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Existe uma discussão muito acalorada e com muitas dúvidas para se saber quem é Filho ou descendente direto de um determinado Ndanji (axé), quem é parente, e quem é aderente.

Na minha concepção e em conversa com os mais antigos, cheguei a uma simples conclusão e posição a respeito do polêmico assunto.

 

Filho: É todo aquele que é feito dentro da casa matriz, pelo Zelador (a).

 

Descendente: É todo aquele que é filho de um filho direto da casa matriz.

 

Parente: É todo aquele que é filho de uma casa descendente da casa matriz.

 Exemplos; Tios, Tias, Primos, Primas, Sobrinhos e etc.

 

Aderente: São as pessoas que vêm de outra casa e tomam obrigação na casa matriz ou em suas descendências.

 

*Somente a casa matriz tem o direito de estampar a bandeira “Axé Tal”,  as provenientes, podem estampar a bandeira de “Descendentes de Tal Axé”

 

*As casas dos aderentes, só poderão estampar a bandeira do axé a que aderiram, desde que seja plantada ali, seus fundamentos, ritos e preceitos.

 

*Não é porque o Zelador (a) tomou obrigação em um determinado axé que sua casa e seus filhos se tornarão automaticamente pertencentes ao axé que o Zelador (a) tomou obrigação.

 

As leis do universo são imutáveis, quem nasce brasileiro mesmo que se naturalize americano, e, mesmo com todos os direitos civis do pais que lhe acolheu, sempre será brasileiro.

 

“Não temos que ter vergonha de nossas origens, porque quem não sabe ser pequeno, nunca crescerá”.

Agutan, porque ofertamos aos Ancestrais?

A importância do Agutan nesses rituais fúnebres, bem como, no Culto aos Ancestrais de modo geral.

Há uma antiga história Nago que diz que Iki, foi consultar Ifá, o Deus da Adivinhação. Nessa consulta, Ifá disse à Iki que ele possuía um “amigo” (Agutan), que intentava matá-lo. Ifá recomendou à Iki, que realizasse uma oferenda, de modo que esse suposto amigo não tivesse sucesso em sua empreitada e que cantasse um determinado cântico caso estivesse em perigo.

Muito atento às orientações de Ifá, Iki realizou tudo como lhe fora prescrito e aprendeu a determinada cantiga.

Um dia, Agutan foi visitar o Deus Olofin, percebendo que o seu santuário de culto aos ancestrais estava vazio. Assim, ele indagou à Olofin, o que ele usava como oferendas no culto aos seus Ancestrais. Olofin, por sua vez, respondeu que ele utilizava Obì como sacrifício. Agutan riu muito, dizendo que, embora isso fosse bom, ele teria algo muito melhor para ser ofertado aos Ancestrais (Iki), Olofin agradeceu e, disse que iria aguardar a oferta para que pudesse novamente render homenagens aos ancestrais.

Agutan, então, foi visitar Iki, perguntando-lhe se, o seu pai, já havia lhe contado sobre um jogo que ele e Agutan costumavam sempre jogar. Iki afirmou que não, que seu pai nunca havia lhe falado sobre esse jogo, perguntando como que era.

Agutan disse a Iki que o jogo era bastante simples. Que ele deveria entrar em um recipiente de madeira fechado, enquanto o outro lhe carregava para dar umas voltas, durante 70 passadas e depois trocavam de posições. Iki falou que, realmente seu pai nunca havia lhe dito sobre essa brincadeira, mas parecia ser divertida.

Agutan colocou um recipiente de madeira no chão e entrou dentro. Ele pediu a Iki que tampasse e então o carregasse por alguns lugares. Percorrida a distância de 70 passadas, Agutan disse que era a vez de Iki.

Iki, então, entrou no recipiente de madeira, mas após os 70 passos, Agutan não parou para Iki sair. Iki implorou que Agutan parasse para ele sair, no entanto, Agutan não lhe deu ouvidos. Iki então lembrou-se dos conselhos de Ifá, sobretudo a orientação sobre o cântico. Imediatamente Ikin começou a cantar os versos que Ifá lhe ensinou.

