxum em Ilobu.
Deste modo a paternidade de Logun pode variar de acordo com a região em que Oxum seja cultuada, afinal: Loogun-ede? Osun ni! (Loogun-ede? Ele é Oxum!). Tamanha a ligação entre os dois, é com essa frase que um antigo sacerdote de Oxum em Oxogbo respondeu quando indagado sobre Logun!
E quanto à característica infantil de Logun, cito duas passagens de Oriki:
Abikehin yeye tii yo gbogbo omo omi lenu (Filho mais novo da mãezinha (Oxum) que se diverte com os outros filhos das águas)
Tima l(i) ehin yeye (r)e (Encarapitado nas costas de sua mãe)
A fama de ser muito belo também consta em Oriki:
Okansoso gudugu (Ele é muito só e muito belo)
Oda d(i) ohun (Ele é belo até na voz)
Ajangolo okunrin (Homem esbelto)
Ati bitibi ilebe (Ele usa roupas finas)
O dara d(e) eyin oju (Ele é belo até nos olhos)
Okunrin sembeluju (Homem muito belo)
Com Oxossi também compartilha alguns epítetos:
Logun: Oda bi odundun (Ele é fresco como a folha de odundun)
Oxossi: A bi awo lolo (Que possui a pele fresca)
Seus animais parecem ser o leopardo e o falcão/gavião:
Ekun o b(i) awo fini (Leopardo que tem o pêlo muito belo)
Rere gbe adie ti on ti iye (O gavião pega o frango com suas penas)
Panpa bi asa asode bi ologbo (Rápido como um falcão, aquele que caça como um gato)
Por fim duas frases de seu /oriki que citam nomes de outras divindades (Orumilá e Xapanã):
Okansoso Orunmila a(wa) kan ma dahun (Somente em Orunmila nós tocamos, mas ele não responde)
O je oruko bi Soponna sos pe on Soponna e nia hun (Ele tem um nome como Soponna,
é difícil alguém mau chamar-se Soponna).
Concluo este texto com um trecho de uma tese de doutorado da PUC-SP de autoria de Maria das Graças de Santana Rodrigué, entitulada ‘Orí, na tradição dos Orixás – Um estudo nos rituais do Ile Ase Opo Afonja’, que contém uma informação que só tomei conhecimento muito recentemente:
O templo de Ifá encontra-se, na cidade de Ilé Ifé na Nigéria e no ápice do Monte Ijetí está cravado o sacrário de Ifá, e ao lado na mesma colina está o assentamento do Orixá Logun Edé. Colina encalorada devido a sua constituição rochosa a base de mica, mineral do grupo filosicato e o clima da região ser equatoriano. Lá o orixá Logun Edé é reverenciado e conhecido como o escrivão de Ifá. Durante a visita que fizemos à esse templo, perguntamos ao Sacerdote de Oxalá que nos acompanhava: __ quem é mesmo o orixá escrivão de Ifá? Ele respondeu é Logun Edé. Esse fato ocorreu em agosto de 1989.
Assim espero que esse texto sirva pra pessoas que, como eu, não se contentaram com os textos comumente veiculados na internet e até mesmo em livros sobre o Orixá Logun Ede.

Ológun È̩dé̩

Uma exposição arquetípica.
É Guerreiro Caçador porque guerreia feito um caçador, isto é, planeja, rastreia, persegue os inimigos. Do contrário seria Caçador Guerreiro, acaso fosse um caçador que eventualmente guerreia.
O é dentre os Orixá. Orixá são as potências naturais, pristinas, as matrizes do universo cujos inimigos são os poderes de inércia, de desequilíbrio.
Ológun È̩dé̩ é a “inteligencia bélica” Ideal.
Metamorfoseando-se sempre que é preciso ele incorpora a adaptabilidade da própria vida que é capaz de vencer as adversidades. Esta habilidade ilimitada de transformação simboliza a eficácia em todo e qualquer campo e circunstância.
Lua, leopardo, pássaros e serpentes são alguns de seus elogios, aludindo às suas qualidades de proteção, proeminência, mutação, assertividade, beleza, e prosperidade.
A si w’aju ogun / Líder na vanguarda
A gbè yin ogun / Líder na retaguarda
Apenas o valente vai na frente, e apenas o vitorioso retorna na frente!
Ologun Kin / Guerreiro Poderoso!

