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Archive for Fevereiro, 2016

Ogun Avagan e suas origens

Vodun Gu, Assen e Representação

                                    Vodun Gu, Assen e Representação

Ogun Avagan é uma divindade cultuada no Batuque do Rio Grande do Sul, em suas diversas vertentes (Ijexá, Jeje, Nagô, Oyó, Kabinda/Kanbina), que tem dentre suas funções proteger o templo e as pessoas ligadas a ele. É assentado em um espaço reservado, em frente ao templo, juntamente com Exu Olode (ou Bará Lodê) e ambos tem a função de proteger o local.

Ogun Avagan é tido pelos adeptos do Batuque do Rio Grande do Sul como uma divindade vinda dos “jejis”, o considerando um Vodun, e não estão errados em sua concepção, pois tanto Ogun Avagan quanto Oyá Timboá (Atinbowá) são divindades Voduns, associadas ao culto yorubá do Batuque do RS, sendo atreladas como qualidades de Orixás e sendo cultuados nos moldes dos mesmos.

Para enterdermos melhor Ogun Avagan, precisamos compreender como nasceu o culto de Vodun Gü e os ancestrais que foram divinizados e fazem parte de seu clã, pois até Avagan temos uma sequência:

Ògún: divindade yorubá da guerra e dos metais;
: divindade fon com origem yorubá, uma adaptação do culto do orixá Ògún, carrega também os nomes Gü Huntonji, Ogü, Dagü e Ogün mesmo. É uma divindade popular (Toxwyo);
– Avagän ou Gü Avagän: divindade fon, ancestral divinizado, ligado ao culto do vodun Gü, ou um título do mesmo, cujo nome na língua ajagbé significa “senhor do metal” ou “ferreiro”, é uma divindade local.

Do Culto de Ògún, nasce Gü

O culto de Ogun foi levado ao Dànxómè por ferreiros yorubás no final do séc XVII. De acordo com Verger: “Para os Fon do Dahomey, Gü desempenha o mesmo papel que Ogum dos yorubás, mas, como Odùduà, é desconhecido em Abomey, Gü ai, é considerado o filho de Lisà e Mäwü, versão fon de Orìsàálá e Yemowo. Maximilien Quénum, o compara a Legba e assinala sua presença diante das forjas. Christian Merlo indica que “todos os templos” têm seu Gü, cuja virtude é fortificar o vodun. Em Xwèɖá na República do Benin, no Templo de Dan, se encontra um assen dedicado ao Vodun Gü, cuja função é proteger o templo. Chamam-no Sòhokwé, o guardião da casa”. O Assentamento da divindade “Xoroke” nos terreiros jeje-mahi do Brasil se refere a proteger os templos, e alguns o chamam de “Ogun Tolú”. O emblema principal de Gü é o Gubasá, uma adaga metálica adornada com desenhos, utilizada em diversos rituais, incluindo o culto de Fá. O Gubasá também é conhecido e utilizado no Vodu haitiano. O Gudaaglo, facão de tamanho menor, é um outro emblema, símbolo de proteção e defesa contra os inimigos. Na iconografia fon, é representado segurando estes dois sabres, o Gubasá na mão direita e o Gudaaglo na mão esquerda. Vários templos e casas no Benin, possuem seu assentamento de Gü.

Avagan

Gu vodun 2

Na língua ajagbé “Ava – metal, ferro; Gän – senhor, no sentido de possuir” literalmente “o ferreiro”,  pode se referir a um ancestral divinizado ligado ao culto de Gü, bem como ser um título do próprio, como pode se referir a diversos ferreiros do antigo Danxomè. Além de Avagan temos ancestrais divinizados, ligados ao culto de Gü, que é o Ako Vodun, o chefe do clã. Podemos citar por exemplo Gu Badagri, divindade muito conhecida no Haiti, sob o nome de “Ogou Badagris” que é um ancestral que foi divinizado e ligado ao culto de Gu.

Ifabimi Aladanu, escritor e pesquisador da cultura afro e também do culto vodun cita: “Avagan é o que diz seu nome: ferreiro, um de seus atributos. Com esse atributo ele é reverenciado de uma forma distinta daqueles outros, que é um só, mas de outra cidade ou que tenha um outro atributo. Ele é ferreiro então ele não vai a guerra mas ele faz a faca, então antes do sacrifício ele é reverenciado, como se fosse o Asi Anju dos iorubás. Frekwen tem a forja, Avagan é o ferreiro.”

Também considera-se que o título Avagan esteja ligado não somente a um ancestral específico, ou a Gu, mas há vários ferreiros reais do antigo Danxomè. Logo podemos concluir que antes de ser um nome específico a uma única divindade, Avagan é um título que se extende ao coletivo.