Após alguns momentos, Agutan sacudiu o recipiente e ouviu o som dos braceletes de ferro e continuou caminhado para casa de Olofin, pensando que Iki ainda estivesse dentro do recipiente.

Quando ele chegou à casa de Olofin, ele entregou o recipiente a Olofin, dizendo que ali estava a oferenda que havia prometido aos Ancestrais.

Quando Olofin abriu o recipiente, viu somente braceletes de ferro e ficou muito irritado, pois Agutan havia lhe enganado.

Olofin disse que devido Agutan tentar enganá-lo, ele seria ofertado aos Ancestrais. Após esse dia, Agutan tornou-se oferenda aos Ancestrais.

Nós do Terreiro de Òsùmàrè, esperamos estar contribuindo para a elucidação e edificação da nossa Cultura, explanando sobre os nossos importantes dogmas sem que, no entanto, revelemos aquilo que só é facultado aos iniciados.

Que o nosso Pai, Òsùmàrè Aráká, abençoe sempre a vida de vocês.
Texto Casa do Òsùmàrè.

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O Idioma Yorùbá

O idioma Yorubá pertence à família de línguas do Sudão, tendo sido escrito pela primeira vez no século 19, por missionários cristãos e falado nas diferentes regiões da atual Nigéria. Era um idioma estritamente oral, tendo sido utilizado os fonemas latinos para dar uma forma escrita aos sons das palavras ouvidas. Chegou até nós no periodo da escravatura, tendo se tornado a língua geral falada nas comunidades negras. Seu ultimo refúgio foi nas comunidades de candomblé, nas modalidades Kétu, Èfòn, Ìjèsà e demais que se utilizam de elementos culturais Nagôs. Tem sido mantida através de cântigos, rezas e expressões diversas, estando aí um dos fortes motivos para a manutenção de tradições seculares. O seu conhecimento deveria estar no mesmo nível de interesse do conhecimento de atos religiosos, o que não vem ocorrendo. Por esse motivo é utilizado mais pelo hábito de ouvir e repetir palavras, sem o conhecimento necessário de sua articulação e aprendizado de suas regras básicas de conservação.
Como os demais idiomas, é um instrumento para a comunicação entre as pessoas numa sociedade em que, tudo o que se faz têm o apoio de rezas, cântigos, e declamações neste idioma. Dependendo do grau de instrução que se tenha ou do cuidado com que se fale, pode-se usar a língua correta ou incorretamente. Quando usado corretamente, consagram as normas do culto. Mas se usada incorretamente, dá origem aos “vícios de linguagem” que, em longo prazo, desfiguram o idioma e, sem que se dêem conta, acabam contribuindo para difundir os erros e até mesmo incorporá-los ao idioma. Para confirmar, basta verificar como são diferentes a forma de expressar as palavras de muitos cântigos, rezas e conversações simples, de terreiro para terreiro. Esta é uma das razões da dificuldade encontarada na tradução para se saber o que se canta e o que se reza.
A perda do som original de muitas palavras, e os vícios já creditados como corretos, impedem a interpretação de certas palavras que ao serem traduzidas, não conferem com o desejo do momento. Esta situação vem dando margem a que pessoas, no afã de traduzir, substituam essas palavras por outras que mais lhe convém, provocando mudança total no sentido daquilo que se deseja naquele momento. Em outros casos, a tradução fica destituída de significados, passando a não ter nenhuma relação com o ato que está sendo feito naquele momento. São pessoas predispostas a exibir conhecimentos para os quais não foram qualificadas por falta de seriedade científica, pelo fato do que for apresentado poder vir a ser aceito como autêntico, criando novos vícios para uma religião plena de problemas a serem solucionados.
A linguagem é a chave cultural de um povo. Sem rever seus aspectos, origem e formas, não podemos nos construir na religião, pois na maioria das vezes não se sabe o que se canta e o que se reza.
O seu aprendizado será a resposta para muitas dúvidas que existem na religião. Mas não somente em saber interpretar os cântigos e rezas como forma de curiosidade, mas sim pelo fato de poder sentir mais intimamente, através do seu conhecimento, o alto grau de religiosidade que existe nas mensagens. E a sua utilização terá uma extensão maior ao ser empregado também na literatura humana e de uso corrente.
O alfabeto Yorubá é muito similar ao português, exceto para algumas letras que são pronunciadas de forma diferente. Compôe-se de 18 consoantes e 7 vogais:

A B D E E F G GB H I J K L M N O O P R S S T W Y.
Como pode ser observado não são utilizadas as letras C,Q,X,Z e V.
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Letras repetidas acima que se utilizam de um ponto em baixo: O, E, S

Vogais Orais: A E E I O O U . .

Vogais Nasais: AN, EN, IN, ON, UN

O Yorubá como língua Tonal, utiliza-se de três sons: alto, médio e baixo ou grave, representados por acentos superiores nas vogais: acento agudo, som alto, acento grave, som baixo e sem acento, indicando o som médio ou a voz normal. Isto quer dizer que eles não devem ser confundidos com nossos acentos. Um ponto colocado embaixo das vogais E e O, lhes dá o som aberto, caso não o tenham terão o om fechado. As vogais quando seguidas da letra N, terão um som nasal. A letra S com um ponto embaixo tem som de X ou CH, caso não tenha, terá o som natural da letra S.

Pronúcia de algumas letras:
G: tem um som gutural ou seja, deve ser lido como em Gostar e nunca como em Gentil.

H: tem som expirado aproximado de rr.

J: tem som de dj, como em adjetivo, adjacente, adjunto.

R: leia como em arisco, nunca tem o som de rr.

W: tem o som de u.

Y: tem o som de i.

S: tem o som normal, sendo que, caso tenha um ponto ou tracinho embaixo, terá o som da letra x.

P: tem o som de kp, que devem ser lidos juntos.

GB: deve ser pronunciada com as duas letras juntas.

A Estrutura Silábica da língua Yorubá consiste de qualquer vogal ou de uma consoante seguida de uma vogal. Como consequência do Yorubá ser uma lingua tonal, a mesma consoante combinada com uma vogal poderá formar diferentes palavras com tons, acentuações diferentes, comom por exemplo:

Ra: no tom médio significa raspar

Rá: no tom agudo ou alto significa rastejar

Rà: no tom grave significa comprar, amarrar.

Wá: no tom agudo significa procurar, vir, dirigir, dividir.

Wà: no tom grave significa ser, existir, haver.

Os pronomes pessoais antecedem todos os verbos Yorubá. isto quer dizer que devemos especificar o sujeito de todo verbo Yorubá para que se saiba quem fala, com quem se fala e de quem se fala.

Os verbos não se alteram na conjugação, eles são distinguídos pelos pronomes, e os tempos são conhecidos por marcas indicativas de tempo. vejamos alguns:
Ti: faz o tempo passado; também significa a palavra já, para enfatizar uma ação feita.

Kò máa dáwò lóní: Ele não cosntuma jogar hoje

O vocabulário Yorubá tem sido ampliado por meio de disversos procedimentos. Dentre as palavras criadas, muitas foram resultantes da utilização das partes do corpo humano, é utilizado para definir as coisas altas e destacadas; as mãos, as coisas que dão segurança, os pés, para uma firmeza, os olhos como a parte principal de alguma coisa, as nádegas, como a base do corpo. Deste modo, podemos relacionar algumas palavras:
Orí: cabeça
Òkè: montanha
Orí òkè: topo da montanha
Orí igi: topo da árvore
Ojú: olhos
Orùn: sol
Ojúorùn: disco solar
Bajé: estragado
Inú: estômago
Inúbàjé: aborrecido

A linguagem se utiliza bastante da técnica de figura da fala na construção de seu vocabulário.A extensão figurativa do uso da palavra para abranger outros significados é mais usada entre os Yorubás do que em muitos outros idiomas. Algumas frases, se não forem bem compreendidas, poderão sugerir outras interpretações, como vem ocorrendo na interpretação muitos cantigas na roda de candomblé.

