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Archive for Maio, 2008

Candomblé Não É Umbanda

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Não há semelhança. A começar pelas origens, o Candomblé é uma religião africana que existe desde os tempos mais remotos daquele continente, que é o berço da terra, de forma que se funde sua origem com os primeiros contactos de pessoas que lá chegaram, existem citações na teologia africana que Odudúwa era Nimrod, o conquistador caldeu primo de Abraão e neto de Caim, que foi designado por Olodumarè para levar a remissão e a palavra de Olurún (Deus) aos filhos de Caim que, amaldiçoados, viviam na África. Este facto data de 1850 A.C., sendo que Caim pode ter vivido entre 2100 a 2300 A.C. – Oranian , neto de Odudúwa , viveu em 1500 e seu filho Xangô por volta de 1400.

As coincidências existentes nos rituais africanos, como a Kaballah hebraica, são imensas, e vem provar a tese da estreita ligação entre Abraão, pai dos semitas, e Odudúwa, (Nimrod) pai dos africanos. Isso pode ser constatado no relacionamento existente entre o símbolo de um elemental africano chamado Dan a serpente, e uma das 12 tribos de Israel, cujo nome é Dan, e o seu símbolo, a serpente telúrica.

Citação de que falei na Teologia Iorubana que fala da criação da terra. De uma forma básica, no Candomblé não existem “incorporações” de espíritos, pois os orixás, de quem sentimos força e vibrações, são energias puras da natureza, que não passaram pela vida, ou seja não são “entidades”, mas elementais puros da natureza, criados por Olorum.

No Candomblé a consulta é feita através da leitura esotérico/divinatória do jogo de búzios, forma de leitura exclusiva do povo candomblecista, que tratámos em capítulo próprio, e o tratamento para cada caso, é feito com elementos da natureza, oriundos dos reinos vegetal, animal e mineral, através e ebós, oferendas, Orôs (rezas) e rituais africanos.

A Umbanda por sua vez, sem qualquer demérito para quem a pratica, pois se levada de uma forma séria e consciente tem o seu mérito, valor e aplicação, é uma religião brasileira, que advém do sincretismo católico-fetichista, necessário numa época de grande repressão das religiões africanas, em que era proibido o culto dos orixás na sua forma de origem, e esta adaptação fez-se necessária, a partir desta premissa, a Umbanda começou a tomar corpo, com algum conhecimento de alguns africanos no trato com os seus ancestrais, onde era comum a “incorporação” de algum ente falecido, por um elégún por motivos familiares.

São muito comuns nos dias de hoje, Ilês que praticam Candomblé e Umbanda, porém em dias, horários e formas diferenciados, mas é uma atitude não compactuada, bem como a utilização do sincretismo com os santos católicos, pelas tradicionais Casas de Candomblé cujas raízes foram plantadas no Nordeste do país, mais precisamente em Pernambuco e na Bahia. Na Umbanda por sua vez, a consulta é feita através de um médium “incorporado” , e os “trabalhos” pelo espírito ali incorporado com os seus elementos rituais.

Baseado num texto de Fernando Oli Perna – Babalorixá “Mavam Dilè”

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O Candomblé é uma religião iniciática de carácter progressivo. A sua organização estabelece-se a partir de um conceito peculiar de hierarquia onde o que está “acima” não tem, necessariamente, poder sobre o que está “abaixo”, mas vai adquirindo, com o tempo e as “obrigações”, o direito de participar e “ver” aspectos mais profundos do quotidiano religioso obtendo, com isso, mais conhecimento.

A ascensão hierárquica faz-se pela associação indissolúvel de tempo e conhecimento; tempo sem conhecimento ou conhecimento sem tempo constituem-se como caminhos desviantes que tornam o indivíduo inadequado à convivência colectiva. Em síntese, a hierarquia no candomblé estabelece-se no sentido dos que “sabem” (no tempo) para os que “não sabem” (por terem pouco tempo).