Podemos ainda encontrar autores que consideram que Avagan pode ser Avagá: uma divindade fon feminina, mas que poderia ter se associado ao culto de Ogun, no Brasil, fazendo assim surgir Ogun Avagan. Vejamos, como cita Bokonon Defódjí (Daniel Barreiro), sacerdote de Fá-Vodun, pesquisador e escritor, sobre esta divindade: “Vodoun feminino, acredita-se que o portador das bênçãos de Vodoun Dan, que dá a sabedoria de Mawu e proteção para seu novo Rei -HOUNON-GA que foi coroado, simbolizada pelas serpentes nos braços do Hounon-Ga, ela é a que se comunica com Vodoun dizendo-lhe que “um novo Rei há nascido” para a sua comunidade e reinará sobre a então até que um novo nascer … Avagá foi confundida com Orisa na América pelos irmãos, inclusive confundida como o Orisa Ogun…” (Tradução minha).

De fato vemos que muitas concepções circundam a divindade Avagan, e como chegou ao Brasil e foi associada a Ogun, pois de alguma maneira, desde África já havia um elo, uma ligação.

Ogun Avagan mantém muitos desses aspectos, e também uma semelhança com a divindade conhecida como Sohokwe ou Xoroke, por ser aquele que fica “na frente” e protege os templos. Também é o portador da faca, digamos, aquele que faz a faca, o ferreiro, o primeiro que recebe louvações.

 

 

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Hùngbónò Charles (Charles da Silva), sacerdote, historiador e pesquisador da cultura Vodun

 

 

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             Custódio Joaquim Almeida de Xapanã (Sakpatá Erupé)

O “Príncipe Negro” ou Príncipe Custódio de Xapanã é uma das mais importantes e controversas personalidades dentro da formação e estruturação da religião afrosul, denominada Batuque do Rio Grande do Sul, praticada sobretudo nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina (além de outros estados em menor proporção) e também em países como Argentina e Uruguai, para onde este culto migrou através de seus sacerdotes.

A figura de Custódio, é sempre associada ao povo Fon (Jeji) e a ele se atribue a vertente Jeji/Jeje-Glefe/Jeje-Nagô, praticadas nas liturgias do Batuque, e os Voduns que fazem parte do mesmo. No entanto é uma precipitação atribuir esta personalidade como sendo um Fon/Daomeano, ou mesmo dizer que ele foi o responsável pela estruturação do culto de alguns Voduns no Batuque (que nesta religião não tem um culto exatamente organizado e que são cultuados segundo a cultura yorubá, na forma de “qualidades de Orixás”). O Príncipe Custódio de fato era africano, mas não daomeano. Trata-se de um dos príncipes da dinastia do povo Bini ou Edo, habitantes do antigo Reino de Benin, localizado a sudoeste da antiga cidade de Ifé (hoje, Lagos), na atual República da Nigéria.

Para entendermos um pouco da cultura do povo Bini ou Edo, vamos analisar como esse povo emergiu como civilização.

O Reino de Benin e o Povo Edo

O Reino de Benim formou-se entre os séculos XII e XIII, onde tem sua História montada através das investigações arqueológias e também através dos mitos que envolvem sua fundação. Os mitos que envolvem a fundação de Benin, estão intimamente relacionados aos mitos de fundação de Ifé; Acredita-se que Ifé fora fundada por Odudua, um dos orixás da criação, a mando do deus supremo, Olorum. Benin, por sua vez, teria sido fundado por Oraniã, orixá das profundezas da terra e filho de Odudua. A lenda sobre Oraniã ainda faz referência a um suposto filho que ele teve, Eweka, que teria sido o primeiro rei, ou Obá (nome adotado dos Yorubás), de Benin. O fato é que o Reino de Benin contou, ao longo de sua trajetória, com poderosos Obás. No século XV, um desses obás, Ewuare, promoveu intensas reformas no reino, transformando Benin em uma grandiosa potência subsaariana. A língua falada por este povo chama-se igualmente edo, aproximando-se a língua yorubá, e sua cultura também encontra-se atrelada a cultura do povo Yorubá.

Obá Ovonramwen de Benin e Osualele Okizi Erupé

Ovonramwen Nogbaisi (Obá de Benin, entre 1888-1897), também chamado Overami, foi o Obá (rei) do Reino de Benin até a expedição punitiva britânica de 1897.

No final do século XIX, o Reino de Benin ainda havia conseguido manter a sua independência com relação ao monopólio britânico. O território, no entanto, a muito estava sendo cobiçado por um influente grupo de investidores por seus ricos recursos naturais, como óleo de palma, borracha e marfim.  O reino foi em grande parte resistente ao controle britânico, e uma pressão contínua de figuras como o vice-cônsul britânico James Robert Phillips e Capitão Gallwey, que se empanhavam para a anexação britânica do Império Benim e a remoção do Obá Ovonramwen.