O Yorubá raramente inventa uma palavra novamente. Procura combinar a semelhança do novo objeto já familiar. A composição é então formada para designar o novo objeto. O trem, o avião, o navio foram introduzidos na cultura na mesma classe dos meios de transporte. A palavra chave é Okò (colocar um ponto embaixo das letras O) Como foram designados:

Okò okun(mar)= navio

Okò irin(ferro)= trem

Okò òfurufú(ar)= avião

Aprender um idioma é o mesmo que aprender qualquer outra habilidade: exige prática. Há uma diferença entre compreender o significado de uma palavra e falar um idioma. É isso que vem acontecendo nos candomblés. Não é de hoje que se canta o que se ouve sem a menor preocupação de se entender o que canta, as variações dessas mesmas cantigas de uma casa para outra e muitas vezes sendo da mesma nação. A facilidade de como as pessoas criam e inventam palavras, aglutinando-as, colocando acentos e aportuguesando o Yorubá, como que quisessem reinventar o idioma que já sofreu com seus dialetos, fora a luta para manter o idioma Yorubá, pode ser corrigido através dos bons cursos de língua Yorubá, basta ter humildade e vontade de aprender o correto independente da idade de iniciação que tenha.

Fonte: Fernando D’Osogiyan

Pesquisa: ICAPRA-Instituto Cultural de apoio a Pesquisa às Tradições Afro.
Professor: José Beniste responsável pelo curso de Yorubá

Foto imagem da matéria: Ìwé Ìmọ̀ – Candomblé sem Segredos-Gill Sampaio

Ultimamente tenho estado bem eletrizada porque eu acabo ouvindo de tudo, vejo absurdo em um tanto de coisa e os assuntos mais “delicados” sempre afloram: valores morais, concepção de família, opção sexual, integridade…  Tudo isso envolvido em propostas políticas. O horário político obrigatório não é nenhum filme de Woody Allen, mas eu paro pra assistir quando estou de bom humor. É lá que eu ouço esse tudo que citei acima e acabo juntando com outras notícias, outros acontecimentos e outras conversas.

Talvez hoje o meu texto saia confuso, mas eu vou dar um jeito de escrever um pouco de tudo que eu tenho visto e que invariavelmente também reflete na nossa religião e na no exercício da cidadania.

O país se autodenomina um Estado laico onde há liberdade religiosa para todos. Até onde vai esta liberdade? Para católicos e evangélicos? Como eles mesmos dizem: “são maioria e não serão superados por uma minoria” (escutei numa marcha da qual falarei mais adiante). Até esta tal liberdade realmente ser estabelecida espíritas, umbandistas e candomblecistas serão amontoados sob o meus estereotipo pejorativo; “macumbeiros”. Mas isso é uma outra história…

Já que falei sobre política e crenças religiosas, falo-lhes logo de antemão a minha opinião contrária a essa relação totalmente desarmônica para a sociedade brasileira. Sou criticada por uma gama de religiosos pertencentes a todos os segmentos que defendem e apóiam as manifestações de opiniões totalmente embasadas em crenças religiosas de grupos para influenciar nos processos políticos direcionados – ou ao menos que deveriam ser direcionados – ao bem estar da sociedade. E a cada tempo e acontecimento que passam, fico ainda mais inclinada e firme na minha posição. Para mim, política e religião se discutem sim, mas a discussão para exatamente no momento em que a religião visa moldar de acordo com os seus conceitos e verdades uma política que se dirige a todos os cidadãos. Vale esclarecer que eu não sou contra religiosos na carreira política, sou contra crenças religiosas interferindo em discussões que não se relacionam a religiões.