No candomblé o saber realiza-se sempre no real; quem sabe, não sabe para si nem por si, sabe a partir da necessidade e para fins. O saber é ao mesmo tempo o segredo, a necessidade e a capacidade de materializar o conhecimento, transmutando mitos em ritos, práticas e objectos. Quanto mais conhecimento tanto mais ritos, práticas e objectos.

Um caminho interessante para se constatar isso é a observância sobre o fio-de-contas que, mais do que um adorno, é uma marca e uma fonte de axé. O simples colar ao ser imerso na devida mistura de folhas quinadas, associada a alguns outros materiais, transforma-se numa identificação que remete o indivíduo ao seu lugar na comunidade.

A cerimónia da lavagem das contas é, por assim dizer, a inserção do novato no universo mítico e místico do candomblé. Ao receber os seus primeiros fios-de-contas, geralmente um fio de Oxalá e outro de seu orixá pessoal[1], o então Abiã[2] apercebe-se da importância de Oxalá no conjunto dos orixás.

Oxalá é o deus do branco, o pai dos orixás, ou seja, uma energia geradora que antecede, no tempo, os demais orixás. Oxalá “pró-cria”, abranda, arrefece e descansa. Os primeiros conhecimentos acerca deste orixá circunscrevem-se na própria simbologia do branco que, sendo o somatório de todas as cores, traz em si todas as possibilidades de cor. É a energia de onde tudo sai e para onde tudo retorna, por isso o branco é tanto a cor que festeja o nascimento[3] como a que marca o momento da morte. O luto no candomblé é branco pois representa o retorno do indivíduo à massa informe da ancestralidade.

Por isso, necessariamente, o primeiro fio que se recebe é o branco de Oxalá, simbolizando o estado de latência que caracteriza o Abiã com um candidato à iniciação. O branco de Oxalá é o dialecto do justo descanso com o movimento gerúndio.

No período da iniciação, o Iaô, além de fazer jus a uma pequena colecção com os Inhãs[4] dos orixás que participam de sua configuração espiritual, recebe algumas contas específicas que o identificam como tal; são elas o Mocam[5], o Quelê[6] e os Deloguns[7]; nesta ocasião os fios irão “comer”[8] junto com o “santo”, isto é, configurar-se-ão como verdadeiros campos de força.

Após a obrigação de três anos[9], é comum ao ainda Iaô, já com alguma graduação, ser presenteado com alguma conta mais “enfeitada” adquirindo, com isto, o direito de criar para si colares mais rebuscados com missangas um pouco maiores e até alguns poucos corais, primando ainda pela discrição.

Aquando da obrigação de sete anos, o agora Ebômi adquire adornos que o identificam como tal: o Runjebe, o Lagdbá, o Brajá, o Âbar, o Monjoló, os corais, as contas africanas multicoloridas e o alabastro. Mais do que isso, ganha a liberdade total de criar os seus próprios fios, seja no tamanho das contas, na riqueza dos detalhes ou dos próprios materiais a utilizar (ouro, prata, etc.). O Ebômi já conhece os seus “fundamentos”, por isso ganha essa liberdade.

Entretanto, não termina aí a aprendizagem. Até aos sete anos o Iaô é tutelado e educado pelos seus iniciadores, a partir daí é tutelado pela própria liberdade. Muito embora, parafraseando José Flávio Pessoa de Barros, “a modéstia não seja bem-vinda no candomblé”, o bom-tom e a justa medida são apreciadíssimos. O Ebômi deve ser um exemplo para o Iaô, principalmente no que diz respeito ao manuseamento de sua própria liberdade e a adequação às situações, dentro e fora da comunidade.

A confecção e utilização dos fios-de-contas deve ser sempre um exercício da criatividade, mas também deve corresponder a uma estética própria do candomblé que preserva através de seus objectos a sua própria história; inovações excessivas ferem a justa medida e tornam-se inadequadas, uma vez que os objectos são importantes instrumentos de apoio à manutenção da tradição oral.