Texto e pesquisa: LAURA SVORAZAROVSKI

Postado no site: http://elaquecaminhasobreomar.blogspot.com.br/

Fonte (Nossos Ancestrais]

Postado por Oba Jakutà Olufinran , no grupo “Sou ketu, a nação mais Odara”

Nação Cabinda não é uma fraude, é uma tradição ancestral do Rio Grande do Sul.

O presente trabalho tem como principal objetivo a defesa da vertente religiosa Cabinda/Kanbina¹, como parte integrante e legítima do Batuque do Rio Grande do Sul².

O proposito deste trabalho é contrapor uma publicação (Cabinda, Qual é a origem da acepção Cabinda?) recentemente lançada via redes sociais e na internet, de que a vertente religiosa de Cabinda/Kanbina seria uma invenção de seu fundador Waldemar (Valdemar) Antônio dos Santos e que não teria valor cultural e religioso, sendo assim, não podendo ser considerada uma forma de culto religioso afro-brasileiro. No decorrer deste artigo apontarei algumas inconsistências e falhas na dada publicação, que nitidamente representa um ataque infundado a uma forma de culto, bem como a seus adeptos e ao seu fundador, o Sr. Waldemar Antônio dos Santos.

1 Uma das questões abordadas no presente trabalho será a nomenclatura da vertente, se a mesma seria Cabinda ou Kanbina.
2 Forma religiosa implantada pelos africanos escravizados e seus descendentes no Estado do Rio Grande do Sul/Brasil, e que posteriormente foi introduzida em outros Estados brasileiros, bem como em países vizinhos tais como Argentina e Uruguai.

Link para acesso ao trabalho completo: https://drive.google.com/file/d/0B7oGeEZgb95gVjZ2dV9FeVVTeU0/view

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A sinergia existente entre o Ebora Sàngó, Àyán e Bàbá Egún Na introdução deste novo tópico vou partir de um interessante Oríkì dedicado ao Ebora descendente Sàngó: – Sàngó Arékùjayé! [Sàngó a ru Eku j’ayé = Sàngó, aquele que realiza o Culto Egúngún, a fim de aproveitar a vida], uma clara demonstração de sua profunda interligação com Egúngún. Para que compreendamos melhor a questão postada neste tópico, é vital relembrarmos que o Ebora Sàngó, representa dinastia, neste sentido simbolizando a imagem coletiva dos Egúngún, enquanto que Egúngún representa a Ancestralidade em si, assim sendo podemos facilmente concluir que são duas faces da mesma moeda. Algumas pessoas afirmam que Sàngó teme Bàbá Egún, isso é no mínimo hilário, pois este poderoso Ebora não teme nada! O que acontece é que ele representa o elemento fogo, assim sendo, o que ele evita é o frio, representado pelos Egúngún. Podemos observar ainda que as vestes dos Ancestrais são na verdade, as vestes do Ebora Sángó, como podemos notar há sim grandes ligações entre eles e diferentemente do que pensam alguns, Sàngó é parte fundamental e integrante do Culto, tanto que os ritmos mais apropriados são o Alujá e o Bàtá. Os Tambores Falantes[Bàtá]instrumento de percussão yorùbá pertencente aos “Àyánbí ou Omo Ayán”[nome dado a todos os membros de uma família Yorùbá que cultuem os tambores Batá], marcam o ritmo da dança Bàtá que é rápido e energético, sempre acompanhando os Rituais de Sàngó, bem como as aparições dos Alárìnjó[Alárìnjó, é uma prática teatral[mascarada]secular e itinerante de cunho altamente satírico realizada pelo povo yorùbá], Agbégijó, Apidán e Eégún Alare[Alárì]. Retornando mais especificamente a Sàngó e Egúngún, percebemos então que são dois níveis similares e opostos, mas que representam a Ancestralidade[Dinastia e Antepassados]. Enfim, é bom abordarmos este tópico por que a Ancestralidade é a “Raiz”, e não se Cultua Òrìsà apropriadamente sem a raiz, ou seja, sem Cultuar Egúngún. Há algum tempo venho trazendo a luz temas quase desconhecidos da grande maioria, sei que alguns de meus tópicos podem até causar alguma polêmica, más isso é apenas um efeito colateral passageiro, pois acredito que somente buscando e dividindo informação sustentada e concreta possamos de fato evoluir nossos conceitos sobre a Ancestralidade. Quanto ao Ebora Sàngó, há duas concepções, uma histórica e outra religiosa e algumas pessoas às vezes confundem as duas. Aqui tratarei somente da que me é afeto, ou seja, a concepção de que este Ebora descendente é o símbolo do elemento fogo, sendo o representante deste elemento sob o seu aspecto mais forte. Sàngó é um ícone de dinastia, e nesse aspecto em particular, torna-se a contrapartida de Bàbá Egún [Representante da Ancestralidade por excelência]. Então podemos observar que os dois se locupletam, nunca percamos de vista que a Cultura Religiosa Indígena Tradicional Africana, bem como a Afro-descendente se baseiam em binários opostos. Sàngó enquanto representante de dinastia tem profunda ligação com Ikú, más é sempre bom lembrar que a morte segundo o pensamento africano não é o fim, más sim o início de uma nova etapa ou ciclo. Quanto a temores, por certo nosso pai Sàngó nada teme haja vista que é um Ebora, e acredito que com o devido tempo, caiam por terra algumas crendices sobre o poderoso Sàngó. O que acontece é que na realidade, ele por ser um símbolo do quente[vermelho, fogo] evita o frio emanado por Egúngún, nada mais. Volto a frisar que as deidades não têm fronteiras, somente os homens a tem, se notarmos bem encontramos neste tópico uma profunda sinergia entre o Ebora Sàngó, Àyán a deidade dos Tambores Bàtá, Egúngún e Alárìnjó[Eégún Alare]. O que nos mostra claramente que nem tudo é aquilo que a princípio parece, e que existem explicações lógicas para tudo aquilo que praticamos dentro da nossa Fé.