“A Dilma é a favor do aborto!”. Essa afirmação causou um avassalador redemoinho no quadro eleitoral do país nas últimas eleições presidenciais (não fui pró-Dilma nas últimas eleições. Só pra esclarecer). Ok, a cidadã é a favor da descriminalização aborto, mas e o que isso influencia na capacidade de governo dela? Isso pode modificar a atenção que ela poderia dar à deficiente educação, ao caos no sistema de saúde, ou à violência estarrecedora que todos nós estamos passivos? Estes fatores sim devem ser discutidos em tempo eleitoral, pois são relacionados às propostas dos candidatos e a possíveis mudanças no quadro do exercício da nossa cidadania: a escolha do nosso representante máximo.

O caso da atual presidenta enquanto candidata em 2010 é o exemplo mais global que tenho, porém isso vive acontecendo nos cargos menores também, como todos sabemos. E este exemplo citado por mim serve para ilustrar a falta de autonomia, de laicidade e de verdadeira cidadania que acabam por tornar a nossa sociedade deficiente quando a questão é pensar no bem para todos e na igualdade enquanto humanos.

No fim não levamos muito em consideração a capacidade das pessoas e sim ou algum estigma ou atributo maldosamente estereotipado por alguém, ou a “cara bonita” que preza pelos “bons costumes e pela família”.

O brasileiro adora discutir valores quando lhe faltam argumentos e estes mesmos brasileiros, sendo católicos, evangélicos, candomblecistas, umbandistas ou kardecistas falam sobre o mantimento de uma família brasileira. Uma típica família brasileira constituída em sua base por um homem e uma mulher.

“Deus não criou o terceiro sexo” (palavras do senador Magno Malta na Marcha contra o PL 122 se referindo aos homossexuais). E qual é o primeiro? Não existe nem primeiro e nem segundo sexo, de onde surgiria este “terceiro”? É uma tal tendência ao radicalismo que faz toda discussão terminar sempre em exaltação e ofensas a pessoas.  O “terceiro sexo” ninguém sabe quem “criou” e nós sabemos que não existe! Há uma vasta distância entre sexo e gênero e a construção do “masculino” e do “feminino” pode ser uma construção social e não obrigatoriamente natural, pois não se é obrigado a ser o que os outros dizem que somos ou nascemos para ser.

Tempo desses, enquanto mudava de canal, vi uma tal marcha contra a PL 122 (a qual me referi) feita lá em Brasília, organizada por um grupo de evangélicos. Eu parei para assistir. Exercer sexualidade da forma que lhe dá prazer não define caráter, não define capacidade e não exime nem outorga direitos ou deveres a mais. Se eu não acho certo uma mulher ser demitida pelo simples fato de ser uma mulher e um homem idem pelo simples fato de ser homem, então essa ideia de ter de demitir um homem ou mulher por sua predisposição sexual  é ilógica, insustentável e fora de qualquer entendimento sobre igualdade e equidade em termos de cidadania. Mas existem os que pensam diferente e por pensarem diferente discriminam, segregam e matam. Isso mesmo, homofobia mata e a PL 122 surgiu pra isso, pra proteger um direito que já é inato: o direito de ir e vir sem que homossexuais sejam agredid@s no meio do caminho.

Muitos se vangloriam e reconhecem como elogio o tal “jeitinho brasileiro” – que em linhas gerais pode ser comparado aos termos ludibriar e tirar proveito de qualquer tipo de situação em benefício próprio.

Então vamos lá: temos uma população com muita moral; temos uma população que defende a ideia da família ter de ser constituída por um homem e uma mulher; o homem pode se embriagar que é visto com normalidade, a mulher se embriaga e é taxada de deselegante; a homossexualidade é uma anomalia e muitos pais prefeririam seus filhos criminosos a homossexuais; a família tem de ser bem constituída (leia-se o “bem constituída” como “formada por um homem e uma mulher”) pra dar exemplo à prole. Isso é bonito, isso é ter valores morais. Porém, furar fila, passar na frente dos outros, não devolver o troco que recebeu de forma equivocada são sinônimos de esperteza. Esperteza esta, passada nas casas dessa população altamente “moralista” que faz questão de manter a união entre o homem e a mulher, mas que, “por debaixo dos panos” trai, tem seus relacionamentos extraconjugais.