[1] Quando este não é filho do próprio Oxalá.
[2] Primeiro patamar da hierarquia. O Abiã ainda não é iniciado, é um candidato à iniciação que já pode participar da vida quotidiana da comunidade-terreiro, contribuindo, normalmente, com serviços domésticos, funções que lhe permitem tecer as primeiras observações que se tornarão conhecimentos ou não, conforme a sua capacidade e inteligência.
[3] Todos os Iaôs se vestem de branco por pelo menos três meses e repetem o uso do branco durante todas as suas posteriores obrigações.
[4] Fios de uma só “perna”, isto é, o colar simples de uma só fiada de missangas cuja medida deve ir até a altura do umbigo.
[5] Cordão de palha da costa trançada cujos fechos são duas “vassourinhas” de palha; este cordão constitui um símbolo do Iaô e é, geralmente, preservado por toda vida. A palha da costa é utilizada ainda na confecção de quatro outras tranças que serão amarradas nos braços, recebendo aí o nome de Icam, na cintura (a umbigueira) e no tornozelo, onde será acrescida de um guiso (o chaorô), cuja função é sinalizar o lugar onde se encontra o Iaô através do barulhinho que produz.
[6] Gargantilha confeccionada com 8 fiadas de missangas, entremeadas de firmas, todas na cor do orixá que está a ser “feito”. O Quelê simboliza a ligação indissociável entre o orixá e o iniciado.
[7] Colares feitos de 16 fiadas de missangas com um único fecho cuja medida, como os Inhãs, vai até à altura do umbigo. Cada Iaô deve possuir, normalmente, um Delogum do seu orixá principal e outro do orixá que o acompanha em segundo plano.
[8] Serão banhados pelo sangue sacrificial.
[9] O processo de iniciação inclui além da feitura três outras obrigações: de 1, de 3 e de 7 anos (6 para os filhos de Xangô), quando enfim o novato se pode dizer iniciado, estando apto, inclusive, a iniciar outras pessoas. A partir de então deixa de ser Iaô para tornar-se um Ebômi (corruptela de egbon + mi = irmão mais velho)

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Fios de Contas

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Na mitologia sobre a invenção do candomblé, os colares de contas aparecem como objectos de identificação dos fiéis aos deuses e o seu recebimento, como momento importante nessa vinculação. De acordo com o mito, a montagem, a lavagem e a entrega dos fios-de-contas constituem momentos fundamentais no ritual de iniciação dos filhos-de-santo, os quais, daí em diante, além de unidos, estão protegidos pelos orixás.

Feitos com contas de diferentes materiais e cores, esses fios apresentam uma grande diversidade e podem ser agrupados por tipologias de acordo com os usos e significados que têm no culto. Assim, acompanham e marcam a vida espiritual do fiel, desde os primeiros instantes da sua iniciação até às suas cerimónias fúnebres.

Como nos momentos da montagem e do recebimento, também o instante da ruptura é significativo; entretanto, o rompimento do fio-de-contas, mais do que indicar um mau presságio, que assusta e preocupa o indivíduo e a comunidade, pode ser o início de um novo ciclo, um recomeço, um momento de viragem que pede um novo fio. Dos primeiros fios – simples, ascéticos e rigorosos – às contas mais livres, exuberantes, complexas e personalizadas que a pessoa vai produzindo ou ganhando ao longo do tempo, delineia-se o caminho de cada um na sua vinculação aos orixás e à comunidade do terreiro.

Desta maneira, mais do que a libertação do gosto particular, as transformações nos colares revelam o conhecimento adquirido pela pessoa e sua ascensão na hierarquia religiosa. De tal modo que um leigo pode passar despercebido por um fio-de-contas ou vê-lo apenas como um adorno, enquanto um iniciado na cultura do candomblé o tomará como um objecto pleno de significados, que pode ser “lido” e no qual é possível identificar a raiz, o orixá da cabeça e o tempo de iniciação, entre outros dados da vida espiritual de quem o usa.