Texto: Ifagbenusola

Egungun

Segundo a tradição do culto de Egungun, que é originário da África, região de Oyò. O culto de Egungun, é exclusivo de homens, sendo Alápini o cargo mais elevado dentro do culto, tendo como auxiliares os Ojés.

Todo integrante do culto de Egungun é chamado de Mariwó.

Xangô (Sòngó), é o fundador do culto a Egungun, somente ele tem o poder de controla-los, como diz um trecho de um Itan:

“Em um dia muito importante, em que os homens estavam prestando culto aos ancestrais, com Xangô a frente, as Yàmi fizeram roupas iguais as de Egungun, vestiram-na e tentaram assustar os homens que participavam do culto, todos correram mas Xangô não o fez, ficou e as enfrentou desafiando os supostos espíritos. As Yàmi ficaram furiosas com Xangô e juraram vingança, em um certo momento em que Xangô estava distraido atendendo seus súditos, sua filha brincava alegremente, subiu em um pé de Obi, e foi aí que as Yàmi atacaram, derrubaram a Adubaiyni filha de Xangô que ele mais adorava. Xangô ficou desesperado, não conseguia mais governar seu reino que até então era muito próspero, foi até Orunmilà, que lhe disse que Yàmi é que havia matado sua filha, Xangô quiz saber o que poderia fazer para ver sua filha só mais uma vez, e Orunmilà lhe disse para fazer oferendas ao Orixá Ikù(Oniborun), o guardião da entrada do mundo dos mortos, assim Xangô fez, seguindo a risca os preceitos de Orunmilà.

Xangô conseguiu rever sua filha e pegou para sí o controle absoluto dos Egungun (ancestrais), estando agora sob domínio dos homens este culto e as vestimentas dos Egungun, e se tornando estremamente proibida a participação de mulheres neste culto, provocando a ira de Olorun, Xangô, Ikú e os próprios Egungun, este foi o preço que as mulheres tiveram que pagar pela maldade de suas ancestrais as Yami”.
Culto aos Egungun é uma das mais importantes instituições, tem por finalidade preservar e assegurar a continuidade do processo civilizatório africano no Brasil, é o culto aos ancestrais masculinos, originário de Oyo, capital do império Nagô, que foi implantado no Brasil no início do século XIX.

O culto principal aos Egungun é praticado na Ilha de Itaparica no Estado da Bahia mas existem casas em outros Estados.