Oxe… É melhor esta demonstração de desrespeito dentro do casamento entre pessoas, do que ter de respeitar (e não apenas aceitar) homossexuais andando de mãos dadas nas ruas?

A nossa sociedade apresenta tanto antagonismo, tantos contrastes que entendê-la exige tempo e bastante reflexão.

Percebo uma grande massa que ver política como arma contra os que vão contra suas convenções religiosas e morais, e não como o ato de organização sadia de uma sociedade. Este rebanho por muitos e muito anos ainda será levado e persuadido por aqueles de português bem falado, concordância perfeita e exaltação de voz e gestos empolgantes por caminhos que, como de costume, o rebanho nunca sabe onde resultará, mas o segue.

Todo mundo prega o respeito, mas poucos o exercitam. Nesse período eleitoral, de forma escancarada ou implícita, isso me parece mais que claro: poucas ideias realmente eficientes e muita falácia.

Dayane

Maria Stella de Azevedo Santos

Conta-se que um histórico governante visitou uma importante prisão do país que estava sob seu comando. Curioso sobre o que tinha motivado aqueles prisioneiros a cometerem diferentes tipos de crime, o governante resolveu perguntar aos homens por que eles estavam naquela situação. Um dos criminosos argumentou que estava ali por ter caído em uma armadilha preparada por falsos amigos; outro disse que tinha sido injustamente preso devido a um erro da polícia; já o outro explicou que o juiz tinha cometido um imenso engano ao condená-lo.

O governante olhava para todos eles com um sorriso irônico no rosto, mas nada comentava. Resolveu indagar a um quarto homem sobre as razões para ele estar preso. Para surpresa do governador, esse último disse que foi preso por ter cometido um grave delito e por isto era justa sua prisão. Só nesse momento o governante se dispôs a tecer algum comentário. Ele disse para o administrador da prisão: “Tire logo este homem da prisão, pois senão ele vai contaminar os outros, que são uns pobres inocentes”. O prisioneiro que assumiu sua culpa foi o único que adquiriu a liberdade.

Raríssimas são as pessoas que têm por hábito assumir seus erros. A culpa é sempre do outro. Estou à frente do terreiro/templo Ilê Axé Opô Afonjá, como todos sabem, há muito tempo. Foram muitas expectativas, muitas realizações e, claro, muitas frustrações. Afinal, elas fazem parte da vida. Insisto em não desistir. Por isso, ainda me disponho a fazer reuniões, com filhos e irmãos espirituais, não só para organizar a comunidade da melhor forma possível, mas principalmente para sentir como está a evolução espiritual daqueles que foram confiados a mim por Olorum. É gratificante saber que, apesar de muito trabalho e desgaste, ainda existe nos seres humanos o desejo de continuar trabalhando no sentido de lapidar seus instintos, para que eles possam transformar-se em puras intenções e ações. É frustrante e tedioso, entretanto, perceber que uma característica inerente ao ser humano teima em não se purificar: a permanente atitude de não assumir suas falhas e, pior, gostar de apontar as dos outros. Esse instinto, quando purificado, dá lugar ao sentimento de responsabilidade. Quem não vivenciou as seguintes situações?

Uma mãe pergunta por que os irmãos estão brigando, um aponta para o outro e diz: “Ele me bateu!” Dois coleguinhas de escola vão fazer queixa para a professora e os dois falam ao mesmo tempo: “Foi ele quem começou, pró”. Quando esses comportamentos são infantis, menos mal. O problema é que eles, normalmente, mantêm-se vivos na idade adulta. É realmente um tédio, os anos se passarem, as gerações mudarem e o comportamento de culpar os outros permanecer inalterado.