Dos ritos secretos e espaços fechados do culto aos orixás, os fios-de-contas ganharam o mundo e adquiriram novos usos. De África vieram para o Brasil e para todo o mundo onde o candomblé se tem difundido. Hoje, devido ao sincretismo religioso, além dos espaços de culto, é possível observar a presença de fios-de-contas em lugares inusitados como automóveis e lojas, mas já destituídos das funções e sentidos primordiais, usados apenas para proteger os espaços e as pessoas contra maus agouros.

Pode ser chamado fio-de-contas desde aquele de um fio único de missangas até a um colar com vários fios presos por uma ou várias firmas. A quantidade de fios pode variar de uma nação para outra na correspondência de cargos.

Na hierarquia do candomblé toda a pessoa que entra para a religião será um Abiã e assim permanecerá até que se inicie. Ao Abiã só é permitido o uso de dois fios-de-contas simples de um fio só, um na cor branco leitoso que corresponde a Oxalá, de acordo com a nação e um na cor do Orixá da pessoa, quando já tenha sido identificado, dessa forma pode-se saber que a pessoa é um Abiã e qual é o seu Orixá.

Um Egbomi usa diversos colares de um fio só, com contas na cor dos Orixás que já tem assentados e estas já podem ser intercaladas com corais ou firmas Africanas.

Tipos de fios-de-contas:

  • Yian/Inhãs: Fios de uma só “perna”, isto é, o colar simples de uma só fiada de missangas cuja medida deve ir até a altura do umbigo.
  • Delogum: Colares feitos de 16 fiadas de missangas com um único fecho cuja medida, como os Inhãs, vai até à altura do umbigo. Cada Iaô deve possuir, normalmente, um Delogum do seu orixá principal e outro do orixá que o acompanha em segundo plano.
  • Brajá: longos fios montados de dois em dois, em pares opostos. Podem ser usados a tiracolo e cruzando o peito e as costas. É a simbologia da inter-relação do direito com esquerdo, masculino e feminino, passado e presente. Quem usa esse tipo de colar é um descendente dessa “união”.
  • Humgebê/Rungeve: Feito de missangas marrons, corais e seguis (um tipo de conta).
  • Lagdibá/Dilogum: Feito de fios múltiplos, em conjuntos de 7, 14 ou 21. São unidos por uma firma (conta cilíndrica).

As Cores dos fios-de-contas de cada Orixá:

 

Exú – Contas Pretas intercaladas com Contas Vermelhas ou contas Cinzas.

Ogum – Contas Verde ou azul marinho

Oxóssi – Contas Azul-turquesa

Omolú – Contas Brancas Raiadas de Preto e Marrom

Jagun – Contas brancas rajadas de preto

Oxumaré – Contas verdes Raiadas de Amarelo

Ossaim – Contas Verdes rajadas de branco

Iroko – Contas Verdes  intercaladas ou não com Contas marron ou brancas ,

Logun Edé – Contas Azul-turquesa intercaladas com Contas douradas.

Oxum – Contas Douradas ou Contas de Âmbar

Iemanjá – Contas Brancas translúcidas ou Contas de Cristal

Iansã – Contas Marrom ou Contas de Coral.

Obá – Cinco Contas Vermelho escuro intercalada com uma Conta Amarela, podem ser tipo cristal.

Ewá – Contas Vermelhas rajadas de amarelo

Nanã – Contas Brancas Rajadas de Azul marinho

Xangô – Contas Vermelhas ou marron intercaladas com Contas Brancas

Airá – Contas Brancas rajadas de marron ou vermelho

Oxalá – Contas Branco Leitoso.

Oxaguian – Contas brancas intercaladas com 8 seguís

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