Quanto ao aspecto físico, um terreiro de Egungun ou Egun apresenta basicamente as seguintes unidade:

um espaço público, que pode ser freqüentado por qualquer pessoa, e que se localiza numa parte do barracão de festas;
uma outra parte desse salão, onde só podem ficar e transitar os iniciadores, e para onde os Egun vêm quando são chamados, para se mostrar publicamente;
uma área aberta, situada entre o barracão e o Ilê Igbalé (ou Ilê Awô – a casa do segredo), onde também se encontra um montículo de terra preparado e consagrado, que é o assentamento de Onilé;
um espaço privado ao qual só têm acesso os iniciados da mais alta hierarquia, onde fica o Ilê Awô, com os assentamentos coletivo, e onde se guardam todos os instrumentos e paramentos rituais, como os Isan pronuncia-se (ixan), longas varas com as quais os Ojé invocam (batendo no chão) e controlam os Egungun.
O Culto à Egun ou Egungun veio da África junto com os Orixás trazidos pelos escravos. Era um culto muito fechado, secreto mesmo, mais que o dos Orixás por cultuarem os mortos.

A primeira referência do Culto de Egun no Brasil segundo Juana Elbein dos Santos foram duas linhas escritas por Nina Rodrigues, refere-se a 1896, mas existem evidências de terreiros de Egun fundados por africanos no começo do século XIX.

Os Terreiros de Egun mais famosos foram:

Terreiro de Vera Cruz, fundado +/- 1820 por um africano chamado Tio Serafim, em Vera Cruz, Ilha de Itaparica. Ele trouxe da África o Egun de seu pai, invocado até hoje como Egun Okulelê, faleceu com mais de cem anos.
Terreiro de Mocambo, fundado +/- 1830 por um africano chamado Marcos-o-Velho para distingui-lo do seu filho, na plantação de Mocambo, Ilha de Itaparica. Teria comprado sua carta de alforria, anos mais tarde teria voltado à África junto com seu filho Marcos Teodoro Pimentel conhecido como Tio Marcos, lá permanecendo por muitos anos aperfeiçoando seus conhecimentos litúrgicos, onde também seu filho foi iniciado. Quando voltaram trouxeram com eles o assento do Baba Olukotun, considerado o Olori Egun, o ancestre primordial da nação nagô.
Terreiro de Encarnação, fundado +/- 1840 por um filho do Tio Serafim, chamado João-Dois-Metros por causa de sua altura, no povoado de Encarnação. Foi nesse terreiro que se invocou pela primeira vez no Brasil o Egun Baba Agboula, um dos patriarcas do povo Nagô.
Terreiro de Tuntun, fundado +/- 1850 pelo filho de Marcos-o-Velho, chamado Tio Marcos, num velho povoado de africanos denominado Tuntun, Ilha de Itaparica. Marcos possuiu o título de Alapini, Ipekun Ojé, Sacerdote Supremo do Culto aos Egungun, na tradição histórica Nagô, o Alapini representa os terreiros de Egun ao afin, palácio real.
Tio Marcos, Alapini, faleceu por volta de 1935, e com sua morte desapareceu o terreiro do Tuntun, porém a tradição do culto a Baba Olokotun continuou através de seu sobrinho Arsênio Ferreira dos Santos, que possuia o título de Alagba, este migrou para o Rio de Janeiro levando o assento de Baba Olokotun para o município de São Gonçalo. Depois do falecimento de Arsênio, os assentos dos Baba retornaram para Bahia, através do atual Alapini, Deoscoredes M. dos Santos, conhecido como Mestre Didi Axipá, presidente da Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Axipá. Mestre Didi foi iniciado na tradição do culto aos Egungun por Marcos e Arsênio.

Terreiro do Corta-Braço, na Estrada das Boiadas, ponto de reunião de praticantes da capoeira, atualmente bairro da Liberdade, cujo chefe era um africano conhecido como Tio Opê. Um dos Ojé, sacerdotes do culto aos Egungun, conhecido como João Boa Fama, iniciou alguns jovens na Ilha de Itaparica, que se juntariam com os descendentes de Tio Serafim e Tio Marcos para fundarem o Ilê Agboulá, no bairro Vermelho, próximo à Ponta de Areia.
Outros terreiros de Egungun foram registrados no final do século XIX, um localizado em Quitandinha do Capim, que cultuava os Egun Olu-Apelê e Olojá Orum, o de Tio Agostinho, em Matatu que se tornou ponto de concentração de vários Ojés de outras casas inclusive o Alapini Tio Marcos, o Terreiro da Preguiça, ao lado da Igreja da Conceição da Praia.