O ato de “se confessar” sempre foi sagrado para os católicos. Dizer em voz alta os seus próprios erros é uma forma de ouvir suas falhas, poder arrepender-se e, assim, encontrar forças para modificar suas atitudes. A culpa dá, então, lugar à responsabilidade: uma palavra que pode ser definida como um comportamento através do qual se busca enxergar os próprios erros cometidos, para que eles possam ser consertados. Uma pessoa responsável é livre de culpas.

Hoje, dia 12 de setembro, é meu aniversário de iniciada. Completo 73 anos como sacerdotisa de Oxossi. É ao “meu” orixá que imploro que dê força e coragem aos seres humanos para que passem a assumir os seus erros, deixando de escondê-los na figura de outros. É a Oxossi – o caçador de uma flecha só – que peço que com sua única flecha, repleta de amor e compreensão, seja capaz de atingir o coração de muitos homens, para que estes transformem a culpa em responsabilidade; a fraqueza, em consciência; a punição, em piedade. É também a esse orixá provedor, dono de minha cabeça, meu eledá, que rogo que me abasteça de sabedoria para entender a fraqueza de muitos de meus filhos, que ainda não sabem ou não conseguem transformar o complexo em simples, isto é, assumir seus erros, ao invés de transferi-los para o outro. Seria esse o meu melhor presente de aniversário sacerdotal.

Maria Stella de Azevedo Santos é Iyalorixá do Ilê Axé Opô Afonjá. Seus artigos são publicados no jornal A TARDE, quinzenalmente, às quartas-feiras.

Fonte:http://mundoafro.atarde.uol.com.br

*Mãe Stella faz aniversário de iniciação religiosa no dia 12 de setembro. À ela nosso Mutunbá. Àse.

 

Um Lindo Itan sobre Yánsàn, a Mulher Búfalo.

Um dos insígnias mais representativos de Yánsàn são os chifres de búfalo, é comum vermos Oya dançando com esses chifres à tira colo (Oya Ni O To Iwo Efon Gbe – “Oya é a única que pode agarrar os chifres do Búfalo”). Eles também são usados para “evocar” a grande Deusa dos ventos, conforme ilustra-nos a história a seguir:

“Lutar e levantar o pó como o búfalo” foi quem jogou Ifá para o caçador. Eles disseram que ele deveria fazer um sacrifício para se casar. O Caçador sacrificou dois galos, duas galinhas, cerveja de milho, búzios e pães de inhame. O Caçador fez o sacrifício.
Um dia este Caçador foi para o campo, quando subiu para a sua plataforma de vigia, viu um Búfalo, mas quando tentou virar a sua arma para ele, o Búfalo transformou-se numa bela virgem vermelha (Oya – Yánsàn). Quando ela acabou de tirar o disfarce, o Caçador viu-a escondê-lo atrás de uma árvore. No entanto, Oya não observou que o Caçador a tinha visto.

Quando a mulher Búfalo foi embora, este Caçador deixou a sua vigia, e pegou o disfarce de Oya, colocando-o em sua bolsa, seguindo-a até o mercado. Quando chegaram lá, este aproximou-se dela, cumprimentou-a e disse a ela que tinha vindo ao mercado em busca dela. Este Búfalo que tinha se transformado em mulher respondeu: “alguma coisa de errado?” O Caçador respondeu que queria se casar com ela. A mulher Búfalo disse que não ia se casar com ninguém. Na terceira vez que o Caçador se aproximou com estas palavras, ela perguntou se ele tinha visto alguma coisa por trás dela. O Caçador respondeu que sim. A mulher Búfalo disse: “o que você viu por trás de mim”? Então o Caçador disse que ela deveria ir com ele para que ele pudesse dizer o que tinha visto por trás dela.

Quando saíram do mercado, o Caçador botou a mão no saco e retirou o disfarce mostrando para ela. Quando ela viu o disfarce, disse que ele deveria ter pena dela e que ela se casaria com ele. A mulher Búfalo voltou ao mercado, reuniu as mercadorias e saiu com o Caçador, mas enquanto estavam na estrada, ela disse que ele não deveria comentar nada daquilo com ninguém; e o Caçador afirmou que não diria nada. Assim, ela se tornou sua esposa e eles viveram juntos na casa dele.