A força de invasão britânica chefiada por Phillips, foi estabelecida, para derrubar o Obá em 1896. O plano de Phillips era ganhar acesso ao palácio de Ovonramwen, dizendo que queria fazer negociações. Mensageiros de Ovonramwen no entantp emitiram várias advertências para não violar a soberania territorial de Benin, alegando que o Obá era incapaz de ver Phillips naquele momento devido a deveres cerimoniais. Tendo sido avisado em várias outras ocasiões no caminho, Phillips provocou o Obá, um insulto deliberado destinado a provocar o conflito que iria fornecer uma desculpa para a anexação britânica. A expedição de Phillips no entando falhou e muitos de seus homens mortos. Posteriormente, uma operação militar contra o Reino de Benin, em 1897, liderada por Harry Rawson resultou na queima da Cidade de Benin (capital do Reino) e na mortes de um número incontável de seus habitantes. Embora os britânicos tivessem ordem para executar o Obá, Ovonramwen escapou, mas logo depois se rendeu, conseguindo fazer um acordo com os britânicos, que ele e sua família iriam se exilar. Ovonramwen foi exilado em Calabar com suas duas mulheres, e lá morreu em 1914.

Segundo os relatos citados em muitas bibliografias que abordam o Batuque Afrosul, um dos filhos de Ovonramwen era Osuanlele, considerado por alguns como seu primogênito. A Osuanlele é atribuida a figura de Custódio Joaquim Almeida (nome adotado no Brasil), o nome que ele teria adotado ao mudar-se para o Brasil, onde residiu até o final de sua vida na cidade de Porto Alegre/RS.

Um conflito na História

No entanto, apesar de a Custódio ser atribuido ser Osuanlele, o filho de Ovonramwen e por conseguinte “príncipe” de Benin, existem muitas discordâncias históricas; uma delas é que na história do Reino de Benin, não há nada que relate alguns dos filhos de Ovonramwen sendo exilado no Brasil.

Outra discordância seria assimilar um nobre de etnia Edo, ao culto Vodun e chamá-lo de pai dos Jejis no Rio Grande do Sul, pois há inúmeras evidências de que Custódio Almeida praticava um culto nàgó. Com estas evidências alguns escritores e historiadores chegam a acreditar que Custódio teria tido conhecimento do exilio do Obá e sua família e teria se aproveitado do fato para se intitular um nobre, um dos príncipes Edo.

Há também escritos que denominam Custódio como “Príncipe de Ajudá”, referindo-se ao porto de Ouidah, na atual República de Benin (antigo Reino de Danxomè), de onde partiram vários negros de etnia yorubá para o Brasil e talvez esse teria sido o motivo de uma associação entre a figura de Custódio e o povo Jeji, no entanto não há nenhuma evidência história de que algum “Príncipe de Ajudá” tivesse vindo para o Brasil, ainda mais em epócas tardias da escravidão como se referem os relatos voltados a figura de Custódio.

O Culto dos Voduns Reais

Como se sabe, a realeza daomeana tinha uma maneira própria de culto. Seus Voduns (Hennu-vodun) eram Voduns famíliares, ou seja, o culto de seus próprios ancestrais que eram divinizados e tornados Voduns. Não existe no Rio Grande do Sul vestígios ou relatos de algum culto semelhante; diferente do que existe no Maranhão na Casa das Minas, uma casa de tradição Jeji, que teria sido fundada pela rainha Na Agotimé, esposa do Rei Agonglo que teria sido exilada e mandada como escrava para o Brasil por seu enteado Adandozan. A Casa das Minas realiza uma prática única de culto aos voduns ligados a família real de Danxomè (Daomé).

Conclusão

A origem exata de Custódio Joaquim Almeida, apesar de diversos estudos realizados a seu respeito, continua um mistério. Sem dúvida foi uma personalidade que teve muito prestígio e criou laços com personalidades da elite, importantes na época. As conclusões que se pode tirar é que foi e ainda é uma importante figura e um dos pilares na formação do Batuque do Rio Grande do Sul como é conhecido hoje. No entanto, dentre os relatos que o citam, sempre apontam uma forma de culto nàgó, e não Jeji, como afirmam as tradições orais do Batuque. Uma das hipóteses é que ele tenha se integrado a comunidades de negros ditos Jejis que aqui ja estavam e que ele teria se auto-denominado Jeji e sua raiz religiosa assim se perpetuou, absorvendo uma porção de costumes e rituais praticados por ele.

Estudo de imagem

Na foto abaixo vemos Ovonramwen ao centro; suas duas esposas uma de cada lado, envoltos pelos filhos. O rapaz mais alto, atrás de Ovonramwen é tido como sendo Osuanlele.

 

Obá Ovonramwen de Benin e sua família.

Obá Ovonramwen de Benin e sua família.

 

 

Texto: Charles da Silva (Hùngbónò Charles),

Formação em História (Unopar), especialista em História e Cultura Afrobrasileira (Uniasselvi)

 

 

Fontes e Referências:

-Redescobrindo o Nàgó do Príncipe Custódio (https://ileaseekundeyi.files.wordpress.com/2013/04/redescobrindo-o-culto-nago-do-principe-culstodio.pdf)
– Alberto da Costa e Silva, Um chefe africano em Porto Alegre, in “Um rio chamado Atlântico”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira;UFRJ, 2003

-Mundo Escola – Reino de Benin (http://mundoeducacao.bol.uol.com.br/historiageral/reino-benin.htm)

-Thomas Uwadiale Obinyan, The Annexation of Benin, in Journal of Black Studies, Vol. 19, No. 1 (Sep., 1988), pp. 29-40

 

 

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