Ilê Agboulá, Localizado em Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, o Ilê Agboulá é, hoje, no Brasil, um dos poucos lugares dedicados exclusivamente ao culto dos Egun. Sua fundação remonta ao primeiro quarto do século XX por Eduardo Daniel de Paula, Tio Opê, Tio Serafim e Tio Marcos, mas a comunidade que lhe deu origem e que lhe mantém os fundamentos está estabelecida na Ilha, como já vimos há cerca de duzentos anos.
Ilê Olokotun, na Ilha de Itaparica
Ilê Axipá – Sociedade Cultural e Religiosa Ilê Axipá.

Hierarquia

Nas casas de Egungun a hierarquia é patriarcal, só homens podem ser iniciados no cargo de Ojé ou Babá Ojé como são chamados, essa hierarquia é muito rígida, apesar de existirem cargos femininos para outras funções, uma mulher jamais será iniciada para esse cargo.

Masculinos: Alapini (Sacerdote Supremo, Chefe dos alagbás), Alagbá (Chefe de um terreiro), Atokun (guia de Egum), Ojê agbá (ojê ancião), Ojê (iniciado com ritos completos), Amuixan (iniciado com ritos incompletos), Alagbê (tocador de atabaque). Alguns oiê dos ojê agbá: Baxorun, Ojê ladê, Exorun, Faboun, Ojé labi, Alaran, Ojenira, Akere, Ogogo, Olopondá.

Femininos: Iyalode (responde pelo grupo feminino perante os homens), Iyá egbé (cabeça de todas as mulheres), Iyá monde (comanda as ató e fala com os Babá), Iyá erelu (cabeça das cantadoras), erelu (cantadora), Iyá agan (recruta e ensina as ató), ató (adoradora de Egun). Outros oiê: Iyale alabá, Iyá kekere, Iyá monyoyó, Iyá elemaxó, Iyá moro.

RITUAL
Tanto a tradição Nagô como a Jeje e a Congo-Angola cultuam os ancestrais. Para os Nagôs existem no Brasil três formas de cultuar os ancestrais, os Esa, os Egungun e as Iya-mi Agba.

Os terreiros de Candomblé possuem um local apropriado de adoração do espírito de seus mortos ilustres, esse local é denominado de Ilê ibo aku, casa de adoração aos mortos, enfim todos iniciados no culto aos Orixás.

Os Esa são considerados os ancestrais coletivos dos afro-brasileiros. Seu culto se refere à comunidade em geral. O que destaca o Esa é o fato dele ter-se destacado em vida por servir a comunidade e de continuar atuando em outro plano, contribuindo para o bom desenvolvimento do destino dos fiéis e da casa. O Ilê ibo aku onde são assentados e cultuados os Esa é afastado do templo onde são cultuados os Orixás.

Os sacerdotes que são iniciados especialmente para cuidar do Ilê ibo aku não são adoxu, isso é, não manifestam Orixá. Os ancestrais cultuados no Ilê ibo aku são diferentes dos cultuados no Culto aos Egungun, no primeiro são os espíritos dos falecidos da casa de Candomblé e o segundo são os ara-orun em geral e aos espíritos dos Ojé africanos ou brasileiros.

Os Esa são invocados e cultuados em diversas situações, especialmente no padê, e no axexê quando é constituído o assentamento de um adoxu ou dignitário ilustre falecido. O assento de Esa se caracteriza pela representação da existência genérica, e o Egungun pela representação do espírito individualizado, o Egungun se caracteriza pela aparição no aiyê. Os Esa e os Egun são invocados no padê.

oloje iku ike obarainan

Por:  Ally Nebarack / Casa de Babá Egungun Obarainan

 

Cantigas de Xirê Ketu

Uma casa pra chamar de sua

Fe

        Oito anos de blog, de ler relatos, angústias e responder a perguntas me faz perceber padrões, como por exemplo a danada da pergunta: “Orixá 1 com Orixá 2 dá qual qualidade?”. Acho que farei 100 anos e esta pergunta estará sempre no mundo virtual. Não vou falar especialmente de qualidades hoje e nem do top 5 dos tipos de pergunta que mais recebemos. O assunto hoje é casa de axé, a procura do lugar que faz a gente se sentir em casa.