Esta mulher começou a ter filhos, mas a esposa com quem o Caçador se casara primeiro, começou a importuná-lo, perguntando onde ele tinha encontrado a segunda esposa, pois ele não comentara o assunto. O Caçador disse que ela era filha das mulheres que vieram ao campo para comprar carne com ele. A resposta não satisfez a primeira esposa e ela começou a indagar se ela tinha vindo desta ou daquela cidade.

O Caçador respondeu que era de uma cidade diferente, mas ainda assim isto não satisfez à mulher. E ela começou a fazer perguntas. Enquanto perguntava, a mulher Búfalo teve o seu primeiro filho, e o segundo filho. A primeira esposa foi ao filho mais velho do Caçador e discutiu o assunto com ele. O filho mais velho pegou o pai e deu-lhe muito vinho de palma para beber. Quando o caçador bebeu, seu filho perguntou: “onde encontrou a sua esposa?” Ele respondeu que ela era um Búfalo, que ele a tinha visto retirando o disfarce no campo, e que ele tinha pego o disfarce e ido ao mercado com ela, que tinha mostrado a ela o disfarce e que daquele dia em diante, ela tinha sido sua esposa.

Quando o filho mais velho do Caçador chegou em casa, contou isto para sua mãe. Depois de um tempo, o Caçador se aprontou e foi para o campo, mas no segundo dia após a sua partida, sua primeira esposa pegou um pedaço de madeira e atirou-o ao chão para parti-lo (é um tabu jogar a madeira contra o chão desta maneira na casa de um caçador).

A mulher Búfalo perguntou se o marido delas não a teria avisado que ela não deveria quebrar a madeira desta forma na casa dele. Então a primeira respondeu com desdém: “cuide de sua vida e vá embora! você é um ser humano e um animal, o seu disfarce esta escondido no telhado.” Quando a mulher Búfalo ouviu isto, respondeu: “ha!” e ficou quieta. Aprontou-se e foi procurar no telhado. Quando chegou lá, encontrou o disfarce onde o Caçador o tinha escondido e o trouxe, mas ele estava muito ressecado, então, ela juntou um pouco de água e colocou o disfarce dentro.
Depois foi até a esposa mais velha, deu-lhe uma cabeçada e a matou. Feito isso, ela tirou um dos seus dois chifres e foi até o campo. Quando o Caçador a viu chegando, soube que um pedaço de madeira tinha sido quebrada em sua casa. Quando ela quis dar uma marrada no marido, ele disse que ela não deveria fazer aquilo com ele.

Então, ela perguntou ao Caçador, como a primeira esposa tinha sabido sobre o mistério dela. O Caçador contou como o filho mais velho o levara e lhe dera muito vinho de palma para beber, até ele não saber mais o que falava. Então ela disse: “Está bem.” Disse que não o mataria, mas que ele fosse para casa e que sempre que os filhos dela quisessem realizar seu festival anual, ele deveria sacrificar com eles para o chifre que ela tirara e tinha deixado em casa como uma lembrança.

Daquele tempo em diante, seus filhos continuaram a sacrificar para os chifres desta maneira, são o que chamamos e cumprimentamos como os “filhos do Búfalo” até hoje.

No Terreiro de Òsùmàrè, até hoje é entoada uma cantiga que alude a passagem supra narrada, na qual Yánsàn sobe no telhado em busca da sua roupa, que havia sido escondida pelo seu marido.

Que Òsùmàrè Arákà esteja sempre olhando e abençoando todos!!!
Ilé Òsùmàrè Aràká Àse Ògòdó
Texto: Casa do Òsùmàrè

Exu não pode?

FONTE: http://www.pallaseditora.com.br/novidade/Exu_nao_pode_/26/

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