       Quem não conhece aquela pessoa que já foi abian de muitas casa, aquele iyawô que mudou de casa assim que foi iniciado ou aquele iyawô que muda de casa quase sempre? Uns estão numa destas situações porque realmente ainda não criaram o sentimento de compromisso que uma iniciação exige, outros desiludiram, outros estão nessa porque estão perdidos, buscam “algo”. Esse “algo” pode ser muita coisa, inclusive nada… Esse algo pode ser aquela emoção que a gente sente quando um orixá nos toca, ou a vibração porque o toque está sendo bem tocado e as baianas muito bem arrumadas, o xirê organizado. Talvez esse “algo” que tantos buscam seja aquilo que todas e todos nós sentimos, mas que sabemos que não acontece 24 horas por dia na labuta dentro de uma casa axé.

     O Candomblé tem atraído cada vez mais pessoas jovens. Através de manifestações culturais as pessoas têm chegado ao terreiro. Esse movimento é muito positivo porque tem muita gente vindo com uma cabeça aberta sobre o que representa a religião dentro da própria história do Brasil. Chegam emocionados, chegam empolgados e batem com banheiro pra lavar, salão pra varrer, galinha pra depenar e percebem que Candomblé não é somente festa. A gente cuida do Ori e cuida do chão da casa com o mesmo empenho. Sim, exatamente isso. A cabeça é sagrada e cada elemento que compõe uma casa de axé é sagrado também e merece zelo e cuidado.

      É por isso que a gente fala: “seja abian!”. Isso é pra avaliar a casa, avaliar a zeladora ou zelador, avaliar as pessoas que fazem parte da casa, avaliar o ambiente, avaliar a si próprio lá dentro, avaliar se o que está sendo descoberto condiz com a busca ou não. Religião toca na nossa emoção sim, o arrepio é constante, o divino transcende, mas na hora da coisa séria o papo é reto e tudo bem pensado. Costumo fazer uma analogia entre a escolha da casa e a busca de um relacionamento com outra pessoa: num relacionamento há uns dois exemplos básicos: quem está sempre em busca da paixão, do fogo, do tesão, daquela empolgação que faz o coração disparar e quando as coisas amornam, perdem o viço, o interesse e partem pra outra. Há também aquelas pessoas que querem um relacionamento pra compartilhar a vida, ter intimidade no barulho e no silêncio, que entendem que a outra pessoa tem qualidades e defeitos e que haverá dias em que as coisas não estarão bem, serão mais difíceis, mas permanecerão ali enquanto der pros dois ou para as duas. A procura de uma casa de axé é o mesmo caminho: há quem procure o brilho, a emoção, a beleza, a festa, e quando percebe uma rotina comum cai fora e continua caindo fora de todos os lugares; e há quem busque uma casa, busque o orixá, encontre pessoas, encontre uma rotina, observa, se identifica com boa parte do observado e entende que Orixá não é somente festa.

       Tudo isso tem muito a ver com maturidade e pra alguém ser madura ela não precisa ser velha. Penso que maturidade está em saber agir equilibrando razão e emoção, desejo e respeito, paixão e responsabilidade. Maturidade é saber que o Orixá se manifesta num xirê, emociona o salão e emociona o nosso dia a dia também, emociona no cotidiano, regula também o cotidiano.

     Quer chegar e se juntar a nós? Será sempre bem vindo. Mas saiba, uma casa de axé não é festa o tempo inteiro. A festa é o último e menos trabalhoso ato de uma jornada com o que consideramos sagrado. Os melhores momentos meus na minha casa de axé são exatamente no silênio. Olhar pra cada lugar e saber que eu e o meu orixá somos cada pedacinho de lá.

Axé.

Dayane Silva

O amor

012É preciso amar. Amar muito os Orixás e a Religião para cumprir com devoção os compromissos assumidos com prazer. É o amor que estimula a perseverança. É o amor que nos acompanha quando a paixão deslumbrada e inocente é soterrada pelas decepções ao longo do caminho.

O amor faz vibrar, mas só ele traz a serenidade que consegue manter vivos os sonhos, mesmo quando os olhos se abrem.

Não há como ser candomblecista sem amar os Orixás. Talvez os motivos de cada um variem. Talvez o amor tenha intensidades diferentes. Talvez o amor seja subjetivo ao ponto de se colorir de vários matizes. Mas tem que ter amor. Não porque o Candomblé é um peso, um fardo a quem deseja abraça-lo. Mas porque quem o abraça, abraça junto o convívio com muitas coisas, como a dedicação, o preconceito, a intolerância, a incompreensão.

O amor aos Orixás quando é verdadeiro não se dissipa. Se abate, por vezes, por conta do convívio com as pessoas, mas não esmorece.

E justamente o convívio entre as pessoas é que torna o amor um sentimento ímpar no Candomblé.

Pessoas são sempre pessoas, em qualquer lugar, tempo e com qualquer credo. Mas nas Casas de Candomblé elas se chamam de “pais”, ”mães”, ”filhos”, ”irmãos”. Como tratar assim os semelhantes sem desenvolver e nutrir um sentimento de amor?

O amor, mesmo o biológico, o amor que se sente pelos filhos paridos, é também desenvolvido, gerado, ganha corpo e cresce.

Por isso é possível amar de verdade, como os filhos paridos, os filhos que os Orixás nos dão (ou nos emprestam?).

Se por um lado o amor é a mola propulsora de tudo que se faz, ou que se deve fazer em uma Religião, às vezes ele atropela, confunde e gera problemas.

O amor por vezes é traiçoeiro, surpreendente e até mesmo torna-se indesejável. Este sentimento tão puro límpido e inspirador dos mais belos gestos, poesias, músicas e outras expressões artísticas, pode não ser bem vindo.

Numa Casa de Santo não é permitido o relacionamento entre “filhos”, nem entre “filhos” e “pais”. As relações precisam ser bem definidas, pautadas e conduzidas, para que não desandem, sob este ponto de vista.

Em razão disso, é sempre recomendável conduzir as relações com prudência. Evitando intimidades desmedidas, brincadeiras e tratamentos maliciosos, ou situações que possam acarretar consequências que levem o amor fraternal ao desejo sexual. Não que este seja deplorável. Mas incabível na relação fraternal entre irmãos de santo e filhos de santo.

Há contudo casos inúmeros em que casais formados nas Casas de Santo tornaram-se sólidos. Mas na maioria das vezes essas relações quando ocorrem, revelam-se frívolas, descompromissadas e irresponsáveis. É impossível julgar o sentimento alheio. Mas é necessário fazer valer as regras para manter equilibrada a harmonia de toda a comunidade. Administrar um egbé não é simples. As regras precisam valer para todos, senão o zelador perderá o comando, o respeito e a própria confiança.

Nessas situações, melhor que omitir, se alienar, ou estimular, recomenda-se uma conversa franca. Se realmente quiserem viver o amor, deverão afastar-se da Casa, para manter a ordem e a regra.

Há contudo os casais que já chegam no Terreiro como namorados, ou como esposos. Não interessa o sexo, ou a opção sexual: são casais. Os Terreiros de Candomblé sempre funcionaram como verdadeiras embaixadas da diversidade, acolhendo as minorias, dando oportunidade aos diferentes e espaço aos oprimidos. Por isso não pode haver preconceito em uma Casa de Santo.

Esses casais “formados”, na maioria das Casas não é tratado pelas mãos da mesma pessoa. Existe uma tradição nos Terreiros, que diz não dar sorte que um mesmo zelador ponha a mão sobre as cabeças de um casal. Dizem que isso dá azar e desfaz a união.

Claro que o Candomblé é uma Religião brasileira, fundada sobre sua própria história, aspectos sociais, geográficos, etc e tal. Mas é importante dizer que não há motivos litúrgicos, nem rituais que fundamentem isso. Não há itans, orikis, nem orins que descrevam ou expliquem esse impedimento. Nem mesmo a prática na matriz africana reproduz esse medo. Lá, os sacerdotes eram únicos e cuidavam de toda a comunidade, por vezes iniciando famílias inteiras: pais, mães, filhos, netos, tios, avós…

É possível que num Brasil ainda escravagista, quando casais que viviam nas mesmas senzalas eram “tratados” pelo mesmo sacerdote, tenham experimentado o dissabor de serem separados dramaticamente, em razão da condição de escravos. Isso pode ter gerado esta cisma de que a mão do mesmo “pai de Santo” não traz sorte aos casais.

Pois é… o amor é assim mesmo: inexplicável. Mas acima do ọkàn (coração) está orí (a cabeça).

Os iorubas nos ensinaram que é orí (a cabeça) que indica para onde nossos pés (lẹ́sẹ̀) nos levarão; é ela (a cabeça), que decidirá o que ọwọ̀ (as mãos) irão fazer.

Que orí faça sempre boas escolhas e que nos conduza pelo nosso destino com prosperidade.

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Márcio de Jagun

05/12/13

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